Para compreender os efeitos organizacionais de metas e PRP numa organização pública, foi escolhida a abordagem de estudos de mecanismos, discutida nos trabalhos de Astbury e Leeuw (2010) e Hedstrom e Ylikoski (2010).
Um grande e crescente interesse pela literatura de “mecanismos” tem surgido nas ciências sociais na última década (HEDSTROM e YLIKOSKI, 2010). O propósito é compreender a
“caixa-preta” que faz os programas funcionarem, conectando a lógica contexto-mecanismos- efeitos, para entender como os efeitos são, de fato, produzidos.
Astbury e Leeuw (2010) argumentam que o conceito de mecanismos só foi apresentado e discutido de forma detalhada, enquanto instrumento de avaliação de programas, em 1997 com o livro Realistic Evaluation26 de Pawson e Tilley. Um aspecto central desse debate é que não é suficiente dizer simplesmente que programas são a causa de determinados efeitos – os mecanismos que conectam causas a efeitos precisam também ser identificados. Os programas só têm sucesso na medida em que eles introduzem ideias e oportunidades apropriadas (mecanismos) para grupos em ambientes culturais e sociais adequados.
Weiss (1997) reforça este argumento e chama a atenção para a necessidade de focar na resposta dos participantes às ações do programa. O mecanismo de mudança não é o programa em si, mas as repostas que as atividades do programa geram nas pessoas.
Assim, é importante diferenciar o conceito de mecanismos das atividades de um programa governamental. Weiss (1997) nos ajuda a esclarecer essa diferença:
[...] se o aconselhamento familiar contraceptivo é associado com a redução da gravidez, a causa da mudança pode parecer ser o aconselhamento. Mas o mecanismo não é o aconselhamento; o aconselhamento é a ação do programa, é o processo do programa. O mecanismo em si poderia ser a informação, o conhecimento que os participantes adquirem com o aconselhamento. Esse mecanismo poderia operar de diversas maneiras: a) a existência do aconselhamento pode ajudar a superar tabus culturais que sejam contra o planejamento familiar; b) ele pode auxiliar a mulher a ganhar confiança e a ser mais assertiva nas relações sexuais; c) ele pode levar a uma mudança na relação de poder entre homem e mulher. Essas ou diversas outras respostas cognitivas, sociais, afetivas poderiam ser mecanismos que levam ao resultado ou efeito desejado. (WEISS, 1997, p. 46).
Outra questão importante a ser esclarecida é a relação entre mecanismos e variáveis explicativas. Mecanismos são vistos, algumas vezes, como variáveis causais independentes, ou seja, o X, na fórmula X ⇒ Y. Outras vezes, mecanismos são entendidos como variáveis que intervêm de forma a explicar uma correlação estatística entre uma variável independente e uma dependente, neste caso, o mecanismo seria o Z, na fórmula X ⇒ Z ⇒Y. Mas estes raciocínios não diferenciam, de forma adequada, a ideia de mecanismos teóricos, da ideia de uma explicação baseada em variáveis estatísticas. Distintamente da ideia de variáveis
estatísticas, mecanismos são usualmente atributos não observáveis numa unidade de análise. Mecanismos buscam, na verdade, explicar porque variáveis estão correlacionadas (ASTBURY e LEEUW, 2010, p. 367).
A relevância dos mecanismos não é limitada a explicação. Especialmente em contextos não experimentais, mecanismos tem um papel crucial para diferenciar relações causais verdadeiras das relações causais espúrias (HEDSTROM e YLIKOSKI, 2010).
Mecanismos podem ser conceituados como “processos e estruturas ocultas que operam em contextos particulares para gerar efeitos de interesse” (ASTBURY e LEEUW, 2010). Para os autores existem três aspectos centrais no conceito de mecanismos:
a) mecanismos estão usualmente ocultos – não basta analisar um conjunto observações de forma sistemática ao longo do tempo. É impossível compreender o funcionamento de um relógio apenas examinando sua superfície, olhando o movimento dos ponteiros. É necessário ir além e examinar com profundidade a engrenagem e como seus componentes se relacionam.
b) mecanismos são sensíveis a variações de contexto – mecanismos não devem ser vistos como “leis gerais” que se aplicam sempre e em qualquer lugar. Esse é um dos motivos pelos quais mecanismos são vistos como teorias de médio alcance, tais como as propostas por Robert Merton. A pólvora, por exemplo, tem “um poder causal” de explodir caso existam um conjunto de condições adequadas, tais como a presença de oxigênio, baixa humidade e uma faísca. A ativação do mecanismo de explosão da pólvora depende dessas condições.
c) mecanismos geram efeitos – estes efeitos não são apenas aqueles evidentes e observáveis. A análise dos mesmos exige a compreensão da relação entre mecanismos e contextos.
