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O objetivo de ensaiar sentidos para uma teoria da gestão institucional da educação infantil, na primeira década do século XXI no Brasil, trouxe um grande desafio ao processo de elaboração do método desta pesquisa, que foi marcado por muitas idas e vindas.

Inicialmente, a intenção de compreender a teoria da gestão de creches e pré-escolas conduziu esta investigação a uma busca por referências sobre o assunto nas bibliotecas das faculdades públicas do país, com o auxílio de uma bibliotecária da Unesp – câmpus Marília. Para a procura foram utilizadas as palavras-chave: “Educação Infantil” combinada com

“Administração” e “Gestão”. Foram encontradas apenas três publicações: “Educação Infantil: uma proposta de gestão municipal”, de Ana Maria Costa e Sousa (1996); “Educação Infantil: desenvolvimento, currículo e organização escolar”, de Teresa Lleixás Arribas et al. (2004) e “Profissionais de educação infantil: gestão e formação”, organizada por Sônia Kramer (2005).

O texto de Sousa (1996) caracterizou-se por um relato de experiência sobre a integração de instituições de educação infantil em uma cidade de médio porte do estado de Minas Gerais. Foram apresentadas a perspectiva do gestor municipal e as indagações provocadas com a Constituição Federal de 1988, como também as dúvidas sobre como se organizaria a educação depois que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN (1996) fosse sancionada.

O livro coordenado por Arribas (2004) apresentou-se no formato de um manual para a organização de instituições de educação infantil, de acordo com o currículo nacional da educação na Espanha. O olhar sobre a criança era desenvolvimentista e a organização da escola, apresentada de forma a contribuir para o desenvolvimento biopsicossocial da infância.

Por último, o livro organizado por Kramer (2005) apresentou os resultados de uma pesquisa com diretores de instituições de educação infantil no estado do Rio de Janeiro. O estudo demonstrou como a formação desses profissionais era insuficiente (exigência apenas de ensino médio) e que a maioria não tinha experiência na educação infantil antes de assumir o cargo. Denunciou as condições precárias de trabalho desses diretores com a falta de infraestrutura e pessoal para auxiliar. Evidenciou que suas conquistas deviam-se muito mais ao esforço pessoal para se aprimorarem na prática do que pelos cursos de formação oferecidos pela secretaria estadual de educação. Apontou, por fim, para a necessidade da realização de pesquisas que auxiliassem na organização de cursos de formação para esses profissionais, que considerassem a especificidade do trabalho na educação infantil.

Observada a necessidade de aprofundamento na teoria da gestão escolar relacionada à educação infantil, o seguinte problema colocou-se: qual material melhor apresentaria a teoria da gestão da educação infantil nos dias de hoje?

A partir dessa indagação, foi realizada uma busca na produção científica sobre educação infantil, a partir da década de 1980, quando esse atendimento passou a fazer parte da educação básica para, então, “pinçar” os sentidos da gestão da educação nessas

produções. Esse exercício de “pinçamento de sentidos” foi proposto, anteriormente, por Lima (2006), em um estudo sobre a administração da educação em Paulo Freire.

No entanto, a produção teórica sobre gestão da escola, a partir da década de 1990, sofreu um declínio, como já mostrado anteriormente no estudo coordenado por Machado (2007). Assim, como apreender na educação infantil uma teoria que poderia ter se modificado no século XXI? Logo se constatou a necessidade de investigar, também, as produções científicas sobre esse campo, nesse mesmo período, para entender os percursos do pensamento e verificar se novas categorias de análise estavam emergindo nesse conhecimento.

Mapear o conhecimento científico sobre educação infantil e gestão da escola propõe o desafio de se traçar um viés representativo nas produções desses campos, tendo em vista que a extensão dessa produção inviabilizaria um estudo com as limitações de tempo e pessoal como este. Ferreira (2002) mostrou que a maior parte das pesquisas, que buscam o mapeamento do conhecimento de uma área, baseiam-se em catálogos bibliográficos ou resumos de trabalhos apresentados em congressos ou de dissertações e teses. Esse material, como a mesma autora argumentou, é limitado, pois traz enunciados que são recortes das pesquisas originais e nem sempre são passíveis de uma interpretação única e objetiva.

