Nos inícios do século XXI, Porto Madeiro é considerado um bairro de Buenos Aires, ele é resultante do processo de refuncionalização e reabilitação do seu antigo porto, considerado atualmente como um dos “cartões postais” por excelência de Buenos Aires. Ele está localizado contíguo ao centro da cidade portenha, lugar característico do funcionamento do setor terciário e de serviços especializados da cidade (MENESSES, 2004)
Este pode ser considerada como um fragmento urbano articulado com a modernidade globalizada, e por outro um fragmento desvinculado como resto da cidade e inclusive dando as costas a ela e sendo indiferentes aos seus problemas. Mas também deve ser reconhecida a valorização de certos espaços públicos e o regate de velhos equipamentos (BERTONCELLO, 2006)
FIFURA 136: Mudança de escala.
Fonte: http://www.google.com.br/images FIFURA 137: "Cow Parade Buenos Aires 2006",exposição de artistas famosos do mundo todo. Fonte: http://www.google.com.br/images
A área foi objeto de um processo complexo de refuncionalização iniciado nos anos de 1980 e continua sendo desenvolvido até o dia de hoje. A qualidade ambiental do lugar foi valorizada, os diques constituem atualmente espelhos de água, as praias de manobras foram transformadas em passeios de pedestres, os antigos guindastes são utilizados como elementos decorativos simbólicos da paisagem portuária. Os armazéns foram reciclados conservando a imagem externa e foram refuncionalizados, passando a serem sedes de empresas e instituições como universidades, vivendas de luxo nos pavimentos superiores, e locais de comércio no pavimento térreo
O projeto foi direcionado desde os seus inícios na base temática do enfoque turístico e recreativo, gerando equipamentos características a esse fim. Com a intenção de criar uma imagem moderna e pujante para a cidade, que expresse o “ingresso no primeiro mundo” que o governo daquele momento apregoava para a Argentina. Ele reproduz modelos já incorporados em muitos lugares do mundo e compartilha com eles seus traços essenciais. Alguns atores classificam essa paisagem urbana como “paisajes urbanales”, precisamente porque ao estarem em consonância com processos globais nos quais encontram seus modelos e razão de ser, deixam de ser expressões do que é
FIGURA 139: Puerto Madero y reserva ecológica. Fonte: http://www.google.com.br/images
FIGURA 138: Puerto Madero vista para a área céntrica. Fonte: http://www.google.com.br/images
próprio do lugar.(Muñoz,2005); essas estratégias de potenciação a singularidade para diferenciar as cidades podem desembocar em uma homogeneização e estandardização. A perspectiva oposta dess .o é que a paisagem que expressam essas estratégias locais permitem sua articulação das mesmas dentro do contexto global, que apropriando-se de suas tendências constroem algo novo a partir do seu passado, proporcionando um novo significado e abrindo espaço para mudanças e transformações (BERTONCELLO, 2006)
“[...] la voluntad de salir a toda costa del clima de decadencia urbana que había resultado de la crisis del imaginario desarrollista, construyendo en pleno corazón de la ciudad la nueva ‘postal’ –de acuerdo a la afortunada metáfora de Alfredo Garay – que le permitiera a Buenos Aires reencontrarse con su destino de ciudad siempre moderna, de Reina del Plata.” (Gorelik, 2002; s/p.)
Ele é hoje um forte atrativo turístico da cidade, sua valoração turística não é resultado de um processo “natural”, mas sim de uma intenção explícita, ela foi desenhada em grande medida para ser um atrativo turístico. De tal forma que as visões mais tradicionais do turismo advertem sobre o caráter inautêntico dos seus atrativos e também da prática turística em si. O turismo tem práticas específicas dos turistas e dos habitantes do lugar, que podem dar caráter transformador e que, assim abrem espaço ao novo. Mas assim como o rol que o bairro terá na dinâmica social geral da cidade fica aberto, a função turística no lugar. (MENESES, 2004)
O projeto foi trabalhado sobre o conceito de “City Marketing”, ao qual se fez referência no segundo capítulo, como estratégia de renovação urbana por meio das técnicas de valorização da imagem da cidade, que neste caso passa de uma cidade de características clássicas e antiga conhecida também como a “paris sul-americana”, a uma imagem contemporânea inserida no contexto globalizado e que supera qualquer tipo de conflito econômico reinventando-se constantemente, uma cidade onde você pode encontrar tanto a cultura tradicional do tango até os refinados restaurantes e hotéis de renome internacional como expressões artísticas e arquitetura de ponta.
