Os destinatários diretos da prevenção especial, assim como os destinatários da
proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente, na forma de seu artigo 2
o, caput, são
as crianças e os adolescentes.
Mas, afinal, o que significa ser criança?
Do latim creantia, criantia, de creare, a palavra criança estava associada,
antigamente, à criação, educação, no sentido de dar origem, gerar, formar,
desenvolver
98.
Justamente por isso, entendeu-se que pessoas com pouca idade devessem
pertencer a esse grupo especial, que recebe instrução, orientação e apoio daqueles que,
estando fora do referido grupo, são, por outro lado, por elas responsáveis.
A legislação brasileira reconheceu, principalmente a partir da Constituição
Federal de 1988 (artigo 227, caput
99), que a criança deve receber especial proteção do
Estado, da família e da sociedade, o que faz impregnada de um espírito
desenvolvimentista e protecionista impulsionado por uma série de documentos
internacionais de afirmação dos direitos da criança, a começar (i) pela Declaração de
Genebra de 1924 sobre os Direitos da Criança; (ii) pela Declaração Universal dos
Direitos da Criança adotada pela Assembléia Geral da ONU (Organização das Nações
Unidas), em 20 de novembro de 1959, reconhecida na Declaração Universal dos
98FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, 4ª edição.
Curitiba:Editora Positivo, 2009, p. 574. Criança, substantivo feminino definido como “ser humano de pouca idade, menino ou menina. Pessoa ingênua, inexperiente, infantil” (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, “Dicionário escolar da língua portuguesa”, 2a edição, São Paulo: Nacional, 2008, p. 377. 99“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem,
com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
70
Direitos Humanos, no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(em particular no artigo 10
100) e nos estatutos e instrumentos pertinentes das Agências
Especializadas e das organizações internacionais que se interessam pelo bem-estar da
criança, e (iii) pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989, ratificada,
em 24-09-1990, pelo Decreto Presidencial n
o99.710/90. Dita Convenção sobre os
Direitos da Criança, da ONU, tem a “peculiaridade de ser toda ela formada por
cláusulas pétreas, ou seja, que devem ser respeitadas em todas as situações”
101.
Mas, nem sempre foi assim.
A história revela que árdua foi a caminhada para que a criança alçasse o status
de sujeito de direito. De fato, quanto mais se retroage na história, tanto mais se
vislumbram registros de abandono e crueldade praticados contra a criança
102.
Relata Numa Denis Fustel de Coulanges
103que
(...)
o filho encontrava-se nas mesmas condições da mulher: nada possuía. Toda doação feita por ele carecia de validade pelo simples motivo de que ele não possuía coisa alguma. Igualmente não podia fazer qualquer aquisição; os frutos de seu trabalho, os benefícios de seu comércio pertenciam a seu pai. Se um testamento tivesse sido feito por um estranho a seu favor, era seu pai e não ele que recebia o legado. Por isto se explica o texto do direito romano que proibia todo contrato de venda entre pai e filho. Se o pai vendesse ao filho, teria vendido a si mesmo, já que tudo que o filho adquirisse passaria a100“Art. 10. Os Estados Membros no presente Pacto reconhecem que:
1. Deve-se conceder à família, que é o núcleo natural e fundamental da sociedade, a mais ampla proteção e assistência possíveis, especialmente para a sua constituição e enquanto ela for responsável pela criação e educação dos filhos. O matrimônio deve ser contraído com o livre consentimento dos futuros cônjuges. 2. Deve-se conceder proteção especial às mães por um período de tempo razoável antes e depois do parto. Durante esse período, deve-se conceder às mães que trabalham licença remunerada ou licença acompanhada de benefícios previdenciários adequados.
3. Deve-se adotar medidas especiais de proteção e assistência em prol de todas as crianças e adolescentes, sem distinção alguma por motivo de filiação ou qualquer outra condição. Deve-se proteger as crianças e adolescentes contra a exploração econômica e social. O emprego de crianças e adolescentes, em trabalho que lhes seja nocivo à moral e à saúde, ou que lhes faça correr perigo de vida, ou ainda que lhes venha prejudicar o desenvolvimento normal, será punido por lei. Os Estados devem também estabelecer limites de idade, sob os quais fique proibido e punido por lei o emprego assalariado da mão-de-obra infantil.
