3. BİYOLOJİ TEMELLİ BİLİMSEL KURAM VE KAVRAMLAR
3.4. Sistem ve Ekosistem Kuramları
3.4.1. Sistem Kuramı
Segundo Machado, quando Foucault analisa o poder, ele o faz tendo em vista investigações bem delimitadas e circunscritas, bem como objetos bem demarcados. Por isso, para Machado, sempre que se constata uma abordagem de Foucault com o respaldo nas teorias de poder, também se nota uma particularização das análises. Conforme o mencionado autor, Foucault teria explicitado a questão do poder para dar prosseguimento à pesquisa sobre a história da penalidade192.
Na presente abordagem, concorda-se com Machado; entretanto, admite-se que, além de haver uma particularização nas abordagens referentes ao poder, Foucault também aludiu ao poder, para além da verificação restrita à história da penalidade, pois Foucault fez uso das teorias de poder na observância de outras instituições, como os hospitais, o exército, as escolas, as fábricas, entre outras. Na presente abordagem, reconhece- se que a particularização referente ao caso em tela, nesse ensejo, é o episódio da experiência pentecostal ocorrida no interior da biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, contudo, também se admite que haja desdobramentos e deslocamentos das redes de poder, o que se faz notar pela imensidão produtiva das malhas do poder e, com isso, constata- se inúmeras reações denominacionais no âmbito da Convenção Batista Brasileira.
O poder não pode se estagnar, pois se isso ocorresse, não haveriam sucessivas constituições de sujeitos nas redes e, por conseguinte, o exercício do poder, através da instrumentalidade dos sujeitos, não teria chances de ocorrer com maior eficácia e criatividade. Assim, o poder causa tensão entre as redes e, no embate decorrente das tensões, causa confrontos mortais através da oposição entre as aludidas redes de poder. Com Machado, pode-se dizer que as abordagens que tangem ao poder precisam ser menos englobantes, no entanto, a abrangência das redes de poder faz-se notória através da verificação da dinâmica que promove um perpassar do poder através dos indivíduos.
Segundo Foucault, consoante à dinâmica no exercício do poder, suscita-se que “ninguém” havia se preocupado com a forma detalhada e concreta com a qual se procede ao exercício do poder por entre a conjuntura social. De acordo com o teórico, “ninguém” se preocupou com o exercício do poder na especificidade de suas técnicas e de suas táticas. Antes das abordagens de Foucault, contentava-se em analisar o poder denunciando-o no
“outro” que se achava em questão, sempre no adversário. Desse modo, a abordagem que diz respeito às malhas mais finas do poder, só pôde ser pensada a partir de 1968, a partir de um embasamento nas lutas cotidia nas no âmbito das redes que se formavam nas tramas históricas193.
Portanto, a abordagem do poder que irrompe a realidade cotidiana é de suma importância para Foucault, pois ela pode se proceder de uma forma notável, sendo visibilizada no que diz respeito à sua funcionalidade nos verdadeiros embates e nas verdadeiras tensões, porque o que deve ser primado é a verificação das engrenagens do poder e do funcionamento do poder.
Com tal argumentação, quer-se demonstrar que o poder, embora não possa ser observado de uma maneira globalizante, poderá ser constatado, no seu funcionamento cotidiano, nas engrenagens microfísicas da religião e das redes que se formaram de forma bastante abrangente no âmbito da Convenção Batista Brasileira. Embora o poder exercido nas redes tenha abarcado as igrejas locais, sendo abrangente, também é particularizado e demarcado. Com isso, vê-se que o dinamismo proporciona uma boa funcionalidade para o poder, pois é capaz de abarcar pessoas que, dia após dia se constituem de forma a se tornarem sujeitos transmissores do poder a partir das suas experiências religiosas.
Com a abrangência das redes e o deslocamento constante do poder, constata- se que a religião é formada por inúmeros paradoxos de opostos, o que configura contextos e situações. E, portanto, nota-se a dinâmica da abrangência das redes e o redimensionamento constante do poder através do sujeito religioso que vive os paradoxos. Para Pereira, a fé é geradora de conflitos, pois, contraditoriamente, ela também é resultante de situações conflitais194.
