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5. SONUÇ ve ÖNERĠLER
A Escola de Música presta serviços à sociedade mineira e brasileira desde 1925, formando recursos humanos e produzindo conhecimento na área de música. Os principais fatos que marcam a história da Escola de Música são: início de seu funcionamento em 1925, quando recebe o nome de Conservatório Mineiro de Música; inauguração de sua sede própria em 1926; federalização da instituição em 1950; incorporação à Universidade Federal de Minas Gerais em 1962; mudança do nome para Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais em 1972; e a mudança para o Campus Pampulha em 1997 (EMUFMG, 2013).
A Escola de Música da UFMG é uma instituição antiga, que, assim como muitas faculdades de Música do nosso país, originaram-se de conservatórios pré- existentes. É possível afirmar que esses cursos herdaram as concepções pedagógicas e o culto ao repertório da música erudita desenvolvidos nos conservatórios (FEICHAS, 2006, p. 36; BARBEITAS, 2002, p. 77). No entanto, Barbeitas (2002, p. 76) considera a mudança de status de conservatório para faculdade como ―geradores de um lento e
gradual processo de mudança de mentalidade na Escola‖. Segundo o autor, nesse processo é questionada a ideia de Conservatório, ou seja, ―da idéia de uma instituição
voltada predominantemente para o culto dos valores passados‖ (BARBEITAS, 2002, p. 76).
Algo importante para essa mudança de concepção aconteceu em 2001, quando foi implantado um novo currículo na Escola de Música da UFMG, o qual se encontra em vigor atualmente. Nessa época, novos currículos foram criados na universidade como um todo, em consonância com as diretrizes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n. 9.394/96. As universidades foram instruídas a ―revisar seu
42 currículo para atender requisitos regionais e questões culturais específicas, visando uma maior interação do currículo com a sociedade, em detrimento da criação de uma subcultura universitária41‖ (FEICHAS, 2006, p. 6).
Nesse sentido, a música popular justificava-se como objeto de estudo de um curso de Música, pois ela é um fenômeno muito importante na cultura do nosso país. Por isso, sua inclusão representa, de acordo com Barbeitas (2002, p. 76-77), um estreitamento da concepção de música da Escola, baseado em novas formas de aprendizado e em uma maior relação com a realidade social do nosso país.
Esse processo de alterações curriculares após a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 foi denominado Flexibilização Curricular. De acordo com Feichas (2006, p. 6), nesse momento ocorreram mudanças no exame do vestibular, com o intuito de democratizar o acesso ao ensino superior, o que no caso do curso de Música favoreceu a heterogeneização do perfil42 dos estudantes ingressos. O termo ―Flexibilização‖ se refere à mudança da estrutura curricular, na qual ocorreu uma redução da quantidade de disciplinas obrigatórias e um aumento das optativas. No caso da EMUFMG, parte das disciplinas optativas que foram criadas se dedicava ao estudo da música popular, além de outros assuntos considerados importantes nessa nova concepção, como música e tecnologia e a pesquisa e reflexão teórica em musica. (BARBEITAS, 2002, p. 77).
Para Barbeitas, o novo currículo seria responsável por superar o modelo
conservatorial, baseado no ―solismo‖ e na centralidade do repertório erudito. No que se
refere ao repertório, por um lado é possível afirmar que de fato houve uma abertura para a prática da música popular, uma vez que mais alunos que tocam esse repertório ingressaram no curso de Música da UFMG, e que algumas disciplinas passaram a tratar desse assunto. No entanto, ainda era difícil contestar a centralidade da música erudita, pois as disciplinas de música popular eram escassas, assim como os professores envolvidos com essa temática. Ainda, os alunos de bacharelado do curso de Música, grande maioria da população da Escola até então, possuem uma demanda de estudo expressiva do repertório erudito, de forma que, mesmo os que também tocam música popular, tem que se dedicar ao aprendizado do primeiro.
41
To review their curricula to meet regional requirements and particular cultural features so that they could interact more with society, rather than create a university sub-culture.
42 Utilizo a palavra perfil para designar o conjunto de características com relação a preferências de
gêneros musicais, pretensões com relação ao futuro profissional e formação musical anterior à universidade. Sobre a mudança de perfis de alunos no ensino superior de música veja Feichas (2006).
43 Portanto, é possível concluir que a mudança curricular foi uma questão importante para a entrada da música popular na EMUFMG, mas que ela, apenas, não foi suficiente para fazê-lo. Na verdade, desde 1994 existe o projeto de criar um curso de música popular nessa instituição (EMUFMG, 2008, p. 24). A criação de algumas disciplinas optativas na área da música popular foi uma das maneiras de atender esse anseio. Mas somente em 2009 ocorreu o ingresso da primeira turma do Bacharelado em Música com Habilitação em Música Popular, curso criado a partir do REUNI. Andalécio (2009, p. 123) fala sobre as mudanças no âmbito da UFMG e dos princípios do REUNI:
A UFMG ofereceu, no concurso vestibular para o ano de 2009, 5.950 vagas em 66 cursos de graduação, sendo seis deles realizados em Montes Claros. Em 2007, haviam sido 4.674 vagas e o aumento deveu-se à adesão da UFMG ao REUNI (UFMG, 2007). Os princípios que fundamentaram a proposta de associação da UFMG ao REUNI foram: estímulo à implantação de currículos arrojados, consistentes e enxutos, incorporando atividades acadêmicas de cunho multidisciplinar; criação de um grupo novo de cursos, voltados para a inovação; expansão das matrículas em proporções similares na graduação e na pósgraduação; adoção de metodologias de ensino mais aptas ao trabalho com turmas de tamanho variado; aumento expressivo do número de bolsistas nos programas de pósgraduação; direcionamento de parte significativa da expansão das vagas de graduação para cursos que tenham maior potencial de contribuição para o desenvolvimento sustentado e para a eqüidade social; aprimoramento dos processos seletivos para o ingresso; expansão de vagas prioritariamente dirigida ao turno noturno; ampliação do já elevado percentual de conclusões de cursos; fortalecimento dos programas de mobilidade estudantil (pelo intercâmbio com outras instituições); e aprimoramento dos programas de mobilidade interna (por meio de reopção e da flexibilização curricular).
