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O casamento é uma prática social-chave para a compreensão do trabalho reprodutivo, do comportamento sexual e da transmissão do patrimônio, pois o processo de regulamentação da linhagem familiar tinha seu início com o casamento. Assim essa prática social era tratada como um assunto demasiado importante, devendo, então, os filhos deixarem a cargo dos pais as decisões. O costume japonês no período pré-moderno avaliava o casamento arranjado como uma boa forma para se firmarem alianças e estabelecerem bons casamentos. Esse imaginário persistiu durante o período moderno, adaptando-se às suas especificidades. Ainda assim, o eixo fundacional que permaneceu fixo, foram as questões de ordem financeira relacionadas ao nome familiar.206

O processo de apresentação dos possíveis candidatos, por vezes desconhecidos entre si, para o matrimônio era denominado miai e começava com a ação de um intermediário chamado nakôdo. Essa pessoa assumia o compromisso de procurar um candidato, fazer os primeiros contatos e descrever as qualidades dos interessados. No primeiro encontro formal os candidatos eram acompanhados de seus respectivos pais ou lideranças familiares. O primeiro encontro era também um compromisso do nakodô e realizava-se normalmente em locais públicos, tais como os ochaya (casas de chá). Com a modernização novos locais eram escolhidos para a realização desta cerimônia, como hotéis e restaurantes ao estilo ocidental.

Somente após o encontro formal é que as famílias iniciavam diretamente as negociações para a realização do matrimônio. Em paralelo às ações do nakôdo, era comum que ambas as famílias envolvidas no miai fizessem suas próprias investigações e averiguassem se as informações trazidas pelo intermediário eram fidedignas. As principais preocupações eram o status familiar, a vida pregressa e a saúde físico-mental dos candidatos e de sua família. As doenças mentais “eugenistas” também se tornaram uma preocupação durante o período moderno, servindo de motivo suficiente para influenciar os líderes masculinos de uma família a decidirem pela não realização de um casamento economicamente vantajoso, mesmo naquela família que estivesse em decadência econômica, mas mantivesse o status social, pois o nome familiar era o “bem” mais valorizado.

Via de regra, a união dos nubentes fazia com que a esposa ingressasse na família de seu marido. As mulheres, ao serem registradas no koseki (livro de registros familiares), perdiam o sobrenome familiar de origem e o controle sobre todas as propriedades que trouxessem consigo. Desta feita, o matrimônio estabelecia uma relação especial entre a jovem esposa e os familiares de seu marido, exigindo que ela servisse seus sogros com irrestrita devoção. A demonstração desse compromisso idealizado requeria da esposa recém-ingressante na nova família a constante atenção aos seus deveres e à etiqueta.

Havia ainda duas outras modalidades de que não condiziam com a regra geral:

nyûfu e o muko yôshi. Em ambos os casos ocorria o ingresso do marido na família

da esposa, fazendo-o perder seu sobrenome de origem ao adotar o dela. Porém cada qual tinha suas especificidades. O primeiro caso era quando o marido homem

se casava com a mulher chefe de família. O segundo quando se ligava em matrimônio com a filha do patriarca, eleita para legar o patrimônio familiar e compensar, assim, a ausência de um filho-homem para perpetuar a linhagem. O homem, então, era destituído dos seus direitos para com sua família biológica em favor da herança da família que o tinha adotado.207

A ideia proeminente para a realização do casamento, durante o período pré- moderno, não era o amor, mas, sim, uma forma de assegurar a produção de um herdeiro para dar continuidade à linhagem familiar. No matrimônio, em regra geral, a jovem esposa era um instrumento de procriação, ao invés de uma pessoa.208 O interesse maior das autoridades familiares e dos preceitos sociais associados ao casamento não era o bem-estar dos nubentes, mas, sim, os benefícios que ele traria para a família: preservar o sobrenome e dar-lhe prosperidade.209 Ou seja, os casamentos eram conveniências sociais e políticas, uniões que, na maioria das vezes, não envolviam nenhuma ligação afetiva entre os noivos.210

No Japão pré-moderno e moderno não havia a ideia do casamento como uma união indissolúvel e sagrada. Não era um compromisso feito perante uma entidade espiritual suprema. Assim, a prática do divórcio não encontrava barreiras teológicas. Os preceitos confucianos aceitavam que o marido se divorciasse ou repudiasse a esposa com relativa facilidade. Os principais motivos elencados eram aqueles que versavam sobre a ameaça à linhagem familiar, abarcando desde a infertilidade da mulher até o adultério feminino. Havia outras razões que justificavam a dissolução conjugal. Elas versavam principalmente sobre a preservação da harmonia familiar, mas, como a maioria dos pedidos era em benefício do marido em detrimento da esposa, essa harmonia pendia a favor do domínio masculino.

