5.3. LATP’nin Üretim Yöntemleri
5.3.5. LATP’nin iyonik iletkenliği için anahtar faktörler
“O que eles queriam nos seus interrogatórios era, basicamente, pontos e aparelhos”.490 Essa percepção de Fernando Gabeira, ex-militante do Movimento Revolucionário – 8 de outubro (MR-8, ex-Dissidência da Guanabara) – é evidentemente parcial. Os pontos de
489
A guerra revolucionária. 1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 84, 15602, fl. 15.
490
encontros de militantes e a localização de aparelhos – locais onde se guardavam materiais e documentação da organização, onde se fazia o planejamento das próximas ações a serem executadas, realizavam-se reuniões e hospedavam-se militantes – formavam, inequivocamente, um dos eixos dos interrogatórios, mas não o único; talvez o mais identificável, uma vez que eram as informações a serem obtidas com maior urgência. Era através delas que se chegava muito rapidamente a outros militantes, mantendo uma cadeia de “quedas” (prisões) e de apreensão de material de todo o tipo: propaganda, armas, munições, dinheiro, documentos internos das organizações.
Pontos
Havia vários tipos de pontos. Respondendo a um perguntório, um membro do setor de imprensa da ALN afirmava conhecer as seguintes modalidades:
1) Ponto de segurança: para verificar se o militante não caiu depois de executar alguma tarefa (uma ação, por exemplo).
2) Ponto de referência: se um dos dois militantes furar um ponto existe uma referência pré-determinada, que pode ou não ser no mesmo local.
3) Ponto fechado: para o caso de cair um militante que é o único contacto com outro da Organização, a fim de que êste outro não fique perdido. Nesses casos o primeiro militante passa ao segundo um papel com as indicações do ponto (local, hora, modo de vestir ou objetos a levar, senha, contra-senha). O primeiro militante não lê o papel e o segundo joga-o fora depois de decorar o seu têxto.
4) Ponto móvel: depois de fixada uma rua estabelece-se, por exemplo, que na 2ª feira o ponto será no número 200, na 3ª no número 300 e assim por diante.
5) Ponto andando: um trecho de rua, entre dois números ou duas perpendiculares. O encontro terá um ar mais casual.
6) Ponto de polícia: o perguntado ficou sabendo de sua existência neste DOI.491
O ponto de polícia é descrito da seguinte maneira por um militante da REDE e do MRT:
Observação: FERNANDO KOLLERITZ (“IVO”), declarou que a REDE está empregando apontamentos, denominados pontos policiais. Isto significa
491
que o elemento caido, deve dar um ponto frio, pré-determinado, o qual é diàriamente observado pelos elementos importantes da organização.492
Obter a data e o horário dos próximos pontos, assim como a localização dos aparelhos, era crucial e premente, uma vez que, havendo demora por parte dos agentes de repressão, os militantes, ao detectarem a prisão de um companheiro, deixavam de comparecer aos pontos e, algumas vezes, transferiam o local dos aparelhos. Segundo o ex-chefe do CODI do Rio de Janeiro Adyr Fiúza de Castro, “o ‘ponto’ é o que faz cair em cadeia”.493 Estabelecia-se, desde o início, um jogo de forças no qual o depoente às vezes conseguia manter secreta a informação cobiçada. Um militante da VPR confessou, por exemplo, “que o ponto que declarou quando prêso, que teria com FLAVIO, era um ‘ponto policial’, que tinha por finalidade, identificar ao FUGIMORE que o depoente havia caido; que na época de seu depoimento, omitiu as declarações acima”.494 Outro, da ALN, utilizou como recurso responder às questões dos interrogadores com informações falsas, visando omitir as verdadeiras:
Retifica seus depoimentos anteriores, pois fornecêra detalhes falsos, dera “pontos” inexistentes com o fito de não “queimar” os verdadeiros “pontos” que tinha nesta data, ou seja, “ponto” com o “CARLOS”, às 1400 horas, na Rua Albuquerque Lins e o “ponto” com SILVIA CARNEIRO PONTES PEROBA (“RITA”), às 1500 horas, na Avenida Higienópolis, esquina com Albuquerque Lins.495
Embora normalmente as questões sobre os pontos aparecessem apenas nas primeiras sessões, acontecia de os interrogadores explorarem esse tópico mesmo quando o depoente já estava detido há algum tempo, como ocorreu com um militante da ALN que, na 15ª sessão de interrogatório, respondeu a esse respeito:
que o único ponto que lhe resta é com o japonês “ROBERTO” para as quintas feiras às 2030 horas na Rua Tabapuã X Iguatemi mas acha pouco provavel que “ROBERTO” volte a cobrir tal ponto já que a essa altura todos da ALN de São Paulo devem saber que o depoente foi prêso.496
492
Interrogatório preliminar. 10/05/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 107, 20374.
