Como já descrito no capítulo anterior, a revista Ocas, inspirada em exemplos de outros países, não é uma iniciativa inédita. Mesmo no Brasil, antes do lançamento de Ocas, já existia na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a publicação “Boca de Rua”, projeto que existe desde 2000, organizado pela ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação), e que circula até hoje. Também na capital da Bahia, Salvador, o jornal bimestral “Aurora da Rua”, cujo objetivo também é oferecer uma fonte de renda a pessoas em situação de risco social, é produzido e vendido desde 2006.
Esta dissertação faz a opção pela análise específica pela revista Ocas não apenas pela facilidade de acesso da pesquisadora às edições da revista, mas também por ser a publicação
que circula em duas regiões onde o fenômeno da urbanização assume proporções intensas – São Paulo e Rio de Janeiro; além de ter grande parte de seu conteúdo organizado por jornalistas colaboradores, caracterizando uma ação mais ativa dos profissionais de jornalismo na configuração final da revista24.
Ou seja, o jornalismo25 enquanto ofício está presente não apenas diretamente na confecção prática da revista, mas também indiretamente nas perspectivas trazidas pelos jornalistas colaboradores da publicação. Nesse sentido, a elucidação do caráter da prática comunicativa praticada na revista Ocas é importante porque norteia o conteúdo produzido, e também a visão e a motivação das pessoas envolvidas no projeto em questão.
No entanto, a partir das reflexões apresentadas por Sandra Massoni (2007), destaca-se que, mesmo com a profícua, didática e necessária categorização ou identificação das especificidades da prática comunicacional realizada no periódico estudado, o sentido de sua existência social se dá a partir da própria singularidade da sua concretização no ambiente urbano, sua circulação, divulgação e também com vínculos por ela estabelecidos socialmente, entendendo “as interações socioculturais como articulação das relações da comunicação e da cultura” (MASSONI, 2007, p.92).
Nesse sentido, destaca-se uma possível caracterização da revista Ocas como jornalismo alternativo, menos por conteúdos contra-hegemônicos ou por sua vinculação territorial (comunitária) com os sujeitos, colaboradores ou beneficiados, e mais por suas características estruturais: ausência de preocupação com a obtenção de lucros, objetivo de mudança de parcela da realidade social (exclusão social), disputa simbólica na difusão de perspectivas diferentes sobre as relações sociais (com vistas a desnaturalizar a conjuntura de desigualdade social) e, por fim, circulação condicionada a uma ação com objetivo transformador.
Assumindo um formato com características que buscam sensibilizar e disputar o contexto midiático no qual está inserida, a revista Ocas, ao mesmo tempo, se afasta e se aproxima da ideia de ser um produto midiático, tal como é reconhecido atualmente. Dênis de Moares (2010) resume a constituição da mídia na contemporaneidade:
Um dos traços predominantes da mídia, enquanto sistema de produção de sentido, é a capacidade de processar certas demandas da audiência, sejam elas massivas, segmentadas ou hipersegmentadas. Os meios não vivem na estratosfera; pelo
24 Nos outros periódicos aqui citados, o conteúdo final das publicações recebe maior influência de seus vendedores, ou seja, das pessoas em situação de rua ou risco social beneficiadas pelos projetos.
contrário, estão entranhados no mercado e dele dependem para dar vazão a suas ambições monopólicas. (MORAES, 2010, p. 97)
No caso da revista Ocas, aqui estudada, a segmentação é difusa, com uma clara compreensão ampliada do conceito de jornalismo cultural, em comparação simples com outros veículos midiáticos considerados do mesmo segmento26. Essa afirmação se baseia na diversidade de abordagens propostas pela própria estruturação das seções da revista: ao mesmo tempo em que há uma preocupação em escolher personalidades e temas comuns ao contexto cultural urbano como temas para a matéria de capa, seções como “Cabeça Sem Teto” e “O País” revelam outros aspectos que compõem a cultura urbana, fortalecendo e expandindo o próprio conceito da revista.
Especificamente na seção “Cabeça sem teto” que, juntamente com a matéria de capa, será especificamente estudada neste trabalho, o tema da exclusão social é tratado como parte constituinte do cotidiano urbano, além de colocar em primeiro plano – seja como personagens ou como jornalistas, por meio de oficinas para a produção dos textos – os sujeitos beneficiados com o projeto OCAS, ou seja, as pessoas em situação de risco social que também participam, em certa medida, da construção do conteúdo da revista.
