Davis (2006:71;76) em seu livro “Planeta favela”, discute as influências dos planos neo-liberais impostos por organismos internacionais, como FMI e Banco Mundial, aos governos do Terceiro Mundo, impondo aos mesmos o que Sevcenko (2007:52) denominou de “submissão incondicional ao neocolonialismo”95. Ao questionar as imposições contidas nos Planos de Ajuste
95 Duas instituições se tornaram instrumentos decisivos neste processo pelo qual o neoliberalismo
impõe aos países do Terceiro Mundo uma submissão incondicional ao neocolonialismo. Esses órgãos são o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos criados em 1944 com uma dupla finalidade assistencial: financiar a reconstrução dos países arrasados pela Guerra e apoiar as nações em processo de desenvolvimento ou recém emancipadas da condição colonial. Os países capitalistas europeus e o Japão foram de fato generosamente ajudados. Mas, para os demais, o apoio foi se tornando uma ladeira sem fim, afundando-os cada vez mais em níveis sufocantes de endividamento. Essa situação chegou a um clímax entre o final dos anos 70 e a primeira metade dos 80, quando, com a crise do petróleo – que multiplicou mais de cinco vezes o preço dos combustíveis e forçou altas sem precedentes no valor do dólar e dos juros a serem pagos -, as economias dos países subdesenvolvidos foram fortemente abaladas, mergulhando em crises infracionárias ou se contorcendo em espirais de hiperinflação. Quando recorreram ao FMI e ao BM em busca de socorro urgente, o que receberam, em vez do alívio ao endividamento, foi um grosso pacote de medidas de “reajuste estrutural”: cerca de 115 condições ‘sine qua non’ para a ajuda financeira. Esse receituário impunha medidas, como a desregulamentação da economia, e das finanças, a derrubada das barreiras alfandegárias e comerciais, a drástica redução dos gastos públicos e serviços sociais, a privatização das empresas estatais e a eliminação de garantias e direitos trabalhistas, inclusive com o enfraquecimento dos sindicatos, de modo a permitir
Estrutural (PAES) às nações endividadas (décadas de 70 e 80), as quais deveriam reforçar seu “papel minimalista” na oferta de moradias populares e redução generalizada dos programas governamentais, o autor situa o “fenecimento do Estado de bem-estar social”, a ser sucedido pelas práticas da chamada “boa governança”.
Neste sentido, Davis (2006:79-80) apresenta uma breve periodização que mostra a mudança do enfoque da atuação do Estado, e de modo mais aprofundado, como se altera a sua própria natureza. O exemplo dado se refere à questão habitacional, mas repercute em todos os âmbitos de atuação do Estado, caracterizando-se como uma mudança estrutural. Neste sentido, os governos se aproximam cada vez mais de doadores internacionais e ONG´s para se tornarem um Estado “capacitador” dos pobres.
Davis (2006:167) ressalta ainda que o documento “Política urbana e desenvolvimento econômico: uma pauta para a década de 1990”, de autoria do Banco Mundial, define o papel do Estado no contexto neo-liberal como um “simples capacitador do mercado”96.