Portanto, a partir da belicosidade do modelo de abordagem a que se propõe, o episódio da experiência na biblioteca, bem como os seus desdobramentos, é algo que se deve perceber como uma experiência pentecostal geradora de conflitos, não pela sua natureza, mas pela formação diversificada de redes de poder, cuja fé é estabelecida de forma grupal e parcialmente definida. A autenticação da experiência religiosa deve ocorrer quando determinada rede a inclui como legítima a partir da maneira com a qual a referida rede se acostumou em termos de prática religiosa.
193 FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In. MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do Poder, p. 6. 194 PEREIRA, Josias. A fé como fenômeno psicológico, p. 71.
Pereira suscita um conflito gerado pelos desdobramentos do ato de crer, a saber, o sujeito que atende ao seu imperativo interior, vez por outra, se verá desacreditado pelo grupo ao qual oficialmente pertence, entretanto, caso o sujeito religioso ceda às pressões do grupo, tais circunstâncias o farão entrar em conflito consigo mesmo e com as noções adquiridas a partir da particularidade de uma experiência com o sagrado195.
“Mas como no contexto sociocultural a conduta das pessoas é regida por modelos e padrões, a tendência é apresentar-se um padrão de resposta fiducial. O meio exige que, para ser creditada como fé, a manifestação precisa ser testemunhada conforme o modelo definido pelo grupo social no qual o sujeito está inserido. Tal inserção não depende da autodecisão daquele que crê, mas sim da aprovação circunscrita pelo contingente social, onde a pessoa está introduzida”. 196
Entrementes, no entanto, a vivência da experiência religiosa, no período do Movimento de Renovação Espiritual, “destoou” de forma contundente, tanto dos padrões da denominação batista, como das maneiras litúrgicas das igrejas locais, as quais, a partir da constituição dos seus sujeitos religiosos em diversificadas redes de poder, tornaram-se um “campo de batalhas” bem definido e particularizado, embora bastante abrangente nos desdobramentos do alcance do poder e da experiência religiosa.
Como se pôde constatar documentalmente, houve um embate entre a rede de poder formada na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e as redes da Administração e Corpo Docente, bem como com a rede da Junta Administrativa. Como se viu, os sujeitos envolvidos com o Movimento de Renovação Espiritual, bem como os seus opositores, fizeram, querendo ou não, determinadas propagandas do movimento. Portanto, toda a denominação, a partir dos documentos que fizeram circular, ficou em estado de alerta sobre o movimento que estava em curso. Por isso, a abrangência do poder foi notória, porquanto até mesmo a Igreja Batista da Lagoinha, após os muitos protestos denominacionais, resolveu interagir. Alguns fiéis que se ajuntaram por não concordar com as idéias de Rego resolveram se manifestar também197.
Alguns sujeitos interagiram de forma bastante decisiva nos embates, pois se fizeram enunciar com um manifesto. Henrique Blanco de Oliveira, Tasso Brasileiro do Vale e Rui Brasileiro do Vale se formaram numa rede autodenominada “minoria fiel” da Igreja
195 PEREIRA, Josias. A fé como fenômeno psicológico, p. 72. 196 PEREIRA, Josias. A fé como fenômeno psicológico, p. 72. 197 No Anexo 4 o manifesto é reproduzido na íntegra.
Batista da Lagoinha, a qual, segundo Tognini, “levantou-se contra o pastor” 198. Isso ocorreu
justamente por não concordarem com as experiê ncias de Rego na biblioteca e com a propagação do Movimento de Renovação Espiritual.
Um manifesto da chamada “minoria fiel”, utilizando uma linguagem bastante belicosa, declarou que se “negam a dar validade a quaisquer atos praticados ou que
venham a ser praticados pela dissidência da Igreja Batista da Lagoinha”. Portanto, com tal
afirmação, percebe-se que a chamada “minoria fiel” chama de “dissidência” a maior parte do grupo, que estava ao lado da rede de poder constituída juntamente com Rego. Assim, nenhum dos atos que fossem praticados pela chamada “dissidência” seria válido para a rede opositora, pois, segundo a referida declaração, a Igreja Batista da Lagoinha havia se tornado a
“Igreja Batista Pentecoste” e eles não reconheceriam como legítimo o movimento que estava
ocorrendo no interior daquela igreja local.
