A manutenção do poder político até a década de 30 do século XX nas mãos dos Vieira de Resende, de certa forma, delimitava o papel de mito fundador entre Guido Marliére e Coronel Vieira, que a reboque trazia a figura do pai, Major Vieira. O poder político da família Vieira de Resende era reflexo de uma herança oligárquica, e como extensão, tanto suportava os latifúndios da família como era amparado pelo poder econômico que os mesmos geravam.
Todavia, a centralidade dos latifúndios na economia da região se reduziu profundamente já no início do século XX, se deteriorando por completo com a crise do café nos fins dos anos 20. Concomitante à crise na produção cafeeira, em Cataguases fazia-se notar o crescimento da atividade industrial têxtil, deflagrando o que posteriormente se denominou vocação industrial
da cidade. A atividade industrial na cidade tem seu início com a chegada de Manuel Inácio
Peixoto, imigrante português que acumulou capital após o trabalho na estrada de ferro em Sorocaba-SP e que se estabeleceu como comerciante em Cataguases, transformando-se posteriormente num rico industrial. Embora haja registros de uma fábrica de tecidos já em 1906, a investida de Manuel Inácio Peixoto, em 1909, é considerada o marco da industrialização na cidade, principalmente por ter sido impulsionada pela criação da Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina em 1908, então geradora e fornecedora de energia elétrica (RESENDE, 1969), cuja proposta de instalação surge em 190644.
44 Jornal O Cataguazes, [o mal estado de conservação não permitiu identificar o dia da publicação] fevereiro de 1906.
133 Não apenas a centralidade econômica se apresentava em transição, mas também o controle político da cidade. É no ‘encontro’ das famílias Vieira de Resende (representada por Pedro Dutra) e Peixoto que se deflagra uma nova faceta da disputa pela fundação de Cataguases. Entretanto, trata-se, neste momento não da fundação institucional, mas de uma cidade que se pretende nova, guiada pela transição entre a cidade agrária e a cidade industrial, alinhada com a ideia de progresso que pairava sobre o Brasil pós-revolução de 30.
Almeida (2004) ressalta que o operariado foi o centro de diversos entraves e embates na referida disputa, particularmente, nas décadas de 30 e 40. Os Dutra, descendentes dos Vieira de Resende típica família política45, oportunamente voltavam suas propostas políticas às denúncias contra a degradação das condições de trabalho vigentes. Historicamente, a cidade vivenciava a consolidação da transição da atividade agrícola para a industrial, tornando interessante tais propostas. De acordo com Almeida (2004), as condições de trabalho nas indústrias da época eram precárias, sobretudo no que diz respeito ao emprego de crianças de 14 e 15 anos, remuneradas com 50% do ordenado vigente, uma vez que poderiam trabalhar,
no máximo, 8 horas por dia. Quanto aos movimentos sindicais, a autora ressalta que foram
encontrados indícios de atividades a partir de 1944, com o desconto do imposto em folha salarial. Embora constituído, sua atuação era clandestina e as ameaças de demissão aos sindicalistas constantes, sendo reconhecido oficialmente apenas em 1950.
Do outro lado da disputa, os Peixoto, industriais que se denominavam progressistas e desenvolvedores de Cataguases, tiveram como proposta instaurar uma cidade de vanguarda no campo das artes modernistas (ALMEIDA, 2004). Enquanto a proposta política dos Dutra visava o fortalecimento sindical na cidade – ou como descreve Almeida (2004), a organização de uma Liga Operária em prol do aumento salarial e melhoria nas condições de trabalho – os Peixoto contra-argumentavam sinalizando o cumprimento das obrigações e o exercício da função social das empresas ao fornecerem ‘emprego, remuneração e ajuda nas dificuldades’. Neste sentido, os Peixoto deixam claro que a atividade produtiva industrial já trazia na geração de emprego sua contrapartida para com a cidade. Sentimento este que reverbera o discurso de muitos ex-funcionários da empresa, manifestando sentimento de gratidão à ‘oportunidade’ concedida pelos industriais.
45 A recorrência da “família política” nos municípios mineiros é um exemplo da constatação de Cid Rebelo Horta em seu estudo sobre as Famílias Governamentais Mineiras. De acordo com Horta, a história política de Minas é a história das grandes famílias (ALMEIDA, 2004).
