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Dentro do processo de reapropriação, em determinados moldes, da fala do depoente, tem destaque o emprego de um vocabulário característico. Nos anos 1960 e 1970, utilizava-se uma terminologia particular, cujas expressões estão relacionadas com situações específicas das atividades clandestinas das organizações de esquerda. Algumas eram empregadas indistintamente por militantes e por agentes repressivos: ponto (encontro marcado com outro militante, podendo haver ou não uma senha), cobrir um ponto (ir a um encontro), aparelho (local de reuniões – às vezes de moradia de militantes – e de guarda de materiais da organização: documentos, panfletos, jornais, armamentos, mimeógrafos), queda de um aparelho (quando os órgãos repressivos o localizam), estouro de um aparelho (quando é revistado por agentes repressivos), queda de um militante (quando o militante é preso). Outras eram utilizadas de forma bastante diferenciada dentro do jargão da repressão ou daquele dos militantes de esquerda, em oposições binárias: subversivo/militante, terrorista/guerrilheiro, codinome/nome frio, homiziar/hospedar, aliciamento/recrutamento, doutrinar/conscientizar, amásio(a)/companheiro(a), assalto ou roubo/expropriação, assassinato/justiçamento (no caso de a vítima estar ligada à repressão ou de ser um militante considerado traidor), órgão de segurança/órgão repressivo.

Em consonância com as demais práticas discursivas descritas, o emprego do vocabulário oriundo do universo da repressão é muito mais freqüente do que a utilização de expressões caras à esquerda. Há exceções, nas quais se encontra o emprego de uma

444

Interrogatório preliminar. 17/02/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 111, 21483.

terminologia neutra, ou mais referenciada no universo da esquerda, caso do depoimento de um militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário):445

Que não tem conhecimento da existência de nenhum membro do PCBR em São Paulo. Que há três anos o declarante é subvencionado pelo PCBR através de contribuições dos militantes e simpatizantes. Que o PCBR não tem nenhuma “ação” (que seja do conhecimento do declarante). Que desconhece qualquer área de treinamento ou de guerrilha localizada no Paraná, pertencente a qualquer organização político clandestina.446

No caso, a escolha recaiu em termos como “militantes” e “organização político clandestina”, quando normalmente se usava “subversivo-terrorista”, “organização subversiva”, como se verá a seguir, na fala de um militante da AP: “que o declarante ‘aliciou’ para a AP mais ou menos 7 subversivos terroristas”.447 Curiosamente, nesse caso, a palavra “aliciou” está entre aspas. Não foi o caso com outras expressões, nitidamente em conflito com a maneira de pensar de um militante da Ala Vermelha do PC do B e, depois, do MRT, tendo participado de algumas ações armadas, presentes neste depoimento:

acrescentando que certa vez, (por volta de 1965) quando EDGARD DE ALMEIDA MARTINS (“MATIAS”) estava aliciando o declarante no intuito de arregimentá-lo para as hastes criminosas do PC do B, êste (“MATIAS”) lhe falou de um fazendeiro de nome ANTONIO JOAQUIM o qual era ligado ao antigo PCB, dando inteiro apôio aos seus componentes, homiziando-os e fornecendo-lhes condições financeiras para que subsistissem durante suas jornadas subversivas [...].448

Se o uso de expressões como “jornadas subversivas” já seria de se estranhar, o que dizer de “hastes criminosas do PC do B” ou de “malhas da subversão”, fórmulas empregadas na transcrição do interrogatório de um militante da ALN?

Êsse setor [Trabalho Político Estrito] se encontra desbaratado totalmente, devido as quédas ocorridas últimamente. O trabalho consiste em manter ligações com entidades estudantis-básicas (Centros Acadêmicos e Grêmios), a fim de levar o conhecimento de seus diretores, problemas referentes às estruturas estudantis, sem todavia, colocá-los a par de ligações que os mesmos possuiam com a ALN. Portanto, de início, passavam por meros colaboradores dos Centros Acadêmicos, com o intuito de orientá-los nos

445

O PCBR foi criado, após o golpe de 1964, a partir de uma dissidência do PCB no Rio de Janeiro, denominada inicialmente Corrente Revolucionária. Em 1968 adotou o nome PCBR. MIRANDA, Nilmário; TIBURCIO, Carlos. Dos filhos deste solo, mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, p. 360.