493
Depoimento do general Adyr Fiúza de Castro, publicado em D’ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon; CASTRO, Celso. Os anos de chumbo, p. 67.
494
Interrogatório preliminar. 18/11/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 83, 15327.
495
Interrogatório preliminar. 20/11/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 155, 32300.
496
Interrogatório preliminar. 28/02/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 165, 34285.
Caso o ponto fosse revelado a tempo, a sessão era interrompida para que o depoente fosse ao encontro, acompanhado da Turma de Busca. A frase a seguir, retirada do depoimento de um militante do PCB, é bastante freqüente: “Nesta altura, foi interrompido o interrogatório, a fim de que o depoente fosse levado para ‘cobrir’ o ponto citado no início do presente depoimento”.497 Muitos militantes foram detidos desse modo, por desconhecerem a prisão de seus companheiros ou por insistirem em cobrir um ponto a despeito da ausência, nos pontos anteriores, daquele que iriam encontrar. Guiomar Lopes, ex-militante da ALN, comenta o fenômeno: “parecia uma família árabe, porque um ia tentar salvar o outro e era preso, formando uma corrente...”.498 Por isso sonhavam com o dia em que teriam um esquema de comunicações e encontros mais seguro. Um dos personagens das memórias romanceadas do ex-militante da VPR Alfredo Sirkis afirma que criariam “uma estrutura tão bem estanquizada que não tivesse mais nem pontos marcados entre os combatentes, apenas comunicação através de sinais e mensagens em muros e postes”.499 Porém, mesmo esse tipo de prática acabava sendo do conhecimento dos interrogadores e instrumentalizado pelos agentes do DOI. Um militante da VPR descreve a armadilha montada por estes para prendê-lo:
O depoente esclarece que, conforme havia combinado com EMÍLIO IVO ULRICH (“ALEMÃO”) passou em determinado dia na Av Pacaembu e notou que nada havia de anormal no poste que haviam combinado deixar um sinal. O poste inclusive estava escuro e sujo. Já no dia seguinte pode notar o sinal combinado em tal poste, porém, notou algo de estranho, uma vez que a marca estava muito bem feita e o poste havia sido limpo para que se fizesse o sinal.
Que, normalmente os sinais são feitos de maneiras apressadas e nunca poderiam estar nas condições em que aquele sinal se apresentava. Assim, já desconfiado compareceu no horário combinado para cobrir o “ponto” na Av Turmalinas e sem descer do ônibus em que tomava assento, verificou “ALEMAO” no local combinado. Teve então suas suspeitas confirmadas, pois em um local sem movimento “ALEMAO” estava com uma pessoa pouco a sua frente e um outro, pouco à retaguarda, o que fêz deduzir que eram policiais. Dai então, não mais voltou a cobrir tal ponto em suas alternativas.500
Ao mesmo tempo em que comparecer ao encontro podia ser extremamente arriscado, dada a possibilidade de campana montada pelos agentes do DOI, era a oportunidade de
497
Interrogatório preliminar. 27/07/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 146, 30568.
498
RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira, p. 265. (Grifo do autor.)
499
SYRKIS, Alfredo. Os carbonários, p. 308.
500
Interrogatório preliminar. 03/02/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 171, 35563-35562.