No manual confucionista Onna Daigaku enumeravam-se as sete razões que justificavam o direito do marido em repudiar a esposa. Eram elas: desobedecer aos sogros, não ser capaz de conceber um filho, ser lasciva, ser invejosa, ser portadora

207 FUESS, Harald. Divorce in Japan: family, gender and the state, 1600-2000. Stanford: Stanford University Press, 2004.

208 GRIFFIS, William Eliot. The religions of Japan from the dawn of history to the era of meiji: Shinto, Buddhism and Confucianism. New York: Harris, 1896.

209 HAUSHOFER, Karl. Japan und die japaner: eine landes-und volkskunde. Berlim: Verlag und Druck von B.G. Teubner, 1933.

de letra ou de qualquer outra “doença da alma”, falar demais e ter vício ou praticar roubos.211

Percebe-se então que na maioria das vezes a causa do divórcio recaia sobre as mulheres ou sobre as representações em torno do feminino, pois eram esses vícios que punham em risco o equilíbrio da família. O direito ao divórcio fazia perpetuar a ideia da mulher como instrumento de procriação, que devia ser descartada caso esta possuísse algum vício. O principal problema era decorrente da própria reprodução, fosse ele o fracasso em conceber um filho-homem ou o fato de ser adúltera, pois em ambos os casos poria em risco a linhagem familiar. No primeiro caso, pela falta de um herdeiro masculino para legar o patrimônio e o sobrenome familiar, no segundo por colocar em dúvida a paternidade da criança. Os preceitos confucianos sobre o adultério e sobre o divórcio, em vigor no período pré-moderno foram ratificados pelo ordenamento jurídico moderno com poucas alterações.

A criação era uma prática em que prevalecia o masculino sobre o feminino. Isso não significava que cabia aos homens educar os filhos. Durante o período pré-moderno o ponto crucial eram os preceitos confucianos salientando que as mulheres, por confiarem mais nos instintos/emoções do que na razão, faziam de si próprias seres incompetentes. Assim, a esposa deveriam submeter-se aos comandos do marido e demais autoridades familiares masculinas na criação dos filhos.

No período moderno, o novo modelo feminino idealizado difundido pelos aparelhos ideológicos de Estado era o ryôsai kenbo shugi (doutrina das boas esposas e sábias mães). Seus conteúdos discursivos estabeleciam uma igualdade diferenciada: tanto os homens quanto as mulheres eram responsáveis pela educação dos filhos. Entretanto, os direitos decorrentes desse dever eram diferenciados. As mulheres permaneceram submetidas ao domínio masculino, não podendo firmar contratos, comprar ou vender o patrimônio familiar sem o consentimento do marido. O Código Civil, promulgado em 1898 e em vigor até 1945, classificava a mulher casada como

monôryoku (pessoa legalmente incapaz), colocando-a no rol de pessoas como

deficientes mentais, deficientes físicos (cegos, surdos e mudos), pródigos e menores de idade. Essa condição não se dava por determinações biológicas, mas por

211 KAIBARA, Apud BARY, Theodore de et al (Org.). Sources of japanese tradition. New York: Columbia University Press, 2005. p. 263.

condições sociais. Ume Keijiro apontava na época que a razão “[...] não era porque a mulher como mulher era legalmente incompetente [...] A mulher solteira e a viúva nas suas capacidades jurídicas não eram diferentes dos homens, a esposa como esposa é que é legalmente incompetente”.212

Durante todo o período moderno até a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, as mulheres foram incentivadas a gerar filhos, fator considerado como a contribuição mais valiosa para a nação, pois a nova geração significava o futuro para o progresso do país, fosse ela como mão de obra para o setor industrial e comercial em contínua expansão, ou para integrar as forças armadas que gradativamente se ampliavam. Nesse período, o número médio de filhos por casal era de cinco.213 Ser mãe, esposa e dona de casa era considerado o destino natural das mulheres. A ideologia patriarcal em vigor no período moderno estabelecia a maternidade, o casamento e a dedicação ao lar como partes da essência feminina. Nota-se assim que as desigualdades de gênero relacionadas com a reprodução apregoadas pelo confucionismo do período pré-moderno permaneceram em vigor com certas adaptabilidades, acomodando-se entre o moderno e o tradicional. O ideal difundido pela ryôsai kenbo shugi pouco mudou o destino social das mulheres, mesmo ao abrir-lhe a possibilidade de frequentarem as escolas e de ingressarem no mercado de trabalho, embora em alguns setores elas fossem maioria no corpo operário.