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Sis Oluşumu ve Türleri

Belgede Temel Denizcilik Atölyesi 9 (sayfa 44-47)

UYGULAMA 1.1.3 SİNOPTİK YER KARTI ÜZERİNDE SIRT VE OLUK YER TESPİTİ YAPMA

1.2. HAVADAKİ NEM VE GÖRÜŞ

1.2.6. Sis Oluşumu ve Türleri

O historiador Charles Boxer42 caracterizou a imprensa como um meio de propaganda religiosa. Este autor identificou como constituindo quatro categorias43 a produção das oficinas tipográficas de caráter clerical: 1- os catecismos e outros compêndios da doutrina cristã; 2- obras de lingüística, gramáticas, dicionários e vocabulários; 3- manuais e guias para os confessores e párocos; 4- obras edificantes, apologéticas e polêmicas. Interessante, para nós, é notar que os jornais não figuram dentro dessas divisões propostas pelo historiador inglês, que, desta forma, acaba por ignorar um dos grandes veículos de defesa, propaganda e ensino da Igreja católica. Dizemos isto porque, embora a difusão da imprensa no Brasil só se desenvolva a partir de 1808, as folhas católicas já eram uma realidade em vários países da Europa no período abordado por Boxer em seus estudos, especialmente na Itália na Península Ibérica.

Através do corpo documental representado pelos jornais católicos, buscamos considerar que, desde a produção dos artigos, até a apropriação desta leitura, ela está subordinada a uma rede de significados vinculados pelos agentes produtores e pelos leitores que a consomem. É preciso considerar também que a leitura muitas vezes é feita com a participação de vários ouvintes e, é sempre uma prática encarnada de gestos, espaços, hábitos e silêncio.44 Portanto, a análise das fontes jornalísticas levou em conta o contexto de produção e circulação de informações. Pois, se no local de produção da informação jornalística pode existir um determinado interesse imediato, isto não significa que a mensagem será compreendida tal qual determinados grupos de interesses

42 BOXER, Charles. A Igreja militante e a expansão ibérica (1440-1770). São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

43 Essas obras tiveram um caráter mais monolítico e unidirecional, voltados para o ensino nos seminários, para as pregações do culto ou mesmo para os trabalhos de conversão e catequese da Igreja católica; enquanto os periódicos ganham um caráter mais amplo, servindo às mais diversas e variadas intenções. 44 Conforme nos ensina CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

esperavam. A leitura não é mera recepção de informações45 e diversos fatores intervêm neste último processo, inclusive a trajetória de vida dos agentes sociais. Vale ainda notar que não pretendemos neste trabalho fazer um estudo acerca dos leitores e das várias formas de leitura e usos que se deram sobre os periódicos veiculados pela Diocese de Mariana no governo viçosiano, mas apenas apresentar os escritos como uma importante forma de ação política da Igreja no período considerado.

Com relação à importância da difusão da escrita para a ação ultramontana, destaca Hespanha que “aquilo que os bispos pediram [...] foi a difusão dos saberes através da palavra. O seu saber teológico mais cuidado, a sua maior preparação oratória e o domínio mais convicto das técnicas da retórica sagrada [...]”.46 Por sua vez, na visão de João Adolfo Hansen,

[...] desde a IV sessão do Concílio de Trento, em abril de 1546, a retórica tinha assumido papel fundamental nas práticas católicas. Declarando herética a tese luterana da sola scriptura, os bispos aí reunidos confirmaram a autoridade da traditio, preservando a pregação oral como modo privilegiado de propagar a fé.47

O historiador Mauro Dilmamm Tavares ressalta a importância dos jornais católicos para a capital da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Nesta cidade circularam dois periódicos eclesiásticos, servindo ao bispo ultramontano Dom Sebastião Dias Laranjeira, em períodos distintos do século XIX: A Estrela do Sul – periódico semanal publicado entre 1862 e 1869, e O Thabor, publicado entre os anos de 1881 e 1882.48

Em Recife circulou o jornal A União, de oposição quase que sistemática ao governo e O Catholico. Já no Pará, servindo aos desígnios do bispo D. Macedo Costa, havia a publicação do jornal A Estrela do Norte. Na Bahia, publicava-se O Brasil, periódico religioso que se dizia consagrado a “rebater a propaganda herética” e

45 Conforme relatou o próprio Chartier, quando disse que toda leitura é, também, uma forma de produção. Conferir em: CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

46 HESPANHA, Antônio Manuel. “A Igreja”. In: MATTOSO, J. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa: Estampa, 1993, p. 294.

47 HANSEN, João Adolfo. “Ratio Studiorum e política católica ibérica no século XVII”. In: VIDAL, D. G. & HILSDORF, M. L. S. (orgs.). Brasil 500 anos: tópicos em história da educação. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 19.

