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1.4. Neo Klasik Büyüme Teorileri

1.4.1. Solow Modeli

Assim como o conceito de cultura, o conceito de patrimônio vem sofrendo alterações desde as suas primeiras concepções. Inicialmente, a palavra patrimônio representava apenas as propriedades transmitidas hereditariamente, mais precisamente os bens materiais. A partir do século XVIII, o poder público francês iniciou um movimento de proteção aos monumentos de valor histórico para a nação, associando patrimônio e história nacional (FUNARI & PINSK, 2003).

A criação de patrimônios nacionais intensificou-se durante o século XIX, com a criação dos Estados nacionais modernos, constituindo-se como uma “construção social de extrema importância política” (FUNARI & PINSK, 2003:16). O Estado e seus “vários tipos de nacionalismo estavam profundamente conscientes da importância do ritual, cerimonial e mito, incluindo, via de regra, um passado mitológico” (HOBSBAWM, 1997:291). O Estado, visando sua manutenção, tende a conservar “os bens históricos capazes de exaltar a nacionalidade, de figurar como símbolos de coesão e grandeza” (CANCLINI, 1990:104).

Se até o século XIX, o patrimônio era definido como um conjunto de edificações, objetos e documentos de valor histórico ou artístico, no século XX, a abordagem de patrimônio adquiriu outras características. A noção de patrimônio histórico-arquitetônico foi paulatinamente sendo englobada por outra, a de patrimônio cultural, que, segundo Funari e Pinsky (2003:16) envolve também o patrimônio ambiental, uma vez que hoje se concebe “o ambiente como um produto da ação dos homens, portanto da cultura”. Ramalhete (2006:11) afirma que

foi ainda durante o século XX que a noção moderna de património se expandiu para fora da Europa, onde tinha tido origem. Neste contexto, os documentos produzidos por organismos internacionais tiveram um papel

fundamental. Quer sejam vinculativos para os Estados signatários (como é o caso das convenções), quer sejam apenas propostas de actuação (como as cartas e recomendações), o seu papel é fundamental para a divulgação de conceitos, para a criação de consensos sobre o que é ou não considerado património, e também para a forma como devem ser feitas as intervenções, bem como para a formação teórica de todos aqueles que lidam com o património, directa ou indirectamente.

No Brasil, no século XVIII, quando o vice-rei envia ao governador de Pernambuco uma carta recomendando proteção às construções holandesas no estado, visualizou-se uma primeira preocupação em relação à conservação do patrimônio local (FUNARI & PELEGRINI, 2006). Já no período do Império, nenhuma providência foi tomada em relação à proteção aos monumentos históricos. Apenas na década de 1920 iniciou-se um debate sobre a proteção aos monumentos e obras de arte nas instituições culturais, no Congresso e na imprensa, a partir da pressão advinda dos intelectuais para a proteção dos objetos da arte colonial. Datam desta década as primeiras iniciativas do poder público: os governos estaduais de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, entre 1926 e 1928, criaram inspetorias estaduais de monumentos históricos (COSTA, 2006)4.

A Constituição de 1934 estabelece a competência para a União e para os estados, em relação à proteção das belezas naturais e dos monumentos históricos e artísticos, bem como à proibição de evasão de obras de arte:

Art. 134 Os monumentos históricos, artísticos e naturais, assim como as paisagens ou os locais particularmente dotados pela natureza, gozam da proteção e dos cuidados especiais da Nação, dos Estados e dos Municípios. Os atentados contra eles cometidos serão equiparados aos cometidos contra o patrimônio nacional.

Em 1936, Mário de Andrade, escritor, musicólogo e folclorista brasileiro, elabora um anteprojeto que visava à criação de um órgão responsável pela proteção do patrimônio nacional voltado para a preservação do patrimônio histórico e artístico nacional, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (que originou o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional - IPHAN5). O anteprojeto abarcava as peculiaridades nacionais e demonstrava uma notória preocupação com o caráter educativo e didático do patrimônio e com a “preservação da diversidade cultural, uma perspectiva etnográfica da cultura e um equacionamento entre o

4 COSTA, Célia Maria Leite. Patrimônio. Notas de Aula da disciplina Acervos e Informação,

FGV/CPDOC, 2006.

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O IPHAN possui, até os dias atuais, a tutela do patrimônio nacional e opera no sentido de proteger, fiscalizar, identificar, restaurar e preservar os bens culturais brasileiros.

erudito e o popular”. Mário de Andrade foi o primeiro dirigente ligado a uma entidade governamental que se mostrou preocupado em realizar ações para aproximar a cultura erudita da cultura popular (MYANAKI, et al, 2007). Neste ponto é importante se distinguir o que é cultura popular e cultura erudita:

A diferenciação entre culturas se dá a partir da identificação da origem de quem a produz. A cultura erudita é produto da leitura, do estudo e da pesquisa. Para que se produza cultura erudita é necessário que se tenha vasto conhecimento sobre um determinado assunto. Cultura popular pode ser compreendida como a soma dos valores tradicionais de um povo, expressos em forma artística, como danças, ou em crendices e costumes gerais (...). Estabelecer distinções entre os conceitos de cultura erudita e popular tem objetivos didáticos, já que ambas são mutáveis e dinâmicas. No mundo atual, a diferença entre cultura erudita e popular é cada vez mais tênue, principalmente se considerarmos o intercâmbio constante entre elas. Muitas vezes o termo “cultura popular” pode vir carregado de sentido pejorativo, como “aquilo que é do povo”, que “não é culto”, “cultura menor”. Porém, isso não faz o menor sentido. Cultura erudita e cultura popular são simplesmente diferentes. (MYANAKI, et al, 2007:11).

