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Após um ano de intenso trabalho, o comandante da Coordenação de Execução da Operação Bandeirante, o tenente-coronel Waldyr Coelho, em seu relatório sobre a “subversão” em São Paulo, apresentava as “organizações subversivo-terroristas”. Baseado em grande parte nos interrogatórios dos presos políticos, mas também nos dados obtidos no combate a essas organizações, descrevia a origem, a linha política, a estrutura e a situação de cada uma delas. Nas conclusões parciais, confrontava as principais características de algumas das organizações mais importantes:

a. As organizações subversivo-terroristas têm um ponto em comum[:] objetivam, em última análise, a derrubada do govêrno, a tomada do poder e a mudança do regime através da LUTA ARMADA.

b. Tais organizações enfrentam, no entanto, divergências, representadas principalmente pela falta de unidade de pensamento no tocante à deflagração e condução da guerrilha.

A ALN defende – em consonância com as idéias de MARIGHELLA – a disseminação das guerrilhas em todo o país. A VPR é partidária do estabelecimento de ‘foco’, tese recomendada por DEBRAY.

A VAR-PALMARES, mais prudente, propugna, em uma primeira fase pela organização das massas, para, posteriormente, deflagrar a guerrilha.617

616

Interrogatório Preliminar. 06/08/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 176, 36327.

617

A subversão e o terrorismo em São Paulo. 10/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 84, 15602, fl. 36.

Essa passagem evoca a divisão que se constituía num dos grandes pontos de divergência entre as organizações de esquerda: a prioridade dada às ações armadas (“militaristas”); ou a inserção dos militantes entre os estudantes e operários, a fim de criar uma base sólida para a organização (“massistas”). A julgar pelos alvos preferenciais dos órgãos repressivos – Carlos Marighela (ALN), Joaquim Câmara (ALN), Carlos Lamarca (VPR), Eduardo Leite (REDE) –, a ênfase na repressão recaiu, num primeiro momento, sobre as primeiras, devido ao impacto causado pelas ações armadas. Porém, o objetivo final incluía todas as organizações de esquerda, estivessem ou não envolvidas nas guerrilhas urbana ou rural. Além disso, como observou Marcelo Ridenti, a separação entre os dois tipos de organização deve ser feita com prudência, pois na maioria dos grupos havia as duas tendências. Algumas organizações “massistas” tinham dificuldade em penetrar nos movimentos sociais e por vezes desenvolveram algumas ações armadas. Outras, “militaristas”, tinham inserção no movimento operário ou no movimento estudantil, sendo mais apropriado, portanto, segundo o autor, distinguir entre os “mais massistas” e os “mais militaristas”.618

Segundo o ex-comandante do DOI, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Destacamento procurava combater uma organização por vez:

Quando, na mesma época, surgiam fatos que nos conduziam a outra organização eles não eram desprezados e, em geral, adotávamos a técnica de acompanhar os seus militantes, de seguir seu rastro, de não perder o contato tão procurado e desejado. Se possível, deixávamos uma “ponta” num compasso de espera, aguardando a hora oportuna para neutralizá-la.619

Em agosto de 1971, por exemplo, uma reunião da Comunidade de Informações dedicou-se inteiramente ao POC. Considerou-se sua composição, avaliando que “os integrantes do POC, são, na grande maioria, universitários, filhos de famílias abastadas, destacando-se uma porcentagem elevada de filhos de judeus. Há alguns operários, porém é uma minoria”.620 Em seguida, fez-se um balanço da sua situação em função das prisões e tentativas de reestruturação, concluindo que “atualmente, após várias prisões efetuadas pelo DOI, o POC foi pràticamente desbaratado, restando apenas, alguns elementos, entre êles 2 ou

618

RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira, p. 57.

619

USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A verdade sufocada, p. 299.

620

Reunião da Comunidade de Informações. 04/08/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 102, 19518.

4 de alguma importância, havendo, no entanto, boas pistas para as suas prisões”.621 Por fim, listaram-se os pontos e os “aparelhos estourados”. A reunião seguinte, realizada uma semana depois, contabilizava mais quatro prisões em São Paulo e três no Rio Grande do Sul. No item “situação do POC” concluía-se que

- foi desmantelado quase na sua totalidade. Todos os integrantes da sua direção foram presos

- como foi dito na reunião anterior, naquela ocasião restavam 2 ou 3 elementos de destaque a serem presos. Isto já se deu com dois dêles, restando, sòmente, 1 elemento da Secretaria Regional de São Paulo

- não tem condições de se reestruturar e de agir a curto e a médio prazo e, com dificuldades, se reestruturará a longo prazo.622

O DOI, embora priorizando a repressão aos grupos “militaristas”, voltava-se com força contra as organizações consideradas “massistas”, procurando inteirar-se das atividades desenvolvidas junto aos setores camponeses, à igreja e aos sindicatos. Acompanhando a evolução e os progressos da Ação Popular,623 em sua tendência crescente a aproximar-se do PC do B, os agentes do DOI acrescentaram questões específicas sobre esses tópicos em perguntório destinado aos militantes da organização, tais como “Que sabe sôbre o trabalho camponês realizado pela AP no interior de São Paulo e no Brasil. Quem é o coordenador dêsse trabalho no âmbito nacional e regionais?” ou “Quais os sindicatos dominados pela AP, ao que parece [essa organização] dominava o sindicato dos bancários em São Paulo e no Paraná”, ou, ainda, “Que sabe sôbre a possível fusão entre a AP e o PC do B?”.624 Nas sessões os interrogadores não perdiam o fio das atividades da organização, investigando sua maneira de agir e os critérios utilizados para novos recrutamentos, como se vê no depoimento de um de seus militantes:

Que os padres mais procurados para serem “trabalhados” pela AP são os de paróquias operárias, os ligados a área estudantil ou os ligados a organizações eclesiásticas tais como CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil),

621

Reunião da Comunidade de Informações. 04/08/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 102, 19518.