Segundo a referida declaração, a chamada “minoria fiel” repudiava as experiências pentecostais, tais como: “segunda experiência (batismo no Espírito Santo),
línguas estranhas e confusão nas reuniões”. Com isso, a mencionada rede também dizia que
Rego seria uma espécie de “profeta da nova seita”.
Dessa forma, a declaração segue condenando Rego no seu intento propagandista e, de igual forma, o condena porque a Igreja Batista da Lagoinha começou a realizar cultos em outros templos de Belo Horizonte. Na referida declaração também se alega que Rego teria classificado de forma pejorativa algumas igrejas, chamando-as de “igrejas
secas”, bem como atacando os seus pastores “violentamente”. Entretanto, segundo a
chamada “minoria fiel”, mesmo depois das classificações proferidas por Rego, os templos dessas igrejas estavam sendo utilizados pela Igreja Batista da Lagoinha. Inclusive, a declaração menciona que Rego teria dito que a “Primeira Igreja Batista da Capital” estava em suas mãos, o que a chamada “minoria fiel” achava um verdadeiro abuso.
A “desarmonia” no seio da “família batista do Brasil”, segundo o grupo contestador, estava sendo causada por Rego, pois, para eles, o movimento em curso não tinha
“procedência do Alto”. A autodenominada “minoria fiel” declara que continuarão as lutas
em prol da “preservação da fé” e alertam que os membros da Igreja Batista da Lagoinha deveriam “pensar duas vezes antes de se precipitarem em lutas fratricidas” que seria de interesse exclusivo do pastor Rego.
O grupo diz reafirmar a fé nos “princípios batistas do Novo Testamento e,
sem sensacionalismos, estardalhaços ou exotismos” afirma a continuidade de sua militância
contra os que “consideram doutrina coisa secundária”, responsabilizando também a Rego, pois diziam que ele era “provocador, incoerente, atrabilário, herético, pentecostal e espírita
capaz de tudo menos de tornar-se na hora a que é chamado a fazer”.
As três pessoas que escreveram a mencionada declaração foram excluídas do rol de membros da Igreja Batista da Lagoinha, a qual eles chamavam de “Igreja Batista
Pentecoste”. A exclusão se realizou no dia 23 de novembro de 1958, no templo da Igreja
Batista em Santa Efigênia. A chamada “minoria fiel” alega que a Igreja Batista da Lagoinha não era, de fato, uma igreja batista, porquanto renegaram as doutrinas lidas no dia 20 de dezembro de 1957, quando no concílio de organização da Igreja.
Pelo fato de terem trocado os cadeados do lugar onde se realizavam os cultos, a Igreja Batista da Lagoinha, ainda não registrada, temeu que o grupo opositor a registrasse antes, por isso, Rego tomou a iniciativa de regularizar a situa ção da igreja. Porém, a rede contestadora, acerca das igrejas verdadeiramente batistas, alega que “não é batista
aquela que pensa sê-lo só por registrar, a toque de caixa, para fins inconfessáveis, ridículos e esdrúxulos os Estatutos da Igreja Batista da Lagoinha”.
Reconhecendo-se como a “minoria fiel”, o grupo também, obviamente, identifica a maioria como sendo infiel às doutrinas batistas e afirma que, não querendo levar o caso aos “juízes infiéis”, através de uma ação judicial, esperam uma decisão da denominação e, se a opinião dos pastores responsáveis for favorável à “maioria dissidente”, comprometem-se a entregar as chaves dos novos cadeados. Tognini chama esse ato de trocar os cadeados como sendo “a operação cadeado”, reconhecendo que houve uma tática para inibir os cultos da Igreja Batista da Lagoinha, que estaria sofrendo uma reprimenda por parte desse grupo. Segundo Tognini, todos os objetos levados da igreja por ocasião da troca de cadeados acabaram destruídos num incêndio, enquanto estavam sendo utilizados por igrejas do interior. Para o autor, o fato de os móveis terem sido destruídos nessas circunstâncias revela a justiça de Deus199, o que, obviamente, colocaria Deus ao lado da autodenominada
“minoria fiel”.
Após a tramitação da declaração do gr upo autodenominado “minoria fiel”, também Rego decidiu escrever uma carta a João Filson Soren, seu colega de ministério, a respeito de tudo quanto estava ocorrendo, segundo sua própria percepção200.