Uma das interrogantes que com relação à qualidade ambiental da área vem de parte dos ambientalistas que veem na transformação das áreas da reserva biológica em praças e parques como justificativa para integrar essas áreas à cidade, enquanto esta deveria estar sendo tratada como o que propriamente é uma reserva natural com uma riquíssima biodiversidade, correndo o risco de ser afeta de modo tal a perd -la (LOS EMPRENDIMIENTOS...2010). No mesmo ponto pode se ver a transformação significativa que este tipo de intervenção gera sobre a paisagem cultural da área que por um lado tinha uma das poucas imagens de reserva natural dentro da área urbana de uma cidade tão densa como é a de Buenos Aires, como também a escala que de escala de porte médio (correspondente aos prédios e equipamentos portuários históricos) passa a conformar uma maior escala característica de megaprojetos.
FIGURA 140: Porto Madeiro, uma nova imagem para a cidade. Fonte: http://www.google.com.br/images
Porto Madeiro: de antes de ontem, um símbolo de progresso para o país; ontem, uma mostra da superação do mesmo projeto por meio do progresso mesmo; hoje sede de contrastes arquitetônicos, econômicos, artísticos, tecnológicos, ideológicos, urbanísticos e sociais (GAMAS, 2010)
FIGURA 141: Reserva natural
PORTO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO – BRASIL
Panorama Histórico
.O porto e a cidade estão profundamente ligados na constituição da singularidade carioca e determinam características que se desdobram em urbanidades singulares: a cultura urbana, a composição social, as relações com o país e com o mundo (MOREIRA, 2004; p.92)
A cidade do Rio de Janeiro, fundada em 1565, à beira da Baía de Guanabara, passou por vários tipos de transformações no decorrer da sua história.Por um lado podemos ter em conta a sua designação que passou de Capital da Colônia Portuguesa, de 1763 até 1808, quando a família real e os nobres portugueses fugiram da invasão napoleônica para o Brasil, passando a ser assim Capital do Império no Brasil e depois Capital da República até que em 1960 a Capital foi transladada para a cidade projetada e construída para ser a nova capital “Brasília”.
O porto da cidade do Rio de Janeiro se confunde com a sua própria existência. Nos inícios da cidade as naves ancoravam em bordas de uma costa irregular, nas proximidades de uma zona plana e pantanosa progressivamente dissecada, entre os morros do Castelo e São Bento, onde posteriormente consolidou-se o centro urbano configurando-se dessa maneira a Praça XV(SEGRE, 2002). O porto como tal pode ser datado de 1870, com a construção da Doca da Alfândega, até então ele funcionava de forma dispersa compreendendo os trapiches da Estrada de Ferro Central do Brasil, da Ilha dos Ferreiros, da enseada de São Cristóvão, da Praça Mauá, e os cais Don Pedro II, da Saúde, do Moinho Inglês e da Gamboa. Em 1890 foi autorizada pelo governo a construção de um conjunto de cais acostáveis, armazéns e alpendres pelas empresas responsáveis daquele momento, Empresa Industrial de Melhoramento do Brasil e a The
Rio de Janeiro Harbour and Docks. Em 1903 o governo contratou obras de melhoramento construindo 3500m de cais (CDRJ)40
Mas essa estrutura portuária que é conhecida hoje nasceu na mesma transformação do espaço natural, construído no governo de Francisco Pereira Passos (1903-1906). Com as exigências do novo século foi impulsionada a ideia de ter um porto equipado com os recursos tecnológicos necessários para o incremento constate do movimento de mercadorias (SEGRE, 2002). Os primeiros trabalhos realizados foi uma série de aterros, posteriormente foram construídos o cais e os armazéns em três quilômetros. Isto dentro do contexto de modernização da capital, sendo este o primeiro porto com essas magnitude no país.
