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No MST, equipes de saúde se organizaram desde as primeiras ocupações de terras, e desde então se incorporaram à organicidade do MST. Nos primeiros momentos, as principais contribuições à organização das práticas de saúde nos assentamentos e acampamentos do MST vieram das pastorais sociais da Igreja Católica, em especial, da Pastoral da Saúde.

O trabalho com a saúde no MST começou ainda com as primeiras ocupações de terras. Quando eram formadas as equipes internas dos acampamentos, já se incluía a de saúde, que normalmente tinha a função de cuidar das pessoas com algum problema de saúde. Foi assim que em vários estados, o MST começou a desenvolver práticas em saúde. Começou a produzir remédios caseiros, homeopáticos, desenvolver técnicas de massagem e realizar cursos de primeiros socorros. Cada estado tinha seu jeito de organizar (PEREIRA, 2009, p. 2).

Em 1995, no III Congresso do MST, a questão da saúde entrou em pauta a partir da necessidade de se desenvolver as práticas de saúde para além de uma demanda imediata. Foi, contudo, em 1998, que a saúde passou a se organizar enquanto setor em nível nacional, segundo os princípios organizativos do MST (DAROS, DELLAZARI; ANDREATA 2007,

Nesse ano, deu-se a organização do Coletivo Nacional de Saúde, que teve como marco uma oficina nacional de socialização de experiências de saúde do MST, que contou com representantes dos 23 estados brasileiros nos quais o MST se organizava (PEREIRA, 2009, p.2). Esse momento foi um marco para a saúde no MST que, desde então, passou a ter representação na instância nacional do Movimento e a ser planejada a partir dos objetivos e estratégias do mesmo.

Com a organização do Coletivo Nacional de Saúde, produziu-se o Caderno de Saúde n° 1: “Lutar por saúde é lutar pela vida”. Nesse momento, passou-se à discussão e elaboração sobre o conceito, os princípios e os valores da saúde no MST. Nesse Caderno, o MST afirma que para ter saúde é preciso mais que assistência médica e hospitalar, é necessário garantir condições de vida para que as pessoas não fiquem doentes.

Entendemos que para ter saúde é preciso que as condições de vida sejam garantidas: terra e trabalho; condições de moradia; educação de qualidade; alimentação saudável, sem venenos e conservantes; meio ambiente limpo e conservado; lazer e bem-estar, etc (MST, 1999, p. 5).

No entanto, de acordo com Daros, Dellazari e Andreata (2007, apud BURIGO, 2010, p. 96), inicialmente o Coletivo se ocupou de ações focadas na assistência, como produção de fitoterápicos ou enfrentar problemas imediatos voltados para as situações de adoecimento. A partir de então, propôs-se a apropriação dos referenciais orientadores do Movimento da Reforma da Sanitária, passando a incorporar elementos como direito à saúde, educação em saúde, vida saudável e sua relação com a transformação social. A I Oficina de Produção de Materiais Educativos do Setor de Saúde, realizada em 2000, foi considerada um marco nessa mudança de concepção.

Em seguida, desenvolveu-se uma pesquisa sobre as condições de saúde e vida na reforma agrária, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), que gerou um importante debate interno à Organização, e mostrou alguns dos desafios à saúde na reforma agrária, entre os quais se incluem: fortalecer a organização da saúde nos estados e em nível nacional e desenvolver a formação técnica de militantes da saúde. Desde então, foram construídos os primeiros cursos técnicos na área da saúde, foram desenvolvidas atividades junto com outros setores do Movimento - especialmente formação, educação e produção – e passou-se a atuar de forma organizada nas atividades massivas do Movimento, como marchas, encontros, etc. (PEREIRA, 2009, p. 2).

Ao longo desse processo e, principalmente a partir da pesquisa em parceria com a UnB, o tema da saúde ambiental foi incorporado à pauta do Coletivo Nacional de Saúde, haja vista a situação dos assentamentos e acampamentos relacionada à falta de saneamento, contaminação por agrotóxicos, condições de moradia e sua relação com o perfil de adoecimento das famílias assentadas e acampadas.

A Cartilha n° 5 “Construindo o conceito de saúde do MST” também representou um importante avanço na problematização e construção do conceito de saúde do Movimento. Esse material foi construído na forma de cartilha ilustrada e álbum seriado e, ao longo desses anos, tem servido de referência para discussão e problematização sobre o conceito de saúde com as famílias acampadas e assentadas.

Por fim, destacamos o aprofundamento das discussões e formação política sobre o SUS e as políticas públicas de saúde, como importante passo na organização do setor. Em alguns estados, o setor passou a participar das instâncias do controle social, principalmente nos municípios (PEREIRA, 2009, p. 3). Em 2005, passou a integrar, com outras organizações da sociedade civil, o Grupo da Terra11, junto ao Ministério da Saúde, para construção da Política Nacional de Saúde Integral dos Povos do Campo e da Floresta12

(PNSIPCF), uma das principais conquistas no âmbito das políticas públicas para a saúde das populações do campo. Além da Política, destaca-se: a conquista da mudança no cálculo do Piso de Atenção Básica (PAB), que passa a incluir a população assentada; o lançamento de medidas que estimulam o PSF em municípios tipicamente rurais; e o estímulo à construção de políticas voltadas para as plantas medicinais e a fitoterapia (CARNEIRO, 2007, p. 49).

Em 2005, o Coletivo Nacional de Saúde do MST elaborou o Caderno “Relato das Experiências em Saúde do Movimento Sem Terra”, no qual sistematizou experiências e depoimentos dos Coletivos Estaduais de Saúde do MST. De acordo com essa publicação, as experiências do MST referem-se principalmente aos relatos de convivência e cuidado entre militantes e familiares em caso de adoecimento, a promoção de hábitos saudáveis à saúde, a efetivação do direito à assistência em saúde, preparo de remédios à base de plantas medicinais, cuidado com alimentação, com a higiene e com o ambiente, oficinas com a juventude sobre sexualidade, cuidado com os portadores de sofrimento mental, e inserção nas lutas e processos organizativos do próprio MST (MST, 2005, p. 9).

11 O Grupo da Terra foi instituído pelo Ministério da Saúde, por meio da Portaria n ° 719, de 14 de abril de 2004, atualizado pela Portaria n° 3257, de 22 de dezembro de 2009, e é composto por representantes de órgãos e entidades públicas e da sociedade civil organizada.

12 A PNSIPCF foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Nacional de Saúde, em agosto de 2008, mas, apenas em 02 de dezembro de 2011, o Ministério da Saúde publicou a portaria nº 2.866, que institui a Política.

Benzer Belgeler