446

Interrogatório preliminar. 05/12/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 87, 16234.

447

Interrogatório preliminar. 25/12/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-

9, 172, 35700.

448

Interrogatório preliminar. 05/03/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 146, 30488.

estudos das reformas básicas do Ensino, para posteriormente angariar confiança e envolvê-los nas malhas da subversão.449

Parece bastante improvável que a transcrição tenha sido completamente fiel aos termos do depoimento, pois para os militantes e guerrilheiros a questão se colocava literalmente em outros termos. Em 1971, um militante do PC do B, estudante de medicina e estagiário do Hospital das Clínicas em São Paulo, prestou ajuda a um companheiro da VPR que, ferido, encontrava-se hospitalizado. Forneceu-lhe roupas e dinheiro para que fugisse, uma vez que estava extremamente visado por ter participado do seqüestro do cônsul do Japão. Em interrogatório, segundo sua transcrição, o sextanista de medicina teria dito o seguinte:

Afirma peremptóriamente que o auxílio que deu ao famigerado terrorista MARCO ANTONIO LIMA DOURADO (“GAÚCHO”), hospitalizado, na ocasião, no HC de São Paulo, foi um ato isolado, não recebendo ajudas tanto monetárias como financeiras de quem quer que seja (VPR – PC do B – Simpatizantes Esquerdistas).450

A dupla adjetivação, “famigerado terrorista” está em aberta contradição com o ato de camaradagem do estudante com o militante da VPR. Poder-se-ia contestar a incoerência, alegando que se tratava de uma estratégia para lidar com os interrogadores, servindo-se de seu vocabulário para diminuir a distância e, conseqüentemente, o choque que o separava destes. No entanto, a ordem geral do raciocínio, dentro do depoimento, não induz a pensar que seja o caso.

A lógica

Em contrapartida, há situações nas quais o depoente aceita, em termos, a moldura discursiva dos interrogadores, respondendo às questões em conformidade com ela. Nos depoimentos a seguir, nota-se a intenção de se conformar a certo padrão de raciocínio – sem que caiba discutir aqui se essa adequação correspondia realmente a uma convicção ou limitava-se a uma estratégia de subtrair-se ao confronto. Eis o depoimento de um indivíduo sem qualquer envolvimento político:

Que, reconhece ter sido “imbecil” ao guardar o material [material explosivo] sem saber do que se tratava. Que, não é membro de qualquer organização

449

Interrogatório preliminar. 07/03/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 165, 34277, 34276.

450

Interrogatório preliminar. 23/06/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 103, 19849, 19848.

clandestina, e desconhece “nomes de guerra”, sendo “LOU” apelido familiar do amigo. [...] Que, foi totalmente iludido pelo amigo. Que, não tem tempo para pensar em política, não tem qualquer livro de ideologia comunista em sua residência. Que, não tem passagem pelo DOPS. Que, vive do seu trabalho jamais recebendo dinheiro de origem clandestina.451

O depoente aceita a pecha de “imbecil”, provavelmente proferida pelos interrogadores, e se coloca no lugar da vítima “iludida” ou, nos termos da repressão, “inocente útil”. Em seguida, define a si mesmo a partir da negação dos traços que caracterizariam um militante de esquerda: pensar em política, possuir livros comunistas, ser fichado no DOPS e viver às expensas de uma organização clandestina. Disposição semelhante encontra-se na fala de um militante da ALN, que assume uma perspectiva de assentimento que vai além da simples aquiescência: “que realmente o declarante cometeu um êrro e estava mesmo dispôsto à participar do movimento ao qual pertencia “ALENCAR”; que foi até bom o declarante ter sido prêso agôra, porque senão poderia ter se comprometido mais com o movimento”.452