Vale destacar, ainda, que as matérias de capa revelam uma concepção da cultura urbana que, apesar de alinhada ao jornalismo cultural praticado em outras revistas no que se refere às pautas escolhidas, se mostra aberta para temas ou abordagens que apresentem perspectivas de discussão sobre a cultura, sob a óptica do combate à exclusão social. Como exemplo, é possível citar a edição que dedicou sua matéria principal à Copa do Mundo de Futebol de Rua, a Homeless World Cup, e também a edição que tratou das discussões levantadas a partir do filme “Topografia de um desnudo”, cujo roteiro se baseia na história real da política higienista que resultou no assassinato de moradores de rua do Rio de Janeiro nos anos 196027.
Nesse sentido, observa-se que a publicação se esforça para partilhar os códigos do contexto midiático, a fim de disputar espaço na construção simbólica da sociedade; no entanto, tal esforço não é guiado por “ambições monopólicas”, conforme apresenta Moraes (2010), justamente porque as motivações que justificam a própria existência da revista Ocas não têm como pretensão o monopólio mercadológico, nem tampouco lucros. Como já
26 Evoca-se aqui, algumas experiências em jornalismo dito cultural no contexto midiático brasileiro contemporâneo, como as revistas Bravo, Piauí, Cult, além dos cadernos de cultura dos maiores jornais em circulação no Brasil.
27 As edições citadas como exemplo, respectivamente, são: nº 68 (novembro/dezembro de 2009) e nº 70 (março/abril de 2010).
indicado anteriormente, os profissionais que produzem a revista, o fazem voluntariamente, sem receber remunerações, e todo o dinheiro envolvido no processo de circulação da revista se destinam ao projeto, de alguma maneira: ou se transformam em fonte de renda para os vendedores, ou são utilizados para os gastos de confecção da publicação.
É evidente que conteúdo da Ocas pressupõe um tipo de público leitor, e que a revista depende da circulação de dinheiro, o que a aproxima das estratégias do mercado midiático. No entanto, ressalta-se que não há restrições do ponto de vista de uma segmentação de um público específico, pelo contrário, o projeto se consolida por meio de sua circulação e inserção na sociedade. Sob a mirada econômica, que como já ressaltado, apesar do vínculo com o fluxo financeiro (compra/venda), o dinheiro circulante no processo de circulação do periódico assume um papel decisivo na ressignificação da dinâmica econômica do mercado comunicacional promovida pelo projeto OCAS, ao criar novas formas de relação nessa dinâmica, com a inclusão de diferentes atores, anteriormente colocados à margem dos processos econômicos sociais.
Nesse sentido, a revista, ao mesmo tempo em que nasce especificamente porque existem exclusão e desigualdade sociais – construindo uma ideia sobre o problema –, também age como instrumento de intervenção na realidade, ao lançar nova significação para o ato de comprar a publicação. É de forma intervencionista que a prática jornalística se faz em Ocas, desde sua concepção, que mescla denúncia e construção da realidade, até a venda e a busca por amenizar os problemas sociais.
Meyer (2007), ao caracterizar a crise do jornalismo impresso (enquanto instituições empresariais), identifica as contradições dos jornais de grande circulação que, ao mesmo tempo, têm de responder como empresas lucrativas, com uma estrutura que se insira na lógica do menor custo, e também como fonte de informações de qualidade, essenciais para o debate público sobre temas caros às comunidades em que estão inseridos. O autor pondera que até jornais sem fins lucrativos necessitam de orçamento para existir, tendo em vista, por exemplo, custos com a impressão (MEYER, 2007, p. 219).
A partir desse raciocínio, destacam-se as iniciativas que se reconfiguram nesse contexto de crise institucional do mercado da comunicação. Assim, pode-se, também, caracterizar a revista Ocas como um exemplo diferenciado no que se refere à sua organização estrutural, enquanto instituição comunicativa, caracterizando-se como um veículo alternativo também nesse sentido. A lucratividade não rege a existência do periódico, que localiza no próprio processo de produção e circulação (suas relações socioculturais) a sua importância social. A concepção de mercado aqui levantada se aproxima da ideia ampliada de mercado,
pressupondo complexas relações de apropriação socioculturais de bens que extrapolam a dimensão física, incidindo sobre o âmbito simbólico, conforme destaca García Canclini (2006), em obra decisiva sobre as questões relacionadas ao consumo na sociedade.
