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Por último, merece ser descrito um fenômeno lingüístico bastante curioso, que, a despeito de sua pouca freqüência, é extremamente revelador de como a fala do depoente é tomada na transcrição dos interrogatórios preliminares. Trata-se de intervenções do interrogador, assinaladas ou não, dentro da fala do depoente, sem marcas distintivas dessa interferência,467 como se entre a fala do depoente e a do interrogador as fronteiras fossem permeáveis. Ou, talvez, como se ao interrogador que “fala” dentro do depoimento fosse

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Declaração de próprio punho. 25/01/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 67, 11616, 11615.

467

Refiro-me, aqui, a uma demarcação gráfica explícita entre as fronteiras – início e fim – da fala do depoente e da intervenção do agente de interrogatório.

permitida uma ampla liberdade de acesso e ingerência no discurso do interrogado. No depoimento abaixo, de um militante do POC, a presença dos agentes de interrogatório é traída por um “nos” onde normalmente se utiliza uma fórmula impessoal:

“Apesar de haver permanecido 4 meses em Pôrto Alegre e de ser levado por “MÁRIO”, pelo menos uma vez por semana, (normalmente durante dias úteis), no citado “aparêlho”, o depoente no entanto afirma que desconhece a localização exata do citado “aparêlho”, dizendo não estar em condições de nos informar da região aproximada onde o mesmo se encontra.468

A transcrição de outro interrogatório, realizado com um militante da ALN, também apresenta uma formulação extremamente curiosa, confundindo a voz daquele que fala com a daquele que transcreve: “Que êsses reencontros sempre acontecem tôdas as vezes que tais ações são encetadas, é uma espécie de medida de segurança que êles ‘terroristas’ usam em ocasiões idêntica ”.469 Não parece razoável que um militante se refira aos companheiros pela expressão “êles” ou “terroristas”, principalmente ao descrever uma prática comum entre os integrantes da organização da qual era membro. Situação semelhante ocorre em uma das sessões de interrogatório de outro militante da ALN, cuja transcrição é reproduzida na íntegra:

Que confirma suas declarações anteriores; acrescentando que “RODRIGUES” trabalha na Indústria ARNO S/A, (Departamento de Eletrônica), no Ipiranga; que “RODRIGUES” pertence ao Setor de Massas e está ligado também aos grupos dos bancários; que seus “pontos” com “RODRIGUES” eram no bairro do Ipiranga (Ruas Sacomã, Bom Pastor r[ua] Silva Bueno); “ALEXANDRE” ou “LELIO” reside juntamente, com “SIMÕES”, endereço êsse que poderá ser localizado por “RODRIGUES”; que, nesse instante, o depoente será conduzido até a ARNO S/A, juntamente, com uma equipe de busca, a fim de prender “RODRIGUES”.470

Quem profere a última frase? Teria sido o depoente a decidir que era o momento de deixar o interrogatório para proceder a uma busca de seu companheiro com a Equipe de Busca? Tanto menos provável que, na grande maioria das vezes, frases de semelhante estrutura são acrescidas após o depoimento, em uma “observação” ou “observação do interrogador”. Neste outro depoimento, o interrogador acrescenta uma dedução – apontada

468

Interrogatório preliminar. 20/07/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 169, 35104.

469

Interrogatório preliminar. 02/03/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 165, 34283.

470

Interrogatório preliminar. 08/04/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 90, 16772.

como tal – no meio da fala de um militante da Resistência Democrática (REDE),471 completando a informação parcialmente revelada, em total despreocupação em manter íntegro o discurso do outro:

que ao sair da av. supracidata (que passou ao lado do CEASA), “BACURI” subiu uma ladeira asfaltada, desceu logo em seguida outra ladeira asfaltada, atravessou tartarugas (sentiu solavanco) e talvez 1 minuto depois estava no quintal da casa; conforme dados fornecidos pelo depoente a casa em questão foi útilizada para o sequestro do Consul Japonês (dedução do interrogador); que presume que ao lado, ou no terreno, da casa, em questão houvesse algo em construção, pois o depoente sentia que o carro passava sobre terreno recoberto de areia e em certo momento o veiculo passou sôbre uma tábua [...].472

Um último exemplo, retirado do depoimento de um militante do PORT, reproduz o comentário do interrogador ao final do texto, dessa vez sem diferenciação alguma dos enunciadores.

que veio à São Paulo a fim de colher e trazer informes sôbre a situação política econômica e social e uma vez inteirado das análises feitas aqui, deveria retornar à Recife onde se reuniria com “GIL” e “SÉRGIO BUARQUE” para pô-los a par da situação para posterior divulgação e propaganda que se faria no ME [Movimento Estudantil] a cargo de SÉRGIO BUARQUE. O depoente não consegue explicar como se manteve desde 1964, por ocasião de sua fuga, embora tente justificar com evasivas que ganha seu sustento através de trabalhos de desenhista, sem contudo apontar uma única fonte pagadora.473

Em todas as passagens citadas, repete-se o mesmo fenômeno: os interrogadores dispõem da fala do depoente como se, através dela, falassem eles próprios. Mais do que isso, apropriam-se desse discurso, imiscuindo-se nele, apagando a distinção que separa uma voz da outra, numa instrumentalização completa da fala do depoente. É extremamente importante, no entanto, ressaltar que essas operações não invalidam as transcrições dos interrogatórios como documento histórico, nem revelam uma manipulação total delas. Esses documentos, longe de demonstrar um desleixo na produção dos interrogatórios, transmitem sistematicidade e rigor. Mas refletem, igualmente, como pano de fundo, certa visão de mundo e determinado modus

471

A REDE foi criada pelo ex-militante da POLOP e da VPR Eduardo Collen Leite, conhecido como Bacuri, em 1969. Teve uma existência curta, tendo o seu fundador ingressados alguns meses depois na ALN. MIRANDA, Nilmário; TIBURCIO, Carlos. Dos filhos deste solo, mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura

militar, p. 58.

472

Interrogatório preliminar. 10/05/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 107, 20355, 20354.

473

Interrogatório preliminar. 27/07/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 110, 21155.

operandi. A instrumentalização, aqui referida, seguia um padrão específico, não aleatório nem caótico, obedecendo a regras não explícitas, mas nem por isso inexistentes.

A maneira pela qual a fala era transcrita caracteriza uma representação da fala do interrogado dentro de uma encenação na qual a personagem principal não era aquele que estava proferindo o discurso, mas aqueles que o recebiam – os interrogadores –, como representantes de um poder maior, o próprio Estado e o governo militar. Assim, o ethos discursivo próprio ao interrogatório contrapunha-se – e em alguns momentos substituía – ao ethos do discurso do depoente. A imposição do poder do regime militar e de seu ideário não se fazia apenas por meio da coerção física, mas inscrevia-se também no discurso. No ato da transcrição da fala do outro, o interrogador, mesmo que não se desse conta disso, enredava parte desse discurso na teia de suas convicções ideológicas. No limite, o interrogatório tinha por função implícita aniquilar a alteridade e impor uma única fala autorizada: a dos interrogadores.