Com eçam os est e capít ulo apresent ando alguns aspect os do nascente I m pério Rom ano no prim eiro século da era crist ã, dest acando as m udanças polít icas, sociais e cult urais que esse período de t ransição na form a de governos apresent ou e algum as m aneiras de inserção ut ilizadas por Rom a para t ent ar dar coesão às diferent es realidades das terras conquistadas. Buscam os tam bém apontar que esse processo rom ano de ext ensão t errit orial e conquist a não foi hom ogêneo nem harm onioso, acarretando diversos t ipos de reações entre as populações a quem se dirigiu. No que se refere à capit al do I m pério, Rom a, m uit as m udanças t am bém acom panharam esse período – m udanças sociais, políticas, econôm icas e culturais.
At é aqui, ent ret ant o, apresent am os essas m udanças do ponto de vist a do poder im perial est abelecido, apesar de t erm os salientado
em diversas ocasiões, a com plexidade dos fenôm enos e sit uações descrit as, que im plicam num a variedade de reações. Com relação aos m unera, dest acado em nosso t ext o com o um sím bolo da cult ura rom ana e ao m esm o tem po abraçado e ut ilizado com o sím bolo de poder e m ecanism o para seu exercício, apont am os a presença de pessoas das m ais variadas classes sociais – especialm ente dos setores subalt ernos da população – m as cum pre- nos esclarecer quem seriam essas pessoas e qual a im port ância de sua presença e m anifest ação nos m unera.
Durante séculos, tem se est abelecido a visão da população rom ana ( e aqui se destaca a população da cidade de Rom a, capital do I m pério, m as as visões acera da plebe são gerais) sendo com posta por um a m assa am orfa, desint eressada pela polít ica e pelo t rabalho, desej osa de “ pão e circo” , de viver às cust as do Est ado e divert ir- se. Essa im agem , derivada da reprodução irreflet ida das font es da ant iguidade ( font es que represent avam , em sua m aioria, a visão de m undo e a opinião das elit es) , foi propagada por classicist as dos séculos 19 e 20, com o m encionam os anteriorm ente, de form a bastant e sim plist a, hom ogeneizant e e acrít ica.
Dessa form a, a t endência de m uit os est udiosos97 foi de considerar sob o rótulo de “ povo” todos os segm entos populares, indist int am ent e. Bandidos, gladiadores, escravos, libert os e pobres em geral eram vist os com o pert encent es ao m esm o grupo e t eriam , port ant o, a m esm a visão de m undo e as m esm as ideias. Obviam ent e, essa percepção desconsidera as part icularidades de cada grupo específico e as possibilidades de conflit o ent re os m esm os98.
97Conform e Theodor Mom m sen, História de Rom a ( Excertos) . Rio de Janeiro: Editora Opera Mundi, 1973; J. Carcopino, Rom a no Apogeu do I m pério, São Paulo: Com panhia das Let ras, 1990; J. N. Robert , Os Prazeres de Rom a, São Paulo: Mart ins Fontes, 1995; M. Rostovtzeff, História de Rom a, Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
98Precisam os ter em m ente que a dicotom ia sim plista “ elite/ plebe” não corresponde à com plexa realidade do período. Além da divisão social entre cidadãos e não cidadãos havia a divisão entre pessoas livres e não livres. Entre os “ livres” , havia os livres de nascim ento e os libertos e, entre os cidadãos, tam bém havia ordens: plebéia,
A respeito da possibilidade de conflitos, a opinião geral ent re esses pesquisadores, dest acada por Veyne99, é a de que esses grupos ( ou esse grupo, a plebe) t eria int ernalizado de t al form a os valores da elit e que as diferenças de classe e de condição social ( de quem poderia usufruir as benesses do Est ado, os excedent es da econom ia e assim por diant e) era consideradas com o nat urais. Para esse aut or, as classes populares buscavam apenas beneficiar- se através das relações pessoais do pat ronat o, e os conflit os que poderiam advir seriam devidos a essa relação: ou conflit os entre clientes pela preferência/ acesso ao pat rono, ou conflit os ent re client es de pat ronos diferent es para a ascensão de seu benfeit or e consequent em ent e m aior acesso aos benefícios do sist em a.