No entanto, a estratégia de inserção da revista Ocas na sociedade é passível de questionamento na medida em que se consideram algumas reflexões já apresentadas neste capítulo. Ao retomar as reflexões deYamamoto (2007), atenta-se para um contexto em que a prática comunicativa pode caracterizar não como problematizadora dos contextos em que estão inseridas a fim de qualificar os debates sobre os problemas sociais, mas como uma forma de amenizar as contradições inerentes à sociedade e, em especial, ao processo comunicativo. No caso da revista Ocas, vale destacar que a perspectiva crítica acerca das contradições do processo social não fica clara no dia a dia da revista, ou seja, em suas relações sociais para além do conteúdo. A específica análise que será realizada nesta disssertação também poderá indicar como essa perspectiva se consolida (ou não) no conteúdo da revista.
Amaral Filho (2008) ainda destaca que, os exemplos de práticas comunicativas contemporâneas ditas alternativas, ao buscarem a “inclusão” de determinados grupos sociais marginalizados, seriam responsáveis, segundo uma perspectiva de estudo, por perdas substanciais de características identitárias de tais grupos, descaracterizando-os em suas essências. Essa ideia justificaria a conformação com um contexto de exclusão e marginalidade social, em nome de certo purismo pensado utilitariamente para compor o cenário social contemporâneo. Esse apontamento leva ao questionamento do projeto OCAS no que diz respeito à relação com os vendedores: um primeiro olhar sobre o excluído, o exótico, e posteriormente o olhar inclusivo não superam a posição de marginalidade social em que se encontram os beneficiados pelo projeto. Assim, é possível questionar até que ponto o conteúdo da revista reflete essa fragilidade conceitual sobre a atuação do projeto social na mudança de perspectiva dos grupos marginalizados, o que deverá também ser explicitado na análise específica das seções da publicação.
Mesmo sendo uma voz pretensamente dissonante no contexto comunicativo, que busca desnaturalizar as situações em que ficam explícitos os problemas decorrentes da exclusão social, o vínculo social estabelecido pela revista Ocas parece ser pouco intenso, no que se refere aos jornalistas e profissionais colaboradores, e de certo modo com os beneficiados pelo projeto, que aparentemente têm poucas possibilidades de influenciar a dinâmica produtiva – fazendo sugestão de pautas, e especificamente na seção “Cabeça sem
teto”. Apesar das diversas oficinas e atividades paralelas à venda da Ocas28, corre-se o risco de, como apontado por Kaplún (2007), fazer da própria revista um fim em si mesma, reduzindo as relações com os vendedores apenas ao próprio processo de circulação da publicação, por uma fragilidade do próprio vínculo social do projeto com os sujeitos envolvidos nos processos estabelecidos em seu entorno.
Esse possível questionamento acerca dos vínculos sociais da revista Ocas leva também à questão de como encarar, no caso do projeto OCAS, a utilização do jornalismo impresso como formato para discutir o tema da exclusão social, ignorado e invisibilizado socialmente. O jornalismo, historicamente ligado às lógicas burguesas dominantes e hegemônicas (TRAQUINA, 2005-I e II), traz em sua essência liberal-burguesa a estreita relação com o mercado informacional e de entretenimento (RAMONET, 1999), o que o afastaria em seu cerne de uma perspectiva crítica de olhar sobre o mundo, em especial para a exclusão social. É necessário, portanto, considerar uma possível abordagem “tuteladora” do problema da exclusão social, tendo em vista que as demandas decorrentes dessa contradição da urbanização passam pela “mediação” dos profissionais que, mesmo em busca de alternativas, possuem formação na matriz burguesa predominante nos cursos de comunicação.
Em última instância, há que se considerar, conforme indicações de Paiva (2008) já destacadas neste capítulo: em que medida a inserção social da revista Ocas como um produto que concorre na dinâmica do consumo, que se delineia cada vez mais incisiva sobre as sociabilidades na contemporaneidade (com a supremacia do produto), não tornaria o próprio projeto social – e o periódico – uma experiência inócua?
Compreendem-se os questionamentos aqui feitos numa perspectiva em que podem contribuir para um olhar mais complexo do objeto de estudos desta dissertação. Por isso, muitas das questões serão retomadas na análise específica da revista, bem como nas discussões específicas acerca da configuração do jornalismo na contemporaneidade, tendo em vista as características da prática jornalística observada na revista Ocas, conforme serão discutidos posteriormente por esta dissertação.