101FONSECA, Antonio Cezar Lima da, “Direitos da Criança e do Adolescente”, 2ª edição. São
Paulo:Editora Atlas, 2012, p. 4. São “cláusulas pétreas” os dispositivos constitucionais imutáveis, que não podem ser objeto de deliberação de proposta de emenda, assim como os que regulam direitos e garantias individuais (artigo 60, § 4o, inciso IV, da Constituição Federal).
102A breve retrospectiva histórica referentemente ao tratamento jurídico da criança foi obtida,
conjugadamente, in GARRIDO DE PAULA, Paulo Afonso, “Direito da Criança e do Adolescente e Tutela Jurisdicional Diferenciada”. São Paulo:Editora Revista dos Tribunais, 2002, pp. 15-22; FONSECA, Antonio Cezar Lima da, “Direitos da Criança e do Adolescente”, 2ª edição, São Paulo:Editora Atlas, 2012, pp. 2-11; MACHADO, Martha de Toledo, “A proteção constitucional de crianças e adolescentes e os direitos humanos”. São Paulo: Editora Manole, 2003, pp. 26-42.
103COULANGES, Numa Denis Fustel de, “A Cidade Antiga – Estudos sobre o Culto, o Direito e as
71 pertencer de imediato ao pai. Percebe-se no direito romano – e descobrimos também nas leis de Atenas – que o pai podia até vender seu filho, visto que o pai podia dispor de toda a propriedade da família, podendo o filho ser
encarado como uma propriedade, já que seus braços e seu trabalho
constituíam uma fonte de renda. Assim, o pai podia, a seu critério, conservar para si este instrumento de trabalho ou cedê-lo a outro. Ceder, neste caso, era a designação que se dava à venda do filho. Os textos de que dispomos do direito romano não nos informam com muita clareza qual a natureza desse contrato de venda e quais as reservas que poderiam estar nele contidas. Parece certo, entretanto, que o filho vendido não se convertia totalmente em escravo do comprador. O pai podia estipular no contrato que o filho lhe seria revendido. Mantinha, assim, seu poder sobre ele, e após tê-lo retomado, ainda podia vendê-lo novamente. A lei das Doze Tábuas autorizava tal operação até três vezes, mas declarava que depois da venda tripla o filho seria, enfim, liberado do poder paterno. Pode-se julgar por isso quanto no direito antigo a
autoridade do pai era absoluta. (Os grifos são nossos)
.
Tanto no Brasil colonial, em que vigoravam as Ordenações do Reino, quanto já
no início da fase republicana, com o advento do Código Civil, em 1916, a criança, ou,
simplesmente, o menor incapaz, como ali dela se tratou, mereceu tratamento apenas sob
o olhar do adulto. Faltando-lhe autonomia, a criança estabelecia relação de dependência
e obediência ao adulto, em troca de proteção. Não tendo a criança, realmente,
discernimento para a prática de atos da vida civil, a legislação preferiu, simplesmente,
desconsiderar a existência de direitos que lhe assistissem fundamentalmente. De fato,
qual seria a razão para conferir direitos àqueles impossibilitados de exercê-los
pessoalmente? Atribuindo aos seus responsáveis (pais e tutores) o dever de ampará-los,
a proteção jurídica da criança se exauria na busca do responsável adulto que
representasse a criança no exercício de seus direitos.
Mas, se cabia ao responsável legal a obrigação de zelar pela criança, o que
fazer na ausência deste, ou naquelas hipóteses em que a criança se via abandonada,
vivendo ao léu pelas ruas e muitas vezes praticando crimes? Quem responderia por
essas ações?
Desconsiderando a existência de direitos especiais e garantias fundamentais
destinados à proteção infantil, o ordenamento jurídico brasileiro, por outro lado,
paradoxalmente, reconheceu a aptidão da criança (e do adolescente) para suportar
pessoalmente as consequências repressivas, inclusive físicas, decorrentes da infração
penal.