Em caso um pouco distinto, a lógica dos interrogadores de certo modo atravessa a fala do depoente no momento de sua transcrição. As respostas de um militante do MR-8, preso em São Paulo, a respeito de sua atuação na Guanabara, ficaram registradas da seguinte maneira:

que não se lembra de fatos novos que possa[m] interessar; que a ênfase passou a ser colocada na sua presença e atuação em São Paulo, uma vêz que foram respondidas pelo depoente tudo o que lhe foi perguntado, esclarece ainda, que supõe existir um dossier na Marinha onde possa fazer um interrogatório mais especifico em torno da sua vida na Guanabara.453

Há dois pontos nesse fragmento que causam certa estranheza. Quem afirma, muito provavelmente referindo-se à condução do interrogatório, que “a ênfase passou a ser colocada na sua presença em São Paulo”? O depoente ou os interrogadores? Porém, mais curiosa do que essa mistura de vozes, é a proposta – aparentemente formulada pelo depoente – de que se faça um interrogatório mais específico a partir de um suposto dossiê montado pela Marinha. Que um militante político, ao sofrer sevícias, acabe por ceder aos interrogadores a ponto de responder docilmente às perguntas formuladas é compreensível. Também não seria absurdo que afirmasse que provavelmente a Marinha já havia constituído um dossiê a respeito do

451

Interrogatório preliminar. 26/01/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 68, 11909.

452

Interrogatório preliminar. 06/04/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 90, 16793.

453

Interrogatório preliminar. 12/02/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 67, 11735.

objeto das inquirições. O que parece improvável, no entanto, é o fato de o depoente sugerir que se faça um interrogatório mais específico sobre suas próprias atividades. A maneira pela qual o depoimento foi transcrito faz supor que uma parte desse trecho diga respeito ao raciocínio dos interrogadores em relação às declarações do depoente, ou seja, a hipótese mais plausível é a de que o depoente tenha revelado a existência de tal dossiê e que os interrogadores, de posse dessa informação, tenham concluído que tal material poderia oferecer a possibilidade de se formularem questões mais específicas. A transcrição, portanto, teria condensado a informação do depoente e a avaliação dos interrogadores.

De modo análogo, no depoimento abaixo, de um militante do PCB, confundem-se as perspectivas do depoente e de seus interrogadores:

que o depoente militou no PCB no período compreendido entre os anos de 1960 a 1970, sendo que nos anos 1964 a 1968 o declarante não teve nenhuma militância subversiva devido a eclosão da revolução de 1964 a qual tornou a repressão bastante atuante o que CONTRASTAVA com os govêrnos anteriores que demonstravam total ineficacias na repressão aos movimentos subversivos existentes naquela época; que o depoente nada mais tem a acrescentar aos seus depoimentos anteriores, pois o declarante já descreveu tôda a sua militância no PCB e ainda os terroristas da VPR e ALN que conheceu nos anos de 1969 e 1971.454

Os termos utilizados pelo depoente – “militância subversiva” para se referir a sua atuação no partido comunista, “revolução” ao designar o Golpe de 1964 e “terroristas” para nomear os membros da VPR e da ALN – são emprestados da terminologia dos órgãos repressivos. Mas a inversão da perspectiva vai além na maneira com que descreve a “repressão” – expressão também empregada pelos agentes do DOI –, que, “atuante”, diferenciava-se daquela de outros governos, qualificada como “ineficaz”. Ora, a construção discursiva segundo a qual a expressão “atuante” é utilizada em oposição a “ineficaz” é nitidamente favorável à repressão, uma vez que “ineficaz” pode ser facilmente assimilado a “incompetente” e “ineficiente”, adjetivos incontestavelmente negativos. O fragmento citado, portanto, contrapõe “repressão ineficaz”, “militância subversiva” e “terroristas” a uma “revolução” que teria tornado a repressão mais “atuante”, estrutura pouco compatível com a visão de mundo esperada de um militante, ou recém ex-militante comunista que estava sendo vítima dessa mesma repressão.

454

Interrogatório preliminar. 27/02/1972 Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 160, 33368. (A expressão “contrastava” está em caixa alta no original.)

