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Um dentre os principais critérios de identificação de uma perífrase é a integração semântica dos constituintes consequente ao grau de dessemantização do modificador. No italiano, no entanto, a perífrase com o infinitivo é estrutura menos gramaticalizada dentre aquelas com o verbo andare. De acordo com Bertinetto (1991), a construção mantém uma transparência semântica a partir do significado lexical do verbo andare, que é complementado com a posposição de verbos principais no infinitivo, cujo significado pressupõe um deslocamento no espaço. Esses fatores são confirmados nos estudos de Amenta (2002), que demonstram através de atestações do italiano antigo, que há uma grande superioridade dos casos em que o verbo ir vem seguido de verbos de movimento no espaço e de conotação processual.
Tabela 4: Sujeitos animados e inanimados
ANDARE A + INFINITO Contagem numérica Percentual de casos
Sujeitos animados 124 87%
Sujeitos inanimados 18 13%
O presente estudo não buscará privilegiar dados de variantes do italiano que mantém, hoje, um certo status de autonomia, e por assim dizer, de autênticas línguas dotadas de gramática e literatura próprias, como é o caso do siciliano e do sardo, dialetos que embora compreensíveis, mantém variáveis que as distanciam sensivelmente. Por tal motivo, embora haja casos interessantes como é o do siciliano, que mantém características morfossintáticas pertinentes ao estatuto perifrástico de iri a
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+ inf. correspondente a andare a + inf. muito próximas às estruturas do português e do espanhol, as mesmas não serão aqui abordadas por motivos metodológicos. No entanto, é interessante mostrar um exemplo do siciliano, em que podemos notar que os verbos que formam a perífrase dividem o mesmo significado de direção espacial diferindo na perspectiva que é assumida pelo locutor na localização do processo:
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Et standu accussì, vai a viniri Deyphebe, la figlia di Glaucu, sacerdotissa, et dissi ad Eneas kisti paroli (Ene., VI, 100, 1).
[E stando così, va a venire Deifebe, la figlia di glauco, sacerdotessa, e disse a Enea queste parole].
Algumas atestações mostram um certo enfraquecimento dos traços semânticos do verbo modificador, como confirma a presença, no siciliano, de atestações em que o mesmo verbo ocorre também como principal no infinitivo. Caso o verbo andare mantivesse seu significado lexical, haveria uma evidente redundância semântica e a frase seria agramatical.
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Tutti vannu ad andari adossu di li inimichi (Conq., 56, 1). [*Tutti vanno a andare adosso ai nemici].
Nos corpora dessa pesquisa, há ausência absoluta de casos em que o verbo principal seja o mesmo que o modificador. Isso demonstra que no italiano contemporâneo, o verbo modificador não sofreu uma total dessemantização. Os traços semânticos do verbo ainda permanecem vívidos, mantendo-se assim os traços movimento e intenção como nos exemplos abaixo:
14 Exemplo tirado do Corpora do Siciliano antigo, de Luisa Amenta e Erling Strudsholm, pg, 23 in Cuadernos de Filología Italiana . Vol. 9 (2002):11-29.
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Exemplo tirado do Corpora do Siciliano antigo, de Luisa Amenta e Erling Strudsholm, pg, 23 in Cuadernos de Filología Italiana. Vol. 9 (2002):11-29.
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23. «Io non sono d' accordo sui bombardamenti, gli americani, se vogliono bombardare, facciano loro anche perché dobbiamo pensare che se andiamo a bombardare poi dobbiamo ricostruire.» // “Eu não estou de acordo sobre os bombardeamentos, os americanos, se querem bombardear, que o façam, até porque devemos pensar que se
formos bombardear, depois deveremos reconstruir”. Il Corriere della Sera (Pg. 5 – Il 27 aprile 2011).
24. «Io dico che non è possibile, e vado a cercare il danno che avrei provocato.» // “Eu digo que não é possível, e vou buscar o dano que provoquei”. Il Corriere della Sera (Pg.1 – Il 25 giugno 2012).
25. «Il nostro obiettivo è che l' Italia diventi una Repubblica Federale. Punto. Se poi uno
va a dormire con un uomo o con una donna, questo influisce poco con il federalismo.»
// “O nosso objetivo é que a Itália se torne uma República Federal. Ponto. Se a partir disso alguém vai dormir com um homem ou com uma mulher, é algo que não tem a ver com o federalismo.” Il Corriere della Sera (Pg. 5 – Il 31 agosto 2009).
