O objetivo desta pesquisa é perceber como o narrador Dom Casmurro tem autonomia sobre o relato que também escreve. No escopo de destacar o controle que Dom Casmurro tem sobre o relato ou sobre o livro que escreve, sublinham-se, aqui, laivos de sua presença nos seus muitos comentários sobre a estruturação da obra, em vários momentos da narrativa, como, por exemplo: na divisão de capítulos, na disposição destes, ou, em grande parte, quando discursa sobre o conteúdo do narrado. Para deslindar esse controle, tomam-se, como exemplos, alguns desses momentos. No final do capítulo VIII, o narrador, antecipando o axioma de sua história − “[a] vida é uma ópera” −, propõe-se a explicar, no capítulo posterior, essa teoria do velho tenor italiano Marcolini: “E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo” (cap. VIII - p. 817). Aqui, o narrador demonstra como estrutura os capítulos de seu livro. A relação entre a história que escreve e o aspecto poético também fica patente quando, no capítulo X, o narrador-personagem diz, ainda sobre a teoria de Marcolini, que: “Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição” (cap. X - p. 819). Esse é um dos pontos cruciais na perspectiva poética do relato do narrador-personagem. Essa teoria, advinda da narrativa de Marcolini, perpassa a organização do relato realizado pelo narrador-personagem, na interpretação dos fatos pretéritos da vida do herói Bentinho. Assim, o narrador garante à
verossimilhança o estatuto de verdade; ou seja, a dúvida se torna a certeza, o argumento verossímil, articulado de maneira ardilosa, pode ser tomado como verdade.
Continuando essa busca pela presença do narrador-autor no texto, observa-se que, no capítulo XXV, há um fato muito interessante que acentua o controle direto de Dom Casmurro sobre a narrativa. Depois que Bentinho conta a José Dias o seu descontentamento em ser padre, o narrador-escritor manifesta-se, no texto, explicando a diferença entre o relato escrito em seu livro e o acontecimento pretérito: “Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório, como pode parecer do texto, mas aos pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e tímida” (cap. XXV - p. 835). A reformulação do relato que o narrador-autor promove é desvendada, de maneira explícita, nesse segmento da narrativa. Esse controle suplanta a reformulação apenas no momento de transposição da história (outrora vivida) para o registro escrito, já que, em outro momento, o narrador-escritor diz que mesmo aquilo que já foi registrado pode, posteriormente, ser alterado: “Talvez risque isto na impressão, se até lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica” (cap. LI – p. 862). Esse apreço pelo primor do texto, com a possibilidade de correções posteriores, atravessa o texto e chega ao leitor, que pode, também, contribuir com sugestões para futuras mudanças: “Se achares neste livro algum caso da mesma família, avisa-me, leitor, para que o emende na segunda edição; nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas” (cap. LXVII – p. 880). Conclui-se, com mais um último exemplo (que já foi mencionado no primeiro capítulo, sobre o narrador), esse controle que Dom Casmurro exerce sobre o relato. O narrador-autor diz que o livro que escreve chegara à metade: “[...] com o melhor da narração por dizer” (cap. XCVII – p. 905). A capacidade de Dom Casmurro de prever o espaço de escrita demonstra seu empenho com uma formatação específica do livro que escreve. Essa presença do narrador-autor no texto não se esgota nesses exemplos. Por meio desses, porém, objetiva-se sublinhar a ciência de Dom Casmurro do seu trabalho de escritor, na tarefa de urdir a história que conta. Assim, percebe-se sua preocupação em relação à disposição da história e, também, com a formatação do livro que escreve.
Esses exemplos são importantes para a visualização do aspecto estético da escrita de Dom Casmurro. Como anteriormente formulado, é a disjunção entre a personagem Bentinho e o narrador-autor e também personagem Dom Casmurro que viabiliza essa escrita estética. O conceito exotopia, desenvolvido por Bakhtin,140 toma como pressuposto essa
140 A pesquisa sobre o conceito de exotopia inicia o trabalho com o conjunto de textos que se reúnem em “O
distância entre o autor do relato e a personagem nele presente. Bakhtin, discutindo a autobiografia, afirma que todo diálogo consigo mesmo é fingido, o que já foi desenvolvido no primeiro capítulo deste trabalho. A distância é o prerrequisito para que se possa enxergar o objeto em seu todo. Dessa forma, o primeiro passo, aqui, é compreender essa relação entre o autor e a personagem, ou os lugares ocupados na obra por esses dois sujeitos, para posteriormente, perceber como essa distância se comporta na autobiografia. Bakhtin defende que o autor está na obra: “por inteiro no produto criado” (1992, p. 27). É esse autor que lhe interessa, quando analisa o texto, porque faz parte do conjunto da obra. A visualização dessa presença se faz sentir, mais acentuadamente, na forma de apresentação do texto ou na estrutura de organização dos componentes da obra. Assim, o autor se apresenta como o responsável pelo controle dos outros elementos do texto. O grau desse controle dependerá do momento teórico de Bakhtin, já que de uma relação vertical entre o autor e o herói, o chamado monologismo, o teórico se distancia, posteriormente, passando a defender a relação horizontal, ou o dialogismo entre esses dois sujeitos. Em seus últimos escritos, todavia, Bakhtin procura conciliar essas duas perspectivas defendendo a impossibilidade de se igualar o autor à personagem, dadas as funções específicas de cada um destes. Disso nasce a visão de uma horizontalidade, mas que, ao mesmo tempo, é também regida pela presença do autor como instância organizadora.