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O ideograma para designar “mulher” nos dá os primeiros indícios para a compreensão da representação social do gênero feminino e do status social do indivíduo do sexo feminino no contexto sociocultural chinês. Sinólogos se dividem quanto a origem de sua representação pictográfica. Um grupo considera que a imagem do ideograma representa uma mulher de seios grandes, tal como a imagem das Vênus pré-históricas. Um segundo grupo argumenta que imagem representa, na verdade, a imagem de uma pessoa de joelhos. Ambas as interpretações em torno do ideograma são especulativas, porém entre as correntes há um nexo de ligação, quando a primeira ratifica a ponderações da segunda ao reconhecer que o ideograma sofreu ao logo da trajetória histórica um processo de reinterpretação, fazendo com que o significado original sofresse modificações para remeter a idéia de atitude de submissão.236

Os preceitos misóginos em vigor na China republicana (1912-1949) foram adaptações dos valores e tradições que remontam ao período Qing (1644-1912). Durante esse período as políticas reformadoras implementadas por Sun Yat-sen pouco dedicaram as atenções para valorizar socialmente as mulheres.237 Dessas limitadas reformas, poucas foram efetivamente implementadas, tendo surtido efeitos apenas nas áreas urbanas e nas famílias da classe-média. Isso porque o movimento de contestação e reforma da posição social das mulheres na sociedade era

236 LEE, Pik Kuen Anne. 1994. 136 fls. Sexual violence against women in Hong Kong: socio- structural & cultural perspective. Dissertação (Mestrado em Sociologia) Departamento de Sociologia, University of Hong Kong, Hong Kong,1994, p. 93.

promovido por membros da elite intelectual chinesa pró-ocidental.238 López, sobre as limitações das reformas legais feitas durante o período republicano, comenta que:

Na China republicana (1912-1949) houve a tentativa de reduzir o impacto das influências do confucionismo na família. Aspectos tradicionais e modernizadores foram combinados no Código Civil de 1930 para criar uma nova estrutura social de acordo com as necessidades da emergente sociedade burguesa sem que abrisse mão da identidade própria da cultura Han. Manteve-se a autoridade masculina dentro da família (tradição), caracterizada pela fidelidade entre os cônjuges, o direito ao divórcio para ambos – sob custódia paterna – e a herança familiar das mulheres, mas em menor quantidade do que as partes correspondentes aos seus irmãos. Apesar deste reconhecimento, a dependência econômica das mulheres chinesas impedia que pusessem em prática as situações previstas na lei.239

Historicamente as mulheres eram vistas desde a dinastia Ming como inferiores aos homens e tinham posição subalterna na sociedade. Durante o período republicano elas não podiam ter propriedade e tinham direitos limitados à herança. No livro "Preceitos da Mulher" são ressaltados que desde tempos antigos era feito o seguinte rito: Após três dias do nascimento de uma filha, a recém nascida era deitada sob o leito e, junto a ela, era colocada uma telha de barro, enquanto se procedia aos sacrifícios de família. Bueno240 analisando os elementos que continham o rito salienta que deitá-la sob o leito se referia à condenação a uma vida inteira de sujeição; a telha, feita de barro, fazia remissão a vida de intenso trabalho em serviço de seu marido; e os sacrifícios simbolizavam o seu dever enquanto “instrumento de reprodução” para perpetuar a linhagem masculina.

Isto posto, as mulheres na China eram vítimas de preconceito desde o nascimento. Muitas meninas eram abandonadas ou mortas pelos pais, que esperavam por um herdeiro masculino. A preferência por filhos homens possui raízes nas práticas tradicionais e nos valores confucionistas. Neste sentido, Wolf salienta que:

O nascimento de uma menina sempre causou uma certa consternação na China. Ela não era um membro da linhagem paterna e não podia (exceto sob circunstâncias inusitadas) nem mesmo prover sua linhagem paterna com descendentes. Na época em que ela alcançava a idade suficiente para ter um mínimo de utilidade no trabalho, tinha que ser enviada como noiva para uma outra família. Dada a estreita fronteira entre sobrevivência e inanição dentro da qual muitos camponeses chineses vivem, o alto índice de infanticídios femininos na China tradicional não é de surpreender.241

238 LÓPES, Amelia Sáiz. Mujeres y gênero en la sociedad china contemporânea. In: Visions de la

Xina. Lleida: Institut d'Estudis Ilerdencs, 2009.

