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3. BİYOLOJİ TEMELLİ BİLİMSEL KURAM VE KAVRAMLAR

3.2 Ortakyaşama/Simbiyoz

3.2.2. Madde Döngüsü

Rego. (...) Renovação Espiritual nasceu no coração de D. Rosalee, do pastor José Rego do Nascimento e no meu. Depois, o “fogo” da misericórdia de Deus se alastrou para outras vidas, para outras igrejas, e para outras denominações”. 155

Percebe-se, portanto, que Rego foi um pastor que, a partir da experiência religiosa do alegado batismo no Espírito Santo, tendo sido cativado pelas idéias avivalistas de Appleby, também cativou a Tognini, o qual desenvolveu uma forte liderança no Movimento de Renovação Espiritual.

E, de acordo com as categorias de Valle, essas experiências fundantes foram demonstrativos prévios do que ocorreria na Convenção Batista Brasileira, pois é sempre num segundo momento que a experiência se complementa e se totaliza predicativamente. Portanto, o que foi vivenciado no gabinete pastoral de Rego e no escritório da casa pastoral de Tognini também se fará notar nos desdobramentos institucionais e no episódio religioso da biblioteca do Seminário, pois tais experiências foram uma “antecipação da coisa experimentada” denominacionalmente.

2.2. Da academia à experiência religiosa: Poder e êxtase na biblioteca e as redes de poder

Intenta-se, com as discussões a partir de Foucault, as quais se procederão nesse ensejo, uma abordagem do episódio que ocorreu na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul, o qual será descrito no presente capítulo. Tais abordagens e teorizações serão de imprescindível importânc ia para a observância da experiência fundante, não somente de Rego e de Tognini, mas também do Movimento de Renovação Espiritual, a fim de que se verifique m as formações das redes de poder no interior da trama histórica que está se abordando, a qual culminará num cisma na Convenção Batista Brasileira, o que será descrito no próximo capítulo.

A partir das concepções de Foucault, buscar um “sentido” para a história, no vazio da linguagem roma ntizada, é uma tentativa de evitar o caráter violento, o caráter sangrento e o caráter mortal das suas táticas e dos seus golpes nas muitas operacionalizações e, nesse caso, corre-se o risco de reduzi-la ao apaziguamento platônico da linguagem e do

diálogo. Da mesma maneira, tratar a história de forma dialética é uma tentativa de reduzir o aspecto da realidade aleatória e aberta a um “esqueleto” hegeliano 156.

A grande referência da história, que também deve ser observada para a escrita da historiografia, não são os signos e tampouco o modelo da língua, mas o da guerra e o da batalha, como diz Michel Foucault. A história é inteligível e pode ser analisada, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias e das táticas em meio às batalhas157.

A falta de “sentido” da história e os lugares vivenciais que ela proporciona para o sujeito que se constitui nas suas tramas devem ser entendidos como num locus para verdadeiros embates de poder. Entretanto, o sentido belicoso não existiria de forma tão contundente não fossem os elementos de guerra que ficam disponíveis para observá-lo enquanto expressão das relações de poder, as quais se distinguem das relações baseadas no discurso romantizado da lingüística platônica.

“Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não lingüística. Relação de poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas”.

158

Segundo Foucault, as sociedades modernas apresentam uma nova maneira de organizar o poder, que se desenvolveu a partir do século XVIII. Nessa organização referente ao poder, tem-se um poder que supera a repressão, pois se dissemina quando se fragmenta, desdobrando-se para os diversos setores da vida humana. O poder desloca-se do macro e redireciona-se em micropoderes, tornando-se, por conseqüência, mais eficazes. Foucault analisou os micropoderes que se espalham pelas muitas instituições da vida social, pois para ele, os poderes são exercidos por uma rede imensa de pessoas que interiorizam e cumprem as normas estabelecidas pela disciplina social. Por exemplo: os porteiros, os pais, os enfermeiros, os professores, os guardas, os fiscais159 e, como no caso em tela, os pastores, as lideranças religiosas e as pessoas que compõem as redes imensas que interagem numa disciplina social.

156 FOUCAULT, Michel. Verdade e Poder. In. MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do Poder, p.5. 157 Cf. FOUCAULT, Michel. Verdade e Poder. In. MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do Poder, p.5. 158 FOUCAULT, Michel. Verdade e Poder. In. MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do Poder, p.5. 159 Cf. COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 228 e 229.

Os micropoderes, através dos lugares por onde permeiam, encontram, na formação de redes produtivas e imensas, uma eficácia que se dá por meio da constituição de sujeitos que optam de diferentes formas por um exercício das ações que estabelecem táticas belicosas. Essas táticas encontrarão nas próprias redes sujeitos de fundamental constituição nas tramas históricas, eis, em parte, o aspecto genealógico das categorias de Foucault 160. Constata-se a importância de inúmeros sujeitos numa trama histórica, contudo, verifica-se também que é preciso se livrar dos sujeitos constituintes, a fim de visibilizar a constituição de um sujeito que compõe uma rede imensa de interligação histórica numa trama extremamente plural e minuciosamente articulada.