Arantes (2004) em seu artigo “Esquerda e Direita no espelho das ONG´s” 97, explica que as reformas do Estado em nada visam reduzir seu papel coercitivo e garantidor do sucesso dos negócios privados. Porém, o Estado não teria mais o papel de um provedor, mas de um “parceiro facilitador e regulador”, ou melhor, um Estado indutor-normativo-regulador-facilitador do mercado. Por sua vez, as demandas sociais aprofundadas pelo crescimento das “populações descartáveis” que resultam da reestruturação produtiva, legitimam “o lugar de um Terceiro Setor gerencialmente enxuto”. Justamente frente à crise de legitimidade de um Estado que tem sucateada sua capacidade em oferecer serviços públicos essenciais: aqui o lugar de um Terceiro Setor gerencialmente enxuto. Um Estado parceiro-facilitador deve “estrategicamente” se retirar assim que organizações não- governamentais “demonstrarem” a superioridade de suas vantagens comparativas –
demissões em massa e tornar o mercado de mão-de-obra mais barato, mais dócil e mais flexível. Já era o receituário do neoliberalismo se difundindo por todo o mundo. (Sevcenko, 2007:52-53)
96 O Banco Mundial, de sua parte, aplaudiu o desaparecimento do papel do Estado local em
“Urban Policy and Economic Development: an Agenda for the 1990s [Política urbana e desenvolvimento econômico: uma pauta para a década de 1990], documento que reconceituou o setor público como simples “capacitador” do mercado. “Com foco central na revalorização dos mecanismos de mercado,(...) as políticas urbanas sólidas são definidas hoje como aquelas que visam eliminar as barreiras que restringiam a produtividade dos agentes econômicos urbanos, formais e informais, de modo a maximizar a sua contribuição à economia nacional”96. (Davis, 2006:167)
convenhamos, uma vitória sem muito esforço, já que não havia mais em campo com quem competir, salvo a sucata preparada para tal efeito demonstrativo. (Arantes,
2004:170-171)
Maria da Glória Cohn, em seu livro “Teoria dos Movimentos Sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos”, de 1997, explica duas tendências que se fortaleceram no cenário social brasileiro nos anos 90, numa relação direta com a temática dos movimentos sociais: o crescimento das ONGs e as políticas de parcerias implementadas pelo poder público, particularmente no âmbito do poder local. Para a autora, trata-se de um processo de desregulamentação do papel do Estado, com transferência de suas responsabilidades para as “comunidades”, sob intermediação das ONG’s, viabilizada pelas parcerias entre as esferas pública, pública não-estatal (o Terceiro Setor) e também com a iniciativa privada. (Cohn, 2004:309-310). A autora explica a natureza e a função da denominada esfera pública não-governamental, campo de atuação das ONG no contexto do Estado em reforma: (...) Essa nova concepção [de sociedade civil] construiu uma visão ampliada da relação Estado-sociedade, que reconhece como legítima a existência de um campo ocupado por uma série de instituições situadas entre o mercado e o Estado, exercendo o papel de mediação entre coletivos de indivíduos organizados e as instituições do sistema governamental. (...) No Brasil, esse papel passou a ser desempenhado pelas ONGs, que fazem a mediação entre aqueles coletivos organizados e o sistema de poder governamental, como também entre grupos privados e instituições governamentais. (...) Isso resultou na construção de uma nova esfera, ou subesfera, entre o público e o privado, que é o público não-estatal, e no surgimento de uma ponte de articulação entre estas duas esferas, dada pelas políticas de parceria. (Cohn, 2004:301)
Cohn (2004) discute ainda a proeminência adquirida pelas ONG’s na gestão dos recursos públicos, em detrimento das instituições do Estado. A autora argumenta que temas como “a fome” ou “a miséria no mundo” passam a ser objetos de diagnósticos das políticas públicas, pois se caracterizam como problemas para a continuidade do próprio capitalismo. Com muita perspicácia, Cohn (2004: 296) identifica que o atual padrão de desenvolvimento – aqui entendido como o contexto das políticas neo-liberais – legitima a exclusão como forma de integração, ou ainda, como exclusão integradora, segundo um modelo perverso de gestão da crise, que recupera a legitimidade política e cria condições para um novo ciclo de crescimento econômico com a redefinição dos atores sociais e políticos. Digno de nota, também é a explicação que Cohn (2004:297) nos oferece para a transmutação dos movimentos sociais que perdem sua força
mobilizadora num contexto em que as chamadas políticas integradoras reconhecem apenas organizações institucionalizadas. Daí a força adquirida pelas ONG’s, em detrimento dos movimentos sociais tradicionais, junto às políticas de parceria formadas com o poder público.
Como procuramos demonstrar nas passagens anteriores, o Terceiro Setor se tornou parte constitutiva das políticas neo-liberais, aqui analisadas sobretudo em termos das reformas do Estado (em relação ao atendimento das demandas sociais) e da reestruturação produtiva, com destaque para as políticas públicas de “geração de trabalho e renda”, comumente arquitetadas sob o modelo das PPP’s.