239 Ibid, p. 170-171.

240 BUENO, André. Os deveres femininos. s/d. Disponível em: < http://amulhernachina.blogspot.com

/2010/07/os-deveres-femininos.html> Acessado em: 10 de setembro de 2010.

241 WOLF, Margary. Mulheres chinesas: antigos costumes em novos contextos. In: ROSALDO, Michelle Zimbalist et al (Org.). A mulher, a cultura e a sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 164.

Esse tratamento diferenciado para os dois sexos, favorecendo os bebês do sexo masculino, fica demonstrado nas fontes consultadas, quando, por exemplo, John Rabe organizava pequenas celebrações para os filhos das refugiadas abrigadas no jardim de sua casa. Cada recém-nascido ganhava como presente US$ 10,00 se fosse menino e US$ 9,50 se fosse menina. Ele explicava essa diferenciação porque as “meninas na China não valem tanto quanto os meninos”.242

A sociedade chinesa nesses períodos era marcada por uma hierarquia extremamente severa, e essa estrutura quando associada às representações de gênero fazia com que a condição social da mulher fosse de submissão. As assimetrias de poder entre os gêneros masculino e feminino influenciavam na condição das mulheres, impondo-as uma situação de maior fragilidade social.

Os valores confucianos dominavam o comportamento social chinês, seus preceitos codificavam vários aspectos da vida diária. A conduta ideal da mulher segundo essa corrente filosófica fica ilustrada no seguinte parágrafo do manual “Preceitos da Mulher” quando salienta que:

Sê modesta e respeitadora; prefere os outros a ti própria; se tiveres praticado o bem, não o proclames; sofre com paciência o insulto e a crítica; receia sempre que possas praticar o mal; deita-te tarde e levanta-te cedo, não temendo a primeira aurora, que se vislumbre antes do nascer do Sol; sê industriosa e nunca recuses um labor, porque seja pesado ou difícil, nem desprezes outro, porque te pareça fácil; cultiva a perfeição em tudo o que faças e dispõe o que tenhas que ordenar metodicamente. Sê serena e modesta; procura dominar os teus instintos e serve teu marido.243

Outras restrições figuravam o impedimento das mulheres realizarem o culto aos ancestrais e de herdarem a linhagem familiar. O matrimonio rompia com a piedade filial da família original, pois cabia ao filho homem a responsabilidade de cuidar dos pais na velhice. Isso significava que a mulher quando casada deveria responsabilidades para com a família de seu cônjuge.244

Os efeitos do casamento não se resumiam à piedade filial e ao amparo na velhice. Depois do casamento todos os direitos de um trabalho da mulher e sua descendência pertenciam à família do marido. Sua família de origem tinha a obrigação de observar se ela não era maltratada, mas a menos que possuísse condições de arcar com os custos de um divórcio e sustentá-la após o rompimento

242 RABE, 2000, p. 213. 243 BUENO, s/d. 244 ALVES, 2007.

do enlace conjugal, a família biológica pouco podia fazer para demonstrar sua insatisfação diante ao tratamento dado à filha pela família do marido. Sobre o reconhecimento do parentesco e a linhagem familiar tradicionais Wolf diz que:

[...] uma vez casada, mantinha somente laços frágeis com o grupo doméstico no qual cresceu. O casamento dava a ela um lugar no grupo doméstico do marido, mas seu relacionamento com o grupo de origem dele era mais ambíguo. Ela não tinha lugar na linhagem genealógica a menos que desse filhos a esta, e o reconhecimento formal da sua contribuição para a linhagem só era feito após a sua morte. Sem filhos, o registro de sua existência era limitado a uma placa no jazigo familiar e um eventual anonimato.245

A cultura chinesa é carregada de regra e ritos e convenções sociais. Muitas delas dizem respeito às mulheres, à forma como elas deveriam agir e ao que lhes era proibido.246 A proibição de realizar alguns ritos trazia consigo uma enorme carga de violência simbólica. Isso porque a observância dos ritos era avaliada como positivo. Alves, ao comentar as ponderações feitas pelos filósofos confucianos Meng Zi e Xun Zi, ressalta que:

Para Mêncio os ritos nada mais eram que o reflexo de um coração bom e puro que o homem possui já à nascença. Eles regulam do exterior, no meio social; mas são simultaneamente o reflexo de grande bondade interior, quem é bom, tem maneiras; quem se deixou degradar não é capaz de ser respeitador e cerimonioso. [...] Já o mesmo não se passa com Xunzi para quem a natureza humana é naturalmente má, ou seja, selvagem e egoísta. Para este filósofo os ritos são absolutamente necessários. Funcionam como princípios racionais, reguladores e organizadores da conduta humana. Eles separam os seres humanos, dando a cada um o seu lugar na ordem social e familiar. Sem os ritos, o homem estaria sempre à beira do abismo. Nada o diferenciaria dos animais e da natureza mais brutas, mas os ritos impõem distâncias e cerimônias, coíbem comportamentos instintivos e violentos [...]247

Desta feita as mulheres ao serem proibidas de realizarem alguns ritos tanto confirmava sua posição subalterna na sociedade e no seio doméstico quanto reforçava o imaginário coletivo que impunha ao sexo feminino sua condição inatamente inferior ao homem.248

O rito do matrimônio não buscava unir duas pessoas que se amavam uma vez que seu objetivo era assegurar a transmissão dos bens e do status social à descendência, uma condição/posição ao menos similar da que se beneficiavam os ancestrais. Significa dizer, portanto, que o matrimonio visava de um lado ceder as

245 WOLF, 1979, p. 165. 246 ALVES, 2007.

247 ALVES, Ana Cristina. Os ritos chineses. Revista Macau, n. 14. s/d. Disponível em: <http://www.re vistamacau.com/rm.asp?id=014083> Acessado em: 27 de agosto de 2010.

248 ALLISON, E. Robert (Org.). Understanding the chinese mind: the philosophical Roots. Hong Kong: Oxford University Press, 1989.

jovens, negociando da melhor maneira possível o seu poder de procriação e as vantagens que elas poderiam legar à prole e, do outro, casar os rapazes com mulheres que trouxessem benefícios à família destes.

As mulheres que pertencessem à família das elites poderiam ocupar três níveis hierárquicos. As de status mais elevado eram as esposas legítimas. Porém, mesmo tendo que cumprirem os deveres de piedade filial à família do marido, abandonando as ligações familiares com sua família biológica, eram condenadas a serem consideradas estrangeiras na família que havia ingressado. Sua única finalidade era preencher sua função primordial: gerar filhos homens ao grupo familiar que as acolhia. Apesar de possuírem um status mais elevado, as esposas legítimas eram tratadas como propriedade do marido, tendo sobre elas poder de vida e morte. Em meio a essa situação de desamparo as mulheres só possuíam somente dois recursos para se defenderem. O primeiro era a sua família biológica, mas essa estava limitada as condicionantes econômicas. O segundo meio de defesa consistia nela própria.249

No nível intermediário estavam as concubinas. Essas mulheres viviam na mesma casa da família e deviam obediência à esposa legítima, o seu status era apenas ligeiramente superior ao de uma empregada doméstica. Na base estavam as filhas e as servas. Estas igualmente como as concubinas estavam submetidas de forma absoluta pela autoridade paterna. Os pais tinham o direito de vendê-las, dá-las ou deserdá-las se assim desejassem e os únicos protestos que elas poderiam fazer seria apelar para a caridade e para a Lei do carma.250

As mães, esposas, concubinas e filhas dos homens abastados viviam em verdadeiros guetos. Elas mantinham uma convivência restrita e vigiada com as mulheres não aparentadas das autoridades masculinas. Eram vedadas as mesmas de atuarem na esfera pública, estando submetidas a todos os responsáveis homens pelo destino familiar, isto é, todos os homens que possuíam algum direito sobre o patrimônio.251 Nas famílias camponesas, por sua vez, não praticavam a segregação das mulheres. Dada a estreita fronteira entre sobrevivência e inanição dentro da qual

249 WOLF, 1979. 250 ALVES, 2007. 251 Ibid.

muitos camponeses chineses viviam tanto os homens quanto as mulheres trabalhavam nos campos.252

Percebe-se, portanto, que o pai era um autocrata supremo, ele tinha o controle total sobre o patrimônio familiar e os direitos exclusivos de pleitear na esfera pública. Cabia também ao patriarca negociar as transações que resultariam nos casamentos arranjados de seus filhos. A perda do vigor físico de um idoso era contrabalançada pelos preceitos confucianos que remetiam a ele a sabedoria do ancião. Assim, enquanto permanecesse em perfeitas condições mentais, o patriarca tinha o aval para exercer o domínio da vida familiar. A investidura desse poder era particularmente sentida pelas mulheres, pois a destituição dos seus direitos sobre os bens e recursos levava-as a uma condição de fragilidade e debilidades sociais que intensificavam a sua submissão.