Sendo o poder exercido de maneira microfísica, não se subordina a nada, pois existe numa multiplicidade na sua dinâmica e possui caráter formador de realidades e de coisas, tendo, inclusive, uma notável positividade. Foucault dissocia a dominação da repressão e transcende as abordagens que evidenciam os aspectos negativos do poder, como proibir, censurar, interditar, coagir e reprimir. Entrementes, o poder possui a positividade de produzir saberes, discursos, sujeitos e desejos e é altamente eficaz quando se observa sua ação nas inúmeras redes que se estabelecem.

Uma rede de poder faz-se no entretecimento criativo de sujeitos constituídos, os quais promovem um entrecruzamento dinâmico no imbricamento de suas malhas e de sua produtividade no que tange ao exercício mais fino dos micropoderes. Assim, não é suficiente, através da historiografia, indicar acontecimentos e os sujeitos constituintes, pois é necessário distinguir os acontecimentos e encontrar a diferenciação das redes de poder, bem como promover uma reconstituição dos fios que as ligam e que são fundamentais para o funcionamento dessas redes que se formam no interior da história e das batalhas.

Portanto, é preciso fazer diferenciações e abordar os eventos com as devidas distinções nas engrenagens que trazem a funcionalidade do poder. É um jogo de vaivém no qual o sujeito se torna seu centro produtor e transmissor, estando sempre em posição de exercer o poder e, por conseguinte, sofrer a ação desse mesmo poder, a partir da constituição dos seus discursos, seus desejos e seus corpos. Destarte, para Foucault, o indivíduo não é o outro poder, mas é um dos seus primeiros efeitos, a partir dos efeitos de verdades no interior

dos discursos formados pelo prazer ocasionado na vivência de uma produtividade do poder161.

O poder é algo bastante impregnante, através das redes e por entre as redes, pois o exercício do poder nas micro-relações faz com que, a partir de sua dinâmica, perpasse o cotidiano de indivíduos, fazendo-se atravessar e circundar tais sujeitos. Com isso, destaca- se a força do poder, a qual não se deve à repressão, pois, seria deveras frágil, como ressalta Foucault.

“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá -lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir”. 162

Ora, segundo Foucault, é necessário que entenda-se o poder não como uma força que, aos moldes repressivos, diz “não”, mas como uma dinâmica que, de alguma maneira, permeia a conjuntura das redes através de fios e induz ao prazer (religioso), forma um saber (pela experiência religiosa) e, fundamentalmente, produz um discurso (religioso). Admitir que o poder se exerce tão somente de forma repressiva, seria eliminar a criatividade do poder e entendê-lo como frágil. A criatividade do poder, no entanto, existe em contrapartida dos conceitos de ideologia, quer numa conceituação acerca de uma corrente política ou de uma corrente religiosa. Privilegiar as noções que giram em torno da ideologia de um determinado grupo de pessoas, seria admitir que há uma oposição a alguma coisa que seria a verdade e, nesse sentido, conforme Foucault, o problema real é ver quais discursos, no interior da história, promovem eficazmente os “efeitos de verdade”, os quais não são “nem verdadeiros nem falsos”163.

No caso em tela, verifica-se que os discursos que se formaram no interior de uma experiência de poder, bem como as relações de poder em si, serão vinculadas aos conceitos de experiência religiosa, pois o poder e a experiência religiosa, na vivência do

161 FOUCAULT, Michel. Soberania e Disciplina. In. MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do Poder, p. 183. 162 FOUCAULT, Michel. Verdade e Poder. In. MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do Poder, p. 8.

cotidiano denominacional, se confundiram, sendo que a autenticação das atitudes de poder parece ser proveniente das experiências religiosas.

Abordar-se-á, doravante, através da constatação de uma experiência religiosa na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, um campo de real belicosidade que se forma num palco de constituição de sujeitos, de lugares, de experiências e do poder que perpassa uma rede bastante produtiva.

Houve uma experiência fundante para o Movimento de Renovação Espiritual, a qual se deu em decorrência de um período de avivamentos na história do protestantismo brasileiro e que foi resultante das experiências pentecostais vivenciadas por Rego. A referida experiência fundante ocorreu com um episódio bastante marcante na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.

