COMPARATIVE ANALYSIS IN THE TRANSPORTATION SECTOR
1. KAVRAMSAL ÇERÇEVE Sistem Teorisi
1.3. Kurum İçi İletişim
“Chorinho”, como mencionado anteriormente, chama-se o toque melodioso constitutivo da música das Tribos Carnavalescas. Este é composto por vários motivos curtos que o gaiteiro pega de outras fontes, sejam outros gaiteiros ou outras músicas. A brevidade dos motivos contraposta à magnitude da encenação dançada leva aos gaiteiros a alongar o toque, sempre diferente em função da representação, da orquestra, do ânimo do gaiteiro e de outros muitos fatores. "O ‘chorinho do índio’ é curto, mas a gente dá um jeito para ele ficar maior", diz Jurandir. Estas dilatações dos motivos se fazem por meio de improvisações que surgem instintivamente do tocador. Digo instintivamente porque, como veremos no capítulo sobre a aprendizagem dos instrumentos, os gaiteiros acompanhados mostraram dificuldade em repetir um motivo de maneira idêntica, devido a que a variação da repetição faz parte do processo de aprendizagem e de criação do toque, que é praticamente o mesmo. Nas linhas que seguem trago as narrações de Jurandir como resposta à minha procura por entender como é criado seu toque de gaita que se encontra, como constatado, em constante transformação. As explicações deste giram em torno de duas questões principais: Há uma ordem preestabelecida fixa (na sequência dos toques)? E: que faz para enlaçar um toque com o outro? Estas questões vieram a partir da minha experiência como discípula de gaita do mestre gaiteiro, na qual ele me mostrava um toque de cada vez. Estes toques costumavam ser motivos breves que, na sua transmissão101sempre apresentavam algum detalhe diferente, ornamentação ou mutação.
Diário de Campo, 26 de Maio de 2012:
Quando pergunto para Jurandir o que é que ele faz para enlaçar um toque com o outro, ele fica bloqueado, sem saber responder. Eu pergunto se emenda sempre da mesma maneira um toque com o outro. Ele duvida102.
Espontaneamente, conta que às vezes um toque puxa o outro sem que seja preciso dar rodeios: ‘Às vezes vai entrando facilmente, dum para outro, mas outras vezes o cara precisa de dar uma improvisadazinha’. Mais do que explicar com palavras, Jurandir prefere tocar (FIGURA 41).
101 Ver capítulo sobre Transmissão. Jurandir declara que ele “não ensina”, mas “transmite”.
102 Parte desta confusão está no último dos três vídeos do dia 26 de maio de 2012 onde, já sem saber que dizer,
FIGURA 41: Partitura do toque de Jurandir onde explica como enlaça entre um toque e outro103.
Na transcrição do toque de gaita anterior temos os nove primeiros compassos predominados por um motivo, apresentado nos dois primeiros compassos (início anacrústico) e com variações nos compassos seguintes. No compasso número onze, o motivo é outro, é o chorinho que Jurandir costuma usar para iniciar o “toque do índio”. A seguir, no compasso doze introduz o toque que usa para a dança da morte. Jurandir explica que aqui ele começou improvisando para depois entrar em um toque. "Dei uma improvisadazinha e, já, entrei em outro toque. É porque você está tocando e vai passar por toques, não é? Ai, quando se lembra de um toque, dá uma improvisada, o toque vem e você... [gesto com a mão como dizendo ‘vai’]".
Logo a continuação, Jurandir mostra outro exemplo de toque, uma variação do toque B que copio a continuação e que ele enlaça com o toque inicial. "Esse toque que toquei agora, ele dá uma condição para você entrar em outros toques, sabia disso?" E repete o toque para, desta vez, enlaçar ele com outro toque. "Este já é outro toque; conectado com o anterior, mas já é outro toque” (FIGURA 42).
FIGURA 42: Partitura do toque que o gaiteiro usa para enlaçar e acelerar o tempo.
