Em direito, esclarece Paulo de Barros Carvalho
21, utiliza-se o termo “princípio”
para denotar regras, mas também se emprega a palavra para apontar normas que fixam
importantes critérios objetivos, além de ser usada, igualmente, para significar o próprio
valor, independentemente da estrutura a que está agregado e, do mesmo modo, o limite
objetivo sem a consideração da norma.
21CARVALHO, Paulo de Barros, “Direito Tributário, Linguagem e Método”, 3a edição. São
30
Assim, nessa breve digressão semântica, destacam-se quatro usos distintos para
o termo “princípio”: a) como norma jurídica de posição privilegiada e portadora de
valor expressivo; b) como norma jurídica de posição privilegiada que estipula limites
objetivos; c) como os valores insertos em regras jurídicas de posição privilegiada, mas
considerados independentemente das estruturas normativas; e d) como limite objetivo
estipulado em regra de forte hierarquia, tomado, porém, sem levar em conta a estrutura
da norma. Nos dois primeiros, temos “princípio” como “norma”; nos dois últimos,
“princípio” como “valor” ou como “critério objetivo”.
O autor chama a atenção para o fato de que na consideração do signo
“princípio”, é decisivo distingui-lo como “valor” ou como “princípio objetivo”. Isso
porque, ao se reconhecer no enunciado prescritivo campo para a atribuição de valores,
ter-se-á que ingressar, forçosamente, nos domínios da axiologia, para estudá-los
segundo as características próprias das estimativas.
Seja como for, adverte Paulo de Barros Carvalho que,
(...) os princípios aparecem como linhas diretivas que iluminam a compreensão de setores normativos, imprimindo-lhes caráter de unidade relativa e servindo de fator de agregação num dado feixe de normas. Exercem eles uma reação centrípeta, atraindo em torno de si regras jurídicas que caem sob seu raio de influência e manifestam a força de sua presença. Algumas vezes constam de preceito expresso, logrando o legislador constitucional enunciá-los com clareza e determinação. Noutras, porém, ficam subjacentes à dicção do produto legislado, suscitando um esforço de feitio indutivo para percebê-los e isolá-los. São os princípios implícitos. Entre eles e os expressos não se pode falar em supremacia, a não ser pelo conteúdo intrínseco que representam para a ideologia do intérprete, momento em que surge a oportunidade de princípios e de sobreprincípios.
Nesse confronto entre os princípios e os sobreprincípios, pondera Barros
Carvalho
22,
Há ´princípios´ e ´sobreprincípios´, isto é, normas jurídicas que portam valores importantes e outras que aparecem pela conjunção das primeiras. Vejamos logo um exemplo: a isonomia das pessoas políticas de Direito Constitucional interno tem importante repercussão no setor das imposições tributárias. Não há, contudo, formulação expressa que lhe corresponda no texto do direito positivo. Emerge pelo reconhecimento de outras normas que, tendo a dignidade de princípios, pelo quantum de valor que carregam consigo, fazem dele um ´sobreprincípio´. Realiza-se pela atuação de outros princípios. Assim também ocorre com o primado da justiça23.
22CARVALHO, Paulo de Barros, “Princípios e Sobreprincípios na Interpretação do Direito”, texto
extraído do site http://www.barroscarvalho.com.br visitado em 15-07-2013, às 17:15h.
23Não há que se confundir sobreprincípios com princípios supra-estatais. Como expressa Pérez Hualde,
“Los valores y princípios supra estatales (...) constituyen um marco de acatamiento que se impone sobre los textos fundamentales y compromete a los estados particulares” (GORDILLO, Agustín, “Tratado de
31
Com o único propósito de aproximar essa lição ao conteúdo específico do
presente trabalho, ousa-se sugerir que a doutrina ou princípio da proteção integral da
criança corresponde a um sobreprincípio no contexto do microssistema em que se opera
ao qual não se pode deixar de atribuir um conteúdo valorativo de grande magnitude. Ao
mesmo tempo, a proteção integral da criança corresponde ao fundamento, a causa, ao
critério e a justificação para a existência um sistema de normas que visa atender
prioritariamente um grupo de pessoas, reconhecendo a peculiaridade de sua condição
(em desenvolvimento), em função disso, lhes garantindo cuidado especial.
Ao retomar as argumentações de Paulo de Barros, diz-se, ainda, que há
formulações específicas que atinam à ordenação em vigor no Brasil, determinações
normativas contidas no Texto Supremo e que de lá se irradiam aos múltiplos segmentos
disciplinadores das condutas interpessoais. Sendo assim, ninguém pode ignorar os
princípios da Federação e da República, a diretriz que consagra a autonomia municipal,
o primado da isonomia entre as pessoas políticas de direito constitucional interno, os
cânones da supremacia do interesse público sobre o privado e o da indisponibilidade dos
interesses públicos, bem como o catálogo dos direitos e garantias individuais. É
efetivamente longa e minuciosa a listagem dos valores que a Constituição da República
estabeleceu como planta básica, a partir da qual hão de compor-se as cadeias de normas
estruturadas deonticamente para regular os comportamentos entre as entidades dotadas
de personalidade jurídica.
Toda vez que houver acordo, ou que um número expressivo de pessoas
reconhecerem que a norma “N” conduz um vector axiológico forte, cumprindo papel de
relevo para a compreensão de segmentos importantes do sistema de proposições
prescritivos, lá estará um “princípio”. Quer isto significar, portanto, que os “princípios”
são portadores de núcleos significativos com diâmetro ampliado influenciando
visivelmente a orientação de cadeias normativas, às quais outorgam caráter de unidade
relativa, servindo de fator de agregação para outras regras do ordenamento
24.
Derecho Administrativo y obras Selectas”, Tomo 9, 1ª edición, Fundación de Derecho Admnistrativo. Buenos Aires: FDA, 2014, p. 614).
24CARVALHO, Paulo de Barros, “Direito Tributário Linguagem e Método”, 3a edição. São Paulo:Editora
32