2. BÖLÜM
4.4 Sonuç ve Öneriler
Um primeiro texto em que tal lembrança ocorre é “Aventura e arquétipo em Stevenson”, no qual Paes mescla um tom de divulgação com crítica de dois romances do escritor escocês. O mote da escrita é o então centenário de morte (1994) do autor de
Kidnapped. O ensaísta brasileiro lembra que, apesar do fato de “a obra de Stevenson
filiar-se à literatura dita de entretenimento e de dirigir-se antes a um público juvenil do que a um público adulto” (PAES, 1999, p. 27), isso não impede de considerá-la como clássica110, já que, por vezes, sua prosa conseguiria se mimetizar “como inconsciente coletivo e individual”. (PAES, 1999, p. 27). O ensaio em pauta, portanto, procura tecer um elogio a um autor que, na visão de Paes, ocupa um lugar menos apropriado do que deveria (o de uma “literatura adulta”). Para tal, José Paulo lembra que Carl G. Jung cita a história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde para falar do duplo. Todavia, o foco do texto paesiano diz respeito aos livros A ilha do tesouro e Sequestrado.
Apesar de estarem voltadas para figuras arquetípicas (como a oposição entre mundo adolescente e mundo adulto, sendo este marcado pela censura, proibição, violência), José Paulo coloca que ambos os livros de Robert Louis Stevenson teriam o mérito de realizar a forma “arquetípica da literatura”, isto é, de
visualizar o mundo do desejo não como uma fuga da “realidade”, mas como forma genuína do mundo que a vida humana tenta
imitar, mundo que é, segundo o mesmo [Northrop] Frye, “o mundo dos sonhos que criamos com os nossos desejos”. (PAES, 1999, p. 31) [colchete nosso].
Assim, além de ratificar uma concepção de literatura, o texto paesiano apresenta um tom de crítica literária e divulgação de um autor que, segundo o juízo do ensaísta, gozaria de um lugar menor, mais pueril. Dessa maneira, “Aventura e arquétipo em Stevenson” realiza o que Silvina Rodrigues Lopes (2012, p. 124) chama de retirar certas obras do esquecimento. O ensaio, para a professora da Universidade Nova de Lisboa, teria uma potência que incita; ele seria capaz de ressignificar o lugar que ocupa seu objeto, fazendo com que este “não continue como antes” (LOPES, 2012, p. 126, 127). Em “O ensaio como pensamento experimental”, a autora discorre sobre o poder livre dessa tipologia que, em vez de fazer conjecturas fixadoras, teria o poder de realizar “conexões imprevisíveis”111
. (LOPES, 2012, p. 130). Nesse sentido, O lugar do outro é profícuo nas diversas operações112 que efetua. No que compete a esta seção do presente capítulo, a potência do texto paesiano reside na leitura que o paulista faz do romancista escocês. Ressaltando o mérito que vê em Stevenson, o texto de José Paulo pode lançar nova luz sobre o lugar do ficcionista, procurando deslocá-lo do lugar de injusto esquecimento que o paulista aponta. O ensaio, com forte viés de crítica literária, pode atuar como elemento influenciador na (re)colocação de textos num mainstream.
Outro ensaio no qual há uma preocupação com autores e sua projeção é “Kipling e seus fantasmas”. Não se afirma nesta segunda seção (tendo em vista seu título) que o autor de Mowgli esteja num lugar de desprestígio, mas que Paes enceta discussão acerca da uma imagem do escritor britânico.
No referido texto, Paes trafega com presteza entre a resenha113 e a crítica literária. O primeiro aspecto pode ser visto no tom de divulgação com que o paulista abre o ensaio
111 Esta tese não coloca que uma leitura acerca de Stevenson (ou a reivindicação de lugar dele num cânone, pois é um autor citado, por exemplo, por Borges, em “Borges e eu”) seja algo da ordem do imprevisível. O
que se faz aqui é trazer a leitura paesiana que, no caso, enxerga o autor de Dr. Jekyll and Mr. Hyde ocupando um posto inapropriado, injustamente menor do que o merecido.
112 Como, por exemplo, as sete listadas no início deste capítulo, que funcionam para abordar o livro.
113 Toma-se aqui o termo resenha como uma apreciação de um texto (romance, conto etc.) expondo um
juízo crítico, o que se aproxima da definição de Massaud Moisés ao dizer que a tipologia tem como objetivo “informar acerca do conteúdo de uma obra. Via de regra publicada em jornal, não dispensa o
(tendo como base a publicação de uma antologia de textos do poeta britânico); já o segundo se faz notar com as incursões acerca do sobrenatural, o qual se daria de modo emblemático por meio de um “vago simbolismo, entre o alusivo e o elíptico, cujo ponto de fuga são os labirintos da interioridade humana vistos do prisma do atípico, do único”. (PAES, 1999, p. 33). O mérito desse escritor estaria ainda no que Tzvetan Todorov chamou de uma “dúvida insolúvel” acerca dos fatos sobrenaturais narrados: se eles seriam de fato “sobrenaturais ou haveria alguma explicação natural, por estrambótica que fosse, para eles?” (PAES, 1999, p. 35), como poderia ser visto em “O cirurgião da casa”, coloca o ensaísta.