Out ro pont o salient ado pelos est udiosos, nesse context o, seria a pret ensa ociosidade do povo rom ano, que o levava a viver às cust as do Est ado e dessas relações pat ronais, com preensão que deu ext ensão à popular e errônea idéia de que o “ povo” rom ano ( com o um t odo) andava ansioso apenas por “ pão e circo”100, que eram oferecidos pelo Est ado na form a de doação de t rigo e oferecim ent o de espet áculos regulares, ent re os quais se incluíam os m unera.
eqüestre e senatorial. Além dessas divisões, havia as divisões econôm icas entre os grupos. A enorm e gam a de possibilidades de associação entre essas divisões nos perm ite perceber a im possibilidade de sim plificar a questão acerca da com posição social de Rom a, bem com o nos im pede de pensar que não havia conflitos entre esses grupos.
99Paul Veyne, “ O I m pério Rom ano” , em G. Duby e P. Áries ( organizadores) , Hist ória da
Vida Privada, São Paulo: Com panhia das Letras, 1990, volum e 1, p.61- 121.
100 A expressão deriva de um a Sátira de Juvenal, autor latino ( 62- 67 a.C. a 130 d.C., aproxim adam ente) , conhecido por seu tom pessim ista acerca da sociedade rom ana, que m uitas vezes beirava ao trágico, com áridas críticas ao com portam ento social e descrição exagerada de cenas e personagens. Pelo fato de descrever situações cotidianas em detalhes, os escritos de Juvenal tornaram - se referência para os estudos m odernos, especialm ente por apresentarem inform ações acerca dos m ais baixos estratos sociais rom anos, m uitas vezes inexistentes em outras fontes. Todavia, a tendência de desconsiderar as características estilísticas desses escritos e deslocá- los de seu cont exto tem criado interpret ações sim plistas e irreais, com o aparentem ente é o caso da interpretação corrente dada à expressão acim a. Considerada em seu teor irônico e em com paração com o cont exto m aior da obra, percebem os um a crítica à corrupção dos valores da sociedade com o um todo, especialm ente com relação ao apego à riqueza. Existe de fato apresentação de um a im agem negativa da plebs, m as esta encontra- se em um contexto m ais am plo, cuj o significado é m ais am plo do que o corrente e que m erece ser m elhor analisado.
Ent ret ant o, essa visão despolit izada e t ot alm ent e dependent e acerca da plebe rom ana, assim com o a ideia de que as pessoas das classes subalternas da sociedade poderiam ser consideradas com o um m esm o grupo coeso precisa ser quest ionada. Em bora percebam os que havia um a visão pej orat iva por part e das elit es ( de onde deriva a m aioria das font es escrit as do período, com o m encionam os anteriorm ente) com relação a essas classes populares, essas m esm as font es indicam que t ais pessoas eram socialm ent e at ivas, possuíam at ividades rent áveis que proviam à sua subsist ência e, ainda, t inham um pot encial polít ico que poderia se m anifest ar.
Em sua t ese de dout orado defendida em 2007, Luciane Munhoz de Om ena101 apresenta um a análise da visão do filósofo estóico Sêneca ( 4 a.C – 65 d.C) acerca dos setores subalternos da sociedade rom ana buscando desconst ruir essa im agem de “ plebe ociosa” , dem onst rando que os escrit os do filósofo apont am os t rabalhos e ofícios desem penhados por essas pessoas para sua m anut enção. Em bora o filosofo apresente esses ofícios de form a bastante desdenhosa e pej orat iva, assim com o faz com as próprias pessoas que os desem penham , const at a- se que a supost a ociosidade do povo, em bora pudesse ser um ideal, defendido pela elit e com o condição para se desenvolver a uirt us102, não era a realidade dessas cam adas
subalt ernas da população.
101Luciane Munhoz de Om ena, Pequenos Poderes na Rom a I m perial: O Povo Miúdo na
Ótica de Sêneca, Tese de Doutorado apresentada ao Program a de Pós Graduação em
História Social do Departam ento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hum anas da Faculdade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Norberto Luis Guarinello. São Paulo, 2007.
102O ócio e a repulsa ao trabalho eram , no m undo rom ano, valores cultivados pela elite e devidos aos cidadãos nobres, pois quem fosse obrigado a ganhar seu sustento trabalhando, de acordo com essa opinião, não poderia desenvolver- se m oralm ente. O trabalho era adm itido para as classes m ais baixas ( pois era um a necessidade para a m anutenção do Estado e para a ocupação da plebe) , m as eram separados em categorias, pois havia atividades que poderiam ser exercidas pelos cidadãos pobres, e outras que só deveriam ser executadas por não cidadãos. Conform e Paul Veyne,
“ O I m pério Rom ano” , em G. Duby e P. Áries ( organizadores) , Hist ória da Vida Privada, São Paulo: Com panhia das Letras, 1990, volum e 1.
