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Devido à minha inserção no MST, buscamos desenvolver a investigação empírica na perspectiva do ‘trabalho de campo’, assim como proposto por González Rey (2005). Para esse

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Para os assentamentos foi considerada a data de fundação do projeto de assentamento, para os acampamentos, foi considerada a data de ocupação da área.

autor, este é um processo de pesquisa que implica em participação espontânea do pesquisador na vida cotidiana dos sujeitos estudados e na integração entre campo e teoria. Reconhece-se que trabalho de campo e produção teórica não são dois momentos distintos da pesquisa, pelo contrário, relacionam-se constantemente. Nessa perspectiva, o trabalho de campo configura-se como um momento de descoberta e criação, um processo ativo e simultâneo de investigação e produção teórica.

No trabalho de campo, o percurso da investigação não se limita a um problema inicial de pesquisa ou hipótese, no sentido de ‘limitar’ o olhar da investigação. Pelo contrário:

[...] o pesquisador está exposto permanentemente a confrontar com o novo, motivo pelo qual se vê obrigado a desenvolver conceitos e explicações que deem sentido às novas experiências para incluí-las no processo de construção do conhecimento (GONZÁLEZ REY, 2005, p. 101).

Para esse autor, o termo ‘coleta de dados’ significa um “momento de acúmulo de informação, à qual será atribuído um significado só posteriormente, na etapa de interpretação de resultados” (GONZÁLEZ REY, 2005, p. 97). Já no trabalho de campo pressupõe-se um processo permanente de vivência de relações e de construção dos eixos de pesquisa. Implica não só em registrar eventos, mas em construir ideias e processos investigativos mediante a presença do pesquisador em campo.

Na pesquisa qualitativa, a comunicação estabelecida entre o pesquisador e os pesquisados deve levar em consideração esse caráter construtivo e interativo do conhecimento, uma vez que os sujeitos pesquisados não expressam em uma ‘resposta breve e direta’ a riqueza contraditória da realidade. Por isso, é necessário o diálogo entre pesquisador e pesquisado, para que se realizem verdadeiras construções. Segundo González Rey, “no diálogo se criam climas de segurança, tensão intelectual, interesse e confiança, que favorecem níveis de conceituação da experiência que raramente aparecem de forma espontânea na vida cotidiana” (GONZÁLEZ REY, 2005, p. 55).

Assim, no desenvolvimento da pesquisa qualitativa, a qualidade da expressão do pesquisado - ou seja, o valor da qualidade da informação - apresenta estreita relação com o tipo de vínculo construído com o pesquisador. Demanda, portanto, envolvimento e motivação do pesquisado.

É nesse sentido que se buscou desenvolver a comunicação inerente ao processo investigativo na pesquisa qualitativa. Ao longo desses anos, a minha vivência como integrante do Setor Estadual de Saúde do MST propiciou o compartilhamento de práticas, projetos e

valores com integrantes do MST no Vale do Rio Doce e permitiu-me o estabelecimento de uma relação de vínculo com os sujeitos pesquisados, em especial com as mulheres integrantes do Setor Regional de Saúde.

Isso não quer dizer que, em alguns momentos, a minha comunicação com os sujeitos pesquisados não tenha se aproximado de uma ‘coleta de dados’, um problema inerente ao pesquisador em processo de formação. Isso ocorreu principalmente no Assentamento 1° de Junho, única área visitada em que poucas pessoas me conheciam, o que perceptivelmente acarretou em algum prejuízo no desenvolvimento de uma comunicação mais horizontal com os sujeitos pesquisados.

O trabalho de campo foi desenvolvido entre os meses de março a novembro de 2011. Ao longo desses meses, foram realizadas sete viagens a campo, com duração de dois a quatro dias cada. Teve início a partir de uma entrevista com um grupo focal com o Setor de Saúde Regional, que aconteceu durante uma reunião programada do grupo no Acampamento Padre Gino, em Frei Inocêncio.