Evidentemente não é possível estabelecer claramente a fronteira entre o discurso dos interrogadores e o dos depoentes, pois se trata de um terreno pantanoso, no qual as falas de uns e de outros não se distinguem de forma precisa. Entretanto, o que se procura mostrar aqui é como as fórmulas padronizadas utilizadas para circunscrever a fala do interrogado, a transcrição de questões como respostas, a abreviação de trechos do depoimento, a inclusão de informações, o modo como determinado vocabulário é empregado, enfim, todas essas práticas, compõem uma estratégia discursiva que envolve a fala do depoente dentro da perspectiva dos agentes repressivos. Exemplos expressivos são o depoimento de uma professora universitária, amiga de um dirigente do POC, que emprestou seu apartamento para atividades da organização:

Que confirma as declarações anteriores, esclarecendo que reconhece ter agido levianamente ao ceder seu apartamento para reuniões, que sabia ser de estudos e não ter se inteirado na época sôbre o móvel real das reuniões; [...] que sendo professora universitária devia estar ao par do que ocorria e não servir de instrumento para organização subversiva, que justifica ter agido assim sem pensar porque se interessava sòmente no ritmo de seus afazeres por demais intensos e seus projetos para o futuro; [...] que a depoente está convicta de que pode explicar mas não justificar a sua maneira de agir.455

O mesmo ocorre com o de uma militante da APML:

que a declarante sabia ser ilegal tal atitude, porquanto, não alega ignorância ou desconhecimento de causa sobre seu envolvimento com a APML e que, evidentemente, sua posição não era a de uma simpatizante ou de apoio, mas sim, de uma militante em fase de conscientização; [...] que na verdade, a declarante mais parece ter sido um instrumento útil à seu aliciador, do que irredutível esquerdista, convicta ideologicamente, como pode parecer, em virtude da documentação que transportava, ao ser presa; que a declarante afirma agora, estar tendo outra visão da realidade, podendo afirmar agora, sem indecisão, que seus ideais estavam sendo distorcidos, pois, diante das “injustiças sociais” que “MAURO” expunha de modo inteligente, pareceu- lhe que ali estavam as soluções de tudo que imagina estar errado; que na verdade, os problemas brasileiros não podem ser sanados de um dia para outro, ainda mais com “convincentes” argumentações de quem quer que seja, mas sim, da forma pela qual a política do Governo Federal vem se fazendo sentir, em todos os setores da atividade administrativa do país, acreditando a declarante, que dentro de 5 decadas, mais ou menos, mais de 50% dos problemas do nordeste estará solucionado, assim como os que dizem respeito à educação.456

455

Interrogatório preliminar. 23/08/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 79, 14348.

456

Interrogatório preliminar. 09/05/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 153, 31738.

No primeiro caso, o trecho assinala certa concordância com determinado ponto de vista em relação às ações praticadas. Se a depoente “reconhece” determinada proposição, significa que esta lhe foi apresentada de maneira implícita ou explícita, ou seja, não se deve emprestar a casa para reuniões sem inteirar-se de seu conteúdo. Ela pode “explicar”, mas não “justificar” sua “leviandade”, portanto adota a perspectiva do erro de sua atitude. No segundo caso, a depoente, no início, não “alega ignorância ou desconhecimento de causa” e se define como uma “militante em fase de conscientização”. Ou seja, não procura atenuar sua conduta, assumindo a posição de uma simpatizante ou de apoio. Em seguida, no entanto, o seu discurso sofre uma brusca alteração, que explica como “uma nova visão da realidade”, e se põe no lugar de um “instrumento útil à seu aliciador”, vítima da distorção de seus ideais, e não mais no de uma “irredutível esquerdista, convicta ideologicamente”. A política do governo, antes criticada, passa a parecer-lhe a mais correta e apropriada. Nessa mudança de rumo, abriga-se a atuação dos interrogadores. A visão do mundo destes aparece de maneira contundente na exaltação dos feitos administrativos do governo federal.457 Na palavra “agora” parece residir a senha da transformação ideológica da depoente, situação que se reproduz no depoimento de um militante do PCBR:

que o depoente procura elucidar êsses fatos, porque agora, se acha compenetrado de que estava se portando como mau brasileiro, tendo se envolvido com o PCBR, não porque tivesse alguma ideologia política, mas em razão de se ver mergulhado em extrema penúria, a qual foi amenizada, com algumas contribuições em dinheiro que a organização lhe fêz; que no momento se vê livre da dependência moral a que estava submetido, com os elementos da organização, desejando colaborar no que fôr possível com os órgãos da repressão e imbuir nos juizes que forem julgá-lo, clemência para sí e seus familiares.458

