De acordo com Maria Inês Salgado de Souza (1981), foi realizado em 1964, sob a coordenação do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), no Rio de Janeiro, um simpósio em que foram discutidas estratégias de investimento no ensino com o intuito de assegurar o aumento da produtividade e da renda, determinando a função de cada nível de ensino, a saber: ao ensino primário caberia a responsabilidade de capacitação para a realização de atividades práticas; o então chamado ensino médio se incumbiria de formar mão de obra qualificada para o desenvolvimento social e econômico do país; já o ensino superior teria a função de formar profissionais aptos para atuar nas empresas e, ainda, sujeitos preparados para a administração do país.
Dermeval Saviani (2008) destaca que, com o mesmo intuito do simpósio citado por Souza (1981), foi realizado, em 1968, um fórum denominado “A educação que nos convém”, em que foram explicitadas as determinações pedagógicas assumidas pelo regime militar, que enfatizaram a “teoria do capital humano53,” reforçando o papel da educação para a formação de recursos humanos e, consequentemente para o desenvolvimento econômico, por meio da iniciação para o trabalho (realizada no primeiro grau de ensino); da formação de técnicos para o mercado de trabalho (viabilizada por algumas modalidades do ensino secundário) e, finalmente, da realização de cursos de curta duração para qualificação profissional (operacionalizada pelo ensino superior). Além dessas ações, houve um
53 “Sua origem está ligada ao surgimento da disciplina Economia da Educação, nos Estados Unidos, em
meados dos anos 1950. Theodore W. Schultz, professor do departamento de Economia da Universidade de Chicago à época, é considerado o principal formulador dessa disciplina e da idéia (sic.) de capital humano. Esta disciplina específica surgiu da preocupação em explicar os ganhos de produtividade gerados pelo “fator humano” na produção. A conclusão de tais esforços redundou na concepção de que o trabalho humano, quando qualificado por meio da educação, era um dos mais importantes meios para a ampliação da produtividade econômica, e, portanto, das taxas de lucro do capital. Aplicada ao campo educacional, a idéia (sic.) de capital humano gerou toda uma concepção tecnicista sobre o ensino e sobre a organização da educação, o que acabou por mistificar seus reais objetivos. Sob a predominância desta visão tecnicista, passou-se a disseminar a idéia (sic.) de que a educação é o pressuposto do desenvolvimento econômico, bem como do desenvolvimento do indivíduo, que, ao educar-se, estaria “valorizando” a si próprio, na mesma lógica em que se valoriza o capital. O capital humano, portanto, deslocou para o âmbito individual os problemas da inserção social, do emprego e do desempenho profissional e fez da educação um “valor econômico”, numa equação perversa que equipara capital e trabalho como se fossem ambos igualmente meros “fatores de produção” (das teorias econômicas neoclássicas). Além disso, legitima a idéia (sic.) de que os investimentos em educação sejam determinados pelos critérios do investimento capitalista, uma vez que a educação é o fator econômico considerado essencial para o desenvolvimento”. Fonte: http://www.histedbr.fe.unicamp.br. Acesso em: 12 mai. 2015.
destaque para a utilização dos meios de comunicação de massa e de novas tecnologias como recursos pedagógicos; o planejamento como meio de racionalização dos investimentos e aumento da produtividade; a criação de um programa de alfabetização que prestigiava ações pontuais das comunidades locais. Tais determinações foram congregadas nas reformas educativas estabelecidas pelas leis da reforma universitária, do ensino de 1º e 2º graus, e pela criação do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL). É necessário destacar que foram firmados acordos de cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos para financiamento da educação brasileira (MEC/USAID). O autor associa tais orientações a uma “concepção produtivista de educação”, caracterizando-as como enfatizadas pela racionalidade, eficiência e produtividade, ou seja, máximo resultado com mínima despesa. Tal concepção ganhou força por meio de sua incorporação à legislação do ensino no período militar. Para consolidar essas ações, em 11 de agosto de 1971, foi aprovada a nova Lei de Diretrizes de Bases, de número 5.692/71, que criou o curso de 1º grau de oito anos (antigo primário e antigo ginásio) e estabeleceu a profissionalização no 2º grau com o intuito de formar e qualificar sujeitos para o mercado de trabalho.
Em sua narrativa54, a Professora Baby Figueiredo explica que, no caso da região norte de Minas, a implantação do ensino superior foi básica para que se
desenvolvesse a economia da região, que era agropastoril, uma atividade que beneficiava pouquíssimas pessoas. A estrutura da estratificação da sociedade em classes sociais era algo que nos inquietava. Se a grande maioria do povo não tinha acesso à educação, seria difícil reivindicar mudanças na sociedade. As esferas de poder, constituídas de uma elite privilegiada e conservadora, mantinham o status quo. Por meio do ensino superior, pensávamos poder criar condições para maior acesso da população à educação, à mobilidade social e econômica, e, de acordo com o ideal de Paulo Freire, à visão crítica da sociedade e à sua transformação.
Essa narrativa nos remete à “teoria do capital humano”, dantes explicitada, segundo a qual os investimentos em educação podem provocar modificações sociais. Nessa teoria, a educação é vista um importante instrumento no desenvolvimento social, e o investimento no “fator humano” tem o significado de aumento da produtividade e fator de
superação do atraso econômico (FRIGOTTO, 2006). Nesse sentido, pode ser percebida a posição de nossa colaboradora, que reforça o papel da educação na formação de sujeitos capazes de alavancar o desenvolvimento econômico da região estudada.