José Rego do Nascimento, depois do mês de setembro de 1955, após o alegado batismo no Espírito Santo, passou a ser um propagador das idéias e das experiências religiosas do Movimento de Renovação Espiritual. A mensagem de Renovação alcançou inúmeras igrejas e líderes denominacionais, inclusive o tão proeminente pastor Enéas Tognini, em julho de 1958. Segundo Ferreira, o Movimento, no seu princípio, conquistou a simpatia de muitos, pois pregava a pureza espiritual e o fervor espiritual164.

No tempo em que pastoreava a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, José Rego do Nascimento vivenciou uma intensa experiência religiosa que, ao contrário do seu mencionado batismo no Espírito Santo, não trouxe conseqüências somente para a vivência de sua fé, mas também para o âmbito denominaciona l.

Houve, no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, localizado na cidade do Rio de Janeiro, uma “Semana de Renovação Espiritual”, porque a efervescência ocasionada pela propagação do Movimento de Renovação Espiritual era bastante acentuada e, dessa forma, até mesmo os seminaristas se interessaram pelo assunto. Tal Semana de Renovação Espiritual aconteceu de 11 a 18 de outubro de 1958. Foi nesse ensejo que os seminaristas convidaram Rego, ex-aluno do seminário, para lhes falar principalmente sobre o tema: “O Pentecostes se Repete?”

Rego ficou hospedado no seminário, na semana em que esteve falando aos seminaristas. Na noite do dia 16, uma sexta-feira, Rego realizou alguns trabalhos fora das dependências do seminário, em igrejas situadas na cidade do Rio de Janeiro165. Depois de ter

164 FERREIRA, Ebenézer Soares. História dos Batistas Fluminenses, p. 164. 165 XA VIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 59.

pregado naquela noite, quando no seu retorno, foi recebido por alguns seminaristas que estavam ansiosos por sua volta. Tais seminaristas propuseram que Rego estivesse realizando, com eles, uma reunião de oração na biblioteca do seminário. Ocorre que, quando Rego retornou das suas atividades, estava cansado por causa da pregação que realizou e do forte calor que fazia no Rio de Janeiro, entretanto, não negou a realização da mencionada reunião de oração que, segundo Tognini, não teria sido programada166.

Note as palavras de Reis Pereira sobre tal reunião de oração:

“Em outubro, os alunos do Seminário o convidaram para falar numa semana especial de despertamento espiritual. No final dessas reuniões, numa sexta-feira, foi realizada, na sala da biblioteca do Seminário, uma noite de oração, sob a direção de Rego. Cinqüenta seminaristas, quatro visitantes e Rego se reuniram na, então, pequena sala da biblioteca e foram até a madrugada, cantando e orando, mas fazendo tal bulha que se poderia ouvir à distância”. 167

Constata-se, com isso, que algo não programado ocorreu, na biblioteca do Seminário, onde se atraíram 55 pessoas para realizar uma reunião de oração. Tem-se, portanto, um relato da mencionada experiência religiosa ocorrida numa instituição de ensino teológico, no âmbito da Convenção Batista Brasileira. Acha-se em questão, doravante, uma experiência religiosa vivenciada no interior de uma importante propriedade dos batistas brasileiros, onde a religião oficial cultivada pelos batistas formulava seus fundamentos teológicos. A partir desse fato, inúmeros desdobramentos ocorrerão na formação das redes de poder no interior de um lugar inserido numa instituição onde o discurso oficial estava presente.

O documento que narra detalhadamente as experiências religiosas do episódio ocorrido na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil é uma carta cujo remetente é Rego e o destinatário é Tognini168.

Na Semana de Renovação Espiritual, suscitou-se uma pergunta: “O Pentecoste se Repete?”. Na aludida carta de Rego, que narra a experiência religiosa ocorrida na biblioteca, há uma resposta vivencial, a saber, “por volta da quarta oração, aconteceu o

pentecostes”. Ou seja, a “visitação do Senhor”, na contundência daquela experiência,

comprovou o que Rego estava se propondo a responder. Porém, antes que a resposta da

166 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 55. 167 PEREIRA, J. Reis. História dos batistas no Brasil, p. 255 e 256.

pergunta em questão se procedesse, houve cânticos, houve orações e houve leitura da Bíblia, pois se buscava a referida resposta num “encontro com o sagrado” e no impacto produzido por esse encontro.

Segundo Rego, assim que houve o pentecostes, o “Espírito caiu sobre a

casa, possuindo a muitos” e, no “cair do Espírito”, inúmeros seminaristas também caíram no

chão e nas mesas, confessando pecados com “voz alta”, com “gemidos” e com “choro

incontido”.

A pergunta: “O Pentecostes se Repete?” foi respondida não com uma coisa que seria a verdade, mas com uma experiência que denotava um “efeito de verdade” na terminologia de Foucault 169. Portanto, a experiência que respondeu a pergunta principal da Semana de Renovação foi um desfecho formativo interessante no interior de uma trama que proporcionou a experiência fundante, a qual inaugurou uma rede que acreditava, portanto, na repetição do pentecostes com o batismo no Espírito Santo.