48 DILMAMM, Mauro. Irmandades religiosas, Devoção e Ultramontanismo em Porto Alegre no Bispado

Chrônica Religiosa (1869-1874). No Rio de Janeiro circulava o periódico católico A Religião entre os anos de 1848 e 1850, e o jornal O Apóstolo, folha de grande respeitabilidade nos círculos católicos ultramontanos. Este periódico, em seus diversos artigos e editoriais – principalmente a partir de 1873, após o acirramento do conflito entre a autoridade dos bispos brasileiros, a maçonaria e o governo imperial – passou, assim como O Bom Ladrão da Diocese de Mariana, a fazer oposição sistemática à postura do Império brasileiro com relação à política católica.

Portanto, durante o século XIX, a Igreja se propunha, ainda que com escassos recursos, a um debate explícito com o conjunto de propostas e interpretações sobre o período em que se inseria. Para tanto, buscou adequar o seu projeto romanizador às especificidades do debate intelectual que se travava no momento através dos jornais, impondo-lhes, entretanto, outros sentidos. Ao longo deste texto, pretendemos apresentar uma série de questões que nos pareceram interessantes acerca dos jornais católicos O Romano e O Bom Ladrão, o que não implica dizer que não tenhamos deixado outras em aberto ou mesmo que eles não se prestem a outras leituras. Esperamos, dessa forma, que tenhamos conseguido contribuir para a compreensão de algumas das estratégias de que lançou mão a Igreja católica, através da análise de um instrumento pouco valorizado nas investigações feitas até agora sobre o período romanizador da Diocese de Mariana.

Assim, podemos dizer que a preocupação da Igreja com a imprensa era vigente desde o século XIX, onde a instituição adotou a política de manter suas próprias publicações, a fim de fazer frente aos veículos de comunicação que difundissem idéias contrárias e diferentes daquelas emanadas pela Igreja católica, ameaçando o papel que a instituição possuía como educadora. Para Hugo Fragoso, a imprensa católica divide-se

Figura 2: Frontispício do jornal eclesiástico O Bom Ladrão, uma das principais ferramentas de exercício do ultramontanismo, veiculado na Diocese de Mariana entre os anos de 1873-1878, estando até o ano de 1875 sob os auspícios de D. Viçoso. Após o falecimento de D. Viçoso quem herda a tarefa de dirigir e também de escrever muitos dos artigos d’O Bom Ladrão é o também bispo D. Silvério Gomes Pimenta, seu pupilo e sucessor na Diocese de Mariana.

em três fases: a primeira surge no princípio da imprensa no Brasil vai até o Segundo Império e se caracterizava pela mescla de lutas políticas e idéias liberais. Nessa fase, os jornais em questão não passavam à marca de um catecismo em forma de periódico. A segunda fase vai do começo do Segundo Império até a década de 70 do século XIX, momento da Questão Religiosa. Nesse período, os jornais católicos estão mais voltados à doutrina cristã e têm o objetivo de levar a verdade católica ao povo, considerando esta sua missão pastoral, além de salvar a geração contra a imprensa, dita por esses jornais como atéia. Já a terceira fase da imprensa católica, chega a inferir duras críticas à maçonaria e aos princípios liberais, defendendo a tão aclamada “verdade católica”. Nesse período, é característica a ocorrência de desaprovações às “exorbitâncias do poder civil”, em defesa do poder eclesiástico na figura do pontífice romano e dos bispos diocesanos. A principal marca da fase em questão é a polêmica e usam os desdobramentos da Questão Religiosa como pontos norteadores dos seus artigos.

No período de 1870 a 1900,49 ocorreu uma considerável explosão da imprensa católica no Brasil através de pequenos periódicos (de caráter defensivo e doutrinário, mas também bastante ofensivos em determinados momentos), constituindo-se em outra estratégia romanizadora. Desde a independência brasileira, a participação de padres na imprensa é bastante significativa. Dentre outros nomes destacam-se os de Frei Francisco de Santa Thereza de Jesus Sampaio, o do Cônego Januário Barbosa, do Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo (o conhecido Frei Caneca), com o seu Thyfis Pernambucano.

Entre 1870 e 1930, circulavam vários jornais católicos como A Boa Nova (Belém do Pará), A Tribuna Católica (Fortaleza-Ceará), A União (Recife-PE), A Crônica Religiosa (Salvador-Bahia), A Ordem, Mensageiro do Coração de Jesus (São Paulo), A Imprensa e Voz da Mocidade (Paraíba), O Oito de Setembro e A Ordem (RN) e outros. Os franciscanos fundaram a Revista Vozes e os Redentoristas, o jornal e o almanaque de Aparecida, ampliando a propaganda confessional da doutrina católica.

A proliferação de jornais católicos veio acompanhada de uma tomada de consciência pela hierarquia da importância da imprensa em um meio social permeado de problemas oriundos da transição política, diante dos quais a Igreja precisava posicionar- se e esclarecer para seus fiéis e a sociedade em geral o que ela pensava e queria. Isso pode ser observado, dentre outros momentos, no excerto d’O Bom Ladrão de 1873

Estas no mundo só para Deos, isto é, para o amar, para o louvar, para o servir nesta vida, e possuí-lo eternamente na outra. Eis qual deve ser o objecto de todos os teos cuidados, a fim de todos os teos projectos, e de todas as tuas acções: sim, o que só tens a fazer He salvarte servindo a Deos, porque tudo o mais He nada. Ainda que fostes senhor do universo, o mais feliz de todos os homens segundo o mundo, serias o mais infeliz se tivesses a desgraça de o condemnar. Quando apareceres diante de Deos não há de perguntar se foste rico, poderoso, grande, considerável no mundo, não há de perguntar se fizeste grande fortuna, se ocuppaste os primeiros postos do Estado; mas sim se trabalhastes seriamente no negócio da tua salvação, se cuidaste mais em adquirir a virtude que os bens da fortuna, em huma palavra, se trabalhaste naquilo para vieste a este mundo.

