“O século XX foi a mãe e a madrasta da Cidade Maravilhosa; foi a fada madrinha e a bruxa malvada”. Sérgio Magalhães, Arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ.
Segundo Lúcia Oliveira (2000:141) o Rio representou, enquanto capital da república, a “ponta estratégica da modernização do final do século XIX e início do século XX”. Lessa (2001), Roedel (2004) e Pamplona (2003) apontam que o início do século XX foi um período dotado de prosperidade e acúmulo de prestígio para a cidade. Neste período, o Rio passou por um vasto processo de mudanças. Nesta época, a população do Rio cresceu consideravelmente, recebendo escravos, ex- escravos e trabalhadores com ocupação mal definida, dando início a uma mescla no universo cultural da cidade. Lessa (2001:237) afirma que “o Rio foi assim arena, o palco, a caixa de ressonância dos empreendimentos culturais, científicos e políticos durante o império e dos primeiros anos da República”. Tal fato também é como proclamado por Motta (2007:1):
Como é assinalado por boa parte da historiografia sobre a montagem do Estado imperial brasileiro, os dois processos de construção do Rio de Janeiro como capital e do Brasil como nação caminharam juntos ao longo do século XIX, em uma relação de interdependência mútua. Substituindo Lisboa, a quem
até então cabia fornecer sentido e significado às "capitanias separadas", o Rio de Janeiro deveria se tornar o baluarte da construção de um império luso- brasileiro na América. (...) a construção do Rio de Janeiro como cidade-capital se deu simultaneamente ao duplo processo de montagem de um Estado imperial centralizado e de constituição de uma nação "civilizada" nos trópicos.
Na década de 1920, o Rio passa a competir com São Paulo pelo status de capital cultural do país. Lazer versus trabalho marca a dicotomia Rio/São Paulo, “(...) constrói-se a imagem do Rio como a cidade do carnaval, da preguiça, do não- trabalho, em oposição à seriedade e trabalho de São Paulo” (OLIVEIRA, L., 2000: 143).
A Revolução de 30 e a instauração do Estado Novo trazem nova luz à cidade, transformando-a novamente no centro das principais decisões políticas do país. Para Lúcia Oliveira (2000:144), “a centralização política e a luta contra todas as formas de federalismo vigentes na República Velha reforçam o papel e a posição da cidade como capital cultural do país”.
O Rio torna-se um “laboratório de experiências”: Villa-Lobos ensina canto orfeônico em escolas públicas, jornais promovem concursos promovendo marchinhas de carnaval, enfim, ocorrem diversas ações que aproximam a cultura popular das autoridades do Distrito Federal (OLIVEIRA, L., 2000).
Paulatinamente ocorre a construção de um “caráter carioca” - muitas vezes confundido com um caráter nacional – enquanto malandro, preguiçoso, amante da praia e do futebol. O personagem Zé Carioca, de Walt Disney, exprime este espírito (OLIVEIRA, L., 2000). Cabe, aqui, ressaltar que o personagem desponta no cenário das histórias em quadrinhos de Walt Disney em um fato crucial da história da humanidade, a Segunda Guerra Mundial. É interessante notar que de todos os personagens em quadrinhos de Walt Disney, somente o Zé Carioca é quem vai ter definida abertamente a sua nacionalidade - um papagaio brasileiro (MENDES, 2003:5).
O papagaio, ave tropical verde-amarela – que faz ver, de imediato, a sua ligação com o pendão nacional – é a parte afetiva de nosso anedotário popular, indicando a irreverência e a hilariedade picante de nossa alma humorística tupiniquim. (...) E o malandro, personagem célebre da vida nacional, e, mais especificamente, da vida carioca – exatamente porque caiu no domínio popular como a representação mais que perfeita desse ator social. Essa conjunção de fatores formais e culturais produziu um dos personagens mais conhecidos e apreciados das histórias em quadrinhos no Brasil (MENDES, 2003:6).
Até a década de 1940, o Rio de Janeiro
(...) constitui-se como eixo central, como pólo cultural do Estado-nacional em formação. (....) o poder durante a ditadura Vargas e mesmo na vigência dos governos representativos após a ditadura de 1945 ainda fez do Rio o principal pólo dinâmico da vida política do país. Foi com a transferência da capital para Brasília em 1960 que novos impasses e desafios se apresentaram à cidade, obrigando a um questionamento de papel e de sua identidade (OLIVEIRA, L., 2000 : 146).
Segundo Motta (2001: 6), em 1958, o jornal Correio da Manhã publicou um conjunto com 32 reportagens, intitulado “Que será do Rio?”, reunindo opiniões de figuras significativas do Distrito Federal e do Estado do Rio, indagando acerca do destino da cidade após a transferência da capital para Brasília, na tentativa de mobilizar a população em relação a esta questão. Elaboração própria aponta que
nunca é demais lembrar que a transformação da capital em "vitrine" da República se dera, entre outros, pelo fato de aí estarem sediadas instituições culturais de dimensão nacional, como a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Brasileira de Letras. Mesmo perdendo a condição legal de capital para Brasília, o Rio de Janeiro deveria manter a aura da capitalidade, continuando a exercer a função precípua de cidade-capital, qual seja, a de encarnar a síntese da nação, para além de uma dimensão político-administrativa. Não era apenas a nova identidade para o Rio de Janeiro que estava em pauta. No fundo, o que estava sendo discutido era uma nova identidade para o país. Como seria o Brasil sem a sua tradicional "vitrine", sem o seu "centro irradiador de civilização"? (MOTTA, 2007:9)
Lessa (2001:345) aponta que, após a mudança da capital para Brasília, o Rio perdeu prestígio. Magalhães (2003: s/p) também acredita nisso:
O Rio de Janeiro que, no Brasil Colônia, cumprira papel central na articulação do rosário dos núcleos litorâneos, que foi o ponto nodal da relação entre as minas gerais e a Metrópole ao mesmo tempo em que serviu de esteio para o controle do sul até o Prata; que no Reino e no Império soube expressar a unidade nacional, sendo a síntese cultural brasileira no primeiro século da República; esta cidade que, amada como poucas, passou a ser vista como empecilho para a integração entre as regiões – é ela mesma que, generosamente, despreocupadamente, serve como base, agora, para o grande surto de desenvolvimento dos “anos dourados”, cuja coroação seria a nova capital, isto é, a sua própria ruína.