Para Hedstrom e Ylikoski (2010) existem quatro aspectos centrais no conceito de mecanismos:
a) o mecanismo é identificado pelo tipo de efeito que ele produz; b) o mecanismo é uma noção causal irredutível;
c) o mecanismo tem uma estrutura que se evidencia quando se abre a “caixa-preta”;
d) o mecanismo forma uma hierarquia. Enquanto um mecanismo num nível assume como dado a existência de outros processos com determinadas características, espera-se que existam outros mecanismos que expliquem estes outros processos.
A análise de mecanismos não deve apenas evidenciar elementos de contexto que “ligam o interruptor” do mecanismo e o fazem agir. Ela também deve evidenciar os possíveis fatores que devem estar ausentes para permitir que o efeito aconteça (HEDSTROM e YLIKOSKI, 2010).
Do ponto de vista da explicação baseada em mecanismos, as entidades básicas que explicam os fenômenos são os agentes humanos e suas relações. Hedstrom e Ylikoski (2010) explicam o funcionamento interno da perspectiva dos mecanismos (Figura 7).
Figura 7– Funcionamento da perspectiva de mecanismos. Fonte: HEDSTROM e YLIKOSKI, 2010.
O ponto básico dessa perspectiva é que as explicações que simplesmente relatam as propriedades macro (seta 4) são insuficientes. Essas explicações não especificam os mecanismos através dos quais as propriedades macro se relacionam umas com as outras. Uma explicação mais aprofundada requer a abertura da “caixa-preta”, indo além da análise da relação no nível macro. Essa explicação:
- requer a identificação de mecanismos situacionais por meio dos quais as estruturas sociais constranjam ações individuais, e cujos ambientes culturais modelem seus desejos e crenças (seta 1);
- requer a descrição dos mecanismos de ação-formação vinculando estes desejos e crenças às ações do indivíduo (seta 2); e
- requer a especificação dos mecanismos de transformação através dos quais indivíduos, por meio de suas ações e interações, venham a gerar efeitos sociais de forma intencional e não intencional (seta 3).
Para que a observação no nível macro faça sentido, é necessário compreender toda a cadeia de mecanismos situacionais, de ação-formação e de transformação.
E, para isso, não existe uma metodologia estanque, procedimentos rígidos ou modelos lógicos a serem preenchidos. Esse tipo de análise envolve “um constante intercambio entre teoria e dados empíricos, usando simultaneamente raciocínio indutivo e dedutivo” (HEDSTROM e YLIKOSKI, 2010, p. 374).
Geralmente, os pesquisadores não encontram apenas um mecanismo. Encontram uma série de sistemas “contexto-mecanismo-efeito”, ou seja, várias teorias de médio alcance que explicam a dinâmica do caso estudado.
Uma forma de especificar os tipos de mecanismos que afetam um programa é classificá-los como moderadores ou mediadores. Variáveis de moderação e mediação são, ambas, um terceiro agente que afeta a relação entre uma variável independente e uma variável dependente.
Weiss (1997) explica que a variável de moderação é uma característica, tal como gênero ou frequência de exposição, ou seja, subcategorias que têm diferentes associações com o efeito analisado. Meninas fazem melhor que meninos, ou aqueles que frequentam o programa mais vezes por semana tem melhor desempenho do que aqueles que faltam muito. Por outro lado, a variável de mediação representa o mecanismo generativo através do qual o variável independente foco é capaz de influenciar a variável dependente de interesse.
Dessa forma, o moderador ajuda a explicar quais características de pessoas e situações têm a relação mais forte com o efeito estudado, ao passo que mediadores explicam como o processo funciona.
Esse raciocínio, baseado na perspectiva de mecanismos, foi utilizado para abrir a “caixa- preta” de interações organizacionais decorrentes da implementação do programa de remuneração variável por desempenho nas organizações de Segurança Pública do Estado de Minas Gerais.
O capítulo 6 se utilizará dessa lógica para propor uma matriz analítica de efeitos organizacionais e mecanismos associados a meta e remuneração variável em organizações públicas.