4.2.1 Patriarcalismo e sexualidade no contexto cultural
O sexo não era concebido na China como uma atividade profana, pelo contrário, ele fazia parte da natureza humana, sendo tão necessário quanto se alimentar ou respirar. Isto posto, a sexualidade chinesa nunca sofreu uma repressão teológica, os chineses não avaliavam como negativo a sua prática. Isso não significava que fossem livres de preceitos morais. O ato sexual devia ser feito mediante o consentimento mútuo. Não havia também uma associação idealizada entre sexo e amor, podendo ser praticado apenas pela busca do prazer.
Porém, mesmo não possuindo interditos religiosos, o sexo era objeto de regulamentação. Essa regulamentação fica evidente no tratamento diferenciado em torno da liberdade sexual para homens e mulheres. O campo da sexualidade masculina lícita não se restringia ao quadro conjugal. A moral masculina aceitava
que o marido se satisfizesse não apenas com a esposa, ele poderia ter concubinas, manter amantes e freqüentar prostíbulos. Em contrapartida, para a mulher era erguida toda uma teia de interditos que visava garantir a virgindade desta quando solteira e a fidelidade após o matrimônio.
O concubinato reforçava a posição subalterna da mulher na sociedade e era um instituto que demonstrava as assimetrias dos comportamentos sexuais para os homens e para as mulheres. As concubinas eram tratadas como mera propriedade, sendo consideradas por eles como fonte de prazer sexual e instrumentos para aumentar as chances do patriarca ter um herdeiro do sexo masculino. O limite no número de concubinas era dado pela fortuna do homem, podendo este ser dono de quantas pudesse sustentar.
A prostituição era outro costume que reforçava a posição subalterna da mulher na sociedade. Durante o período republicano ela se expandiu vertiginosamente, deixando de ser um entretenimento cultivado pelas elites para se tornar efetivamente uma transação financeira. Até o final do século XIX a prostituição era uma atividade desempenhada por cortesãs. O elevado custo para freqüentar as casas das cortesãs era sinônimo de status social. Conforme a China sofria a influência do Ocidente, a exploração comercial do sexo tornou-se mais presente. Em cidades como Shanghai, o número de prostitutas era elevado.253
Mesmo com os protestos de movimentos moralistas, muitos deles associados a missionários cristãos, as práticas do concubinato e da prostituição permaneceram em franca proliferação. Os incentivos vinham da fragilidade das mulheres e a não condenação dos homens. Em todo caso tanto o concubinato quanto a prostituição não eram considerados crimes, haja vista que em ambos os casos havia o consentimento de ambas as partes da relação.
4.2.2 O estupro
253 HENRIOT, Christian. Prostitution and sexuality in Shanghai: a social history, 1849-1949. New York: Cambridge University Press, 2001.
O estupro era avaliado pelos chineses como uma forma de violência simbólica, pois carregava consigo uma agressão a toda a coletividade, sendo esta a unidade familiar e o grupo étnico. Nos dois casos era porque o estupro punha em risco a pureza da linhagem familiar. Essa percepção era conhecida pelas autoridades militares japonesas, pois um documento produzido pelo Alto comando japonês, datado de 1932, trazia as seguintes observações: “Os chineses valorizam em muito a honra, para preservar a aparência tratam suas esposas com respeito. Entre todos os atos imorais e violentos, os chineses avaliam o estupro ser o pior e consideram um problema social gravíssimo”.254
Para ter uma noção exata dos comentários contidos no documento é necessário compreender os valores chineses destinados para as mulheres, especificamente em relação ao comportamento sexual. Os quatro princípios ideais da cultura confucionista chinesa eram xiao (piedade filial), yi (justiça), zhong (lealdade) e jie (fidelidade). Atrelado a eles há o costume tipicamente chinês denominado meimianzi (perder a face). A noção de mianzi (face) tem relação com o prestígio conquistado perante os demais, assim “perder a face” pode ser considerada as ações e comportamentos que afetam a posição social e seu poder de influência dentro de uma rede de relacionamentos.
Quando analisados os valores/costumes chineses sobre o ângulo da sexualidade destacava-se a valorização da castidade feminina a partir das premissas da fidelidade. Ela se refere não apenas à pureza sexual, mas principalmente à fidelidade absoluta para o único marido. Em sua contra parte o marido durante os períodos imperial e nacionalista poderia possuir quantas concubinas pudesse sustentar, prática esta que reforçava a posição subalterna da mulher na sociedade. Ou seja, a posição de inferioridade social das mulheres era baseada em fatores materiais e simbólicos, porque as concubinas eram tratadas como propriedade do homem e podiam ser vendidas ou dadas como presentes.
Neste sistema cultural a mulher deveria considerar essa virtude um lie (dever- martírio), um compromisso e auto-sacrifício que somente terminaria com a morte ou o suicídio. Os costumes em torno do comportamento sexual através dos períodos
imperial e nacionalista chinês eram avaliados como meios de controle social e ideológico associando as relações pessoais com a ordem política.
A não observância dos valores confucionistas em relação à conduta sexual era chamado jian, no período imperial, e si, no período nacionalista. Sommer salienta que não há uma tradução equivalente para essas expressões na língua inglesa, sendo geralmente traduzidos como “ofensas sexuais”, todavia, o termo jian e si podem ser utilizados como substantivo, verbo transitivo e adjetivo. Assim a expressão deve ser analisada dentro do contexto da narrativa textual.
A associação das relações pessoais com a ordem política fica evidente quando se utiliza o termo jian para designar a desordem sexual como uma forma de desordem política. Por exemplo, jianfu significa “esposa adultera”, a tradução literal seria “esposa que trai o seu marido”, e jianchen significa “ministro traidor”. O termo si segue no mesmo raciocínio, tendo conotações tanto políticas quanto sexuais. Por exemplo, sitong pode ser traduzido como “contato ilícito”, tanto no sentido de “adultério” quanto “comunicação com um inimigo”. Noutras vezes o termo si parece conjugado com jian para enfatizar a conduta ilícita.255
Nas classes mais elevadas a fiscalização em torno da fidelidade feminina era feita pelos familiares e pelos servos, a mera suspeita era causa para que fosse assassinada em nome da honra masculina e familiar. Essa fiscalização fica clara quando Chang relembra o seguinte episódio.256
O estupro era uma modalidade específica de jian, chamado de qiang jian e literalmente significa “ato sexual ilícito coercitivo”. A coerção da mulher, todavia apenas diminuía sua parcela de culpa, mas não a eximia por completo, podendo o pai ou o marido daquela repudiá-la pela desonra que causara.257 Ou seja, a mulher era discriminada pela agressão que sofrera. Essa situação fica demonstrada quando John G. Magee relata que no dia 16 de janeiro de 1938 uma mulher que se refugiou no Colégio Ginling foi estuprada quando retornava para sua casa. Após o abuso ela
255 SOMMER, Matthew H. Sex, law, and society in late imperial China. Stanford: Stanford University Press, 2000. p. 30-2.
256 CHANG, Jung. Cisnes selvagens: três filhas da China. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 45.
se dirigiu para a Universidade de Nanking pedindo abrigo, pois estava envergonhada e não desejava encontrar suas antigas companheiras do colégio.258
Percebe-se, portanto, que o estupro não era um crime simplesmente por ser uma agressão contra uma mulher, mas, sim, porque era uma ameaça à linhagem familiar e a pureza étnica. Essa avaliação sobre o ato estava em sintonia com os valores tradicionais da cultura chinesa.