Por sua atuação no movimento estudantil e fornecimento de documentos falsos para militantes da ALN, um apoio dessa organização foi preso ao menos em duas ocasiões pelo DOI. Na segunda, afirmou que

desejava deixar patente e público seu repúdio à qualquer tipo de atividade praticada pelas organizações existentes atualmente, aos quais não tem nenhum fundamento a não ser o da prática de delitos que segundo a opinião do declarante, não tem as características de crime político, porém, são delitos

457

Os ideólogos do regime militar não eram alheios aos enormes problemas sociais e econômicos enfrentados pelo país. Viam-nos com preocupação, pois os consideravam como possíveis focos de distúrbio social e elementos facilitadores da inserção da propaganda comunista. Devo essa observação pertinente a Marco Aurélio Vannucchi Leme de Mattos.

458

Interrogatório preliminar. 25/04/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 141, 29397.

comuns (roubos, furto, estelionato, etc) e como tal deveriam ser punidos [...].459

Em outra sessão de interrogatório, a tentativa de mostrar-se em conformidade com o projeto do governo militar – do qual os agentes do DOI eram funcionários especializados – revestiu-se da repetição dos feitos mais eloqüentes, amiúde divulgados pela propaganda oficial:

está trabalhando como professor de História Geral, no CURSO ANGLO- LATINO, onde procura elevar aos seus alunos a figura de Brasil-Progresso, no que diz respeito à Transamazônica, Plano de Integração Social e aumento do mar territorial para 200 milhas, fatos êsses que fazem com que o declarante perceba o verdadeiro destino de uma nação que caminha a passos largos para o progresso em todos os sentidos; que o declarante poderá perder o seu emprêgo como professor do citado curso, caso não retorne até o fim desta semana, pelo que, por meio dêste depoimento vem solicitar lhe seja dado um voto de crédito, dando-lhe condições de retornar ao trabalho, passando a responder, dêsse modo, pelos fatos a que está implicado. Que se compromete a denunciar qualquer elemento, ainda que seja ou tenha sido seu colega de escola, que porventura venha procurá-lo em têrmos de subversão.460

A “adesão” ao imaginário ufanista não excluía o compromisso em alimentar a sede mais prosaica do órgão repressivo de capturar novos indivíduos.

A adoção – real ou tática – do modus pensandi dos interrogadores também se fazia em outros moldes, não necessariamente em termos discursivos ou na análise da própria trajetória segundo a lente utilizada por eles. Podia também se revestir da mesma lógica de exacerbação da suspeita, como mostra o depoimento de um militante da VPR, no qual menciona a existência de “livros subversivos” na residência de um conhecido cujas tendências políticas não chegava a conhecer:

que foi apresentado por NELSON CANABARRO a RUI, no corredor do prédio de apartamentos, onde residia RUI, que este prédio fica em uma rua próximo da Rua Maria Antonia, em local que sabe indicar que viu que na sala do apartamento de RUI, havia vários livros de cunho subversivo. [...] Que ignora se RUI SAVIETO PRATTI, pertencia ou não a qualquer organização subversiva ou terrorista, bem como se possuia tendências de esquerda.461

459

Interrogatório preliminar. 29/01/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 163, 34017.

460

Interrogatório preliminar. 03/02/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 163, 34006.

461

Interrogatório preliminar. 22/11/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 83, 15321.

Em acareação realizada três dias depois, a afirmação é atenuada pelo próprio acusado: “Acareado com RUI SAVIETO PRATTI êste alega que no seu apartamento da Rua Maria Antônia possuia apenas um livro de Karl Marx denominado ‘O Capital’”.462 A pressão para que se fizesse determinado tipo de acusação ou delação fica patente no caso de uma militante do POC que, tendo sido abrigada por uma companheira, traçou o seguinte comentário a seu respeito: “que a depoente ficou homiziada na casa de BEATRIZ DE TAL, apenas durante