Na experiênc ia da biblioteca, verifica-se que o início da constituição das redes de poder, no Movimento de Renovação Espiritual, se deu num lugar específico da religião, através das inscrições de sujeitos que compartilharam uma experiência religiosa, vivenciada de forma diferente, mas abordando uma mesma temática da realidade pentecostal. Ora, com tanto espaço nas dependências do seminário, por que fizeram a reunião de oração logo numa pequenina biblioteca? Teriam eles receio de que o ruído pudesse ser ouvido por alguém?

O poder, que poderia ter sido exercido na esfera do “macro”, tornou-se fragmentário quando se redimensionou no exercício do “micro” e, por isso, adquiriu grande eficácia na operacionalização das redes. Portanto, tendo achando um lugar para se exercer, para além do discurso oficial da Convenção Batista Brasileira, cujos fiéis não tinham o costume de viver a experiência religiosa com altos sons, choros e gemidos, bem como de forma pentecostal, iniciou-se tal redimensionamento de importância singular para a rede de poder que estava se formando, a qual encontrou uma forma a se exercer extraordinariamente na experiência pentecostal de uma pequenina biblioteca.

Quase distante da presença de sujeitos portadores de discursos oficiais, por entre uma noite num espaço religioso, constata-se uma atuação de um poder que, a partir da mencionada experiência religiosa extática baseada no jogo de “esconde-esconde da

divindade”, desdobrou-se na formação de um esconderijo religioso que caracterizou um lugar para o exercício da religião proibida.

Destarte, não somente há um jogo de “esconde-esconde da divindade”, mas também um jogo de “esconde-esconde” do pentecostalismo no interior de uma instituição vinculada a uma denominação histórica. Percebe-se, contudo, que há um vínculo marcante na formação das redes, pois poder e experiência religiosa, nesse jogo de “esconde-esconde”, tanto da divindade, que se dá a (des)conhecer na auto-revelação multiforme, quanto dos sujeitos de percepções multiformes, os quais se constituem de forma mútua num jogo extático de “revela-revela” altamente imprevisível e autenticador.

Com isso, o que marcou a referida experiência religiosa foi o êxtase vivenciado pelos sujeitos que compunham a inauguração de uma rede de poder, pois, segundo Rego: “O Espírito caiu sobre a casa, possuindo a muitos”. Houve, a partir do alegado, nas categorias de Mendonça, uma possessão da divindade com relação aos sujeitos.

Veja o que diz Mendonça:

“Regra geral, o êxtase está ligado à possessão. O indivíduo é possuído pela divindade. Neste estado ele perde sua personalidade e passa a falar e agir como mero instrumento do sobrenatural, seja pelo efeito de técnicas ou de alucinógenos. No primeiro caso, estão o espiritismo e os cultos afro-brasileiros e, no segundo, o já citado Santo Daime. Aproximam-se muito do primeiro caso, também, os cultos pentecostais e os que, não tipicamente pentecostais, buscam formas de emotividade intensa”. 170

A partir das concepções de Mendonça, pode-se dizer que a mencionada possessão do pneuma171, no âmago do sujeito religioso, resultou numa perda de

personalidade, o que proporcionou, em observância ao conceito da instrumentalidade do sujeito que faz perpassar o poder, uma legitimação dos atos que se configuraram no exercício do poder através da “indução ao prazer” de uma experiência extática que também se compõe num discurso.

Tal atuação do poder, no imbricamento com a experiência religiosa, se fará notável porque permeia as redes, que só possibilitam a dinâmica do poder porque não são

170 MENDONÇA, Antonio Gouvêa. Protestantes, Pentecostais & Ecumênicos, p. 151. 171 Palavra grega para se referir ao Espírito.

pautadas na repressão, mas na produção de coisas, na indução ao prazer, na formação do saber e na produção do discurso172, com efeitos de verdade.

Rego também diz em sua carta, que depois da mencionada “visitação do Espírito”, ele se levantou e foi fechar os basculantes da sala, no intento de tomar uma medida que evitasse o excesso de barulho nas casas da vizinhança. Entretanto, no decorrer dessa ação, sentiu-se repreendido pelo Espírito, voltando ao seu lugar no grupo de oração.

Ora, a reunião de oração teria ocorrido na biblioteca do Seminário para que o elevado som não fosse ouvido pela vizinhança? É importante saber que, conforme uma declaração do Seminário que será abordada posteriormente, o reitor A. Ben Oliver também morava nos arredores do prédio e talvez não quisesse ser incomodado por um forte rumor, sendo alguém de expressividade notória numa denominação histórica que não estava acostumada a essa maneira de orar. Teria Rego se lembrado de que poderia, com tanto