Essas construções são consideradas no italiano como locuções, em alguns casos, lexicalizadas como andare a cercare, andare a prendere, andare a trovare, andare a dormire, segundo Bertinetto (1991), em que os dois verbos presentes na construção mantém seus significados lexicais por uma contiguidade espaço-temporal das duas ações. Nesses casos, o verbo andare não está dessemantizado, e por consequência, é compatível apenas com sujeitos animados e mantém a possibilidade de reger argumentos próprios (como exemplo determinações espaciais). Essa construção mantém
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a possibilidade de ser conjugada sem restrições de tempos e de modos, inclusive no imperativo, e não pode ser substituída pela correspondente forma sintética, visto que o traço pertinente ao movimento no espaço e a focalização do instante que antecede a ação não podem ser omitidos.
Bertinetto (1991, 1993) cunha o termo perifrasi risolutiva, que veicula a ideia da ausência do traço movimento. A construção, então, se caracterizaria pela expressão de um sentido unitário, em que a ideia de movimento se deslocaria para o plano do alcance final, ou de realização da ação.
Na noção de perifrasi risolutiva, ou, perífrase resolutiva (no português) de Bertinetto, o verbo andare apresenta sinais de dessemantização, e está sujeito a um processo de decategorização, como é possível notar pela abertura dos usos a sujeitos inanimados e pela possibilidade de vir acompanhado de verbos que pertencem à mesma esfera semântica. Esse uso, no entanto, apresenta algumas restrições sintáticas, tais como a rara possibilidade de interposição de outros elementos lexicais (exceto advérbios temporais) e a exclusão do imperativo. Essas restrições também constam na literatura linguística do português pertinente a essas construções perifrásticas.
Nos exemplos abaixo, retirados dos corpora de análise, nota-se a presença dessas construções com uma noção de resolutividade:
26. «Questa manovra è iniqua perché colpisce chi ha un reddito fisso e i pensionati. È recessiva perché prevede soltanto aumenti di pressione fiscale, anche odiosi come quello sulla prima casa, che vanno a colpire il ceto medio...». // “Essa manobra é iníqua, pois atinge quem possui uma renda fixa e os aposentados. É recessiva, pois prevê apenas aumentos de pressão fiscal, também intoleráveis como àqueles sobre a primeira casa, que vão atingira classe média...”. Il Corriere della Sera (Pg. 21 – Il 5 dicembre 2011).
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27. «Ed è inutile andare a riesumare la preistoria, i mesi della formazione del primo governo Berlusconi...» . // “É inútil resumir a pré-história, os meses de formação do primeiro governo de Berlusconi...”. Il Corriere della Sera (Pg. 8 – Il 9 novembre 2011).
28. «Oggi a Roma con la riunione dei gruppi dirigenti delle confederazioni dell' artigianato e del commercio inizia la volata finale dell' «Operazione Capranica». Va a
sparigliare gli stanchi meccanismi della concertazione triangolare e va a ridisegnare
anche i rapporti tra economia e politica...». // “Hoje, em Roma, com a reunião dos grupos dirigentes das Confederações de Artesanato e do Comércio, se inicia a rodada final da “Operação Capranica”. Vai separar os velhos mecanismos da manobra triangular, e também, vai reformular as relações entre a economia e a política”. Il Corriere della Sera (Pg. 13 – Il 27 aprile 2010).
Segundo Lima (2001), no português, o estágio de Gramaticalização já percorreu as quatro fases listadas a seguir:
(a) Fase de incremento dos casos de ocorrência de ir com sujeito não-humano. (b) Fase de incremento dos casos de ocorrência de ir não envolvendo movimento. (c) Fase em que a construção passa a ser utilizada na voz passiva.
(d) Fase em que há a expansão da classe dos verbos passíveis de ocorrer após ir, de verbos de ação para verbos de evento, até a extensão a verbos de estado.
De acordo com as fases mencionadas acima, segundo o que Lima (2001) convencionou como as etapas progressivas do processo de Gramaticalização de ir +
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infinitivo, as perífrases resolutivas do italiano seriam construções que já avançaram as primeiras três etapas do processo, ou seja, (a) seus sujeitos deixaram de ser humanos, e isso pressupõe ausência do traço intenção, já que não há um sujeito físico dotado de intencionalidade para concretizar a ação. Isso acarretaria, segundo o autor, a consequente promoção dos traços que podem, ou não, continuar presentes, ou seja, movimento e futuro. A ausência de um sujeito humano implica que estamos diante de um uso metafórico de andare, segundo os casos acima. Podemos prever ainda que o traço movimento está excluído, devido ao fato de que se tratam, nesses exemplos, de entidades não passíveis de movimento perceptível, ou seja, corresponderia à fase (b) do processo. Portanto, a presença de um traço futuro em andare a + infinito, e a percepção de Bertinetto (1991) de resolutividade, ou seja, da conclusão da ação, seriam as duas únicas possibilidades viáveis para explicar o fenômeno do qual estamos diante no italiano.