confirmar se um companheiro havia “caído” (sido preso) ou não. O trecho abaixo, retirado do depoimento de um militante da VPR e da REDE, mostra uma e outra faces da situação:
Que confirma as suas declarações anteriores, acrescentando que o único ponto de encontro que o depoente tinha com os elementos de sua base e da base de “MIGUEL” que ainda estavam ou estão em liberdade, ou seja “DUDU”, ÉLOY”, “PEDRO”, “MIGUEL” e a “CARMEM” êste ponto era de emergência [sic]; sendo coberto pelo depoente e equipe desta OB, onde compareceu “PEDRO” representando os demais, isto por medida de segurança; em consequencia da queda de “PEDRO” e do alarde feito no local, os elementos que estão fora e que poderiam voltar nos próximos dias, já que aquêle era ponto de emergência da base, assim sendo, ninguém retornará aquêle local.501
As operações nem sempre eram tão indiscretas. Alfredo Sirkis narra a montagem de uma campana, observada por ele e uma companheira, de um ângulo próximo, mas pouco visível. Seis agentes – não se sabe se eram do DOI ou do DOPS – chegaram intempestivamente ao cemitério das Clínicas, em São Paulo, numa perua amarela. Desceram do automóvel e rapidamente sumiram do outro lado do portão. A perua amarela, estacionada entre o carro do pipoqueiro e as barracas de flores, incorporara-se à paisagem. Os observadores, percebendo que o ponto fora descoberto pela polícia, trataram de distanciar-se do local. Não tivessem chegado um pouco antes e observado a cena, teriam sido presos.502
Cientes das variadas modalidades de pontos e dos procedimentos envolvidos nos encontros – uso de senhas e contra-senhas – os agentes do DOI os utilizavam como “isca”. O conhecimento detalhado dos meios empregados pelas organizações de esquerda era um instrumento poderoso para chegar a seus militantes. Em julho de 1971, ao ser cientificado de que seu irmão, militante da ALN, fora seqüestrado pelos órgãos de repressão, Manoel de Almeida Araújo foi ao DOI procurá-lo. Os interrogadores nada disseram sobre o paradeiro daquele, mas quiseram descobrir quem lhe havia passado a informação:
Que hoje (11 Jul 71) por volta das 1630 horas quando se encontrava na residência de sua progenitora atendeu a um telefonema (fone 44-21-22) em que um elemento a procurava, sendo que após o declarante se identificar como filho da mesma recebeu o seguinte recado: - Que seu irmão LUIZ ALMEIDA DE ARAÚJO (“RUI”) encontrava-se prêso há quinze dias e sòmente sua família poderia localizá-lo, e que deveriam fazê-lo rápido pois LUIS poderia morrer torturado nas mãos da polícia. Por êsse motivo o declarante passou a procurá-lo tendo ido ao DEOPS, BPE (IIEx/), Rec Mec (II Ex) e finalmente tentou encontrá-lo neste DOI. [...]
501
Interrogatório preliminar. 22/04/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 104, 20021.
502
OBSERVAÇÃO: O declarante comprometeu-se a, caso êsse elemento telefone novamente, marcar um ponto com o mesmo, dizendo haver conseguido localizar o seu irmão, tendo êste lhe passado um recado escrito e que sòmente poderá entregá-lo pessoalmente, não podendo fornecer mais detalhes pelo telefone. Imediatamente após, o declarante entrará em contacto com êste DOI e fornecerá detalhes sôbre o referido ponto (dia, hora, local, elemento que deverá cobrí-lo, senha, contra-senha, e etc.). As instruções referentes à simulações serão também dadas pelo declarante à sua mãe, a qual deverá executá-lo no impedimento do mesmo.503
À medida que iam prendendo os militantes, os agentes do DOI, de posse das informações conseguidas, iam mapeando a área de atuação de cada organização. Os militantes costumavam circular dentro de determinadas zonas da cidade de São Paulo, o que facilitava sua localização. Um dirigente da REDE explicou aos interrogadores como fazia para encontrar companheiros de sua organização e da ALN, quando o contato era interrompido.
quando GILBERTO FARIA LIMA (“GIBA” ou “CARLOS”) saiu da área de treinamento, procurou-o na Av Indianápolis, onde o depoente tinha “ponto” com DEVANIR JOSÉ DE CARVALHO (“HENRIQUE”). Que “GIBA” ou “CARLOS” sabia que o depoente costumava marcar ‘pontos’ naquele local, e então, na tentativa, conseguiu encontra-lo. [...]