No compasso número onze, Jurandir adverte que entrou um novo motivo. A partir do analisado, observo que este toque, raiz do primeiro dos chorinhos (compasso número vinte e um segundo a partitura), é usado muitas vezes como enlace. O toque que o segue é usado pelo gaiteiro dos Tupynambás para a “dança da morte”.
A música leva, em todos estes, a batida do “toque do Índio”. O tempo, na hora da dança da morte está bastante acelerado, em relação ao início. Jurandir chama a atenção sobre esta questão com frequência "Você sabe. Começa naquele compassozinho lento que vai aumentando, vai acelerando". O gaiteiro diz que tem toques que ele usa para “instigar” o ritmo da orquestra.
Em um momento determinado, pedi para Jurandir relembrar a procedência de cada uma das melodias. Ele ficou pensativo no início. Eu continuei dizendo "porque tem algumas que você disse que tinha aprendido do mestre Inácio104, de Seu Biu,..." Ele, então, afirmou. “Esse de aqui foi Inácio quem me ensinou” (FIGURA 43):
FIGURA 43: Partitura do toque que Jurandir aprendeu de Seu Inácio.
104 Revisamos, anteriormente, a história das Tribos de Índio de Mandacaru para a qual esta conversa contribuiu
bastante. Lembremos que Seu Inácio foi mestre da Tribo Tupynambás na época em que Jurandir estava começando a tocar a gaita.
Jurandir explica, em repetidas ocasiões, que a maioria desses toques “vem de lá atrás” e não hesita em repetir que não são invenção dele, que os escutou de outros gaiteiros tocando. E, quando pergunto se foram eles que inventaram, Jurandir, nega: "Acredito que não, Marta. Eles vêm de lá, lá atrás".
FIGURA 44: Partitura do toque aprendido de Seu Inácio, em processo de aprendizagem.
"Esse pedaço aqui faz parte desse toque. Foi Inácio que me ensinou, mas eu ainda não pratiquei o suficiente. Ele fica no final, bem bonitinho” (FIGURA 44) (Jurandir, Diário de Campo, 26/5/12). "Que eu aprendi só foi esse aqui" Toca o fragmento que copio a seguir (FIGURA 45).
FIGURA 45: Partitura do toque aprendido de Seu Biu.
"Eu aprendi, digo só, porque eu fui praticando, né? Mas esse toque já estava na minha cabeça porque eu já tinha visto outra pessoa tocar." Essa pessoa era outro gaiteiro, Seu Biu.
Posteriormente, inquiri Jurandir sobre a ordem em que toca os motivos na Tribo. Inicialmente, Jurandir disse que não há uma ordem, que “vai mudando”. No entanto, pouco tempo depois, explicou:
Jurandir: Sim, praticamente ela tem uma ordem. Para quem está tocando tem aquela ordem. Mas tem uns que fazem tudo bagunçado, toca um aqui, outro lá atrás...
Eu: Então, você sim tem uma ordem?
Jurandir: Tem. Eu procuro botar o meu bem... [faz um gesto com a mão, como classificando algo]. Eu começo por aqui [e toca] (FIGURA 46).
FIGURA 46: Partitura do toque usado por Jurandir no começo da performance.
"Outra coisa também. Pronto; eu estou nesse toque lento, né? Aí, pra dar uma velocidadezinha mais, eu já puxo outro toque mais rápido. Esse toque aqui ele tem...". E toca este de cima seguido de aquele “que tem condição de enlace”, do modo que trato de ilustrar a seguir (FIGURA 47):
FIGURA 47: Exemplo do uso do toque de enlace e aceleração.
FIGURA 48: Nos dois compassos iniciais, “toque de afinação” de Jurandir.
O toque de gaita de Jurandir começa por uma descida em quartas e terças que ele chama de “toque de afinação” (FIGURA 48) (FAIXA 004- DVD ÁUDIO). “Esse toque é para dar uma esquentada, Marta. Eu gosto de tocar para não entrar em frio”. Outros gaiteiros do bairro fazem piada por Jurandir mostrar este toque, que não é do Índio e que, portanto, “não serve”, dizem. Contudo, este é o primeiro toque que ensina. Mais adiante veremos por que.