Consolidaram-se, assim, leis que vislumbravam crianças e adolescentes sob a
ótica da delinquência, estabelecendo medidas punitivas aplicadas aos infratores
mediante sanções que oscilavam da liberdade vigiada à possibilidade de encarceramento
72
para aqueles que tivessem cometido crimes graves e que estivessem na faixa etária entre
16 e 18 anos de idade. A primeira dessas normas, de 1927 (Decreto 17.943-A), ficou
conhecida como “Código Mello Mattos”
104, considerado o primeiro Código de Menores
da América Latina, fixando um sistema repressivo da criminalidade infantojuvenil.
Criava-se a tutela do mundo adulto, porquanto o direito protegia a sociedade
dos crimes praticados por crianças e adolescentes e aos não criminosos apenas
dispensava proteção reflexa aos seus interesses, por intermédio de seus pais ou
representantes.
Nessas condições, a criança passou a ser considerada um gérmen nefasto para a
sociedade (um mal que se pretendia esconder, ao invés de proteger). Recolhida em
ambientes públicos, como os das casas de custódia, a criança nessa situação era retirada
do convívio social, numa tentativa de corrigir sua conduta desviada pela falta de
orientação de um adulto responsável.
Desenvolveu-se, assim, um sistema sociopenal de controle de toda a infância
socialmente desassistida, como meio de defesa social em face da criminalidade juvenil.
O “Código Mello Mattos” veio a ser posteriormente revogado
105pela Lei
n
o6.697, de 10 de outubro de 1979 – conhecida, simplesmente, como Código de
Menores. Por meio do referido diploma legal foi instalada no Brasil a “Doutrina do
Menor em Situação Irregular”. Era o tempo do “menor”, do “menor abandonado”, do
104O primeiro Código de Menores brasileiro (Decreto 17.943-A, de 12-10-1927) foi elaborado pelo Juiz
José Cândido de Albuquerque Mello Mattos e, em função disso, ficou conhecido como “Código Mello Mattos”.
105 Do latim revocatio, de revocare (anular, desfazer, desvigorar), entende-se, em ampla significação, o
ato pelo qual se desfaz, se anula ou se retira a eficácia ou efeito de ato anteriormente praticado. Por esta justa razão, a revogação ou ato revocatório somente produzirá os efeitos de anular, desfazer, desvigorar o que antes era feito, se promovido ou realizado por quem tenha autoridade para anulá-lo ou o desfazer. Pela revogação, licitamente permitida, cessa toda eficácia ou força jurídica do ato revogado. Mas, a revogação não opera efeitos em atos, que se mostrem ou se apresentem irretratáveis ou não susceptíveis de desvigoramento ou desobrigação. Trata-se de atos irrevogáveis, que não se desfazem nem perdem a força jurídica, desde que têm a irrevogabilidade legalmente assegurada. Entre outros, não estão sujeitos à revogação o mandato em causa própria, a emancipação, o reconhecimento de paternidade, a adoção, etc. Por outro lado, são revogáveis todos os atos fundados em convenção ou resultantes de ato unilateral, tal como o mandato, a doação, o testamento. Em sentido genérico, e referentemente à lei, revogação entende- se a cessação da obrigatoriedade da lei, supressão ou cassação da lei. E, desse modo, é o vocábulo empregado tanto para designar o sentido de ab-rogação (revogação geral ou total), como de derrogação (revogação parcial). Mas, é comum o emprego de revogar e ab-rogar em sentidos equivalentes, quando, por sua origem, revogar é anular, suprimir, cessar, desobrigar, seja total ou parcialmente, enquanto ab- rogar exprime o sentido de anular, cassar ou desfazer por inteiro, em distinção a derrogar, que traduz a idéia de anular, suprimir, cassar parcialmente ou em parte. A revogação da lei pode ser expressa ou tácita. Expressa quando a lei que a revoga é especialmente destinada a esse fim e a ela, claramente, se refere. Tácita, quando a revogação resulta da incompatibilidade ou da divergência de norma entre a lei anterior e a lei nova, In SILVA, de Plácido e, “Vocabulário Jurídico”, vol. IV, 4ª edição. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1975, pp. 1382/1383. (Os grifos constam do original).
