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Criado pela legislação de 1980 - o “Estatuto do Estrangeiro”127 – o Conselho Nacional de Imigração é um órgão colegiado, de composição quadripartite (integrado por representantes do governo128, de entidades de trabalhadores129, de entidades de empregadores130 e, também, da comunidade científica e tecnológica131) contando, ainda, com a participação de observadores convidados132 - estes participam das reuniões, opinam e discutem, mas não tem poder de voto. O Conselho é formalmente vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego.

Ao articular, internamente, nove ministérios, cinco entidades de trabalhadores, cinco entidades patronais e um representante da comunidade científica, a composição do Conselho estimula um debate democrático e produtivo, com base no envolvimento de todos os integrantes, na construção de convergências e opiniões e no encaminhamento de resoluções. A estrutura do CNIg permite, assim, que eventuais desentendimentos ou pontos de vista conflitantes sobre quaisquer aspectos relacionados à política migratória sejam amplamente debatidos e solucionados no próprio âmbito interno do Conselho, facilitando a implementação de suas resoluções, uma vez que, em grande medida, todos os órgãos públicos que têm sinergias com o tema „migrações‟ estão representados no Conselho.

Neste sentido, a participação, por exemplo, do Ministério do Trabalho e Emprego, juntamente com o Ministério da Justiça e com o Ministério das Relações Exteriores na construção e implementação das deliberações do CNIg ilustra bem a

127 Lei nº 6.815/1980. Além dela, os decretos nº 840 de 1993 e nº 3.574 de 2000 dispuseram sobre a organização e

funcionamento do Conselho Nacional de Imigração.

128 Um titular e um suplente de cada um dos seguintes ministérios: do Trabalho e Emprego (MTE), da Justiça (MJ),

das Relações Exteriores (MRE), da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), da Saúde (MS), do

Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), da Ciência e Tecnologia (MCT), da Educação (MEC) e do Turismo (MTur).

129Um titular e um suplente de cada uma das seguintes entidades: Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do

Brasil (CTB), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical (FS), União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

130Um titular e um suplente das seguintes entidades: Confederação Nacional da Indústria (CNI), Confederação

Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Confederação Nacional do Transporte (CNT) e Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF).

131 Um titular e um suplente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

132 Atualmente, os observadores são das seguintes organizações: Comissão Nacional para População e

Desenvolvimento (CNPD), Secretaria de Políticas pra Mulheres da Presidência da República (SPM/PR), Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), Organização Internacional do Trabalho (OIT), Organização Internacional para as Migrações (OIM), Secretaria de Políticas de Previdência Social (SPPS/MPS), Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) e o Departamento de Polícia Federal.

importância deste foro, uma vez que o primeiro muitas vezes diverge em posicionamento do segundo, enquanto o terceiro é o responsável por transmitir internacionalmente a posição oficial do Brasil frente ao tema, que deve ser única.

Dentre as principais atribuições do CNIg podemos assinalar: a) formular a política de imigração do país; b) orientar e coordenar as atividades de imigração, estabelecendo normas migratórias complementares à lei; c) resolver casos omissos (no que diz respeito a imigrantes no Brasil); d) opinar sobre eventuais alterações de legislação relativas à imigração e e) promover estudos sobre o tema e sobre as demandas por mão-de-obra estrangeira no país.

Com base no entendimento de que a busca por trabalho e por melhores condições de vida constituem alguns dos principais fatores a impulsionar os movimentos migratórios e, também por estar organicamente ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego, o Conselho tem por foco a “dimensão sociolaboral das migrações” (ALMEIDA, 2009: 17), preocupando-se, assim, com a questão dos direitos e a consciência das obrigações por parte dos migrantes. Com o respaldo dessa dimensão do trabalho, o CNIg tem expandido seu escopo de atuação para além das questões de imigração, prestando suporte também aos trabalhadores brasileiros que emigraram.

Em conseqüência do crescimento dos fluxos de brasileiros para o exterior a partir dos anos 80, as necessidades desses grupos (brasileiros no exterior) não mais se limitavam à atualização de documentos brasileiros, providos pelos órgãos do Itamaraty (embaixadas e consulados). De fato, estavam cada vez mais associadas a questões sobre relações de trabalho, infrações de direitos do trabalhador, dúvidas sobre legislação trabalhistas nos países de destino, entre outras.

Para maior clareza deste ponto, vale registrar que representantes do Conselho visitaram, em 2008, três das grandes comunidades de brasileiros no exterior: a residente da cidade de Boston (Estados Unidos), a da região fronteiriça entre Brasil e Paraguai e a da Espanha. Na região de fronteira entre Brasil e Paraguai, na Ponte da Amizade, o CNIg promoveu a primeira iniciativa concreta fora do território nacional “para prestar informações e apoio no que se refere à obtenção de documentos, trabalho e saúde aos brasileiros e brasileiras que vivem no Paraguai e na Argentina” (ALMEIDA, 2009b: 170): a Casa do Trabalhador Brasileiro, inaugurada em 2008, pelo MTE.

Outro importante papel desempenhado pelo CNIg tem sido seu reiterado esforço no sentido de inserir o Brasil no atual debate internacional sobre migrações. Isto se evidencia quando o Conselho representa o MTE nos fóruns e encontros internacionais sobre o tema, ou quando sugeriu ao MTE que enviasse representação ao Diálogo de Alto Nível das Nações Unidas sobre Migrações e Desenvolvimento em 2006133. Evidencia-se também quando ele trabalha pela ratificação de determinadas convenções internacionais, especialmente a Convenção das Nações Unidas para a Proteção dos Direitos dos Trabalhadores Migrantes e Membros de suas Famílias, de 1990134.

Com base em seu atual escopo de atuação, o CNIg – que por seu próprio nome, tinha suas atribuições formais circunscritas à questão da imigração no Brasil – reconsiderou o espaço de suas prerrogativas para incluir, no rol de suas competências, a formulação de políticas destinadas também aos trabalhadores brasileiros que decidem emigrar para o exterior (iniciativa esta que já vem sendo implementada, como mostramos, por meio das Casas do Trabalhador Migrante, por exemplo). Por isso, também, no Projeto de Lei nº 5.655/09, em tramitação no Congresso Nacional (e que abordaremos mais adiante), está prevista a mudança na denominação do Conselho, que passará a ser Conselho Nacional da Migração (CNM).

Benzer Belgeler