No entanto, as reflexões que levaram a esses questionamentos permitem a afirmação de que o objeto de estudos desta dissertação se caracterizaria por ser um veículo alternativo justamente quando considerado seu contexto de atuação, a partir das inferências obtidas por meio do método de observação proposto neste estudo – com seus recortes específicos e
28 São oferecidas periodicamente aos vendedores oficinas de textos (que muitas vezes dão origem ao conteúdo da seção “Cabeça sem teto”), terapia coletiva, entre outras atividades que complementariam o projetos OCAS.
limitações inerentes29. Nesse sentido, considera-se a revista Ocas como um veículo alternativo, no que tange a dois eixos principais: de um lado, a sua forma de organização estrutural e o sentido que dá a sua circulação – base do projeto de destinação de renda aos moradores de rua; de outro, os assuntos que apresenta em seu conteúdo, em especial na seção “Cabeça sem teto”, mas também nas preocupações que permeiam os temas e também o tratamento dado às reportagens de capa. Tendo em vista que a análise feita nesta dissertação se restringe aos textos publicados pela revista Ocas, bem como as informações disponibilizadas acerca do projeto social que sustenta a publicação, não é possível estender a classificação “alternativa” no que diz respeito às relações com leitores e/ou vendedores.
No entanto, ressalta-se que, a partir da análise, que será feita na próxima etapa desta dissertação, as inferências acerca do conteúdo da revista poderão oferecer algumas indicações de características que aproximem a revista estudada das discussões mais contemporâneas sobre a comunicação alternativa, como as consequências de seus pressupostos para os vínculos comunitários que estabelece.
3.5 Considerações sobre o capítulo
Definir a comunicação alternativa no contexto atual da comunicação torna-se um desafio complexo, além de perigoso, justamente devido aos riscos de se abordar o conceito de forma simplória e pouco condizente com a conjuntura de fluidez e delineamentos cada vez mais provisórios das relações sociais. Por isso, também este capítulo se tornou um desafio: além de discutir o conceito, também aplicá-lo ao objeto desta dissertação.
No entanto, ao se ancorar a linha de pensamento aqui desenvolvida nas discussões iniciadas pela ideia de contra-hegemonia comunicativa, a partir de sua perspectiva de vínculo territorial de busca por sentido, trouxe luz ao debate: uma revista que se estabelece de forma a engendrar outras lógicas comunicativas no interior do ambiente urbano, chamando atenção para a realidade de desigualdade e exclusão sociais, com vistas a desnaturalizar tal conjuntura nefasta, parece ser um exemplo claro não apenas de uma forma de comunicação alternativa possível na atualidade. O objeto aqui estudado parece condensar em sua experiência toda a complexidade das relações sociais fluidas inerentes ao ambiente urbano, tal como está configurado.
O risco da relativização extrema se esvai quando se pensa a importância de todas as nuanças estabelecidas em torno dos processos comunicativos num contexto de disputas
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simbólicas cada vez mais centrais na sociedade. Nesse sentido, as reflexões apresentadas neste capítulo são basilares para se pensar a prática jornalística que se observa em Ocas, bem como as características de seu conteúdo, preocupações que vão nortear as próximas discussões a serem feitas nesta dissertação.
4 Estudo do jornalismo praticado na revista Ocas
De acordo com a proposta desta dissertação, nesta parte será apresentada a análise dos textos publicados em duas seções específicas do periódico estudado: a seção “Cabeça sem teto” e a reportagem de capa, denominada simplesmente como “Capa” no layout da revista. As matérias foram avaliadas à luz da metodologia da análise de conteúdo, complementada por aportes encontrados na análise de enquadramento. Tais métodos se justificam por permitirem explorar os textos apresentados na revista de forma a elucidar pressupostos, conceitos e outros indicativos que permeiam a produção e organização do texto jornalístico da revista.
Tal exercício se alinha, portanto, às pretensões do estudo: elucidar como se configura o texto jornalístico da revista Ocas, tendo em vista as relações socioculturais do projeto que dá origem ao periódico, a Organização Civil de Ação Social (OCAS). Vale, portanto, discutir o objeto desta pesquisa no contexto da estudos em comunicação e a sua relação com as metodologias utilizadas, bem como as formas de apropriação de tais metodologias.