Outro caso a se mencionar é o do etnônimo “bugre”. A edição 2001 do dicionário Houaiss etiqueta já a primeira acepção como “pejorativa”. Por tratar-se de uma designação dada pelos portugueses desde a colonização aos nativos que habitavam o Brasil — uma designação genérica que, etimologicamente, tem a ver com os búlgaros — o dicionário optou
por tratá-lo, já em sua acepção denotativa, como pejorativo. Entretanto, parece ter revisto sua posição ao apresentar, na edição de 2009, um verbete sem as marcas de uso “pejorativo” nas primeiras acepções, conforme se observa:
bugre s.2g. (1899 cf. CF1 supl.) 1 ETNOL pej. obs. denominação dada a indígenas de diversos grupos do Brasil, por serem considerados sodomitas pelos europeus ☞ Obs.: etnm.br.: Bugre 2 fig. pej. indivíduo rude, primário,
incivilizado 3 fig. indivíduo desconfiado, arredio ❖ s.m. ANGIOS 4 m.q. CORAÇÃO-DE-NEGRO (Albizia lebbeck) ■ adj. 2g. 5 relativo a bugre ('indígena') ou aos bugres ('grupo') ⦿ ETIM fr. bougre (1172) 'herético' < lat.medv. bulgărus (sVI) 'búlgaro; herético; sodomita', porque os búlgaros, como membros da Igreja greco-ortodoxa, foram considerados heréticos; o emprego do vocábulo para denotar o indígena liga-se à ideia de 'inculto, selvático, não cristão'; var.divg. búlgaro; a datação é para o subst.pl. ⦿ COL bugrada, bugraria (HOUAISS, 2001, s.v. bugre)
bugre s.2g. (1877) B 1 ETNOL indígena pertencente ao grupo dos bugres 2
p.ext. qualquer índio, esp. o violento 3 fig. pej. indivíduo rude, primário, incivilizado 4 fig. Indivíduo desconfiado, arredio ❖ s.m. angios 4 m.q. CORAÇÃO-DE-NEGRO (Albizia lebbeck) ■ adj. 2g. relativo a bugre (acp. 1) ou aos bugres (acp. 7) ⧇ bugres s.m.pl. B ETNOL 1 grupo indígena que habitava o Sul do Brasil, entre os rios Iguaçu e Piquiri e as cabeceiras do rio Uruguai ⦿ GRAM admite-se o fem. bugra ⦿ ETIM fr. bougre 'herético' ⦿ COL bugrada, bugraria (HOUAISS, 2009, s.v. bugre)
A questão parece ter a ver, por um lado, com o entendimento de que a designação dada era ofensiva desde a sua concepção e, por essa razão, marcada como “pejorativa” já na primeira acepção. Por outro lado, a designação perpetuou-se com o passar dos tempos, ainda que etimologicamente negativa, como se verifica no espaço reservado à etimologia da edição de 2009 (“herético”), e passou, de fato, a designar o grupo indígena perdendo sua conotação pejorativa. Assim, “uma palavra que é, definitivamente, vulgar, numa dada época, pode se tornar aceitável em outra”, conforme já apontava Roback (1944, p. 13–14).
4.5.4 “Cabeça-chata”, jocoso ou pejorativo?
Antes mesmo da controvérsia em que se pedia a remoção das acepções pejorativas do verbete “cigano”, o dicionário Houaiss apresentou, entre as edições de 2001 e 2009, algumas alterações no sentido de melhor informar o seu usuário quanto a usos insidiosos de etnofaulismos. Um deles pode ser exemplificado pela injúria étnica “cabeça-chata”, cuja alteração de uma edição para outra se deu na marca de uso. Na primeira edição, a marca de uso que acompanhava a primeira acepção (a injuriosa) era “jocoso”:
cabeça-chata s.2g. (sXX) B 1 joc. indivíduo que nasceu no Nordeste do Brasil, esp. no Estado do Ceará; cabeça de bater sola 2 HERP m.q. BOIPEVA (Waglerophis merremii) 3 ICT tubarão costeiro, da fam. dos carcarrinídeos (Carcharhinus leucas), de ampla distribuição nas águas quentes do mundo, atingindo baías e estuários, com cerca de 3,5 m de comprimento, de cor cinza a marrom, olhos pequenos e circulares, fendas branquiais moderadamente longas; são vivíparos e possuem saco placentário; baiacu, cação-baía, cação-do-raso, tubarão-de-água-doce [Sua carne é consumida fresca ou defumada, sua pele us. como couro, suas nadadeiras em sopas e do fígado se extrai óleo; de hábitos costeiros, é um dos mais perigosos tubarões, e responsável por vários ataques.] ⦿ GRAM pl.: cabeças- chatas (HOUAISS, 2001, s.v. cabeça-chata, grifo nosso)
Na edição de 2009, a marca de uso para o mesmo sentido é “pejorativo”. A parte essa alteração, o verbete permaneceu idêntico.