Passando por esses dois âmbitos, o autor paulista discorre brevemente sobre o lugar que ocupa Kipling. O termo “fantasmas”, presente no título, não aludiria apenas ao caráter sobrenatural dos contos do britânico, mas também ao deplorável posicionamento político que perpassa o poema “Fardo do homem branco”, no qual a voz poética “conclamava os Estados Unidos a se unirem à Inglaterra na obra de conquistar para a civilização os povos ‘meio-demônios’ e ‘meio-crianças’ do chamado Terceiro Mundo”. (PAES, 1999, p. 34). Com isso, o autor de O lugar do outro realiza nesse ensaio comentários que não se restringem à resenha (do então lançamento da coletânea kipliguiana), mas efetua considerações, ainda que pontuais114, de natureza crítica ou teórica.
Uma delas pode ser vista na abertura do ensaio quando José Paulo fala da oposição entre a experiência de organização de edições completas e a de antologias. Se a leitura destas pode funcionar como um momento privilegiado de apreço pelo autor lido, a organização, contudo, relata Paes, poderia ser desestímulo. Isso porque caberia ao antologista “selecionar os melhores momentos da produção de um autor, ao passo que o editor de obra tem por obrigação coligir-lhe todos os momentos, inclusive os piores”. julgamento crítico”. (MOISÉS, 2004, p. 382). Contudo, os textos de Paes poderiam se aproximar ainda do
que o autor de Dicionário de termos literários chama de “recensão”, a qual seria mais extensa e minuciosa, tornando-se comumente um ensaio ou artigo. Contudo, o autor do verbete não traça claramente em que consistiria, por exemplo, tal “minuciosidade” da recensão. O que se reforça nesta tese é o tom de divulgação que o texto paesiano traz, juntamente com algumas considerações analíticas.
114 É importante lembrar que esse texto, assim como os demais de O lugar do outro, foram publicados em
veículos jornalísticos, tais como o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo.
(PAES, 1999, p. 32) [destaque do autor]. Nessa colocação, o paulista se vale provavelmente de sua experiência como editor para tecer uma consideração que é primeiramente de cunho editorial, mas que acaba abarcando a questão da seleção e do gosto115.
Com isso, o escritor paulista realiza uma operação de lembrança acerca do poeta britânico. Ao mencionar seus “fantasmas”, ele não somente aborda o caráter sobrenatural dos textos, mas toca num condenável posicionamento político. O ensaio de Paes tece considerações sobre o mérito literário de Kipling sem, contudo, desconsiderar questões éticas e políticas. Assim, o objeto observado é alvo de um olhar atento: elogiando de um lado o mérito de construção do sobrenatural no texto, e, de outro, depreciando a postura pouco democrática e imperialista do autor. O ensaio paesiano em pauta reitera ao leitor que a atividade (da) crítica não se atém “apenas” a um louvável conjunto outro de textos, mas também a “episódios extratextuais”.
Outro texto em que o ensaísta de Taquaritinga se ocupa com a imagem e o lugar que ocupa determinado autor é “O escritor que fugia de si mesmo”. Neste, José Paulo comenta sobre como Monteiro Lobato deveria ser lembrado, sobre qual legenda116 ele deveria ficar. Paes parte então da ideia de que o autor de Urupês é conhecido como um editor empreendedor, com fortes ambições financeiras que, contudo, vai à falência devido aos seus projetos editoriais. Essa seria a “anti-legenda” de Lobato.
Todavia, depois de tal insucesso, o escritor de Taubaté teria reencontrado sua vocação: escrever literatura para o público infanto-juvenil. Numa carta a Godofredo Rangel, Lobato diz que as crianças teriam sido a solução para o impasse que vivia (depois da quebra financeira e depois de perceber que o que escrevera para adultos não tivera sido reeditado a contento): “De tanto escrever para elas [crianças], simplifiquei-me, aproximei-me do certo (que é o claro, o transparente como o céu)”. (LOBATO In: PAES, 1999, p. 43) [colchete nosso]. Outra descoberta alegada, relata José Paulo, foi a
115 Como já exposto na tese, no capítulo sobre a poesia erótica, as antologias paesianas revelam certa “verdade do gosto”, como se a seleção trouxesse sempre o melhor de um autor, e tal recorte teria ares de
definitivo.