73
“menor delinquente”, expressões que estigmatizavam crianças e adolescentes, e que
institucionalizaram a teoria da proteção ao menor em situação irregular, abrangendo os
casos de abandono, prática de infração penal, desvio de conduta, falta de assistência ou
representação legal. Aludida lei cuidava do conflito instalado e apenas da prevenção da
situação irregular, como uma “patologia social ampla”. Era instrumento de controle
social da infância e da adolescência, nas hipóteses de omissão das famílias, da
sociedade e do Estado.
O caminho traçado pela legislação brasileira no amparo à criança até o início
da década de 80, bem se vê, simplesmente ignorou a relevante função de cuidar do ser
humano (criança) que representa o alicerce de sustentação do mundo adulto.
Ao longo do presente estudo, será examinado o Estatuto da Criança e do
Adolescente, com a certeza, porém, de que a análise deve ser feita partindo de uma
segunda reflexão essencial.
Retorne-se, assim, a questão inicial, isto é, a de saber o que significa ser
criança. E, ao refazer essa indagação, muitas outras ideias hão de povoar os
pensamentos condutores para sua resposta.
Algumas delas buscam uma definição analítica para o “ser criança”. Nesse
caminho, destacam-se alguns atributos e características que estão associadas à figura de
uma criança. Dir-se-á, realmente, que ser criança é ser espontâneo, ingênuo, inocente,
crédulo, curioso.
De fato, nessa fase da vida em que pouco ou nada se sabe muito se quer
conhecer, descobrir, experimentar.
Talvez seja essa a razão para se enaltecer, como um valor, a criança que existe,
muitas vezes escondida, dentro de um corpo já adulto. Ser criança representa um estado
de espírito.
São crianças, aos olhos do Estatuto da Criança e do Adolescente, contudo, as
pessoas até doze anos de idade incompletos (artigo 2
o, caput, 1
aparte, da Lei
n
o8.069/90). Reconhece a legislação, portanto, que essas pessoas merecem cuidados
especiais porque, em razão da imaturidade e inexperiência próprias à sua faixa etária,
estão mais vulneráveis a ações externas. Permite-se afirmar, sem qualquer pretensão
pedagógica, que a mente infantil, realmente, funciona como uma “esponja”, o que
significa dizer que está aberta a absorver dados, informações, percepções, sem que, por
74
outro lado, disponha de um censo crítico acurado. Logo, inexistindo “freios” ou “filtros”
acionados por esta mente infantil, fica ela mais suscetível a receber todo e qualquer tipo
de dado, informação ou percepção, bom ou ruim; bom e ruim.
Aí está, essencialmente, o fundamento do direito (dever) à prevenção. Previne-
se para evitar que crianças sejam mal informadas, expostas a situações degradantes,
violentadas pelo mundo adulto
106. São elas, as crianças, efetivamente, as destinatárias
diretas da prevenção especial.
No ambiente da cultura, do lazer e do entretenimento a preocupação é ainda
maior, uma vez que, sendo ele lúdico, o espírito permanece absolutamente desarmado,
livre para receber qualquer tipo de influências, especialmente aquelas que vêm
acompanhadas de um apelo visual próprio aos meios publicitário, editorial, midiático e
tecnológico.
Em face disso, é de fundamental importância examinar os mecanismos de
controle e de responsabilidade dos agentes externos que não só devem agir na
prevenção de danos infantis, como, sobretudo, ser punidos na falta desta.
Por fim, deve-se tecer uma terceira e última reflexão fulcrada, ainda, na
pergunta inaugural constante deste item: o que significa ser criança?
A resposta poderia ser a da célebre frase já pronunciada uma centena de vezes,
notadamente, nos momentos de aclamação político-partidária: a criança é o futuro de
uma nação. Ser criança hoje significa ser o adulto de amanhã.
E que adulto é esse que se quer formar?
Nesse ponto esbarra-se, frontalmente, uma vez mais, com o tema central do
presente trabalho, qual seja o de identificar a responsabilidade que nos assola hoje,
como adultos, ao direcionar a cultura e a educação das crianças. A responsabilidade é
ainda maior daqueles que, como interlocutores da comunicação infantil, auxiliam, direta
ou indiretamente, na formação de sua personalidade e de seu caráter.