A Teoria do Capital Humano pauta-se pela tese de que há, sempre, retorno individual e social quando se investe em formação educacional do trabalhador. Para Bárbara Freitag (1996, p. 32), essa tese “mascara a exploração e alienação da força de trabalho”. Ainda Dalila de Oliveira (2000, p. 223) argumenta que a Teoria do Capital Humano supunha “que o indivíduo na produção era uma combinação de trabalho físico e educação ou treinamento”. Desse modo, a ampliação do acesso à formação, via educação, é tida como importante mecanismo de qualificação de mão de obra para atuar no setor industrial, aumentando a produção, o excedente e a inovação técnica para acúmulo de capital.
Nessa direção, a Teoria do Capital Humano influenciou, decisivamente, para que se firmasse a ideologia da meritocracia e competitividade na educação, na qual o indivíduo é totalmente responsável por sua formação e, portanto, pela melhoria de sua produtividade no trabalho. Para a validação dessa ideologia, o Estado instituiu leis que guiaram as reformas educacionais nas décadas de 1960 e 1971, em vários documentos: a Constituição Federal de 1967; as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, e nº 5.692, de 11 de agosto de 1971; a Lei nº 5.540, que fixou normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, publicada em 28 de novembro de 1968. Todas essas determinações nos direcionam a concluir que havia uma mobilização para a consecução dos interesses de uma elite dominante e para o desenvolvimento econômico do país, via educação, ao preço que custasse, visando ao aumento da quantidade e da qualidade produtiva dos indivíduos.
No tocante à intervenção da ditadura militar no ensino superior, especificamente, no norte de Minas, a Profª Baby narrou que em 30 de março de 1964,
véspera do Golpe Militar, recebemos um telegrama de Darcy Ribeiro55 comunicando a
55 Darcy Ribeiro, antropólogo, educador e romancista, nasceu em Montes Claros (MG), em 26 de outubro de
1922, e faleceu em Brasília, DF, em 17 de fevereiro de 1997. Diplomou-se em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1946), com especialização em Antropologia. Foi Diretor de Estudos Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais do MEC (1957-1961). Participou, com Anísio
doação da biblioteca básica para os primeiros cursos superiores da região, com início previsto para abril. Desafortunadamente essa biblioteca nunca chegou. O governo militar associou todo nosso ideal de implantação do ensino superior em nossa região a um movimento de esquerda. Para o novo regime político, o empreendedorismo desenvolvimentista de Darcy Ribeiro, com o apoio de João Goulart, tinha, por fim último, a alimentação de guerrilhas no país. Foi uma grande pena! E uma grande e infeliz perda! Logo após nosso retorno a Montes Claros, em 31 de março de 1964, ocorreu o Golpe de Estado. Darcy foi exilado, como inúmeros outros ilustres educadores e políticos – Paulo Freire, Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado, Lauro de Oliveira Lima –, pessoal de vanguarda na educação brasileira, tão castigado pelo regime militar.
Essa narrativa deixa entrever que, num momento inicial, a cidade de Montes Claros seria beneficiada por um “certo capital social”, presente nas relações interpessoais das fundadoras da primeira instituição de ensino superior do norte de Minas Gerais. Contudo, por outro lado, essas relações foram consideradas “perigosas” por estarem associadas a um grupo subversivo e de oposição ao poder que ora se instalara.
Sobre a intervenção militar no campo educacional, Saviani (2008) ainda pontua que a Constituição de 1967 evidencia o apoio à iniciativa privada ao registrar que o ensino superior é livre à iniciativa privada e que poderá ser amparado técnica e financeiramente pelos Poderes Públicos, por meio de bolsas de estudo. Desse modo, foi recomendado pelo grupo de trabalho da Reforma Universitária que, a partir de 1969, os estudantes com renda muito alta (acima de 35 salários mínimos) custeassem seus estudos; outros com renda alta (entre 15 e 35 salários mínimos) tivessem um financiamento de até 15 anos, devendo iniciar o pagamento do mesmo após dois anos de conclusão do curso, e o grupo com renda média e baixa (abaixo de 15 salários mínimos) recebesse bolsas de estudo e/ou tivesse assegurada a gratuidade do ensino. Contudo, tal recomendação não foi acatada, gerando a privatização do ensino superior por meio da aceleração do crescimento de instituições de ensino
Teixeira, da defesa da escola pública por ocasião da discussão de Lei de Diretrizes e Bases da Educação; criou a Universidade de Brasília, de que foi o primeiro reitor; foi ministro da Educação e chefe da Casa Civil do Governo João Goulart. Com o golpe militar de 1964, teve os direitos políticos cassados e se exilou. Em 1976, retornou ao Brasil, e foi anistiado em 1980. Voltou a dedicar-se à educação e à política. Fonte: http://www.academia.org.br. Acesso: em 28 jun. 2014.
particulares, no período de 1968 a 1976, em que o número de instituições passou de 243 para 663 (VIEIRA, 1982, p. 112).
No caso específico de Montes Claros/MG, no período de 1964 a 1989, as faculdades existentes eram mantidas com recursos recebidos por meio do pagamento de mensalidades dos alunos, de doações de empresários e fazendeiros locais, e todas elas – a Faculdade de Ciências e Letras – FAFIL; a Faculdade de Direito – FADIR; a Faculdade de Medicina do Norte de Minas – FAMED; a Faculdade de Administração e Finanças do Norte de Minas –FADEC e a Faculdade de Educação Artística do Norte de Minas – FACEART) se vinculavam à Fundação Norte Mineira de Ensino Superior (FUNM) criada, inicialmente, como Universidade Norte de Minas56.