116
O termo legenda é empregado pelo ensaísta no sentido religioso, isto é, como texto constituído de
“relatos de vida de santos compilados com o propósito de estimular os fieis a seguir-lhes [sic] o exemplo de conduta reta e devota”. (PAES, 1999, p. 38).
percepção de uma distinção entre os mundos adulto e infantil – diferença que, segundo Monteiro Lobato, separaria a maioria dos escritores de, por exemplo, Hans Christian Andersen. (cf. PAES, 1999, p. 43).
Com tal texto, Paes efetua o exercício memorialístico de recuperar uma legenda117, um rótulo (no melhor sentido do termo) para um escritor cuja imagem estaria marcada por um viés pragmático-comercial da esfera editorial. Com isso, Paes coloca Lobato como o fundador da literatura brasileira infanto-juvenil, e compara-o ao advento dos modernistas brasileiros:
(...) Lobato fez o mesmo tipo de revolução que os modernistas haviam feito na área da chamada literatura de proposta, pelo que não é demasia ver em Emília e na sua turma do Sítio do Picapau Amarelo os Macunaímas anunciadores dessa outra revolução. (PAES, 1999, p. 42).
Texto marcado pela acidez é “Boletim de saúde”. Neste, o ensaísta faz uma depreciação à academia, quanto a uma suposta miopia ou cegueira em ver que a (então)
117
Não se afirma aqui que Paes precisaria dar conta de aspectos biográficos de Lobato. Contudo, é importante mencionar que contemporaneamente têm ocorrido debates sobre o discurso tido como eugenista e sanitarista do autor de Caçadas de Pedrinho. O leitor pode consultar o texto de Dennis Oliveira intitulado
“Monteiro Lobato, racismo e nacionalismos”. No site em que está o texto de Oliveira, há um dossiê (em
construção) sobre autor de Taubaté (já que ele foi indicado como leitura obrigatória em colégios públicos brasileiros, apesar de aparentemente ter conteúdo racista) tem este link:
http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/educacao/dossie-monteiro-lobato/#axzz3NycYzt2I (acesso em 05/01/2015).
Ainda sobre o tema do lugar que Lobato (não) deveria ocupar, recomenda-se ler também a dissertação de
Lucilla Zorzato, intitulada “A cultura alemã na obra infantil Aventuras de Hans Staden, de Monteiro
Lobato”, na qual a pesquisadora transcreve trechos potencialmente eugenistas de cartas do escritor, como seria o caso desta endereçada a Arthur Coelho:
“A desgraça da guerra atual é matar muito pouca gente e destruir muita coisa feita. A coisa feita é que
constitui a riqueza do mundo, como obra do aturado trabalho de gerações. Destruir isso é o maior dos crimes imagináveis ao passo que destruir gente é apenas sangria aliviadora do grande mal que é o excesso de gente. (...)
O crime de Hitler, para mim, é esse: destruir coisas feitas em vez de matar gente, como o Kaiser. (...) Minha esperança está na guerra química.”
O trecho acima foi retirado desta referência:
LOBATO, Monteiro. Cartas Escolhidas. 4. ed. Obras Completas. São Paulo: Brasiliense, 1951. V. II 16 e 17, I e II Tomo (1º série). p. 131, a partir da dissertação de Zorzato, disponível em
nova118 poesia brasileira não estaria morta, acabada. Realizando uma polarização restritiva (e aludindo a Umberto Eco119), José Paulo fala dos críticos “integrados”, “cujos ouvidos julgam captar a todo momento o borbulhar de novos gênios”, e dos “críticos apocalípticos, para quem João Cabral de Melo Neto é o último dos moicanos”. (PAES, 1999, p. 107). Tais ataques servem como ponto de partida para as leituras que o ensaísta faz em “Boletim de saúde”.
Paes procura mostrar que haveria bons poetas (ainda que com ressalvas nestes) na produção daquele momento. O autor paulista cita Ruy Proença, Fabio Weintraub e Roberval Pereyr como exemplos exitosos. José Paulo coloca como critérios para tal leitura o que ele entende como inventividade (como “acréscimo (...) e não mera repetição a partir das linhas que, a partir de 22, vem componho o campo de força da poesia brasileira” (PAES, 1999, p. 108)), bons jogos sonoros (paronomásicos, aliterativos etc.), a metalinguagem (que seria exagerada aos coetâneos, “afetados do mal de Anfíon” (PAES, 1999, p. 109)). Com isso, o autor reforça um ideal que tem de literatura, de poesia, os quais estão presentes na parte de sua obra poética (tais como o diálogo com o modernismo, os jogos de palavras, o mergulho sobre a própria produção etc.).
Paes, então, corrosivo em seu juízo, procura lembrar aos críticos que haveria poesia digna de nota (supostamente não percebida pelos profissionais), e que por isso a mesma não estaria morta. Assim, o título do ensaio se mostraria sintomático ao trazer o ensaísta com a pretensão de quem vê bem (ou que afirma isso) em detrimento de uma crítica (tida como) míope.