Cacique ou Mestre- Uma das principais qualidades requeridas a quem aspirar a ser mestre de Tribo Indígena Carnavalesca é a de sobressair na dança, já que, ele que costuma representar o cacique, líder do grupo, é o único índio que dança do começo até o fim, serve de modelo aos outros componentes, além de exibir a dança mais virtuosística no combate final. Contudo, o mestre tem que saber desempenhar todas as funções da Tribo: idealização e organização da dança, desempenho e construção de instrumentos, declamação e criação de loas, uso dos apitos, realização da fantasia, etc.
Para mestrar não precisa só saber dançar não. Tem de ter os ritmos das danças para botar. Se você vai botar uma dança fora do ritmo, o povo vai acompanhar a senhora, vai dançar fora do ritmo também!(Mestre André- Bideca, entrevista concedida em 5/7/12)
Espécie de regente da brincadeira indica, com a ajuda do apito, as manobras ao grupo, as entradas e os finais à orquestra. Movimenta-se dançando de um extremo a outro, supervisando tudo e, chegado o momento, declama as loas e resolve o enredo, levando à morte o guerreiro inimigo.
O mestre, à imagem dos caciques indígenas, tem que ter um vasto conhecimento e experiência do universo que comanda. “O mestre é aquele que ensina aquele que educa”, “É um professor”, responderam os membros dos grupos, quando foram interrogados sobre esta figura. Nos depoimentos dos mestres entrevistados, encontramos que antes de ostentar esta função, passaram um tempo desempenhando cada um dos papéis da Tribo em grupos diversos. Geralmente tem, ainda, certa relação de poder na religião da Jurema86.
Contramestre- Tem, para todos os efeitos, função idêntica ao mestre, só que imediatamente inferior na hierarquia de poder. Durante a performance do grupo, a tarefa é a mesma, desdobrando muitas vezes as funções entre eles e trabalhando cooperativamente. No grupo pesquisado, o contramestre, por ser mais jovem que o líder, desempenha as partes que requerem maior esforço físico.
Por outro lado, a figura do contramestre é um treino para o aspirante a mestre.
Balizas- São encarregados de abrir o caminho para a Tribo. Avançam na frente do grupo, segurando lança e escudo. Esta visibilidade destacada exige uma forte preparação física, nível alto de desempenho da dança e resistência devido, também, a que ao longo da função virarão guerreiros.
Comissão de frente- Grupo formado majoritariamente por mulheres, que realiza uma coreografia trabalhada e que pretende, igualmente, uma visibilidade destacada. Portanto, procura-se integrantes com aptidões para a dança.
Matadores e Guerreiros- Os matadores, apesar de que alguns deles podem ser muito jovens, requerem certo envolvimento com a brincadeira devido à exigência em ter destreza na “morte” e resistência acima do nível médio, já que um matador só pode “morrer” depois de um tempo de “matança”. É requisito saber desempenhar os passos mais complexos, aqueles realizados durante a dança da morte, giros e outros movimentos virtuosísticos. Segundo as informações obtidas, na Tribo Tupynambás, apesar das reticências de alguns, em 2012 uma mulher ocupou este papel pela primeira vez.
86 No capítulo terceiro estudarei a função do mestre na transmissão da música do Índio. Quando analisar a
figura particular do Mestre da Tribo Tupynambás, veremos outras características gerais da figura do mestre na cultura popular da região estudada.
Guerreiro é denominado aquele que luta no final, inimigo da Tribo. Este ocupa o nível mais alto dentre o grupo dos matadores e é necessária, consequentemente, a excelência na dança e na “morte”.
Espiões- Responsáveis de carregar os capacetes, de maior ou menor tamanho, frequentemente são homens fortes, com grande resistência física, habilidade na dança e envolvimento de vários anos no carnaval das Tribos. Dançam com os braços estendidos para segurar os cocares gigantes e em círculos para exibir, o máximo possível, a arte que carregam. No capítulo sobre a transmissão dos saberes examinarei o processo de aprendizagem destas figuras cuja função teatral é a de espionar os inimigos.
O esqueleto dos capacetes é feito de ferro, e a cobertura de papelão. Dependendo do tamanho desejado, colocam uma, duas, ou três “faixas” na estrutura. Como já disse, o lado visível é recoberto de bolas de natal, penas, purpurina e outros materiais brilhantes criando desenhos originais com as cores do grupo. Podem atingir mais de três metros de altura armados no portador, por outros três de largura e pesar mais de vinte quilogramas.
Fiscais- São, geralmente, mulheres adultas que participam de Tribo de Índio há muito tempo. Conhecedoras das regras, dos deveres e das obrigações da brincadeira, participam no desfile do carnaval vigiando os dançarinos, principalmente os mais novos, para evitar que estes cometam faltas como, por exemplo, segurar a tanga ou o cocar caindo, pegar alguma coisa do chão, ou se levantar durante a morte.
Porta- bandeira- Na Tribo pesquisada, este papel, como aqueles cuja função é principalmente estética, é ocupado há vários anos por uma mulher. Como o objetivo principal é exibir o máximo possível o estandarte que com esmero foi ideado pelo mestre, é requisito um bom domínio da dança, sem ser preciso virtuosismo. Desde que é uma função com importante carga simbólica, costuma ser desempenhado por algum membro próximo, parentalmente, ao mestre.
Feiticeiro- Do feiticeiro é requerido um envolvimento com a religião da Jurema Sagrada, já que este papel é encarregado de preparar o fumo que, no enredo dramático, ressuscita a Tribo, composto utilizado no ritual comemorado nos terreiros deste culto.