De acordo com os exemplos em análise, podemos afirmar ainda que as construções também alcançaram o estágio em que passam a ser utilizadas na voz passiva (c). Nessa etapa, são evidentes os indícios de aprofundamento do processo de Gramaticalização, e a justificativa é de ordem semântico-pragmática. Sob tal ponto de vista semântico, é indiscutível que, nesse caso particular, a forma passiva implica também na demoção do traço intenção. O emprego da passiva sugere que, a estar presente uma intenção, ela estaria alheia ao sujeito expresso. Nesse caso, segundo Lima (2001), o traço futuro teria maior saliência sobre todos os outros possíveis. A fase (d), que remete à expansão do repertório de verbos infinitivos que podem ocorrer na construção perifrástica que passa a englobar, também, verbos de estado, é, talvez, a única etapa que ainda não se apresenta evidente na língua, tanto no que concerne a literatura linguística, segundo o que fora supracitado em Maiden e Robustelli (2000:
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209), como nas evidências dos corpora, nos quais há ausência de construções com verbos de movimento.
Os estudos em língua italiana descartam a hipótese de que a perífrase resolutiva possa expressar a noção de futuro, ainda que apresentem a mesma estrutura formal daquelas decorrentes em outras línguas neolatinas como no português, no espanhol e no francês.
Squartini (1998) trata do uso de andar a + infinito em galego, ir (a) + infinitivo no português e no espanhol, em que a perífrase tem conotação tanto para expressão de um significado aspectual durativo, como para a expressão de uma ideia de futuro. Maiden e Robustelli (2000) afirmam que tanto a construção no francês, quanto no espanhol expressam formas analíticas de um futuro próximo.
Amenta (2002: 25) afirma: "No italiano, ao invés, a construção é privada da acepção de futuridade. E o verbo andare não sofreu a partir da ideia espacial de movimento nenhum deslize semântico para o plano da temporalidade”. Ou seja, descarta-se a hipótese de projeção metafórica do espaço no tempo dos casos com o verbo andare.
Essa privação de sentido futural, segundo alguns estudos, como Sornicola (1976) e Durante (1982), pode ser consequência de um processo de Gramaticalização interrompida decorrente de intervenções, na língua, do movimento Purista, ocorrido no século XIX junto às políticas linguísticas de promoção e afirmação do italiano como língua nacional. Esse fenômeno pode ter sido responsável por bloquear uma possível etapa de Gramaticalização da construção como expressão de futuro analítico como é evidenciado em línguas neolatinas próximas.
Tomando novamente como referência a transformação sofrida pelo verbo de ação to go (ir) para expressar tempo futuro no inglês, Heine et al. (1991; 46) mostram
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algumas das propriedades de um processo metafórico envolvido na sua Gramaticalização:
(a) envolve um significado reconhecido como “literal” e outro que é o “transferido” ou “metafórico”;
(b) envolve transferência ou projeção de um domínio conceitual (espaço) em termos de outro (tempo dêitico);
(c) aparentemente envolve violação de regras e anomalias, como o caso de um verbo de movimento, que tipicamente requer um sujeito humano, vir a coocorrer com sujeito inanimado;
(d) envolve conceitos que se associam ao mundo humano para referir-se a conceitos inanimados;
(e) em contextos específicos, a expressão metafórica pode também ser entendida no sentido literal, não transferido, o que resulta em ambiguidade, principalmente homonímica.
Todos esses processos metafóricos, sem excessão, incidiram sobre a estrutura perifrástica em estudo, ou seja, andare a + infinito, segundo os casos analisados nos corpora. E o que se observa na atualidade num processo de transferência linguística L1 para L2 é justamente essa ambiguidade semântica, tomando como base que o processo de Gramaticalização é variável e assimétrico.
No capítulo 3, que aborda o tratamento da perífrase andare a + infinito na literatura linguística italiana, Bertinetto (1991, 1993) trata o tema das perífrases e seus níveis de perifrasticidade como um fenômeno escalar, ou seja, cada estrutura, considerando as assimetrias do processo de Gramaticalização, apresentaria um grau ou nível que varia em uma escala de (+) gramaticalizada a (–) gramaticalizada, tal como evidenciado por Heine (1991), quando trata da Gramaticalização como um fenômeno
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escalar, que pode em uma linha sincrônica apresentar um item (lexical / gramatical) em diversos níveis de gramaticalidade.
Lima (2001), em seu estudo sobre a gênese de ir + infinitivo no português, afirma que o comportamento de ir como auxiliar de futuro não difere substancialmente do seu comportamento enquanto verbo pleno, e que no português, a construção em questão não conheceu ainda um incremento apreciável de coesão sintagmática ou bondedness, o que se revela na possibilidade de intercalação, entre a forma finita de ir e o verbo no infinitivo, de outros elementos frásicos como foram abordados acima. Bertinetto (1991, 1993) afirma que quanto maior a interposição de material frásico entre os elementos constituintes da perífrase, menor é seu grau de coesão sintagmática e, portanto, de