Desse modo, para a escolha do viés de investigação recorreu-se à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que é uma instituição pública brasileira responsável pelo acompanhamento e avaliação dos cursos de pós-graduação

strictu sensu que são, também, os maiores produtores de pesquisas científicas educacionais

do país.

A cada triênio, a Capes realiza uma avaliação da produção intelectual dos programas de pós-graduação e disponibiliza uma lista com a classificação dos veículos utilizados por esses programas para a divulgação desse conhecimento. Essa avaliação é denominada Qualis e se caracteriza por aferir

[...] a qualidade dos artigos e de outros tipos de produção, a partir da análise da qualidade dos veículos de divulgação, ou seja, periódicos científicos.

A classificação de periódicos é realizada pelas áreas de avaliação e passa por processo anual de atualização. Esses veículos são enquadrados em estratos indicativos da qualidade - A1, o mais elevado; A2; B1; B2; B3; B4; B5; C - com peso zero (CAPES, MEC, 2010, s.p.).

De acordo com o relatório da avaliação do triênio entre 2007 e 2009 (SOUSA; MACEDO, 2010), na área da educação 1070 periódicos foram avaliados, sendo que 130

receberam classificação A (52-A1 e 78-A2) e 940 classificação B (119-B1; 123-B2; 169-B3; 204-B4 e 325-B5).

Para esta pesquisa considerou-se a relevância da publicação, o viés de recorte para o mapeamento da produção científica na área da educação infantil e da gestão da educação. Foram consideradas as revistas científicas com avaliação A1 na área da educação, editadas por instituições de pesquisa brasileiras.

Conforme o relatório de Sousa e Macedo (2010), a classificação A1 é definida como: Publicação amplamente reconhecida pela área, seriada, arbitrada e dirigida prioritariamente à comunidade acadêmico-científica, atendendo às normas editorias da ABNT ou equivalente (no exterior). Ter ampla circulação por meio de assinaturas/permutas para a versão impressa, quando for o caso e on-line. Periodicidade mínima de 3 números anuais e regularidade, com publicação de todos os números previstos no prazo. Possuir conselho editorial e corpo de pareceristas formado por pesquisadores nacionais e internacionais de diferentes instituições. Publicar, no mínimo, 18 artigos por ano, garantindo ampla diversidade institucional dos autores: pelo menos 75% devem estar vinculados a no mínimo 5 instituições diferentes daquela que edita o periódico. Garantir presença significativa de artigos de pesquisadores filiados a instituições estrangeiras reconhecidas (acima de dois artigos por ano). Estar indexado em, pelo menos, 6 bases de dados, sendo, pelo menos 3 internacionais (SOUSA; MACEDO, 2010, s.p.). De acordo com os dados da plataforma WebQualis, publicados em 2009, os periódicos classificados como A1, editados por instituições brasileiras foram: Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas); Ciência e Educação (Universidade Estadual Paulista); Dados (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro); Educação e Sociedade (Centro de Estudos Educação e Sociedade - CEDES); Educação e Pesquisa (Universidade de São Paulo); História, Ciências, Saúde - Manguinhos (Casa de Oswaldo Cruz); Pro-Posições (Universidade Estadual de Campinas); Psicologia: Reflexão e Crítica (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Revista Brasileira de Ciências Sociais (Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais); Revista Brasileira de Educação (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) e Revista Brasileira de História (Associação Nacional de História).

Apesar da redução no número de periódicos para investigação, fez-se necessário ainda mais um recorte, o da relevância para os campos da educação infantil e da gestão da escola. Assim, foram selecionados os periódicos que apresentavam maior frequência na

publicação de artigos sobre o assunto desta investigação21, que foram: “Cadernos de Pesquisa”; “Educação e Sociedade”; “Educação e Pesquisa”; “Pro-Posições” e “Revista Brasileira de Educação”.

Mesmo com a reconhecida relevância desses periódicos para o conhecimento científico na área da educação no país, não se pode afirmar que suas publicações contemplam todo o conhecimento, visto que inúmeras produções são descartadas pelas comissões editoriais, que possuem diferentes critérios para análise e aceite de artigos. Destaca-se, novamente, que a opção desta pesquisa foi pelas produções científicas com maior relevância, em virtude da circulação do meio em que são divulgadas e, consequente, influência sobre a teoria da gestão da instituição de educação infantil no Brasil.