Segundo Om ena, as palavras ut ilizadas por Sêneca em suas obras para referir- se a essas cam adas subalt ernas dem onstram seu desprezo e seu sentim ent o de superioridade: populus, plebe, t urba, hum illi são palavras de conot ação pej orat iva, que indicam um a m ult idão sediciosa, delinquent e, insensat a e aut odest rut iva, associada à m ediocridade, à ira, à guerra e à luxúria103. No ent ant o, o m esm o filósofo, ao aconselhar o I m perador Nero, orient a que o m esm o cult ive um a boa convivência com essas pessoas assim com o com a elite, a fim de obt er a adm iração, aprovação e fidelidade de t odo o povo, coisas sem as quais não poderia governar, pois por m ais absoluto que fosse o poder, não seria possível exercê- lo sozinho104.
Essas indicações nos levam a duas conclusões. A prim eira é que havia um desprezo pelas cam adas populares por part e das elit es rom anas ( das quais Sêneca é represent ant e) . A segunda é de que havia o receio de que essas cam adas populares viessem a causar problem as à adm inist ração do I m pério, realidade que não pode ser ignorada.
Dizer que a população de Rom a era com post a por um a m assa despolit izada e am orfa m ost ra- se, port ant o, com o um a declaração irreal. A vida e a cult ura da população eram m arcadas por contradições, e essas eram sentidas nos seios das cam adas subalt ernas da sociedade. No ent ant o, devem os com preender que essa percepção form ava um paradoxo, pois as form as de m anifestação populares não eram sist em át icas, não havia a elaboração de pensam ent os “ t ransform adores” , com o nos acost um am os a pensar que
103Luciane Munhoz de Om ena, Pequenos Poderes na Rom a I m perial: O Povo Miúdo na
Ótica de Sêneca, Tese de Doutorado apresentada ao Program a de Pós Graduação em
História Social do Departam ento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hum anas da Faculdade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Norberto Luis Guarinello. São Paulo, 2007, p.98.
104Luciane Munhoz de Om ena, Pequenos Poderes na Rom a I m perial: O Povo Miúdo na
Ótica de Sêneca, Tese de Doutorado apresentada ao Program a de Pós Graduação em
História Social do Departam ento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hum anas da Faculdade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Norberto Luis Guarinello. São Paulo, 2007, p.67.
as m anifest ações polít icas devem ser. Os elem ent os cit ados acim a, que com punham a visão de m undo acerca do que era a sociedade rom ana com punham um a im agem perm eada de sent idos sim bólicos que dificult ava grandem ent e qualquer ideia de t ransform ação. Ainda assim , havia a preocupação, com o apont ado por Sêneca, de que o Princeps m ant ivesse as coisas em ordem , não desagradando à população.
Dessa form a, consideram os que o oferecim ent o de espet áculos era um inst rum ent o usado com esse obj et ivo não porque as pessoas fossem polit icam ent e desint eressadas, m as ao cont rário, porque precisavam de um “ paliat ivo polít ico” que am enizasse a perda de poder sentida ( m encionada acim a) com o est abelecim ent o do Principado e as diferenças sociais e econôm icas, dando a sensação ao m esm o tem po de pert encim ent o ao grupo, de colaboração com a m anut enção do I m pério, de proxim idade com o I m perador ( quando present e aos espet áculos) e de decisão, ao det erm inar o dest ino de um gladiador.
Percebem os que a com preensão acerca da plebe pode ser com parada com o uso frequent e da palavra
o;cloj
ut ilizada por Marcos na com posição de seu Evangelho.Pret endem os agora aproxim ar os dois “ m undos” apresentados at é aqui: o m undo do I m pério Rom ano colonizador e dom inador, e o m undo da Palest ina, periferia do I m pério e dom inado, para ver que relações o t ext o de Marcos t em com esses m undos, e qual a relação ent re o t ext o est udado, o I m pério Rom ano e, m ais det alhadam ent e, o fenôm eno dos m unera. Passem os, pois, ao próxim o capít ulo.