4. EPİDEMİYOLOJİDE MEKANSAL ANALİZ-KONYA İLİ KANSER HASTALIĞ
4.3. Sözel Veritabanı Oluşturma
Com base no que relatamos até aqui, a gestão das migrações internacionais no Brasil tem apresentado como principais preocupações: o apoio a brasileiros emigrados, principalmente no que se refere àqueles que emigraram em situação irregular, ou seja, de forma não-documentada, e também o controle e a assistência aos trabalhadores imigrantes no Brasil. Neste campo, têm sido escassas iniciativas mais arrojadas com respeito aos brasileiros emigrados de maneira regular, além do que já é previsto no âmbito de atuação rotineira dos consulados e de algum suporte advindo das recentes iniciativas da Casa do Trabalhador Migrante. No que se refere aos imigrantes
qualificados, as iniciativas do CNIg, ainda que meritórias, funcionam mais como resposta às demandas, feitas aos órgãos públicos, por parte de empresas atuantes no país.
Quanto aos emigrantes, como veremos mais adiante, escapa às atribuições do MRE prestar suporte específico (para além das atribuições consulares) a trabalhadores que emigram para outros países, seja no sentido de auxiliá-los no conhecimento de leis, hábitos e costumes dos países de destino, seja prestando apoio na recolocação profissional ou tipo de visto adequado ao cargo almejado pelo trabalhador em seu pretendido novo habitat, etc. Neste contexto, o Ministério do Trabalho vem gradativamente ocupando um papel proeminente nesta área, ao oferecer seu apoio institucional a esses migrantes, por meio das Casas do Trabalhador Brasileiro (Japão, Paraguai e futuramente Guiana Francesa)119.
Ainda no que concerne aos emigrantes, há que se mencionar a lei nº 7.064/82, que estabelece que se aplique sempre o dispositivo legal mais favorável para o trabalhador transferido do Brasil para o exterior120 e com vínculo trabalhista mantido em território nacional. Esta legislação, embora com foco bem definido (brasileiros que trabalhem no exterior e mantenham vínculo com empresa no Brasil), tem se revelado um importante instrumento na garantia de direitos a este grupo de emigrantes121. Sabe- se, porém, que nem todos os migrantes qualificados deixam o país vinculados a empresas sediadas em território nacional, tendo, grande parte, contrato de trabalho diretamente com a empresa do país de destino.
Com relação ao imigrante, por sua vez, parece correto admitir que o Estatuto do Estrangeiro e os Projetos de Lei que tentaram substituí-lo padecem, todos, do mesmo viés explícito na direção do controle migratório, como por exemplo, ao detalharem com bastante rigor, as categorias de impedimentos, exclusão, extradição, expulsão e deportação de estrangeiros. Os tipos de visto estão igualmente detalhados no texto da lei e são particularmente restritivos no que diz respeito à imigração.
119 A Casa do Trabalhador Brasileiro conta com uma parceria com o MRE, porém de alcance limitado,
circunscrevendo-se apenas aos procedimentos burocráticos envolvidos.
120 Nesta categoria entram aqueles: a) empregados removidos para o exterior, que tivesse contrato de trabalho em
território brasileiro; 2) empregado cedido a empresa no exterior, desde que mantido o vínculo trabalhista com o empregador brasileiro; e 3) o empregado contratado por empresa no Brasil para trabalhar a seu serviço no exterior. Excluem-se da categoria de trabalhadores brasileiros transferidos para o exterior aqueles que tenham emigrado em caráter transitório (período não superior a 90 dias).
121 A lei garante ao trabalhador brasileiro no exterior usufruir de férias, após um ano de trabalho, 13º salário, FGTS,
PIS/PASEP, dentre outros benefícios, idênticos àqueles garantidos aos brasileiros pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
Especificamente com relação aos imigrantes com formação superior ou com posição profissional equiparável, o que se pode encontrar, objetivamente, no Estatuto do Estrangeiro, são referências sobre categorias de visto temporário para estudante (Lei nº 6.815/80, Art. 13, IV), bem como para “cientista, professor, técnico ou profissional de outra categoria, sob regime de contrato ou a serviço do Governo brasileiro” (Lei nº 6.815/80, Art. 13, V). No primeiro caso, o visto para estudante estrangeiro poderá ser concedido por até um ano, podendo ser prorrogado (quando necessário) mediante comprovação do aproveitamento escolar e da matrícula no curso (Lei nº 6.815/80, Art. 14). Nesta categoria, o estrangeiro (e eventuais dependentes seus), encontra-se proibido de exercer atividade remunerada no Brasil.
No segundo caso, o visto só é concedido quando satisfeitas as “exigências especiais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Imigração e for parte em contrato de trabalho, visado pelo Ministério do Trabalho, salvo no caso de comprovada prestação de serviço ao Governo brasileiro” (BRASIL, 1980: 16533) e, somente neste caso, poderá ser convertido em permanente sob determinadas circunstâncias122. Com este visto, o estrangeiro tem permissão para exercer atividade remunerada no país.