O depoente lembra-se ainda que, antes da ação havia se encontrado com “TOLEDO” umas 3 ou 4 vezes na Vila Mariana [...]. Que êsses “pontos” foram realizados na sua totalidade na Vila Mariana, só variando as ruas (locais de pontos). [...] Perguntado como conseguiria contactar com alguem da organização em São Paulo, respondeu que o tentaria andando pelos bairros de Vila Mariana e Indianápolis.504
O mesmo sucedia com outras organizações, como atesta esta fala de um militante do POC: “Que, depois de abandonar o POC, diversas vezes, passando de ônibus pelas Avenidas Paulista e 9 de Julho, viu elementos do POC fazendo pontos; que é comum o pessoal do POC marcar pontos nas Avenidas Paulista, 9 de Julho e Rua Augusta”;505 assim como a de um militantes da VAR Palmares: “Que atualmente elementos da organização costumavam marcar ponto sempre fora da cidade, em virtude da vigilância; que os lugares preferidos são: Praça Oswaldo Cruz, transversais da Rua Turiassu próximo ao Shoping Center de Iguatemi,
503
Interrogatório preliminar. 11/07/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 103, 19784-19783. Luiz Almeida Araújo foi seqüestrado na Av. Angélica, após ter conduzido um companheiro a um encontro com um dirigente da VPR, no dia 24 de junho de 1971. Seu corpo não foi encontrado. MIRANDA, Nilmário; TIBURCIO, Carlos. Dos filhos deste solo, mortos e desaparecidos políticos
durante a ditadura militar, p. 61-62.
504
Interrogatório preliminar. 23/09/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 95, 18071-18070.
505
Interrogatório preliminar. 16/07/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 139, 28984.
Lapa”.506 O fato de os militantes circularem dentro de uma área restrita da cidade expunha-os sobremaneira, pois nesses casos os bairros em questão poderiam ser vigiados por agentes do DOI mesmo que estes não dispusessem de informações precisas sobre datas e horários dos encontros. Tal procedimento é descrito pelo ex-comandante do DOI, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, numa operação destinada a capturar integrantes da ALN:
Na reunião da Comunidade de Informações [...] eu solicitara ao chefe da 2ª Seção da Polícia Militar que colocasse barreiras para controle de trânsito nos prováveis locais onde os terroristas mais transitavam. Conforme combinado, após um estudo da Seção de Análise do DOI, escolhemos alguns locais críticos e indicamos zonas de maior atuação terrorista para que a Polícia Militar montasse as barreiras.507
Aparelhos
A localização de aparelhos era, do mesmo modo, um tema insistentemente presente nos interrogatórios. Estava em jogo não apenas a possibilidade de prender outros militantes que ali residissem ou estivessem se reunindo, como de recolher vasto material de propaganda, armamentos, dinheiro e documentos da organização à qual o aparelho pertencia. Uma vez identificado um desses imóveis, os agentes do DOI faziam campana em suas proximidades, observando a movimentação em torno do local. Capturavam os indivíduos que pudessem estar ligados à organização investigada e os levavam para a rua Tutóia para serem interrogados. Assim, uma vez obtidas informações sobre o aparelho de um militante procurado, o interrogatório era suspenso para que se fizessem as buscas no local, interrupção assinalada pelos inquiridores: “OBS: O depoente foi conduzido pelas Equipes de Busca ‘A-3’ e ‘A-4’, a fim de localizar a casa de onde YOSHITANE fôra visto saindo. Se reconhecida a casa, o depoente deverá retornar à OB e montar-se-a uma campana”.508 Desse mesmo modo se deu a interrupção do interrogatório de um militante do POC, assinalada ao final do depoimento:
506
Interrogatório preliminar. 12/09/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 97-A, 18641.
507
USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A verdade sufocada, p. 382. Segundo o general Leônidas Pires Gonçalves, ex-chefe do CODI do Rio de Janeiro, a partir dessas informações, compunha-se um “bolotário”: “havia um mapa de homens com suas atividades, marcadas por aquelas bolotinhas, e, quando olhávamos, estávamos diante de uma cadeia nucelar. Porque fulano de tal se liga com fulano que se liga com... Então fazíamos uma análise completa, direitinho e tal”. Depoimento do general Leônidas Pires Gonçalves, publicado em D’ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon; CASTRO, Celso. Os anos de chumbo, p. 242.
508
Interrogatório preliminar. 29/09/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 80, 14658.