A seleção dos artigos para análise passou por dois momentos. No primeiro, realizou- se um levantamento daqueles publicados no período entre 1980 e 2000. A seleção foi feita manualmente na versão impressa dos periódicos22 visto que, nesse período, a maioria não era registrada em bancos de dados informatizados. O critério para seleção dos artigos foi a existência dos termos “educação infantil” ou “administração” ou “gestão” no título, resumo ou palavras-chave. O material selecionado foi xerocado e arquivado em ordem cronológica.

Paralelamente à tarefa de seleção do material para esta investigação, uma revisão bibliográfica era empreendida e, com isso, foram encontrados estudos do tipo “estado da arte” importantes. Entre aqueles relacionados com a educação infantil encontrava-se o trabalho de Campos e Haddad (1992), que analisaram as publicações desse campo da educação nos Cadernos de Pesquisa, no período de 1970 até o final da década de 1980; Rocha (1998), que investigou a trajetória das pesquisas sobre educação infantil na Anped, no período de 1990 até 1996; o estudo de Kappel, Carvalho e Kramer (2001), que analisaram as pesquisas produzidas no Brasil nos últimos 20 anos, à luz dos dados relativos às crianças de zero a seis anos na Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV) realizada pelo IBGE em 1996 e 1997; o trabalho de Campos, Füllgraf e Wiggers (2006), que realizaram um levantamento referente ao período de 1996 a 2003 e localizaram estudos publicados nas principais revistas de educação brasileiras e apresentados nas reuniões anuais da Anped.

21 Foram selecionados os periódicos que publicaram no mínimo 10 artigos sobre educação infantil e/ou gestão

da educação no período de 1999 a 2009.

22 A pesquisa bibliográfica foi feita na biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências – Universidade Estadual

Sobre administração e gestão da educação foram encontrados os trabalhos: de Wittmann e Gracindo (1999), que realizaram um estudo da arte em política e gestão da educação no Brasil de 1991 a 1997; de Maia (2004) e Pereira e Andrade (2005), que investigaram a construção da administração da educação nas publicações da Anpae, no período de 1983 a 2000; de Sousa (2006), que analisou a pesquisa brasileira sobre gestão escolar apresentada nos bancos de dados da Anped, Capes e PUC – SP, no período de 1987 até 2004; e de Sander (2007), que apresentou uma genealogia do conhecimento em administração da educação no Brasil.

Ciente das descobertas dessas produções, um novo recorte foi realizado no material para investigação desta pesquisa, que se limitou às produções científicas sobre educação infantil e gestão da educação, do período de 1999 até 2009. Esse intervalo foi selecionado tendo em vista a atualidade e não cobertura pelos estudos da arte. Iniciou-se, assim, o segundo momento de seleção de artigos para análise.

Nesta etapa, foi utilizada a plataforma Scientific Electronic Library Online (Scielo – Brasil)23 para a busca de artigos. Os critérios usados para a seleção foram:

1. Existência dos termos: “educação infantil” ou “administração” ou “gestão” no título, resumo ou palavras-chave do artigo;

2. Publicação obrigatória em um dos seguintes periódicos: “Cadernos de Pesquisa”, “Educação e Sociedade”, “Educação e Pesquisa”, “Pro-Posições” e “Revista Brasileira de Educação”;

3. Data de publicação ocorrida no período entre 1999 e 2009.

Os periódicos Pro-Posições e Revista Brasileira de Educação não têm indexado na plataforma Scielo os artigos de todo o período desta investigação. O Pro-Posições somente tem publicações após 2008 e a Revista Brasileira de Educação após 2002. Assim, foi necessário acessar as plataformas dessas revistas24 para fazer o download dos volumes faltantes. Nesses casos, a seleção dos artigos fez-se sem o auxílio de ferramentas de busca informatizadas, mas os critérios de seleção foram semelhantes.

23

A plataforma Scielo – Brasil está disponível em: <http://www.scielo.br/?lng=pt>.

24 A plataforma da revista científica Pro-Posições está disponível em:

<http://mail.fae.unicamp.br/~proposicoes/edicoes/sobre_a_revista.html>. A plataforma da Revista Brasileira de Educação está disponível em: <http://www.anped.org.br/rbe/rbe/rbe.htm>.