Além destas duas categorias de visto, a lei estabelece ainda a alternativa do visto permanente. Neste caso, será dada preferência para a imigração de quadros profissionais que possam atender necessidades de mão-de-obra especializada de setores da economia nacional, contribuindo para o aumento da produtividade, a assimilação de tecnologia e a captação de recursos em setores específicos da indústria nacional.
Como o Estatuto do Estrangeiro delega a regulamentação para a obtenção de cada um desses tipos de visto ao CNIg, coube ao Conselho editar Resoluções Normativas (RN) dentre as quais convêm nos debruçarmos nas que têm significativa interface com o tema dos qualificados. Assim, por exemplo, a RN nº 80, de 2008, que “disciplina a concessão de autorização de trabalho a estrangeiro com vínculo empregatício no Brasil” (Brasil/MTE – CNIg, 2008b) estabelece que, para a obtenção do visto temporário, o estrangeiro que vier trabalhar no Brasil com vínculo empregatício deverá comprovar qualificação e experiência profissional compatível com o cargo almejado, atendendo a pelo menos um dos seguintes requisitos:
122 Segundo o Art. 17, para que o estrangeiro possa ter seu visto temporário convertido em permanente ele deve
satisfazer exigências especiais previstas nas normas de seleção de imigrantes estabelecidas pelo CNIg. (Lei nº 6.815/80)
“I – escolaridade mínima de nove anos e experiência de dois anos em ocupação que não exija nível superior; ou
II – experiência de um ano no exercício de profissão de nível superior, contando esse prazo da conclusão do curso de graduação que o habilitou a esse exercício; ou
III – conclusão de curso de pós-graduação, com no mínimo 360 horas, ou de mestrado ou grau superior compatível com a atividade que irá desempenhar; ou IV – experiência de três anos no exercício da profissão, cuja atividade artística ou cultural independa de formação escolar.” (BRASIL, MTE – CNIg, 2008b)
Estes são, portanto, os requisitos mínimos que um estrangeiro deve atender para obter, no Brasil, autorização de trabalho com vínculo empregatício. Como podemos constata0072, a exigência mínima de escolaridade é de nove anos (exceto no caso do exercício de atividade artística que independa da formação escolar), o que equivale à conclusão do ensino médio no Brasil.
Por intermédio de Resolução Normativa, também foi regulamentada a concessão de visto para professor, pesquisador e cientista de alto nível que podem obter, seja a condição temporária (por um prazo máximo de dois anos) seja a permanente, mediante apresentação, ao MTE, do contrato de trabalho ou do resultado da aprovação em concurso (Brasil, MTE – CNIg, 1997). O Ministério da Ciência e Tecnologia pode intervir favoravelmente ao estrangeiro junto ao MTE, agilizando o processo de aprovação do pedido de visto. Ainda no que diz respeito à categoria de professor, cientista e pesquisador, a RN nº 82, de 2008, disciplina a concessão de visto para a participação desses profissionais em congressos, conferências ou seminários. Com tal finalidade, o estrangeiro pode requerer: a) o visto temporário do tipo I (em viagem cultural ou missão de estudos) que lhe concederá permanência de 30 dias recebendo pró-labore por eventuais atividades exercidas; b) o visto temporário do tipo II (em viagem de negócios), mas nesse caso fica impedido de receber remuneração por seu trabalho (podendo apenas obter reembolso de despesas incorridas); ou c) o visto temporário do tipo IV (na condição de estudante), para o caso de pesquisadores ou cientistas que venham matricular-se em qualquer curso de nível superior (ainda que do tipo “sanduíche”). Quando a estada do cientista, professor ou pesquisador envolver cooperação técnico-científica, é necessária a aprovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Além disso, pela RN nº 62, de 2004, foi regulamentada a entrada de profissionais com cargos de gerente, administrador, diretor e executivo, permitindo a
obtenção de visto temporário ou permanente, mediante autorização de trabalho concedida pelo MTE. Para que uma empresa possa trazer um estrangeiro para ocupar um desses cargos, ela fica obrigada a efetuar um investimento (que pode ser por meio da transferência de tecnologia ou bens de capital) de valor igual ou superior a 50 mil dólares por cada profissional requisitado e gerar, ainda, ao menos dez novos empregos no Brasil durante os dois anos posteriores à entrada do profissional no país. Ou então ela deverá investir um valor igual ou superior a 200 mil dólares por profissional requisitado e comprovar a integralização do investimento na empresa no Brasil.
Há outros tipos de visto e autorização de trabalho que foram reguladas por RN, como o de investidor/empreendedor estrangeiro (RN nº 84 de 2009), o de treinamento profissional em subsidiária ou matriz brasileira (RN nº 87 de 2010), o de estágio (RN nº 88 de 2010) e o de contrato de transferência de tecnologia e prestação de serviço de assistência técnica (RN nº 61 de 2004), que se encontram detalhados na página de internet do Conselho.