Ora, na referida carta de Rego a Soren, constatam-se declarações importantíssimas para se entender os embates que se verificou na Igreja Batista da Lagoinha e, posteriormente, com a “minoria fiel” excluída do rol de membros da igreja.
Na carta, Rego diz que em Belo Horizonte ele sentia que “mãos poderosas” estavam “empurrando um grupo” contra ele, referindo-se à autodenominada “minoria fiel”. Esse grupo, segundo suas percepções, intentava liquidá-lo; entretanto, ainda segundo ele, tal grupo havia sido “exortado em particular”, sendo essa uma das razões pelas quais guardavam reservas “contra” a pessoa de Rego.
Conforme Rego, inúmeras promessas estavam sendo feitas ao grupo autodenominado “minoria fiel”, pois alguns missionários americanos, de linha assaz conservadora, vinham inflamando o grupo. Portanto, Rego sentia que “mãos poderosas” estavam se movendo nos bastidores contra ele.
Em sua carta, Rego diz a Soren que “o caso do seminário foi a oportunidade
desejada”, pois “levantaram bandeira da ortodoxia, numa campanha soez e impiedosa, deturpando fatos ocorridos no seminário” e apontando-lhe “como herético e pentecostal”.
Verifica-se, portanto, que a rede belicosa de poder, composta por alguns participantes da autodenominada “minoria fiel”, formou-se a partir das experiências religiosas na biblioteca do Seminário do Sul.
Em face desses acontecimentos, Rego decidiu resolver a questão numa assembléia regular da Igreja Batista da Lagoinha, submetendo-se a “julgamento” e colocando o assunto das referidas classificações na “ordem do dia”, alega ndo que queria ver a atuação da igreja de um “modo democrático e limpo”. Rego comprometeu-se a deixar o pastorado da Igreja Batista da Lagoinha caso fosse considerado e classificado como “herético”. Com voto secreto, cada membro da igreja se pronunciou optando pela classificação de Rego como
“Herético” ou como “Batista”. A Igreja tinha 51 membros, dos quais 41 estavam presentes;
entretanto, apenas 40 membros votaram, pois o pastor se absteve. Logo após a votação, verificou-se 9 votos contrários ao pastor, classificando-o como “herético”, 2 votos neutros e 29 votos que “prestigiaram” o pastor como sendo “Batista”. Portanto, a partir das decisões tomadas de forma congregacional, Rego continuou sendo o pastor da igreja.
Conforme diz Rego em sua carta, como já se mencionou, foi após “sua vitória” na assembléia da igreja que “três homens movimentaram um grupo” e “ousaram o
inacreditável”. A partir da percepção de Rego, a autodenominada “minoria fiel”, por ter se
chateado com a derrota na assembléia, “abusaram da confiança da igreja e fraudaram-na na
sua casa de cultos”, pois, na mesma noite, “depois que todos haviam se retirado”, trocaram
todos os cadeados do lugar e colocaram outros novos, tomando o salão. Na carta de Rego a Soren consta que “tomaram o santuário com bancada, piano, púlpito, alto falante, tudo
enfim”, deixando a Igreja Batista da Lagoinha sem nada e na rua. Com isso, Rego teria
percebido que “lutava com homens inconseqüentes”, entendendo que seriam capazes de fraudar a igreja até no nome. No dia seguinte ao da assembléia, em 22 de novembro de 1958, o deputado Elmir Guimarães Maia, membro da Igreja Batista da Lagoinha, ajudou na aprovação dos Estatutos da Igreja para registro. Rego alega que o “intuito único era
salvaguardar o nome da Igreja”, pois a “minoria fiel” poderia se reunir “e organizar, naquele momento, a Igreja Batista da Lagoinha”. Porém, segundo Rego, “no domingo seguinte, em sessão regular, os três irmãos foram excluídos”; entretanto, “repudiados pela opinião publica, e sentindo que os seus aliados de ontem, já agora, se mostravam reservados, os três descambam ainda mais nas suas atitudes temerárias, fazendo imprimir uma circular”, a qual fizeram “correr livremente”, até mesmo para “fora de Belo Horizonte”.
