Greimas e Courtés (1979) escrevem que se pode identificar o conceito de “discurso” com o do processo semiótico e considerar como pertencente à teoria do discurso a totalidade dos fatos semióticos (relações, unidades, operações etc) situados no eixo sintagmático da linguagem, ou seja, quando alguém se refere à existência de duas macrossemióticas – o mundo “verbal” presente sob a forma de línguas naturais, e o “mundo natural”, fonte de semióticas não-lingüísticas -, o processo semiótico aparece como um conjunto de práticas discursivas: práticas lingüísticas (comportamentos verbais) e não-lingüísticas (comportamentos somáticos significantes, manifestados pelas ordens sensoriais), Se se levarem em consideração só as práticas lingüísticas, ter-se-á que o discurso é o objeto do saber visado pela lingüística discursiva.
Nesse sentido, é o sinônimo de texto: de fato, certas línguas européias, por não possuírem equivalente para a palavra franco-inglesa “discurso”, foram levadas a substituí-la por “texto” e a falar de “Lingüística Textual”. Os autores também explicam que “por extrapolação e a título de hipótese que parece fecunda”, os termos ‘discurso’ e ‘texto’ têm sido empregados para designar igualmente processos semióticos não-
lingüísticos (um ritual, um filme, um desenho animado são, então, considerados como discursos ou textos) já que o emprego desses termos postula a existência de uma organização sintagmática subjacente a esse gênero de manifestação” (1979:120).
Ainda sobre o discurso, Greimas e Courtés prosseguem dizendo que de um ponto de vista um pouco diferente – mas não contraditório em relação ao já exposto-, o discurso pode ser identificado com o “enunciado”(=aquilo que é enunciado), isto é, a maneira pela qual é mais ou menos concebido esse enunciado determina duas atitudes teóricas e dois tipos de análises diferentes. Para a Lingüística Frasal, a unidade de base do enunciado é a frase: o discurso será, então, considerado como resultado (ou operação) da concatenação de frase. Já para a Lingüística Discursiva, a unidade é o discurso visto como um todo de significação: as frases serão então consideradas segmentos (ou partes explodidas) do discurso enunciado – o que, evidentemente, não impede que o discurso possa, por vezes, em decorrência de uma condensação, ter as dimensões de uma frase, por exemplo. Os autores também afirmam que, se de início considera-se que o enunciado- discurso forma uma totalidade, então os procedimentos a serem postos em prática devem ser dedutivos – e não intuitivos – e consistir uma análise do conjunto discursivo em suas partes componentes.
Greimas e Courtés escrevem sobre a teoria da “massa folhada”, segundo a qual a teoria semiótica é levada a conceber o discurso como um dispositivo constituído de certo número de níveis de profundidade superpostos, dos quais somente o último, o mais superficial, poderá receber uma representação semântica comparável, grosso modo, às estruturas lingüísticas “profundas” (na perspectiva chomskyana): assim, a gramática frasal aparecerá como prolongamento da gramática do discurso. O fato de o termo “discurso” tender progressivamente a identificar-se com
o de processo semiótico e mesmo a designar, metonimicamente, esta ou aquela semiótica em seu conjunto (como sistema e processo) coloca novamente o problema da definição de semiótica (como objeto de conhecimento e objeto construído pela descrição).
Os autores afirmam a necessidade de se considerar, com efeito, que a origem da reflexão semiótica está ligada à lingüística, pois que a língua natural é não somente definida como uma semiótica (ou linguagem), mas é considerada, explícita ou implicitamente, como um modelo segundo o qual as outras semióticas podem e devem ser concebidas. A língua natural, semanticamente ligada à cultura, é um grande domínio, uma macrossemiótica que só pode ser comparada a uma outra que tem as mesmas dimensões, a do mundo natural significante; as outras semióticas devem, então, ser consideradas como minissemióticas, situadas ou construídas no interior dos universos dessas macrossemióticas.
De acordo com os autores, “nessa nova acepção, o termo ‘discurso’ continua ambíguo. Um domínio semiótico pode ser denominado discurso (discurso literário ou filosófico, por exemplo) em razão de sua conotação social, relativa ao contexto cultural dado (um texto medieval sagrado é considerado por nós como literário, dirá J. Lotman), independente e anteriormente à sua análise sintáxica ou semântica. A tipologia dos discursos, suscetível de ser elaborada nessa perspectiva, será, então, conotativa, própria de uma área cultural geográfica e historicamente circunscrita, sem nenhuma relação com o estatuto semiótico desses discursos (...)” (1979:128).
Prosseguindo em suas considerações, Greimas e Courtés (1979:128) também afirmam que, quanto à instância da enunciação que serve de lugar à geração do discurso, “pode-se dizer que a formado discurso produzido depende da dupla seleção que é aí operada. Se se
consideram as estruturas semio-narrativas como repertório das formas suscetíveis de serem enunciadas, a enunciação é chamada a selecionar nesse repertório aquelas formas de que tem necessidade para ‘discorrer’: desse modo, a escolha entre a dimensão pragmática ou a cognitiva do discurso projetado, a opção feita entre as formas que convêm ao discurso de construção do sujeito e as que são exigidas pelo discurso de construção do objeto determinam de antemão o tipo de discurso que será enfim manifestado.
Por outro lado, a conexão pelos mecanismos de debreagem e de embreagem, que definem a enunciação como atividade de produção, só pode ser considerada como uma operação seletiva que escolhe, no interior da combinatória das unidades discursivas que esse mecanismo está em condições de produzir, estas ou aquelas unidades preferenciais e/ou este ou aquele arranjo preferencial de unidades. Em ambos os casos, quer se trate da competência sêmio-narrativa, quer da competência discursiva propriamente dita, a produção de um discurso aparece como uma seleção contínua dos possíveis, a qual abre caminho através das redes de coerções (1979:130).