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Paul de Man, em “Conclusões: ‘A tarefa do tradutor’ de Walter Benjamin”, trata de questões errôneas oriundas de diferentes traduções do texto de Benjamin, bem como de tendências hermenêuticas suscitadas com a leitura do mesmo. Aparentemente, à luz do filólogo alemão Hans-Georg Gadamer, ele menciona o que seriam os três tipos de ingenuidade: a de proposição (diz respeito a uma crítica, hegeliana, à ideia de que o sujeito domina completamente seu discurso), a de reflexão (problematiza a noção de Hegel de que é o sujeito que se compreende, pois hoje já se tem noção da dificuldade entre o eu e o discurso) e a de conceito (refere-se, novamente à luz de Gadamer, a uma ingenuidade de Hegel e Kant que não examinavam de forma crítica a (não) proximidade entre o discurso vulgar e o filosófico). Dessa maneira, de Man lê o texto do pensador alemão discutindo como vertentes teóricas poderiam recebê-lo. Para teóricos como Hans Robert Jauss e Stanley Fish (referências na estética da recepção), a abertura do texto de Benjamin (que fala que a obra de arte não se destina ao receptor) poderia escandalizar, por supostamente trazer uma noção essencialista da arte.

Tais considerações permitem ver a riqueza do texto benjaminiano, sendo que ele ainda é elogiado por ter devolvido a dimensão do sagrado à linguagem literária, por ter desenvolvido a “historicidade secular da literatura da qual depende a noção de modernidade” (de MAN, 1989, p. 107) e por ainda ter combinado rigor niilista e revelação sagrada em seus textos. Além de ter ciência dessas contribuições, para Paul de Man, é necessário ao leitor perguntar o que Benjamim quis dizer em seu texto já que, segundo ele, muitos (e bons) tradutores não conseguiram entendê-lo – e nem mesmo, traduzi-lo. O autor belga exemplifica tal confusão citando um caso de Derrida, que foi pego num erro de uma tradução para o francês. Destarte, é possível perceber que, além da

diversidade semântica da escrita benjaminiana, pairam sobre o texto conflitos de interpretação.

Um dos pontos salientados por de Man refere-se à valorização do tradutor. Ele comenta que Benjamin escolhe valorizar esse profissional – e não o poeta – pois o primeiro é considerado menor de antemão; e a tradução, por conseguinte, é considerada uma perda desde o início. Dessa maneira, o autor de “Conclusões: ‘A tarefa do tradutor’ de Walter Benjamin” delineia diferenças entre ambos. Para Benjamin, haveria uma distinção nítida entre poetas e tradutores: os bons tradutores não precisariam ser poetas59. Outra diferença é o fato de o poeta ter normalmente algo a dizer, estabelecer uma relação de sentido, que não está apenas no domínio da linguagem. Já o tradutor, por sua vez, teria uma relação entre as línguas (e não do sentido com a língua).

Para o autor de “A tarefa do tradutor”, a tradução estaria mais próxima da crítica/teoria da literatura do que da poesia. Isso porque tanto a crítica como a tradução formariam o que Benjamin chamou de atitude irônica: que desestabiliza o original, dando-lhe uma forma na análise crítica ou na tradução. Para Paes, todavia, a atividade crítica (na tradução) diria respeito a, principalmente, à análise do texto traduzido, ou seja, caberia a tais críticos verificar as escolhas do tradutor (semânticas, sintáticas, por exemplo); se o tradutor opta pela estrangeirização etc. Como será discutido a partir de

Tradução: a ponte necessária, no que tange à desestabilização, o poeta paulista vê uma

aproximação da figura do tradutor à do autor, devido ao ato criativo que existiria na tradução de textos literários. Por isso, ele comenta que a tradução de poesia seria o caso limite da tradução. (Cf. PAES, 1990, p. 45).

Pensando nesse viés de estabilização, seria possível afirmar que a tradução seria mais canônica que o original, pois este precisou de uma tradução; não sendo, portanto, definitivo. Já a tradução seria definitiva60, pois não se traduz uma tradução. Encontra-se aí uma relativização do que é tido como canônico, já que não se traduz uma tradução porque ela normalmente não é o paradigma: o texto de saída é então o objeto de novas

59 Tal perspectiva será debatida à frente, com Haroldo de Campos, ao afirmar que a tradução de textos

poéticos é um ato de transcriação e que, por isso, deveria ser feita por autores de poesia, de preferência em

um “laboratório”, a várias mãos (de poetas) – perspectiva essa defendida por Paes.

60 A comparação aí se restringe ao texto de saída e à tradução. Ou seja, não entra a questão de uma

traduções por suscitar, usualmente, um desejo de acesso a ele, um anseio por trazer à língua de chegada algo de estrangeiro.