Foram selecionados para análise 53 artigos sobre educação infantil e 14225 sobre

administração e gestão da educação, totalizando 195 publicações. Sete artigos apareceram nas buscas sobre educação infantil e gestão, então, optou-se por contabilizá-los somente como pertencentes à educação infantil. Como essas produções podem promover a interlocução desses dois campos de pesquisa, considerou-se importante diferenciar o registro delas. Compõem esse grupo as produções: “A contribuição dos parques infantis de Mário de Andrade para a construção de uma pedagogia da educação infantil”, de Faria (1999); “A educação infantil no contexto das políticas públicas”, de Barreto (2003); “Educação e políticas de combate à pobreza”, de Campos (2003); “Pedagogia e a formação de professores (as) de educação infantil”, de Kishimoto (2005); “Gestão pública, formação e identidade de profissionais de educação infantil”, de Kramer e Nunes (2007); “Órfãos tutelados nas malhas do judiciário (Bragança-SP, 1871-1900)”, de Bastos e Kuhlmann Júnior (2009) e “A educação das famílias pobres como estratégia política para o atendimento das crianças de 0 – 3 anos: uma análise do Programa Família Brasileira Fortalecida”, de Campos e Campos (2009). No Apêndice A encontra-se disponível a bibliografia completa dos artigos analisados nesta pesquisa.

Analisar as produções científicas sobre educação infantil e gestão da educação possibilita o conhecimento das múltiplas determinações dessa área, mas não demonstra adequadamente a normatização deste campo que, como já defendi, é uma característica importante da natureza da educação (WARDE, 1990). Portanto, incluiu-se neste estudo a investigação dos documentos produzidos pelo Ministério da Educação (MEC) sobre a organização da educação infantil e a gestão da educação, no período de 1998 até 2009. O período escolhido marca a organização da educação infantil, após a reforma iniciada em 1996 pela LDBEN. Os documentos selecionados para análise foram:

Educação Infantil: Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, vol.

1, 2, 3); Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em Nível Médio, na Modalidade Normal (1999); Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1999);

25 O artigo “A educação do Movimento dos Sem-Terra: Instituto de Educação Josué de Castro” de Neusa Maria

Dal Ri e Candido Giraldez Vieitez foi publicado, em 2004, nos periódicos Educação e Sociedade e Revista Brasileira de Educação. Para efeito desta pesquisa ele foi contabilizado apenas uma vez, com a versão da Revista Brasileira de Educação.

Integração das Instituições de Educação Infantil aos Sistemas de Ensino: um estudo de caso de cinco municípios que assumiram desafios e realizaram conquistas (2002); Programa de Formação Inicial para Professores em Exercício na Educação Infantil (PROINFANTIL): guia geral (2005); Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (2006); Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil (2006, vol. 1 e 2); Política Nacional de Educação Infantil: pelo direito das crianças de zero a seis anos à educação (2006); Critérios para um Atendimento em Creches que Respeite os Direitos Fundamentais das Crianças (2009); Indicadores da Qualidade na Educação Infantil (2009); Orientações sobre Convênios entre Secretarias Municipais de Educação e Instituições Comunitárias, Confessionais ou Filantrópicas sem fins Lucrativos para a Oferta de Educação Infantil (2009); Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2009).

Gestão Educacional: Plano Nacional de Educação (2001); Documento Norteador para

Elaboração do Plano Municipal de Educação (2005); Subsídios para o Planejamento da Rede Escolar com Base na Experiência em Minicenso Educacional (2005); Subsídios para o Planejamento da Conferência Municipal de Educação (2005); Anais do Seminário Internacional “Gestão democrática da educação e pedagogias participativas” (2006); Pradime: Programa de Apoio aos Dirigentes Municipais de Educação (2006, vol. 1, 2, 3); Plano de Metas – Compromisso Todos pela Educação (2007); Piso Salarial Profissional Nacional para os Profissionais do Magistério Público da Educação Básica (2008).

Dos materiais publicados pelo MEC, e analisados nesta pesquisa, 15 documentos são relativos à organização da educação infantil e 10 referentes à gestão escolar. No Apêndice B, encontra-se uma lista com a bibliografia desses 25 documentos.

2.3 Procedimentos para a análise de conteúdo dos documentos legais e