Algumas dessas problemáticas são abordadas em Walter Benjamin: Tradução e
melancolia, de Susana Kampff Lages. Em sua publicação, a autora se ocupa em fazer
panorama de visões acerca do ato tradutório, de seus procedimentos, bem como sobre a melancolia que ocorreria em função dessa prática. Lendo o filósofo alemão e alguns de comentadores, Lages discute como essa atividade é normalmente marcada por tal sensação. Uma recorrente premissa de que a tradução acarreta perda em relação ao texto de saída seria um dos motivadores dessa melancolia.
Além dessa depreciação que pulula um imaginário, o tradutor ainda teria que lidar com uma circunstância que não assola os demais intelectuais. Citando Ortega y Gasset, Lages fala da pressão que paira no tradutor (que ultrapassa a do intelectual não-tradutor): ele, assim como todos os indivíduos, teria que se calar, pois é impossível dizer tudo o que estaria no texto de saída (cf. LAGES, 2002, p. 66) e, teria, principalmente, que traduzir o silêncio, o que não foi dito, pois cada língua tem suas equações verbais e seus silêncios.
Uma das causas da melancolia do tradutor ocorreria com o fato de, em vez de se apropriar do “texto-outro” (num sentido que se aproxima da atividade do ensaísta, que também se ocupa com o outro, abrindo mão de si, como afirma Adorno em “O ensaio como forma”), ele se vê apropriado, caindo numa zona de indiferenciação. A melancolia do tradutor diria respeito a um lugar antitético ocupado por esse profissional: de um lado, haveria uma grande cobrança (de ter um vasto conhecimento linguístico e cultural do objeto a ser traduzido); do outro, existiria um viés de herói capaz de penetrar em todos os pormenores do texto traduzido – além de trazê-los para a língua de chegada61.
Soma-se a isso uma concepção que ambicionava a tradução como um espelhamento do original. A perspectiva de que o texto de saída é um produto imutável, hermético, e a de que se deve ser “fiel” fazem com que se pense que a tradução deveria ser uma atividade imperceptível, ou, nas palavras de Henri Meschonnic, ela deveria usar da “ilusão da transparência” (Lages, 2002, p. 70). Tais expectativas gerariam o efeito citado:
(...) da constatação empírica de uma não-coincidência entre as línguas deriva o reconhecimento da impossibilidade de se traduzir de uma língua para outra, sem que ocorram alterações no conteúdo da mensagem comunicada, frequentemente
denominadas “perdas”. Da consciência dessa perda e da
sensação de impotência dela decorrente provém a disposição melancólica de que fala Steiner... (...)
Excessivamente próximo do tradutor como objeto concreto para leitura e interpretação, pela língua e pela cultura em que está inserido, o texto original dele se afasta para assombrá-lo, no duplo sentido da palavra: funciona como uma sombra em relação a ele e amedronta-o, enchendo-o de angústia, que nada mais é do que uma variante da angústia da influência teorizada por Harold Bloom. (LAGES, 2002, p. 30, 72).
Com tal cenário, não é de se estranhar que o estudo da tradução, ao longo dos anos, tenha se ocupado em criticar as supostas perdas (sempre maiores) e os ganhos na passagem do texto de partida para o de chegada. Contudo, nas últimas décadas, pesquisas têm se ocupado com uma valorização dessa tarefa, bem como com uma institucionalização da tradutologia (ou da tradução como uma disciplina). Isso, entre outros motivos, porque ela é uma atividade diferente da do escritor, com seus próprios estatutos.
Como será exposto à frente, Paes fala da metáfora da refração, em Tradução: a
ponte necessária. Por meio dessa metáfora, ele expõe sua ideia de transparência. No
livro, ele ainda reitera o valor da atividade tradutória como oportunidade de alargamento do horizonte cultural do leitor.
O texto de Benjamin, apesar de ter cerca de noventa anos, já apontava para um caráter messiânico da tradução. Lages comenta que uma vertente recente da pesquisa em tradução é a culturalista que, tendo André Lefevere um dos expoentes, trata a tradução como uma escrita crítica, imagem literária de um contexto cultural (com sopros históricos e políticos) que preparam obras para entrarem nos diversos sistemas literários.
Susana Lages coloca que a tradutologia à luz de Jacques Derrida apresenta características como, por exemplo, a ideia de tradução como texto com duplicidade de
autoria. Assim, combate-se a contabilização de perdas e ganhos para, então, perceber uma nova identidade – combatente da melancolia, de certo modo – como uma leitura62.
Outra corrente tradutológica citada por ela é oriunda do Canadá e de forte caráter feminista. Tal linha combate supostas metáforas sexistas (de gostos duvidosos) na tradução, tais como o tradutor como o homem que penetra o “texto virginal” (sem tradução), ou a ideia de que a tradução bela é como a mulher infiel63 ao seu marido (o autor). Citando Rosemary Arrojo, Lages comenta que essa leitura falha por defender algo contraditório: enquanto argumenta em torno duma tradução cooperativa (entre autor e tradutor) que não seja uma navalha que dilacere o texto de saída, essa corrente defende que o tradutor deva sequestrar, subverter o original para que a voz tradutora (do marginalizado, do outro) apareça.
O estudo de Susana Lages faz, dentre outras coisas, uma contextualização. Dessa maneira, a autora comenta sobre autores de diversas correntes, tais como de André Lefevere, que considera o tradutor como um preparador de obras para comporem o cânone ou os sistemas literários.
Destarte, o papel do tradutor é de atividade consciente frente às escolhas que faz (dos objetos traduzidos, das escolhas linguísticas etc.). Esse profissional tem papel fundamental nas tradições e nos sistemas literários. Nesse viés, Lages cita Harold Bloom para falar que um “poeta forte” é aquele que por meio de seus textos permite ao leitor atual mudar a leitura que fazia de textos pregressos64. Com isso, a autora afirma que o tradutor é exemplar nessa posição de posteridade, contribuindo para ressignificar o texto pregresso – o que pode ser transposto para o caso de José Paulo ao se considerar que ele ressignificaria o lugar que autores como Rousseau ou Goethe, com seus poemas eróticos, ocupam em determinados sistemas literários. Para isso, o tradutor deveria superar esse lugar secundário e assumir-se como autor do texto “transcriado”. Esse tipo de tradução interpretativa, interventora, revela uma leitura feita com “torturadas meditações sobre a linguagem”. (LAGES, 2002, p. 94).
62 Perspectiva citada à frente, com Cristina Rodrigues (2000).
63Há uma conhecida expressão: “Les belles infidèles”.