Paul de Man diz que a tradução ainda canoniza, congela um original, mostrando uma mobilidade no texto de partida, à medida que ele é colocado em movimento pela crítica e/ou pela tradução. Percebe-se com isso que a dicotomia reunião/dispersão é um aspecto discurso tradutório de Benjamin. Tal perspectiva é importante para a tese aqui trabalhada tendo em vista a argumentação de Paul Ricoeur acerca da memória e o bloco de cera. Neste, o que era marcado poderia ser lembrado; o apagado, por sua vez, corria o risco de sumir, de cair no esquecimento. De maneira análoga, é possível pensar na tradução (e na antologia) como esse ato de conservação e de apagamento.

Outra aproximação feita por Benjamin (como mencionado no início deste capítulo com base no artigo de Josalba Viera) diz respeito à relação entre história e tradução – mais especificamente, refere-se ao modo como se deve observar ambas. Para o filósofo alemão, é mais importante observar os discursos sobre as modificações naturais do que observar a história das modificações naturais; assim, por sua vez, seria mais importante compreender o original a partir da perspectiva da tradução.

Nesse sentido, a “voz” do tradutor é ouvida. João Barrento, em “Da tradução”, discute esses e outros aspectos do texto de Benjamin. Para o autor português, a tradução corresponderia a um “texto-outro” tomado como próprio, nem “um próprio inscrito sobre outro” (BARRENTO, 2006, p. 122). Nessa circunstância, a voz que fala é uma terceira: a da memória (estratificada, múltipla) da língua do tradutor e da tradição literária do poema. O uso particular do texto por parte do tradutor é que faz com que o traduzido seja modulado e distanciado do original. A tradução, portanto, faria emergir uma forma- sentido que possibilitaria o poema se reinscrever ali “como de um outro a si próprio destinado.” (BARRENTO, 2006, p. 122).

Com isso, salienta-se a noção de estranheza. Citando Edmond Jabès, Barrento afirma que mesmo estando no território da própria língua, o texto não será dele, gerando uma estranheza, uma terceira voz. Nos poemas de Paul Celan, por exemplo, Barrento diz que é possível ver outras línguas (dos pobres, dos carrascos). Nessa perspectiva, os limites se diluem: a lei da tradução, ou melhor, a tradução como lei, evidencia uma contaminação: “algo passa da língua do outro para a minha, e algo passa de estratos

vários da minha língua para aquilo que é a minha fala própria no texto em tradução...” (BARRENTO, 2006, p. 131).

É com tal raciocínio que o autor de “Da tradução” constrói o conceito de “espectralidade” (BARRENTO, 2006, p. 127). Segundo ele, para além da sistematicidade das línguas, a retórica (entendida como sinais performativos – invisíveis e ativos na linguagem) deixa entrever um aspecto que se refere ao que há de mais próprio no outro. Citando Merleau-Ponty, Barrento afirma que o sentido é construído entre as palavras, numa “intersecção”, e, as palavras, “as dobras no imenso tecido do falar”. Assim, a tradução seria um ato “performativo, de fundo intuitivo e pessoal”. (BARRENTO, 2006, p. 133). É por isso que o tradutor viveria no terreno tenso da decisão (ou da indecidibilidade). Aludindo ao conceito benjaminiano de língua pura, Barrento afirma que o desejo de traduzir estaria para além da fidelidade do sentido: ele deveria expressar o “que está acima das palavras, como um sopro de espírito”. (BARRENTO, 2006, p. 125).

O tradutor seria responsável por uma construção textual que leva em parte “sua voz”. Contudo, desde o mito babélico, essa voz é marcada por uma cisão. Assim, apesar de possibilitar diálogos entre povos de línguas diferentes, o tradutor teria essa cicatriz do desterro. Cindido, ele aponta para cisões – mas também pode agregar. Com tal mirada, faz-se interessante refletir sobre o poder que a tradução possui de atualizar textos, de trazê-los para contextos diferentes dos de sua produção, permitindo pensar em aspectos concernentes ao texto de saída e no discurso que mobiliza a tradução.

Se a tradução seria uma etapa última de um processo de maturação do texto de saída, ela pertenceria à “vida póstuma do original” (de MAN, 1989, p. 114), assumindo, nessa perspectiva, a morte do original. Morte que, contudo, não significa um caráter de esterilidade, de estagnação. A tradução, de tal modo, é fonte para discussão sobre o porquê de traduzir. Essa atividade permite pensar sobre o acesso por ela criado/permitido, dos objetos selecionados, do modo como é feita, do que se vislumbra com ela, do que supostamente se perde com a tradução, das exigências que pairam sobre o tradutor.