“OBSERVAÇÃO DA TURMA DE INTERROGATÓRIO: O depoimento foi interrompido nêste ponto para o declarante ir tentar localizar o aparelho de MARCOS WILSON SPIGLER (“GERSON”)”.509
Chama a atenção o fato de alguns militantes conhecerem vários aparelhos, contrariando as normas de segurança das organizações.510 Um militante da VPR, interrogado entre dezembro de 1969 e fevereiro de 1970, cita catorze aparelhos em que esteve – ainda que desconhecesse o endereço de alguns deles, por ter se dirigido ao local com os olhos vendados – em São Paulo, em Embu-Guaçu, na Guanabara e em Santos.511 Conforme foram adquirindo experiência na clandestinidade e a repressão foi aumentando, as organizações passaram a ser mais cuidadosas com a segurança. Indagada sobre as armas e meios financeiros da ALN, uma militante deu a seguinte resposta:
Em outubro foi alugado um “aparelho”, no qual residem “JOSE” e “MARCIA”, onde possivelmente se encontra o dinheiro e armamento da organização. Tal “aparelho” a depoente, como os outros componentes do “COMANDO” desconhece, pois tendo em vista a queda do GTA [Grupo Tático Armado], anterior foi tomada precaução de mantê-lo “fechado”, bem como modificado o sistema de segurança.512
De fato, o “estouro” (desmonte) de um aparelho podia significar perdas consideráveis de material, de militantes presos, de informações sigilosas. Em relatório datado de setembro de 1969, o II Exército vangloriava-se por ter a Operação Bandeirante desarticulado – ao menos por certo tempo – a Ala Vermelha do PC do B:
509
Interrogatório preliminar. 07/09/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 173, 35798.
510
Em documento da VAR Palmares sobre normas de segurança, constante no arquivo do DOPS, preconiza-se, no item “Sobre aparelhos”: “A preservação de nossa aparelhagem é fundamental para o funcionamento da Organização, pois é ela que assegura a nossa infra-estrutura. O militante deve conhecer apenas o seu aparêlho de reunião da célula. [...] Tôdas as vêzes que descobrirmos algum aparêlho da Organização, devemos comunicar imediatamente a Organização pelos canais internos, a fim de que possa ser evacuado. Temos que ser rígidos nessa prática para enfrentarmos o avanço da repressão e assegurarmos a nossa segurança”. Normas básicas de
segurança. 05/03/1970 (data de envio da documentação à Coordenação de Execução da Operação Bandeirant).
Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 75, 13493, fls. 2-3.
511
Interrogatório preliminar. 14/01/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 150, 31322-31319. Nesse sentido, Jacob Gorender faz uma dura crítica à situação da esquerda armada: “As organizações de esquerda se revelaram débeis no duelo contra os dispositivos da repressão policial, assim que se deu sua centralização pelo comando das Forças Armadas. [...] Pelo exame das trajetórias individuais, verificam- se numerosos casos de militantes que passaram por três organizações, alguns por quatro ou cinco. Uma vez aprisionados e torturados, podiam fazer denúncias sobre todas elas. Sem falar na inexperiência e nas incríveis imprudências, que facilitaram a tarefa dos órgãos repressivos”. GORENDER, Jacob. Combate nas trevas, p. 261.
512
Interrogatório preliminar. 28/03/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 91, 17218.
A prisão de onze elementos da Ala Vermelha do PCdoB – a maioria dos quais dos mais atuantes e de grande expressão no Partido – aliada à tomada de dois “Aparelhos” com volumosos material de grande valia para a organização, permite afirmar que a Ala Vermelha sofreu um duro golpe e que não tem condições – pelo menos no momento – de “atuar” com eficiência no campo subversivo-terrorista. Por outro lado, as referidas prisões permitiram esclarecer um bom número de assaltos a Bancos, a organizações comerciais e outros atos de terrorismo, recuperar algum dinheiro, armamento e outros materiais roubados, a apreender armamento e munição e a impedir a realização de alguns assaltos e outras “ações” que já estavam planejadas e até programadas para a semana em curso.513
Nas ocasiões em que os interrogados desconheciam o endereço, pedia-se que dessem todas as indicações disponíveis para se chegar ao local. Um dirigente da REDE assim apresentou as referências para localizar a casa na qual se hospedara:
que esteve várias vezes no aparêlho de DEVANIR JOSÉ DE CARVALHO (“HENRIQUE”), porém esclarece que quando seguia para aquêle local, que sempre era feito em companhia do mesmo, usava óculos vendados com algodão; esclarece que não sabe precisamente onde fica localizado o referido aparêlho, acreditando na possibilidade de precisar a área; sabe que fica na direção de Americanópolis, em vista da direção que DEVANIR JOSÉ DE