Para Rego, a referida circular é uma demonstração de “impiedade, ódio e calúnia”. Trata-se da abordada declaração da autodenominada “minoria fiel”.
Rego estaria pronto a “abdicar” do seu povo e sofrer o “exílio” de sua fé, caso as doutrinas defendidas por ele não fossem batistas. Com isso, Rego se sente perseguido e entende que “uma parcela dominante” da denominação estava se esforçando no sentido de alijá-lo sob a classificação de “herético”. Conforme Rego, as portas dos seminários e similares estavam fechadas para ele; mesmo assim, se submeteria a julgamento denominacional.
Na carta de Rego a Soren, o remetente declara que vivenciou as gloriosas experiências do Senhor, que recebeu o Espírito, que estudava cuidadosamente a Bíblia, a teologia, os pais da igreja, os teólogos e pastores batistas. Mas, no entanto, alega que se provassem a ele seu erro doutrinário, renunciaria ao Movimento de Renovação Espiritual. Rego declara ainda que foi “surpreendido com a manifestação gloriosa do Senhor” e diz que não poderia haver, nessa altura de sua vida denominacional, um esmagamento inquisitório, o qual seria falta de “respeito a Deus e consideração ao próximo”.
Conforme Rego, ele tinha mais de 60 convites para falar no ano seguinte, em 1959, contudo, só poderia aceitar 10. Tendo em vista esse papel exercido por Rego, de divulgador do Movimento de Renovação Espiritual, ele declara que não quer “dividir” seu povo e diz ainda que alguns fatos são prenúncios de que “alguma coisa grave” poderia ocorrer na história denominacional com a divisão que todas as reprimendas poderiam ocasionar. Com isso, Rego pede oração e ajuda a Soren por causa de “forças poderosas que
levarão a Convenção Mineira, a realizar em julho numa cidade do interior, a nos expulsar sumariamente da Convenção, reconhecendo o grupo fraudador como genuínos batistas”. A
Igreja Batista da Lagoinha foi excluída da Convenção Batista Mineira somente em julho de 1961, o que se abordará posteriormente.
É impressionante que, no decorrer do processo, Rego parece pressentir inúmeras vezes os acontecimentos, pois se verifica a palavra “divisão”, tanto quanto um prenúncio de que “forças poderosas” poderiam excluir a Igreja Batista da Lagoinha da Convenção Batista Mineira. Eis nessa consciência uma grande medida de conhecimento prévio, contudo, tal consciência parece ser um desencadeamento de ações de poder bem articuladas que parecem, a partir das redes constituídas no Movimento de Renovação Espiritual, na pessoa de Rego, saber que haveria boas chances de um processo “inquisitório”.
Em meio a uma entrevista que Deleuze faz com Foucault, acerca dos intelectuais e do poder, por entre questões políticas, Foucault suscita a dúvida se de fato conhece-se o que é o poder e, nesse sentido, complementa que, tendo sido necessário esperar o século XIX para saber o que é a exploração, talvez ainda não se saiba concretamente o que seja o poder. Segundo Focault, Marx e Freud também não são suficientes para ajudar no conhecimento acerca do poder, que é tão enigmático. Sendo dessa forma, tão enigmático, o poder é ao mesmo tempo visível e invisível, bem como presente e oculto. Com Foucault, considera-se que o poder é um grande desconhecido. “Quem exerce o poder? Onde o
exerce?”
Daí, em parte conhecemos as redes constituídas, em parte desconhecemo- las. Entretanto, ressalta-se que, segundo Rego, “forças poderosas”, através de “mãos
poderosas”, estavam se levantando contra ele e impulsionando um grupo contra ele.
Portanto, o que se pode conhecer das redes é o que delas identifica e ao mesmo tempo se desconhece: poder que constitui, poder que permeia, poder que produz coisas, poder que induz ao prazer, poder que forma saber e poder que produz discurso.
Na abordagem da história do cisma na Convenção Batista Brasileira se verá a funcionalidade da disciplina na antidisciplina, a saber, do panóptico que se operacionaliza
nos lugares praticados. Poder centralizador, fiscalizador e disciplinador, que se exerce num lugar dinâmico e desconexo, com operações constantes, conhecidas e desconhecidas, nos lugares praticados.