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O início da organização do MST em Minas Gerais se desenvolveu nos vales do Mucuri e do Jequitinhonha. As primeiras reuniões foram em 1984, no município de Poté, promovidas pelas Comunidades Eclesiais de Base e pela Comissão Pastoral da Terra. A organização rapidamente se expandiu para municípios vizinhos e consolidou uma organização a nível regional. Nesse momento, a discussão estratégica oscilava entre o apoio à luta dos posseiros ou ocupação de terras, uma vez que os índices de violência no campo cresciam significativamente no período, e parte dos integrantes não se dispunham a assumir a estratégia da ocupação de terras como forma de luta dos trabalhadores rurais (FERNANDES, 2000, p. 136).

A primeira ocupação ocorreu apenas em 1988, em Novo Cruzeiro, Vale do Jequitinhonha, e contou com cerca de 400 famílias que ocuparam a fazenda Aruega. Essa ocupação e as que se seguiram foram respondidas com alta repressão policial e da milícia privada organizada pela União Democrática Ruralista (UDR) nas regiões. A repressão levou à desistência de diversas famílias, mas não impediu a continuidade das lutas do MST no Jequitinhonha e a expansão para a região noroeste e o triângulo mineiro (FERNANDES, 2000, p. 137).

Após a ocupação de Aruega, as famílias remanescentes realizaram várias tentativas de ocupar outras fazendas na região, mas foram igualmente repreendidas pela Polícia Militar e pela UDR. Em 1° de Junho de 1993, parte dessas famílias ocupou a fazenda Califórnia, em Tumiritinga, no Vale do Rio Doce. Como a fazenda estava em processo de desapropriação, não houve despejo e, posteriormente, originou o Assentamento 1° de Junho. Desde então, o MST passou a se organizar no Vale do Rio Doce. Nos anos seguintes presenciaram-se ocupações nos municípios de Governador Valadares e Periquito (FERNANDES, 2000, p. 139).

A luta pela terra no Vale do Rio Doce é marcada pelo confronto entre posseiros e grileiros de terras e sua milícia armada. Carlos Olavo da Cunha, em seu livro “Nas terras do rio sem dono”, relata o processo de ocupação da região pelo povo nordestino, expulso pelo latifúndio e pela seca do Nordeste. Estes chegaram de caminhões ‘pau de arara’, na década de 40, após a fundação da rodovia Rio Bahia, em busca dos mercados de trabalho do Sul. O autor relata que esses trabalhadores nordestinos “haviam descoberto uma terra onde os rios não tinham dono. Matas imensas a perder de vista [...]. Água em cada quebrada. E sem dono. Sem dono o rio, sem dono a terra” (PEREIRA, 1980, p. 3-4).

Assim, esse foi o povo que passou a colonizar a região na condição de posseiro e na esperança de um dia ter a posse da terra. A obra de Carlos Olavo da Cunha relata o aparecimento dos grileiros de terras na região e o confronto que se instaurou e acarretou em alto êxodo rural. A obra relata também a organização dos trabalhadores sem-terra da região, nos anos 60, em torno dos sindicatos de trabalhadores rurais, e o projeto de se desenvolver o Plano Piloto de Reforma Agrária no Governo João Goulart. Os sem-terra propunham que o Plano Piloto fosse desenvolvido na Fazenda Ministério, uma área pública utilizada pelos grandes fazendeiros da região para extração madeireira e pecuária extensiva. O governo federal aderiu à proposta e a inauguração da fazenda Modelo estava marcada para o dia 31 de março de 1964, data do Golpe Militar. O autor nos conta que a organização dos ruralistas na região foi extremamente forte, levou à organização de uma das milícias privadas mais fortes do período e contribuiu significativamente para a adesão do então Governador Magalhães Pinto ao Golpe Militar (PEREIRA, 1980). A Fazenda Ministério foi ocupada pelo MST três décadas depois, gerando o então assentamento Oziel Alves Pereira.

O histórico de colonização da terra no Vale do Rio Doce, marcado pela pecuária extensiva, pela alta degradação dos recursos naturais e também pelo abandono de terras, gerou um quadro de grande devastação ambiental na região. Dessa forma, as áreas de assentamentos e acampamentos do MST possuem um passivo ambiental produzido anteriormente à chegada das famílias. Tais condições ambientais acarretam grandes dificuldades ao desenvolvimento da agricultura familiar em diversos assentamentos e acampamentos da região.

O Vale do Rio Doce é uma das regionais do MST de maior abrangência em Minas Gerais. Organiza atualmente doze assentamentos e nove acampamentos, totalizando cerca de mil famílias Sem Terra. O Movimento na região mostra-se atuante e organizado, com histórico de experiências significativas não só na saúde, mas também na educação, produção, juventude, gênero e cultura. O Assentamento Oziel Alves Pereira sedia o Centro de Formação Francisca Veras, único centro de formação de abrangência estadual do MST-MG. Na Tabela 1 encontram-se listadas as áreas de acampamentos e assentamentos do MST na região do Vale do Rio Doce.

É importante destacar, ainda, que uma das áreas que fazem parte desta pesquisa, o Acampamento Juscelino dos Santos, foi dissolvida alguns meses após minha visita de campo à área. As famílias desse acampamento foram distribuídas em outras áreas - algumas foram assentadas no Assentamento Manoel Ferreira, em Jampruca, e as remanescentes foram para o Acampamento Padre Gino, em Frei Inocêncio.

Tabela 1 - Áreas de acampamentos e assentamentos do MST no Vale do Rio Doce

Área de Reforma Agrária Município Número de

Famílias

Data de fundação13

Assentamento Primeiro de Junho Tumiritinga 81 1996

Assentamento Barro Azul Governador Valadares 56 1996

Assentamento Oziel Alves Pereira

Governador Valadares 68 1997

Assentamento Dorcelina Folador Resplendor 35 2003

Assentamento Liberdade Periquito 40 2004

Assentamento Roseli Nunes II Resplendor 40 2004

Assentamento Gilberto de Assis Resplendor 35 2005

Assentamento Ulisses Oliveira Jampruca 44 2005

Assentamento Ira Aguiar Santa Maria do Suassui 30 2007

Assentamento Terra Prometida Tumiritinga 30 2007

Assentamento Padre Domingos Frei Inocêncio 8 2010

Assentamento Manoel Ferreira Jampruca 25 2011

Acampamento Padre Gino Frei Inocêncio 30 2002

Acampamento Esperança do Vale São José de Safira 15 2003

Acampamento Maria da Penha Mathias Lobato 28 2005

Acampamento Chico Mendes Resplendor 10 2005

Acampamento Padre João Frei Inocêncio 30 2010

Acampamento Partilha Frei Inocêncio 40 2010

Acampamento Belo Monte Jampruca 40 2010

Acampamento Sebastião Moreira Tumiritinga 70 2011

Acampamento14 Tumiritinga 280 2012

Fonte: Direção Estadual do MST-MG.

Benzer Belgeler