134 A disputa pelo legado desta nova Cataguases transcende o referido instante em que Peixotos e descendentes dos Vieira de Resende se enfrentam na política, de forma que a alcunha de fundador da Cataguases novecentista os levassem a uma aproximação da figura de Guido Marlière. Esta rememoração da figura do Guido se dá a partir de 195846, quando Pedro Dutra decide homenagear com uma estátua o fundador do povoado do qual a cidade se origininou (ALMEIDA, 2004). A inauguração da estátua contou com a presença de Dutra e outras autoridades, todas reunidas na Praça Santa Rita, local onde nasceu a cidade a partir do traçado desenhado pelo próprio Marlière. A estátua de Guido permaneceu na Praça Santa Rita até 1959, quando se inicia a disputa entre Peixotos e Pedro Dutra também pela memória de Guido.
Neste ano, João Inácio Peixoto assume a prefeitura e ordena a remoção da estátua, e com ela, as placas com as inscrições que sinalizavam a homenagem por parte de Pedro Dutra. Este, por sua vez, acusou Peixoto de realocar a estátua em um lugar, em princípio, de menor visibilidade, e por consequência, reduzir a importância da homenagem. De acordo com Almeida (2004), Pedro Dutra atribuía às ações de João Inácio Peixoto um ódio que este nutria não só contra a sua pessoa, mas também contra todos os seus familiares, apagando diversos
feitos históricos ligados à família Vieira de Resende.
Esta disputa pela homenagem à Guido representa uma mudança de posição por parte dos Vieira de Resende a fim de resguardar para si a fundação da nova Cataguases. Até os anos 30 observou-se uma forte ressalva à figura de Guido, uma vez que sua evidência depositaria dúvidas sobre o papel do Major e do Coronel Vieira na fundação de Cataguases. Todavia, este cenário se modifica quando o processo de transformação da cidade se intensifica e os Vieira de Resende se veem diante da ascensão dos Peixoto, que já dominavam a esfera econômica e assumiam a política local. Desta forma, resgatar a memória de Guido era, de algum modo, uma alternativa de cristalizar os feitos de Pedro Dutra e ratificar que a família Vieira de Resende estava intimamente ligada com o surgimento de Cataguases em momentos diversos.
(texto 2) Quer dizer, o próprio Guido Marliére ficou em três lugares da cidade até ficar na Vila, que inclusive era um local de operários, pobres. (...) Então ele ficou do lado de baixo da cidade, então excluiu... e daqui continuou os Vieira de Resende, Coronel Vieira, Rua Major Vieira, Rua Coronel Vieira, Avenida Astolfo Dutra, então... eliminou uma certa
135 possibilidade da elite pegar um mito do Guido, até porque ele sai fora um pouco da circulação central... Mas ele era na praça Santa Rita, depois levaram ele pra praça Vila Tereza, onde tem "As fiandeiras", e por último, na década de 70 – me parece que em 72 – eles localizam ele de fato ali onde ele tá hoje, né... e....e houve uma certa resistência em dar o nome Guido Marliere à escola [E5].
O texto 2 indica inclinações distintas quanto à aceitação da figura do Guido que reforçam a recusa ao mito fundador, num primeiro momento, de forma que este não figurasse nos principais logradouros da cidade. A primeira mudança trata da retirada do monumento em homenagem a Guido da Praça Santa Rita (figura 5, ponto 1), principal ponto de referência do centro da cidade. Após ser desalojado da Praça Santa Rita, o monumento foi transferido para a
Vila Tereza (figura 5, ponto 2), bairro central da cidade que no fim do século XIX passou por
um processo higienizador em função de um surto de febre amarela (HENRIQUES, 2005). Este movimento não apenas dissociava o nome do Guido à homenagem prestada por Pedro Dutra como também o aproximava de um lugar que é palco de homenagens a José Inácio Peixoto, irmão do prefeito João Inácio.
Para Pedro Dutra, a mudança de lugar da estátua seria uma negação aos méritos de Marlière, uma vez que a homenagem estava sendo desalojada do principal logradouro da cidade. Entretanto, ação de João Inácio Peixoto executava justamente o movimento contrário, ao dissociar dos Vieira de Resende a figura de Guido e aproximá-la da família Peixoto. Esta aproximação dos que disputam a alcunha de mito fundador junto à figura de Guido pode ser caracterizada, nos termos de Marx (1971), como conjuração ao auxílio dos espíritos passados, principalmente em períodos supostamente revolucionários, de forma o fixar na história se dê sob um respeitável disfarce.
Apesar do intento, a estada do monumento a Guido Marlière na Vila Tereza durou pouco tempo, uma vez que concorria no mesmo espaço com o painel As Fiandeiras (ver anexo A, figura 13), de Cândido Portinari, inaugurado em 1958 em homenagem a José Inácio Peixoto. Por fim, o monumento foi deslocado para a então Avenida Brasil, hoje Avenida Guido Marlière, na Vila Domingos Lopes (figura 5, ponto 3), local que era habitado por operários e mais distante da circulação da elite. Esta mudança gerou diversos protestos por parte de Pedro Dutra, cujo argumento indicava que o novo lugar de homenagem a Guido não estava à altura
136 do homenageado47.