A entrevista de grupo focal é utilizada quando se pretende dar ênfase à interação do grupo e à discussão de assuntos de interesse público ou preocupação em comum. Caracteriza- se por um conjunto de pessoas que discutem e comentam sobre o assunto pesquisado a partir da sua experiência de vida. Nessa metodologia, busca-se criar condições para que um grupo se sinta convidado a conversar sobre uma determinada temática, explicitando os pontos de vista dos integrantes (GATTI, 2005, p. 9).

A resposta que emerge leva em consideração que “os sentidos e representações do grupo são influenciados pela natureza social da interação em vez de se fundamentarem na perspectiva individual” (GASKELL, 2003, p. 75). E assim, além de ajudar na observação de perspectivas diferentes diante de uma mesma questão, permite a compreensão de ideias partilhadas entre um grupo, bem como compreender “[...] os fatores que os influenciam, as motivações que subsidiam as opções, os porquês de determinados posicionamentos” (GATTI, 2005, p. 14).

A escolha por se iniciar o trabalho de campo através do Setor de Saúde Regional deve- se ao caráter de representatividade que tal instância estabelece no processo organizativo do MST, além do significativo envolvimento do grupo nas diversas ações do MST na região. Com isso, o Setor de Saúde Regional não só é a instância representativa da saúde no MST do Vale do Rio Doce, como é constantemente reconhecida pela Organização, dado o grau de envolvimento de suas representantes nas ações regionais e nos assentamentos e acampamentos.

A entrevista com o grupo focal teve como objetivo captar como as integrantes do Setor de Saúde Regional compreendem a Saúde tal como proposta pelo MST, além de identificar práticas desenvolvidas em assentamentos e acampamentos da região que, na visão do grupo, concretizem esse ideal de saúde. Contou-se com a presença de oito pessoas e a reunião teve a duração de 02h30min.

A primeira parte da entrevista com o grupo focal consistiu na discussão do conceito de saúde do MST, que foi desenvolvida a partir de objetos geradores. Para isso, foi solicitado a cada integrante que trouxesse para a entrevista um objeto que simbolizasse a saúde no Movimento. Os integrantes apresentaram seus objetos escolhidos e expuseram os motivos das escolhas. A exposição seguiu-se de debate entre o grupo no sentido de trazer elementos não mencionados inicialmente, bem como aprofundar explicações. Em seguida, buscou-se construir, com a participação do grupo, uma sistematização conceitual, que foi denominada como ‘Eixos da Saúde no MST’.

A segunda parte da entrevista com o grupo focal, denominada de ‘Panorama das práticas de saúde no MST’, consistiu de identificação das práticas de saúde que são desenvolvidas nos assentamentos e acampamentos do MST na região do Vale do Rio Doce. Nesse momento, o grupo fez uma ‘chuva de ideias’ das ações desenvolvidas em cada assentamento ou acampamento, a partir dos eixos da saúde construídos no primeiro momento da entrevista coletiva. Em seguida, foram escolhidas algumas experiências a serem estudadas por meio desta pesquisa, considerando-se a importância dessas experiências na construção da

Saúde no MST. Além disso, foi possível identificar pessoas que são referências no

desenvolvimento dessas experiências, para atuarem como informantes da pesquisa.

Em um segundo momento do trabalho de campo, iniciou-se a investigação sobre as experiências indicadas pelo Setor Regional de Saúde, que ocorreu através da observação participante e entrevista semi-estruturada. Para isso, foram realizadas visitas aos seguintes assentamentos e acampamentos da região: Assentamento 1° de Junho, em Tumiritinga; Assentamento Barro Azul e Assentamento Oziel Alves Pereira, em Governador Valadares; Acampamento Juscelino dos Santos e Acampamento Padre Gino, em Frei Inocêncio; e Assentamento Ulisses de Oliveira, em Jampruca.