É importante notar que estas Resoluções procuraram prover mecanismos mais claros, específicos e detalhados para diferentes tipos de requisições de visto ou autorização de trabalho, mas elas não dispõem de suficiente força legal para introduzir mecanismos diferentes daqueles previstos no Estatuto do Estrangeiro, com suas sete categorias de visto e suas especificações e limites, estabelecidos na lei. Neste sentido, a atuação do CNIg, por meio de suas Resoluções, tem contribuído para promover avanços na arquitetura da base jurídica e da gestão política das migrações, ainda que circunscritos aos ditames da Lei (nº 6.815/80). É uma ação no sentido de viabilizar o ingresso de profissionais qualificados no país, com isto possibilitando ampliar a transferência de tecnologia e conhecimento entre países e impulsionar a modernização e desenvolvimento do Brasil.
Nesta perspectiva, a “Política Nacional de Imigração e Proteção ao(a) Trabalhador(a) Migrante” (Brasil/CNIg, 2010) – diretriz formulada pelo CNIg para orientar a ação governamental para o setor – representa uma importante mudança no que diz respeito ao posicionamento do Brasil frente às migrações internacionais, deslocando a ênfase do controle para a gestão. Com efeito, a nova política procura garantir que os acordos bilaterais e multilaterais, bem como o resultado de Convenções e Tratados internacionais e os termos de nossa Constituição sejam sempre respeitados no que concerne à admissão de um migrante ao território nacional (decisão soberana do
Estado). Na visão de membros do Conselho (CNIg), uma futura Lei (Nova Lei das Migrações) deveria conter apenas a concepção base e estratégica do posicionamento do Brasil em relação às migrações, enquanto as cláusulas de exclusão, impedimentos e mesmo as minúcias de detalhes sobre os critérios para a obtenção dos vistos, deveriam ser regulados por leis complementares e Resoluções Normativas.
Apesar dos recentes avanços no que diz respeito à política migratória no Brasil, progressos mais efetivos dependem de mudanças na legislação. O Estatuto do Estrangeiro, muito criticado por suas notórias limitações e pontos atritosos com a própria Constituição Federal, pela desatenção aos direitos dos imigrantes e por não refletir os acordos e tratados internacionais vigentes atualmente, também constitui um entrave para que o Brasil avance de forma mais determinada no campo das políticas migratórias.
Cabe por fim considerar a atuação de outras políticas que também influenciam a dinâmica das migrações, ainda que de forma indireta. Para o caso dos qualificados, vale sublinhar a atuação dos Ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT), e o da Educação (MEC) em termos da elaboração, juntamente com o MRE, de acordos internacionais que envolvem o intercâmbio de pesquisadores, cientistas e professores e, em alguns casos, promovem a concessão de bolsas de estudo e pesquisa tanto para brasileiros no exterior quanto para estrangeiros no Brasil. Como procuramos ressaltar, todavia, esta iniciativa, na prática, não está articulada à política migratória e sim à política de desenvolvimento científico e tecnológico do país, como se as duas políticas não apresentassem interface senão para quando se necessita do visto para tal cientista, professor ou pesquisador. Como se sabe, parte importante do desenvolvimento científico e tecnológico do país depende de acesso ao conhecimento gerado fora do território nacional e é de interesse estratégico para o país que sejam debatidos os mecanismos que viabilizem a circulação de profissionais qualificados inclusive no âmbito da política migratória.
“Assim, seria possível verificar que políticas podem buscar tanto objetivos específicos para intervenção sobre as migrações, quanto outros que, mesmo
inespecíficos à política migratória, atuam sobre dinâmicas e processos que
acarretam efeitos, desejados ou não, nesse campo social. Dessa forma, políticas, como a cambial, ao intervir na convertibilidade da moeda nacional (e, portanto na rentabilidade das remessas de imigrantes no país e de emigrantes no exterior), a trabalhista, ao intervir sobre as condições de contratação da força de trabalho, nacional ou não, a de direitos humanos, ao influir no tratamento de minorias e grupos desfavorecidos, etc., mesmo não sendo políticas migratórias stricto sensu, repercutem – mais ou menos
fortemente – na dinâmica da imigração, da emigração, da migração internacional de passagem.” (POVOA NETO e SPRANDEL, 2009: 3)
Assim, parece plausível considerar que a gestão das migrações internacionais deve ser executada de forma articulada com outras áreas, uma vez que delas depende e a elas influencia. O CNIg seguramente conquistou um importante espaço nesse campo ainda em desenvolvimento da gestão das migrações, ao instituir um foro amplo de discussão e de formulação de políticas públicas nessa direção. Resta, todavia, salientar a necessidade de se organizar esse debate com um foco em perspectiva, ou seja, buscando conferir maior peso estratégico à gestão das migrações – por exemplo, trazendo ao debate, no âmbito do CNIg, questões relevantes para a formulação de uma política voltada para a atração de profissionais qualificados do exterior e ao incentivo a que brasileiros possam aprimorar seus conhecimentos técnicos no exterior e assim contribuir para maior qualidade do nosso desenvolvimento econômico.