40 Informação retirada do documento elaborado pela Companhia Docas do Rio de Janeiro (CDRJ)
http://www.portosrio.gov.br/antigo/historicodoporto.htm FIGURA 142: Detalhe de uma pintura de 1841 do francês Jules de Sinety mostrando o porto do Rio e o Mosteiro de São Bento sobre o morro.
Fonte: http://www.google.com.br/images
FIGURA 143 Porto do Rio de Janeiro, 1861. Extraída da gravura de Thomas Ender
Fonte: http://www.google.com.br/images
FIGURA 144: Porto do Rio de Janeiro, 1942
Fonte:
Os trabalhos realizados para a modernização da cidade no governo Passos (1903-1906) por meio dos aterros, com bordes da baía regularizada, áreas verdes e passeios públicos, a cidade entendeu-se para a Zona Sul, inicialmente aos bairros Glória, Flamengo e Botafogo. A construção do túnel que comunicava a cidade com o mar aberto deu origem aos primeiros bairros na orla Copacabana, Ipanema e Leblon. Com a expansão da malha urbana no sentido sul, a relação mais estreita entre a cidade administrativa e o Porto passou a ser o terminal de passageiros da Praça Mauá. O auge funcional do Porto se agravou no final dos anos cinquentas. A administração se encontrava em mãos do Estado, que construiu uma série de edifícios públicos e conjuntos habitacionais para trabalhadores locais.
Sua decadência inicia-se nos anos sessentas com o traslado da capital a Brasília, a posterior instalação da ditadura militar (1964-1984). Causas de políticas locais, nacionais41 e internacionais, foi gerando um paulatino esvaziamento da área, com o deslocamento e paralisação das atividades portuárias, retirando assim o dinamismo desse tipo de áreas, fazendo que em cem anos, o papel do Porto do Rio diminuísse sensivelmente no cenário econômico nacional.
41 Desaparecida a função administrativa a escala nacional; superada a suas estruturas produtivas pelo
desenvolvimento industrial de São Paulo, a competência entre os portos de Vitória e Santos, fez FIGURA 145: Praça Mauá década de 20
Fonte: http://www.google.com.br/images
FIGURA 146: Túnel dos irmãos. 1940 Fonte:http://www.google.com.br/images
Uma das transformações de grande porte que modificou de forma significativa o espaço urbano circundante da zona portuária foi a construção, na década de setenta, do gigantesco elevado conhecido como “Via Perimetral”, elemento urbano que unia Niterói ao centro da cidade por meio da ponte “Costa e Silva”. (SEGRE, 2000). Este produziu um impacto importante na qualidade ambiental da área urbana, corredores escuros que desvalorizaram os prédios e ajudaram na sua deterioração (FERREIRA, 2010).
A criação do Porto de Sepetiba (1982) no mesmo estado do Rio de Janeiro foi um dos últimos golpes de abandono recebido pelo porto do Rio. Houve importante êxodo residencial, comercial e industrial da área denominada zona portuária, assim o abandono de galpões e mesmo de residências permitiu a ocupação de vários deles por moradores de rua (SEGRE, 2000)
Com a volta da democracia foi crescente o interesse de várias camadas e grupos sociais, de revitalizar as áreas centrais do Rio de Janeiro. As primeiras iniciativas de regate do centro histórico focaram sua conservação e refuncionalização do mesmo. Mas naquele mesmo momento iniciou-se a migração dos estratos mais ricos para o novo espaço residencial da Barra da Tijuca que se encontra situada ao longo da costa sudoeste.
FIGURA 147: Via perimetral paralela a linha do cais. Fonte: http://www.google.com.br/images
FIGURA 148: Vista da parte baixa da via. Fonte: http://www.google.com.br/images
Ano 1710
Ano 1817 Ano 1608
Ano 1930
Ano 2003 FIGURA 149: Processo de formação da Área Portuária do Rio de Janeiro.