106Não é por outra razão que em 1990, em Nova Iorque, deu-se o Encontro Mundial de Cúpula pela
Criança, na sede das Nações Unidas, quando 71 líderes mundiais se comprometeram a melhorar a saúde das crianças e mães, combater a desnutrição e o analfabetismo e erradicar as doenças que vêm matando milhões de crianças a cada ano. Para tanto firmaram a Declaração Mundial sobre a Sobrevivência, Proteção e o Desenvolvimento da Criança nos anos 90. Em 25-05-2000 foram adotados, por Resolução da ONU, dois Protocolos Facultativos, que visam a fortalecer o rol de medidas protetivas no que tange às violações sobre as quais discorrem: Protocolo sobre a Venda de Crianças, Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. O conteúdo dessa informação está in FONSECA, Antonio Cezar Lima da, “Direitos da Criança e do Adolescente”, 2ª edição. São Paulo:Editora Atlas, 2012, p. 5.
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Por essa razão, acredita-se que o salutar enfrentamento da prevenção especial
tangencia a análise de aspectos filosóficos e teóricos sem os quais o caminho não poderá
ser bem traçado, para o que se retomam as ideias desenvolvidas nos capítulos
inaugurais. De fato, não é possível analisar a prevenção especial sem compreender a
ratio de sua existência nos enunciados prescritivos alusivos à criança e ao adolescente,
tais, especialmente, os artigos 74 usque 80 da Lei n
o8.069, de 13 de julho de 1990
(Estatuto da Criança e do Adolescente)
107.
107Pede-se vênia para transcrever, abaixo, o Título III – “Da Prevenção”, Capítulo I – “Disposições
Gerais” (artigos 70 a 73) e Capítulo II - “Da Prevenção Especial”, Seção I – “Da informação, cultura, lazer, esportes, diversões e espetáculos” (artigos 74 usque 80), insertos no Estatuto da Criança e do Adolescente, ressaltando que os grifos não constam do original:
“Art. 70. É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente.
Art. 70-A. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão atuar de forma articulada na
elaboração de políticas públicas e na execução de ações destinadas a coibir o uso d castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante e difundir formas não violentas de educação de crianças e de adolescentes, tendo como principais ações:
I – a promoção de campanhas educativas permanentes para a divulgação do direito da criança e do
adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante e dos instrumentos de proteção aos direitos humanos;
II – a integração com os órgãos do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública, com
o Conselho Tutelar, com os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente e com as entidades não governamentais que atuam na promoção, proteção e defesa dos direitos da criança e do adolescente;
III – a formação continuada e a capacitação dos profissionais de saúde, educação e assistência social e
dos demais agentes que atuam na promoção, proteção e defesa dos direitos da criança e do adolescente para o desenvolvimento das competências necessárias à prevenção, à identificação de evidências, ao diagnóstico e ao enfrentamento de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente;
IV – o apoio e o incentivo às práticas de resolução pacífica de conflitos que envolvam violência contra a
criança e o adolescente;
V – a inclusão, nas políticas públicas, de ações que visem a garantir os direitos da criança e do
adolescente, desde a atenção pré-natal, e de atividades junto aos pais e responsáveis, com o objetivo de promover a informação, a reflexão, o debate e a orientação sobre alternativas ao uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante no processo educativo;
VI – a promoção de espaços intersetoriais locais para a articulação de ações e a elaboração de planos de
atuação conjunta focados nas famílias em situação de violência, com participação de profissionais de saúde, de assistência social e de educação e de órgãos de promoção, proteção e defesa dos direitos da criança e do adolescente.
Parágrafo único. As famílias com crianças e adolescentes com deficiência terão prioridade de
atendimento nas ações e políticas públicas de prevenção e proteção.
Art. 71. A criança e o adolescente têm direito à informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Art. 72. As obrigações previstas nesta Lei não excluem da prevenção especial outras decorrentes dos
princípios por ela adotados.
Art. 73. A inobservância das normas de prevenção importará em responsabilidade da pessoa física ou
jurídica, nos termos desta Lei.
Art. 74. O Poder Público, através do órgão competente, regulará as diversões e espetáculos públicos,
informando sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada.
Parágrafo único. Os responsáveis pelas diversões e espetáculos públicos deverão afixar, em lugar visível