622

Reunião da Comunidade de Informações. 11/08/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 102, 19512-19511.

623

A AP, originada a partir da Juventude Universitária Católica (JUC) em 1963, assumiu uma vertente maoísta em 1968 e, em 1971 fundiu-se, em grande parte, com o PC do B. Os que não participaram da fusão passaram a denominá-la de Ação Popular Marxista-Leninista. MIRANDA, Nilmário; TIBURCIO, Carlos. Dos filhos deste

solo, mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, p. 486.

624

Perguntório. 21/12/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 155, 32195- 32193.

CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil) e elementos ligados ao movimento de pastoral (evangelização).625

Em documento difundido junto à Comunidade de Informações, fica explícita a preocupação em não menosprezar as atividades das organizações “massistas” e em atribuir uma maior importância ao trabalho por elas desenvolvido junto aos diversos setores sociais:

sob o ponto de vista dêste Destacamento; os Órgãos de Informações estão dando uma ênfase demasiada às Organizações ditas “militaristas” (ALN – MR/8 – VPR), colocando as ditas “massistas” (POC – AP – POLOP – OCML-PO), em uma situação secundária, como se as mesmas não oferecessem perigos iminentes para a Segurança Nacional.

É bom ressaltar que as Organizações Militaristas, apesar de não estarem completamente dizimadas, não tem conseguido uma penetração no seio do povo, em decorrência dos seus atos sanguinários. Assim é que, pelos últimos documentos apreendidos da VPR, verifica-se que vários de seus militantes são concordes em afirmar que a sua linha política não tem conseguido angariar militantes e nem mesmo simpatizantes.626

De fato, nos interrogatórios, os agentes do DOI ouviam recorrentemente dos presos políticos respostas que demonstravam inequivocamente o quanto as organizações “militaristas” encontravam-se em situação precária, devido ao isolamento imposto pela clandestinidade e às investidas constantes da repressão. Assim um militante do MRT descrevia da seguinte maneira a situação do grupo:

Que confirma as suas declarações anteriores; esclarecendo que acredita que o MRT não seja reorganizado, primeiro porque não dispõe de material humano e segundo pelas divergências políticas de outras organizações de esquerda contra o modo de trabalho do MRT. Acredita ainda que o que sobrou irá para a ALN ou outra organização.627

Outro militante, da VPR, descrevia a penúria da organização em São Paulo:

Confirma suas declarações anteriores, acrescentando que a VPR ainda não deve ter providenciado elementos para integrarem a área de SP, pois a própria queda do declarante e de GREGÓRIO MENDONÇA (“MARCOS”), andava o mesmo (“MARCOS”) assumir São Paulo, o que êle e o declarante acharam ridículo, pois, só estavam ambos no Estado.628

625

Interrogatório preliminar. 32/12/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 155, 32237.

626

Informação nº 444 - DOI. 09/09/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 135, 28181.

627

Interrogatório preliminar. 21/04/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 117, 22784.

628

Interrogatório preliminar. 26/02/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 171, 35541.

Sobre a situação do POC, um militante, ao ser instado a fazer um organograma da organização, respondeu “que não pode fazer um organograma da atualidade, pois o POC foi desmantelado e seus elementos prêsos, crendo ainda o depoente, ter sido o último a ser prêso”.629 A tendência desse quadro era a de acirramento, como se vê no depoimento de uma militante da Dissidência da ALN descrevendo uma conjuntura muito semelhante àquela apresentada no documento do DOI:

Que a DI/ALN estava passando por uma fase muito ruim já que seus antigos militantes estavam morrendo ou sendo aprisionados um a um, e não conseguia penetração na massa a fim de aliciar novos militantes.

Que na Organização era reduzidíssimo o número de integrantes “legais”, o que resultava uma série de dificuldades, pois os militantes clandestinos estão sujeitos a muitas limitações e não podem estar em contato direto com as “massas”, em consequência, conseguir aliciar novos elementos para militarem na organização.630

A despeito dos resultados obtidos pela repressão policial no extermínio dos grupos armados de esquerda, impossibilitados de recrutar novos militantes para substituir os companheiros mortos, presos ou exilados, a conclusão dos agentes do DOI, no documento acima citado, apontava para novos alvos, num movimento que de certa maneira prenunciava a posterior campanha deflagrada contra os partidos comunistas:

Êste DOI é de parecer que se deve informar a tôda Comunidade de Informações como um brado de alerta, passar a agir de imediato contra essas organizações (AP - POLOP - etc), contra os “amigos de Bairro”, fazer investigações nos Sindicatos e alertar os serviços de Segurança das fábricas a fim de que levantem os agitadores infiltrados.631