Em consonância com as diretrizes do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), a Escola de Música da UFMG: modificou novamente o exame do vestibular; criou as habilitações de Bacharelado em Música Popular e Bacharelado em Musicoterapia (ambas em período noturno, com 15 vagas anuais para cada uma); aumentou substancialmente as vagas do curso de Licenciatura (de 8 para 30), que então, também passou a funcionar em período noturno. O número de alunos, portanto, cresceu de forma significativa. As outras habilitações do bacharelado, em Instrumento, Canto, Composição e Regência, continuaram a funcionar em período diurno, aumentando o número de 36 para 46 vagas de ingresso por ano.
Pode-se inferir que a partir dessa nova realidade, que envolveu uma maior diversificação dos perfis dos alunos de graduação, além da contratação de novos professores, a centralidade do repertório e dos métodos da música erudita diminuiu de
44 maneira mais expressiva na EMUFMG. Isso acontece, em primeiro lugar devido à nova divisão das vagas da graduação. O percentual de alunos do Bacharelado com Habilitação em Instrumento ou Canto, Composição, e Regência diminui. Estes alunos continuam com as obrigações de estudo do repertório erudito. No entanto, um maior percentual de alunos, aqueles que cursam Licenciatura, Música Popular, e Musicoterapia, não possui essas obrigações.
Eu não quero sugerir que a habilitação determina rigorosamente qual repertório o aluno toca. Qualquer aluno pode tocar/praticar o repertório popular, o erudito, ou outros. A diferença a qual me refiro relaciona-se com as obrigações dos alunos de Bacharelado (em Instrumento, Canto e Regência) de prepararem um repertório erudito que exige um considerável nível de técnica como requerimento para se graduar, o qual é cobrado por meio das avaliações das suas aulas de performance e dos recitais de final de semestre e de formatura. De fato, alguns dos referidos alunos se dedica igualmente, se não mais, ao estudo da música popular43. Isso, inclusive, tem relação com o instrumento. Alunos de Bacharelado em Saxofone, por exemplo, costumam estudar a fundo o repertório da música popular, improvisação, etc.. É possível que isso tenha a ver com o mercado de trabalho disponível para esses instrumentistas. Alunos de Licenciatura e de Musicoterapia, por outro lado, podem tocar qualquer instrumento, e qualquer repertório (erudito, popular, etc.). A diferença, eu repito, é que seu nível técnico no instrumento não é avaliado como requerimento para que eles possam se graduar.
Em segundo lugar, o REUNI possibilitou a contratação de novos recursos humanos para a Escola, especialmente para atender as novas habilitações e a Licenciatura. No caso da Música Popular, isso era esperado desde a mudança curricular de 2001. Barbeitas (2002, p. 77) afirma que integração da música popular ao currículo estava prevista e seria confirmada através de políticas departamentais de captação docente. Isso parece não ter acontecido de maneira satisfatória, uma vez que no projeto de criação do curso de Música Popular, de 2008 (EMUFMG, 2008, p. 32), é apontado que apenas nos dois últimos concursos havia exigências no edital prevendo competências e habilidades em música popular.
43 Penso que a criação da habilitação em Música Popular contribui para a legitimidade desse repertório.
Observei, de maneira não sistematizada ou científica, que tem sido mais frequente a inclusão de músicas do repertório popular nos recitais de formatura dos alunos de Bacharelado em Instrumento.
45 Para atender a demanda da primeira turma de Música Popular foram contratados três novos professores, no entanto, desde o início do curso, em 2009, até o final de 2012, data em que a primeira turma estaria se formando, nenhum professor efetivo foi contratado além destes. Nesse sentido, a aquisição de recursos humanos para o campo da Música Popular na EMUFMG continua sendo uma questão problemática. Segundo a proposta de adesão ao REUNI, que contém o projeto de criação desse curso, eram esperados até o primeiro semestre de 2012 onze professores servindo ao Curso de Música Popular. Esse número consideravelmente alto de contratações esperadas se deve ao fato de que é necessário contratar professores distintos para cada instrumento específico. Dessas onze requeridas, quatro novas contratações eram esperadas apenas para começar o curso (EMUFMG, 2008, p. 32). Na prática, isso não aconteceu. Foram contratados três, e não quatro professores, e ao longo do curso, até 2012, nenhum novo professor efetivo foi contratado, apenas alguns substitutos, que têm contrato de curta duração. Na próxima seção eu abordo o perfil dos professores envolvidos nessa pesquisa, que incluem os três novos contratados.