Desde sua descoberta, em 1º de janeiro de 1502, passando pela sua fundação no ano de 1555, até chegar ao ano de 1763, quando a cidade do Rio de Janeiro adquire pela primeira vez o status de capital, pouca coisa aconteceu para contribuir com a construção da imagem de “paraíso urbano-tropical”. Foi a partir de 1763, quando o Rio de Janeiro se tornou capital da Colônia e sede do Vice-Reino do Brasil, que se iniciou a construção de sua identidade cultural como um “mito” de cidade mais importante do país (BARREIROS, 2005:88).
No século XVIII, o ciclo do ouro conduziu o Rio para a “capitalidade”, pois articulou a cidade com o interior do país (LESSA, 2001). Neste período, a cidade floresceu devido ao comércio entre Minas e Europa, tornando-se o principal porto exportador de ouro e diamantes, e principal porta de entrada de mercadorias para mineração, tais como: alimentos e escravos (PAMPLONA, 2003:53).
Com a chegada da família real ao Brasil, o Rio de Janeiro passa a ser capital da Colônia e sede temporária do Governo português. “Com D. João VI e o deslocamento das Cortes portuguesas desencadeou-se o processo pelo qual o Rio, reconfirmado como capital do Reino, foi a primeira ‘Brasília’ do Brasil” (LESSA, 2001:11).
Com a chegada da família real e a transformação da cidade do Rio de Janeiro em sede do império português mais que duplicou sua população em uma década. A circulação da elite letrada, política e econômica residente na Colônia se intensificou e incentivou a incorporação de novos costumes e idéias, passando a desempenhar posição de centralidade regional. Nesse mesmo período, a Coroa investiu na primeira alteração do espaço urbano da
cidade, o que reforçou a presença de traços culturais europeus, além do estimular das artes e das ciências (...) (ROEDEL, 2004:23-24).
Em 1822, foi proclamada a independência do Brasil. O Rio passa a ser a capital do Primeiro Reinado. Para Roedel (2004:25), nesse período, o Rio manteve sua posição hegemônica enquanto centro político-cultural. Além do papel de Corte do Império português, a cidade, valendo-se do “dinamismo literário”, privilegiava as discussões das causas nacionais, através dos seus diversos jornais e pasquins.
Em meados do século XIX, depois do transitório comércio de açúcar e outros produtos tropicais, o Rio se tornou um dos principais portos de exportação de café. Mesmo na década de 1880, com o crescimento das lavouras no estado de São Paulo, a cidade conseguiu conservar sua importância comercial (PAMPLONA, 2003:54).
Ao final do século XIX, a rede ferroviária da região se expandiu, tornando-se a maior do país. A cidade também contava com um serviço regular de navegação, que ia ao norte e ao nordeste. “Até fins do século XIX, o centro da cidade e o porto estiveram superpostos: a cidade dialogava com a baía, atenta à barra de entrada” (LESSA, 2001:11). O Rio de Janeiro também era a sede do Banco do Brasil, do maior mercado de ações e dos principais bancos nacionais e estrangeiros estabelecidos nos país. Além disso, como centro urbano mais populoso da época, disponibilizava às novas indústrias o “maior mercado de mão-de-obra e consumo” (PAMPLONA, 2003:55).
Argumentando que uma reforma na capital era essencial para atrair investimentos, o então presidente Rodrigues Alves, consolidou esta idéia como a plataforma política de sua gestão. Em uma iniciativa conjunta com as autoridades municipais e ministeriais, e também empolgado com a recente reforma de Buenos Aires, o presidente acelerou o processo da reforma na cidade, ressaltando a importância de adequar o Brasil aos padrões dos modernos centros do mundo (PAMPLONA, 2003; ROEDEL, 2004).
Imediatamente, Pereira Passos foi apontado como prefeito da capital federal para implementar o lado urbanístico do programa, e Oswaldo Cruz foi indicado para ser o chefe do esforço, na área da saúde, de livrar o Rio de Janeiro da peste, da febre amarela e da varíola. O ministro dos Transportes e Obras públicas, engenheiro Lauro Muller, delegou a reforma do porto a dois colegas (...). Paulo de Frontin ficou com a mais impressionante das reformas,
a da avenida Central, que seria trazida desde as docas ao norte da cidade até a cidade velha (PAMPLONA, 2003:65)
Após a famosa reforma urbana, mais precisamente de 1903 a 1906, o Rio se transformou em uma cidade totalmente renovada, marco do Brasil moderno, e isso foi fator preponderante para a construção de uma identidade verdadeiramente nacional e da valorização da auto-estima do povo brasileiro: “aqui, a metrópole não competiu com resto do Brasil: sintetizou-o simbolicamente” (LESSA, 2001:13). Portanto, o Rio de Janeiro passou a ser no início do século XX “o microcosmo do Brasil. Foi consagrado como umbral na passagem à modernidade. Foi a imagem-síntese do Brasil pós-colonial (...). Foi um longo caso de amor dos brasileiros com o Rio” (LESSA, 2001:13).
A reforma de Pereira Passos, além de visar atender às demandas econômicas, buscava igualmente reforçar o aspecto da cidade enquanto centro de irradiação político-econômico-cultural do País, já presente no imaginário nacional (ROEDEL, 2004:31).
Não se pode esquecer que a reforma retrata um período em que os ideais de progresso e liberalismo econômico, vivenciados através da importação da modernidade européia, estavam exacerbados no país, como parte integrante do projeto republicano, e tiveram lugar, num momento inicial, no Rio de Janeiro (VALE, 2004).
Foto: Augusto Malta, Arquivo da Cidade. Rede de memória virtual brasileira. FIGURA 1: Avenida Central, marco da Reforma de Pereira Passos.
Para Lessa (2001:11), contudo, o “caso de amor” entre o Rio e o Brasil explicitou-se nessa época, já que o Brasil imperial foi desatento em relação à cidade.
Por isso, “o Rio, utopia concebida por frações das elites brasileiras e orquestrada pelo Estado, é produto da República Velha” (LESSA, 2001:12). Além disso, o Rio foi, na virada do século XX, a condensação do Progresso e da República, e isso fez da cidade o “espelho da nação”:
O Rio é, a partir do início do século, a capital federal, assumida com muito orgulho. O Rio de Janeiro passa a ser para o Brasil um início de absolvição. O passado brasileiro nos condena, porém o futuro nos pertence. A cidade é a credencial desta promessa. O Rio deixou de ser pouco mais que uma ficção geográfica. Serviu de representação-síntese da nacionalidade brasileira, como dos elementos nucleares da construção ideológica nacional, da identidade e potencialidades do país. Nação inconclusa a ser construída, a cidade do Rio de Janeiro era a “demonstração de que se teria êxito”. (LESSA, 2001:211).
Como um lugar privilegiado, a capital concentra o caráter nacional, e nela as informações são veiculadas como sendo representativas do país. Do ponto de vista internacional, a cidade funciona como um espaço de ressonância, a partir do qual o país pode ser vislumbrado (SOUZA, 1995 apud VALE, 2004:26).