Ainda assim, nos anos de 1960, muitas produções culturais eclodiram na cidade: a bossa-nova em Ipanema e Copacabana, o Cinema Novo, tendo Glauber Rocha como um dos principais representantes, os festivais de música popular, que lançaram Erasmo e Roberto, além das rodas de samba, tradicionais na cidade, que nunca perderam o prestígio (LESSA, 2001).
O autor acredita que nos últimos 40 anos houve uma indiscutível perda de centralidade cultural, já que “outras cidades brasileiras se converteram em centros de criação e difusão cultural, interagindo com o Rio” (LESSA, 2001:387), sendo “extremamente positivo para a nacionalidade” brasileira e, concomitantemente, sendo “sombrio para o Rio” (LESSA, 2001:388).
Para Lessa, foi no final do século XX que começaram a surgir os problemas referentes à dificuldade em perceber as “verdadeiras” identidades culturais da cidade: “no umbral da pós-modernidade o Brasil desvaloriza o Rio. Não deve haver surpresa com essa afirmativa, pois o país mesmo se auto-desvaloriza” (LESSA, 2001:15). No momento em que o Brasil começa a transitar para a pós-modernidade, o longo caso de amor dos brasileiros com o Rio começa a esmorecer. O Rio das últimas décadas do século XX teria vivido um processo de decadência: “com seu território intra-urbano quebrado, seria uma ‘cidade partida’, que sofreu passivamente um esvaziamento econômico e financeiro e também a perda de seu peso político” (BARREIROS, 2005:99).
A Cidade Maravilhosa, objeto de desejo dos brasileiros foi sendo progressivamente dissolvida e, por muitos, desqualificada. O Rio, de comprovante das potencialidades do país, converteu-se no dos desequilíbrios e distâncias socioeconômicos nacionais e no paradigma de má qualidade de vida urbana. A imagem de paraíso urbano-tropical é incompatível com a violência metropolitana (LESSA, 2001:14).
Ao longo dos quatrocentos e quarenta anos de sua história, o Rio teve quatro períodos a distinguir: I) os primeiros duzentos anos, onde a natureza foi hegemônica; corresponde à idealização da América como o Paraíso na Terra; II) os cento e cinqüenta anos seguintes (1750-1900), onde a cidade se consolidou; corresponde ao tempo da riqueza do ouro e do café; III) os setenta iniciais do século XX (1900-1970), no qual foi a Cidade Maravilhosa; corresponde ao apogeu, que se dá ao término desse terceiro período, quando o Rio é o dínamo e a imagem dos Anos Dourados – e quando, paradoxalmente, a capital é transferida para Brasília; IV) os últimos trinta, quando deixou de ser capital federal, foi Estado da Guanabara, depois sede do novo estado; corresponde a um período de grandes dificuldades. Nos três primeiros períodos, o Rio de Janeiro soube bem representar o Brasil paraíso tropical, o Brasil das riquezas, o Brasil da cordialidade. O quarto período, os trinta anos que medeiam entre 1970 e nossos dias, viu romper-se esse tripé estabilizador (MAGALHÃES, 2003:s/p).
Indubitavelmente, o Rio passa por problemas socioculturais extremos, retratados diariamente nos jornais. Corrêa (2006:s/p) nos alerta e solicita um olhar mais cuidadoso para com a cidade. É necessário que, como proposto por Lessa (2001), a auto-estima do carioca seja restaurada.
O Rio, nesta concepção, saiu das mãos de Deus pronto para usar. Tão perfeito que dispensa cuidados até hoje. E, em nome desse “mito edênico”, patente José Murilo de Carvalho, o carioca acabou condenado a amar o Rio como Otelo amava Desdêmona. Demais. Logo, desmesuradamente. E isso costuma ser letal. O Rio não é só uma cidade partida. É também uma cidade unida pela convicção de que está aí para ser desfrutada por todos, sejam pobres, ricos ou remediados, grandes especuladores ou pequenos favelizadores, empresas que não filtram resíduos industriais e casas humildes, onde se aceita pagar pela água encanada mas não pelo esgoto que seria parte da mesma conta. Ou seja, desfrutada por nós todos, com a maior insolência possível (CORRÊA, 2006: s/p).
Para Barreiros (2005:121), o “Rio de hoje” tem muitas diferenças marcantes, o que ocasiona uma “quebra” da cidade. Tal “quebra” vem gerando uma “crise de identidade”, o que, segundo Elaboração própria, é muito perigoso, pois gera a construção de uma representação social do Rio de Janeiro como uma cidade violenta e perigosa, que é avessa à imagem do Rio, como a “Cidade Maravilhosa”.