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O instrumento melódico das Tribos Indígenas Carnavalescas é um tipo de flauta vertical, aqui chamada de gaita, feita tradicionalmente de madeira de taboca, com quatro buracos e uns 30 cm de longitude (FIGURA 33) 87.

FIGURA 33: Gaita de taboca.

Na Tribo Tupynambás é o próprio gaiteiro que faz as gaitas para ele e para os iniciantes. Só ele, o veterano gaiteiro de nome Jurandir, possui uma gaita de madeira de taboca, dado que é difícil a obtenção deste tipo de madeira. É por isso que a maioria hoje é feita de alumínio ou de PVC, materiais de fácil aquisição. A diferença de sonoridade entre umas e outras é notória. A taboca, além de produzir um timbre mais doce, precisa de menos esforço, por parte do soprador, para tirar som.

Segundo Jurandir, o que dá a afinação à gaita é a cera de abelha, massa que funciona como embocadura. Esta é colocada com os dedos na extremidade da embocadura e moldada, logo depois, com uma pequena palheta que o gaiteiro tenta levar sempre consigo (FIGURA 33).

Para comprovar a afinação, Jurandir sopra pela embocadura com uma força produzida com ajuda do abdômen, produzindo um som agudo, claro e forte. “Até estourar os ouvidos. O cabra tem de ficar tonto”, explica Jurandir. A gaita recém afinada, ou seja, cuja cera tem sido recentemente colocada, costuma ficar úmida e mole, o que pode dar problema, adverte o gaiteiro.

87 A instrumentação das Tribos Indígenas do Carnaval de João Pessoa remete a uma sonoridade similar à que

apresenta a música tradicional das etnias indígenas que, na atualidade, habitam no litoral norte (potiguaras) e sul (tabajaras) da capital paraibana. Como já disse em nota anterior, os próprios membros das Tribos explicam que se inspiram nos indígenas das terras vizinhas para realizar a brincadeira. Eu mesma pude comprovar, em apresentações de Potiguaras e Tabajaras, estas similitudes.

Os gaiteiros das Tribos de Carnaval utilizam, usualmente, os dedos indicador e médio da mão esquerda para os dois primeiros buracos, contando de cima para baixo, e os mesmos dedos da mão direita para os buracos seguintes, apoiando a gaita nos polegares. "Para tocar a gaita só precisa dos dedos e da língua", explicam. A posição da língua é representada por meio da onomatopéia "txu-txu", forma que ajuda a produzir os harmônicos necessários para obter o característico “som do índio” (FIGURA 34).

FIGURA 34: Gaiteiro Jurandir.

A gaita é, segundo os membros da Tribo, o coração da orquestra de Índio. Dizem, por exemplo: “O toque da gaita é refinado, é aquele chorinho que dá a vontade de dançar” 88.

Os bombos, tambores de cordas ou zabumbas, todos eles nomes com que ouvi designar tal instrumento no universo das Tribos, é outro dos instrumentos que conformam o batuque da "orquestra do Índio". São os próprios integrantes dos grupos que, geralmente, os constroem89 (FIGURA 35).

88 No próximo tópico, explico o que significa “chorinho” entre os índios de carnaval.

89Vale lembrar que no nordeste quase todos os brincantes fabricam seus próprios instrumentos, como, por

FIGURA 35: Perfil do bombo deitado.

A parte central do tambor, hoje é de zinco e a pessoa a compra num depósito, mede e faz essa peça do bojo. Faz muito tempo, tem quem fazia de madeira de macaíba. Ela tem um som que é o dobro disso aqui, mas pesa muito. O debrum é um fecho" (Jurandir, Outubro de 2012).

Na descrição da construção deste instrumento, o gaiteiro foi me indicando o que cada peça é. A “peneira” é a estrutura de madeira que fica por cima do zinco, nos extremos do tronco da zabumba, segurando a pele.

Esta madeira é jenipapo bravo. Corta ela comprida, fina desse jeito. Bota dentro da água e deixa passar uns dois dias, até ficar mole. Quando amolece pode fechar. A gente chama de peneira. Pega na mata e verga ele. O cipó pega no mato também, enrola e faz um arco. O cipó segura o couro. É couro de bode, e bota também na água para fazer a peneira. Quando fica mole, dá uma raspagem nela todinha para tirar o pelo. Esse tipo de pele não bota sal; normalmente bota para não dar bicho, mas nessa não bota para não cortar (Jurandir, Diário de Campo, 29/9/12).

Em algumas Tribos, uma parte da zabumba é feita com pele de fêmea e a outra com pele de macho. “Um lado é pele de bode e a outra, pele de cabra" (Mestre Teixeira, Diário de Campo, 5/7/11) 90.

As cordas servem para tensionar ou afrouxar as membranas ou, nas palavras do gaiteiro, "as cordas são para dar amarração nela, para dar a afinação” (Jurandir, Diário de Campo, 29/9/12).

No contexto das Tribos, para tocar a zabumba são usadas duas baquetas que recebem os nomes de marreta e bacalhau. De modo geral, a mão direita segura a marreta, baqueta mais

90 Não deu para indagar no porquê deste fato, mencionado espontaneamente pelo Mestre Teixeira na única

grossa. Em ocasiões, um cabo de vassoura serve para fazer uma marreta. Nas imagens abaixo aparece Jurandir convertendo, em pouco mais de cinco minutos, um cabo de vassoura em baqueta de zabumba (FIGURA 36).

FIGURA 36: Jurandir construindo uma marreta.

Entre os dedos polegar e indicador da mão esquerda, o zabumbeiro sustenta o bacalhau, varinha ou galho fino. A função do bacalhau é de “dar a tonalidade”, “o toque especial”, dizem os músicos das Tribos. Mão e pulso ficam relaxados e apoiados na parte superior do tambor, questão enfatizada por quem me mostrou como tocar (FIGURA 17).

FIGURA 37: Jurandir tocando a zabumba.

Na representação que fiz do “toque do índio” na partitura91, o bacalhau é representado

pelas notas agudas e a marreta pela linha de baixo. Todavia, dependendo do tipo de batida da marreta grossa, esta produz dois tipos de sons que identifico como Abafado (A) e Solto (O), usando como critério o tipo de percussão no couro: a primeira segura a pele e abafa o som, a outra deixa a pele vibrar mais. O som solto é mais grave.

O ganzá é um cilindro como de latão de uns 40 cm. de longitude e uns 8 cm. de diâmetro, cheio de bolinhas de chumbo, de aço ou de sementes. Instrumento de chocalho, é

91 Na parte que vem a seguir este ponto, incluo uma representação em grafia ocidental tradicional destes

toques. A intenção destas partituras não é de registrar a música da Tribo, porém de ilustrar ao leitor as relações, entre o som e outros elementos da manifestação, que analiso.

tocado segurando cada um dos extremos por cada mão transversalmente à altura do peito e sacudindo-o ao ritmo do batuque (FIGURA 38).

FIGURA 38: Granpola tocando ganzá em um ensaio da Tupynambás.

Por último, a respeito do triângulo dizem que é “a coisa mais fácil de fazer porque qualquer ferro serve; é só maçar para dar a forma dele. Mas, às vezes os cabras preferem comprar já pronto" (FIGURA 39) (Jurandir, 17/11/2012).

FIGURA 39: integrante da Tribo Tupynambás tocando triângulo.