Figura 5: Mapa de Cataguases. Fonte: Adaptado de Google Maps.
A curta estadia da estátua de Guido na Vila Tereza, próxima ao monumento que homenageava o irmão de João Peixoto é um forte indício de que a mudança da Praça Santa Rita tinha como propósito desassociar a memória de Guido da imagem de Pedro Dutra e aproximá-la da família Peixoto. A operação empregada não tinha como objetivo substituir um mito fundador por outro, mas sim demarcar que a nova Cataguases estava sendo inaugurada e que preservava na figura do novo mito ligações estreitas com a figura fundadora da antiga Cataguases. O vínculo entre Guido e Pedro Dutra estava desfeito, não mais representando uma ameaça à imagem dos Peixoto como guardiães da Cataguases progressista. Assim, a estátua de Guido sofreu nova mudança, sendo deslocada para a Vila Domingos Lopes, onde permanece até hoje na avenida que leva seu nome. No lugar onde antes habitava restou a homenagem a José Inácio Peixoto, de forma exclusiva, sem que nenhum outro ícone se fizesse presente.
A disputa pelo legado da nova Cataguases não se resumiu à associação com o mito fundador
137 da velha Cataguases. Outra estratégia fortemente adotada tanto por Pedro Dutra, descendente dos Vieira de Resende, quanto por João Inácio Peixoto foi o uso da nomeação dos logradouros da cidade para demarcar no espaço o sobrenome as respectivas famílias, e com isso, requerer o legado da cidade em transformação. De acordo com Almeida (2004), Pedro Dutra sancionou, em 1931, um decreto48 que resguardava aos logradouros da cidade somente nomes de pessoas que tivessem comprovada contribuição para o progresso do município, que por evidências, condizia com os predecessores da família Vieira de Resende, por terem dominado a política local desde a fundação do arraial do Meia Pataca.
Com o decreto, Pedro Dutra iniciou um processo de nomeação de várias ruas da cidade homenageando cataguasenses e políticos envolvidos com a Revolução de 30, dentre os quais se destacam a Avenida João Pessoa e a Avenida Antônio Carlos, na Vila Tereza – mesmo bairro onde 20 anos depois é erguido o monumento em homenagem a José Inácio Peixoto.
Após a eleição de João Inácio Peixoto para prefeito, em 1947, a disputa pela posse da memória através das nomeações de logradouros na cidade se acentua (ALMEIDA, 2004). Em ação popular movida por contra João Peixoto49, Pedro Dutra o acusa de reduzir a extensão da Avenida Astolfo Dutra, unicamente para evitar que um de seus irmãos residisse numa avenida que remetia à memória dos adversários políticos. Além dos logradouros, outro objeto de disputa foi a nomeação do grupo escolar situado na Vila Tereza. Benedito Valadares, então governador de Minas Gerais, ordenou em 1945 que o Grupo Escolar Flávia Dutra, em homenagem a mulher de Pedro Dutra, fosse instalado no prédio da Vila Tereza. Entretanto, João Inácio Peixoto já empossado prefeito, recusou o nome supracitado ao grupo argumentando que o mesmo seria nomeado Nísio Batista. O impasse deflagrou uma constante troca de placas alusivas aos nomes defendidos por cada um dos envolvidos, até finalmente ser denominado Grupo Escolar Flávia Dutra50.
Um olhar anacrônico sobre as disputas que demarcavam as memórias a serem preservadas na cidade poderia colocar em dúvida o efeito de táticas relativamente simplórias. Entretanto, estas foram as investidas utilizadas pelos dois lados na disputa pelo mito fundador da nova Cataguases. Quanto à velha Cataguases, esta estava resguardada aos Vieira de Resende que,
48
Decreto n. 17 de 30 de agosto de 1931. Centro de Documentação Histórica.
49 Processo Civil 3º ofício. Ação Popular, p. 55, 1962. Centro de Documentação Histórica. 50 Criado pelo Decreto Lei n. 4394 de 29/12/1954.
138 enquanto conveniente, mantiveram silenciadas as memórias à Guido Marlière, recaindo por completo sobre Major Vieira e Coronel Vieira os méritos da fundação do cidade. Restava aos Vieira de Resende perpetuar a vocação fundadora, desta vez, diante de uma família que detinha já o controle econômico. Nesta disputa observou-se o domínio econômico dos Peixoto, a divisão da política local, e o elemento que fez recair sobre os Peixoto o legado da
nova Cataguases progressista. Trata-se da mais nova vocação da cidade, a cultural, tomada
139