Em 30 de novembro de 1937, Rodrigo de Melo Franco de Andrade cria o primeiro instrumento jurídico brasileiro sobre o patrimônio, apontando critérios para o tombamento, com base na função social da propriedade introduzida pela Constituição de 1934.

Reflexo do que acontecia em âmbito internacional, as discussões sobre patrimônio se intensificaram nas décadas de 1960 e 1970. Fruto deste processo, a Constituição da República Federativa do Brasil, datada de cinco de outubro de 1988, apresenta o patrimônio cultural brasileiro como:

Art. 216 Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I- as formas de expressão;

II- os modos de criar, fazer e viver;

III- as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV- as obras, os objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V- os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

A Constituição de 1988, além de introduzir a dimensão imaterial do patrimônio, refere-se aos “diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”, dando destaque, assim, aos grupos indígenas e aos afro-descendentes que, até então, tinham suas culturas ameaçadas (MACHADO, 2002). Também nesta época, em 1989, em Paris, durante a XXV Conferência da Unesco, o conceito de patrimônio

cultural imaterial foi acoplado à cultura tradicional e popular. Para Canclini (1990), tal mudança na concepção de patrimônio demorou a ocorrer porque somente na década de 1980 as ciências sociais se interessaram pela produção cultural imaterial.

A preservação do patrimônio cultural visa garantir que a sociedade tenha oportunidade de se perceber e através de seu patrimônio material e imaterial, já que os bens culturais que herdamos do passado e vivenciamos no presente contribuem para a formação da identidade, na formação de grupos, nas categorias sociais e no resgate da memória, permitindo estabelecer elos entre o pertencimento, a história e as raízes. A necessidade de manter a identidade cultural de um país e de um povo com medidas preservacionistas é uma tentativa de manter o equilíbrio entre o crescimento e o progresso sem fazer desaparecer o passado e a memória da sociedade no desenvolvimento geral da grande nação universal (COSTA, 2007).

O patrimônio cultural, dividido entre material e imaterial, envolve o conceito de cultura como entendem as ciências sociais, ou seja, enquanto todo o fazer humano. Para Boham (apud Lemos, 1981), o patrimônio cultural de uma sociedade pode ser dividido em três categorias: os elementos pertencentes ao meio ambiente, os elementos intangíveis (conhecimento, técnicas, o fazer, lendas etc.) e os bens culturais (construções, artefatos etc). Dessa forma, podemos entender o conceito na época presente como:

O patrimônio cultural – ou seja, o que um conjunto social considera como cultura própria, que sustenta sua identidade e o diferencia de outros grupos – não abarca apenas os monumentos históricos, o desenho urbanístico e outros bens físicos; a experiência vivida também se condensa em linguagens, conhecimentos, tradições imateriais, modos de usar os bens e os espaços físicos (CANCLINI,1990:99).

A finalidade do patrimônio, que originalmente era a de representar o passado, expandiu-se. Os remanescentes materiais e imateriais da cultura são testemunhos das experiências coletivas e individuais e permitem aos homens lembrar e ampliar o sentimento de pertencimento, contribuindo para a composição da identidade coletiva. As políticas mundiais na atualidade voltadas para o assunto entendem que preservar o patrimônio é garantir que a sociedade tenha maiores oportunidades de se perceber (FUNARI & PINSK, 2003).

Em relação ao turismo, o patrimônio cultural ganha uma nova dimensão, que vai além do valor simbólico. No momento em que ele passa a ser consumido pela

indústria do turismo cultural, ele passa a ter também um valor econômico. Nesta direção, a problemática do patrimônio cultural levanta algumas questões: o uso do patrimônio como meio de construção de identidades culturais, a problemática da autenticidade e a preservação espetacularizada atrelada ao consumo do turismo (HENNING, 2007).

Juedy (2005) avalia que um dilema da época presente em relação à gestão dos patrimônios é a possível perda de seu valor simbólico devido à sua utilização como produto ou mercadoria:

De imediato a prospectiva patrimonial se vê confrontada com uma contradição: por um lado os patrimônios não podem ser tratados como produtos de marketing, mas por outro, não existe desenvolvimento cultural sem comercialização. Presentemente, as estratégias mais correntes orientam-se na direção de uma combinação que contenha esta contradição: o que é tido como sagrado não impede a circulação de valores materiais (JUEDY, 2005:20).

Por isso, alguns autores sugerem cautela em relação às atividades turísticas nas quais o patrimônio se converte em produto de consumo, visto que, quando se intervém de alguma forma no patrimônio cultural, “toca-se em fibras muito sensíveis dos vínculos histórico-culturais que dão coerência a toda a sociedade” (MARTINS E VIEIRA, 2007:8).