cabeça-chata s.2g. (sXX) B 1 pej. indivíduo que nasceu no Nordeste do Brasil, esp. no Estado do Ceará 2 HERP m.q. BOIPEVA (Waglerophis merremii) 3 ICT tubarão costeiro, da fam. dos carcarrinídeos (Carcharhinus leucas), de ampla distribuição nas águas quentes do mundo, atingindo baías e estuários, com cerca de 3,5 m de comprimento, de cor cinza a marrom, olhos pequenos e circulares, fendas branquiais moderadamente longas; são vivíparos e possuem saco placentário; baiacu, cação-baía, cação-do-raso, tubarão-de-água-doce [Sua carne é consumida fresca ou defumada, sua pele us. como couro, suas nadadeiras em sopas e do fígado se extrai óleo; de hábitos costeiros, é um dos mais perigosos tubarões, e responsável por vários ataques.] ⦿ GRAM pl.: cabeças- chatas (HOUAISS, 2009, s.v. cabeça-chata, grifo nosso)
Por “jocoso”, pode-se entender que algo é dito ou feito como divertimento ou por zombaria, o que provoca riso para alguns, mas pode não causar o mesmo efeito na vítima da injúria. Ainda que o enunciador esteja se referindo a si próprio, como na conversa abaixo, obtida na rede social Twitter:
11. ei cá pra nós: maranhenses ow povo fêi (https://twitter.com/anawaleria/status/ 466757228809441281)
@anawaleria só perde pros cearenses… (https://twitter.com/20reaix/status/ 466759160663908352)
@20reaix serááááá (https://twitter.com/anawaleria/status/466759622918168576)
@anawaleria olha, ô povo feio esse povo da cabeça chata(euzinha), tem igual não kkk (https://twitter.com/20reaix/status/466760191791595520)
No perfil da usuária @20reaix,114 pode-se levantar a sua localização como sendo de Fortaleza-CE.
A ocorrência do etnofaulismo num sintagma preposicionado como “povo da cabeça chata”, no diálogo do Twitter reproduzido acima, mostra que os etnofaulismos podem ocorrer
Disponível em: <https://twitter.com/20reaix>. Acesso em: 15 maio 2014
também como uma referência indireta e não necessariamente como uma injúria dita em situação de confronto direto, podendo ocorrer ainda em combinação com outros elementos (no caso, “povo”).
Na obra “Três sargentos” (NAY, 1985), faz-se menção ao “cabeça-chata” como sendo o indivíduo do Ceará, bem como o “retirante” e, em ambos os casos, recebiam tais alcunhas no próprio nordeste (no estado do Maranhão) e em Santos (no litoral paulista):
“Costuma os santistas dizer que nordestino tem cabeça chata porque quando nasce o pai bate na cabeça dele e diz, “Vai prá Santos, vai ser conferente na alfândega”. Cabeça chata só no Ceará. Lá no Maranhão eu e a mulecada corria atrás dos retirante cearenses e chamava eles de Cabeça Chata.” (NAY, 1985, p. 58)
Tanto para a ocorrência no Twitter, como para o exemplo que se recuperou na literatura brasileira, pode-se verificar que este não se trata de um preconceito do paulista ou das regiões sudeste e sul contra os habitantes do Nordeste, mas um uso que se verifica no próprio Nordeste, pelos próprios nordestinos.
Aqui ainda, para além das marcas de uso atribuídas a essa injúria étnica, evidencia-se outra questão relativa à abonação que a acompanha no dicionário Aurélio.
cabeça-chata [De cabeça + o f. de chato.] S. 2 g. 1. Bras. S. Alcunha dada aos cearenses e, p. ext., aos nortistas: ! “— Você já viu algum carioca imitar tão bem o sotaque desses cabeças-chatas que infestam o Rio?” (Herberto Sales, Histórias Ordinárias, p. 151.) 2. Bras. Zool. V. boipeva. [Pl.: cabeças-chatas.] (FERREIRA, 2010, s.v. cabeça-chata)
A partir desse exemplo, visto ser essa uma abonação de uma “autoridade”, ou seja, um texto de alguém do cânone literário brasileiro, é possível responder à pergunta que se faz ao título desta seção: “cabeça-chata” é uma injúria e o Houaiss procedeu em consonância com a realidade de uso ao alterar a etiqueta no verbete, em sua edição mais recente.