Nas visitas aos assentamentos e acampamentos, conversou-se com as próprias pessoas indicadas como referências das experiências ou com lideranças locais. Essa conversa inicial teve o objetivo de melhor compreender as ações em desenvolvimento na área, o histórico e a abrangência das mesmas nas respectivas comunidades, ou até mesmo na região. Algumas

dessas experiências puderam ser investigadas por meio da observação participante, no caso de circunstâncias favoráveis à observação, ou no caso das ações programadas.

A observação participante é empregada quando se deseja estudar situações sociais e comportamentos típicos, no seu contexto e no momento de sua ocorrência. Possibilita coletar dados sobre comportamentos não verbais, não intencionais ou inconscientes, bem como explorar tópicos inconvenientes de serem explorados através de uma entrevista, por exemplo. Além disso, possibilita estudos com maior profundidade do conjunto dos sujeitos investigados e é uma técnica menos ‘reativa’ do que as comumente utilizadas. Contudo, demanda maior período de imersão do pesquisador no contexto investigado e se limita aos limites temporais e espaciais do fenômeno. (VIANNA, 2003, p. 56).

Na observação participante, registramos, em um diário de campo, os fenômenos à medida que eles ocorriam. Nesta se deu ênfase à observação das práticas desenvolvidas, aos seus contextos, à participação das pessoas, à relação com outros processos organizativos, às lógicas e valores embutidos e aos principais impactos dessas ações.

No caderno de campo, buscamos registrar fenômenos, mas também reflexões decorrentes das vivências, aproximando-se do que podemos denominar como ‘caderno de reflexão’, ao permitir o diálogo entre os fenômenos estudados e as ideias, fornecendo possibilidades de construções teóricas mais complexas (conforme discussão sobre os ‘indicadores’ na seção 2.5). Também foi utilizada a fotografia como forma de registro para melhor explicitar os fenômenos observados.

Além da observação participante, realizou-se entrevista semi-estruturada com as pessoas de referências das experiências. Esta consiste em uma técnica de coleta de dados que supõe uma conversação entre pesquisador e informante, e que deve ser dirigida de acordo com os objetivos da pesquisa. É utilizada para a “compreensão de crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos” (GASKELL, 2003, p. 65).

Nesta pesquisa, ela foi desenvolvida com o objetivo de se apreender os valores e os debates de normas que orientam o desenvolvimento das práticas de saúde por parte dos sujeitos investigados. As entrevistas ocorreram em forma de conversa aberta, priorizando-se a escuta, e através delas foi possível captar aspectos objetivos e subjetivos das experiências dos sujeitos.

O roteiro de entrevista foi construído na forma de tópico guia, com questões a serem abordadas com os sujeitos entrevistados. Esse tópico guia atuou como um convite aos pesquisados para falarem com suas próprias palavras sobre suas experiências e motivações.

No Apêndice C é possível visualizá-lo. Foram realizadas ao todo dez entrevistas, com duração mínima de 40 minutos e máxima de 120 minutos.

Além disso, ao longo desses meses, na condição de integrante do Coletivo Estadual de Saúde do MST, troquei email e telefonemas com algumas integrantes do Setor Regional de Saúde, participamos juntas de lutas e mobilizações e realizamos reuniões para a discussão de questões regionais e estaduais da saúde no MST. A minha participação como militante do MST propiciou-me um contato permanente com algumas integrantes dessa pesquisa e, consequentemente, o acesso a informações mesmo nos momentos de ‘ausência’ do trabalho de campo.

Por fim, gostaríamos de destacar a importância dos ‘momentos informais’ da pesquisa. Consideramos que a observação participante que se desenvolveu por meio das visitas às casas das pesquisadas - ao redor do fogão de lenha ou na cozinha, ao se compartilhar o trabalho doméstico, no descanso após o trabalho, nos desabafos e conversas ‘jogadas fora’ - foi tão importante para o desenvolvimento desta investigação quanto a observação participante nas práticas propriamente ditas ou até mesmo as entrevistas.

2.4 CONHECENDO OS SUJEITOS DA PESQUISA: OS AGENTES DA SAUDE NO

Benzer Belgeler