[...] Estarás tu na mesmas disposições que os santos martyres? Certamente deves estar, porque pretendes a mesma felicidade, e foste creado para o mesmo fim que elles. Estas prompto a sacrificar tudo pelo interesse da tua salvação?50

A imprensa católica foi, ainda, meio de reivindicação da Igreja de certos direitos como o ensino nas escolas públicas e contribuiu na reorganização e coordenação das forças católicas, segundo os esquemas traçados pelo episcopado romanizador. Como nos apresenta as palavras de D. Viçoso

Estou convencido de que os governos caem em um erro muito perigoso quando querem transformar o ensino em um ramo da administração pública. A educação da mocidade não é coisa que se pode administrar como finanças, águas e matos. É evidente para todo homem que reflete que a intervenção direta do Estado na instrução em todos os graus deve produzir fraqueza e decadência dos estudos. A experiência confirma o que digo. O meio século que passou foi entre nós uma época notável pela mais deplorável decadência da literatura e das artes. Ser-me ia fácil fazer um tratado para mostrar como esta fatal degeneração tem por causa principal a ingerência do Estado em uma coisa que por sua natureza é fora, ou sobre, suas atribuições.51

Dessa forma, podemos perceber a existência de um discurso religioso ultramontano circulando com o intuito de moldar a “realidade social”. Com isso, para se fazer o estudo em questão faz-se necessário o uso de jornais publicados pela ala da Igreja denominada de ultramontana, no caso O Romano e O Bom Ladrão.

Como porta-voz do ultramontanismo, o periodismo fundado e estimulado por D. Viçoso incessantemente difundia editoriais como o seguinte

E’ certo que a mais preciosa liberdade de todas essas que por ali andão gabados, é a liberdade de consciência, que não consiste em dar cada um a Deos o culto que lhe parece, e escolher o caminho que quizer de

50 AEAM. O Bom Ladrão. Mariana, 01 de novembro de 1873. 51 AEAM. O Bom Ladrão. Mariana, 08 de dezembro de 1873.

ir par o ceo. Se o homem tem algum direito que deve ser respeitado, o mais sancto, o mais alto, o mais alienável é sem duvida o de buscar felicidade eterna pelos únicos meios que nola podem alcançar: e todas as vezes que alguma creatura se nos atravessa n’este caminho, e pretende tirar-nos delle austaciosa ou violentamente, se torna criminosa do maior dos attentados contra os nossos direitos sagrados. A esta região não chega o poder dos Cezares, nem o domínio dos democratas.52

Neste fragmento, observamos o questionamento da idéia de liberdade de consciência, tão enfatizado pelos teóricos do liberalismo. O autor do texto em questão, no caso o próprio bispo de Mariana, critica a idéia divulgada pelos teóricos liberalistas e afirma que o liberalismo era apenas um “canto da sereia” e essa tão aclamada liberdade não se fazia na prática, pois os governos liberais se caracterizavam, em maior parte, por forte “repreensão e tirania”. De acordo com o autor do artigo, a verdadeira liberdade se dá quando a religião que Deus nos impôs é seguida com total liberdade, no caso, a católica que devia ser professada sem nenhuma interferência do Poder Imperial, apontado como o poder dos “Cezares”. Não podemos, de forma alguma, destoar a prática editorial de uma prática política na ação ultramontana de D. Viçoso.

A “Boa Imprensa”, como eram também chamadas as publicações de caráter confessional, sofria, por seu turno, do sério problema relacionado à vida efêmera das publicações. A expressão “boa imprensa” era utilizada pelos indivíduos ligados aos meios católicos para marcar a diferença entre o que eles produziam e o jornalismo ligado aos setores não pertencentes à Igreja. Várias foram as posições de lideranças religiosas, na tentativa de marcar a importância da imprensa e, principalmente, de publicações ligadas à Igreja católica, preocupadas em disseminar ideais que enfatizassem os princípios cristãos, mais especificamente católicos, como parâmetros essenciais na luta contra as investidas das concepções materialistas, liberais e maçônicas.

Para Roger Aubert53, a revista La Civilttà Cattolica dos jesuítas italianos, a revista francesa L’Univers e seu redator chefe Louis Veuillot, além do espanhol Donoso Cortés foram as figuras mais influentes da reação ultramontana, e os dois periódicos poderiam ser apontados como os mais significativos do peculiar pensamento que dela

52 AEAM. O Bom Ladrão. Mariana, 24 de novembro de 1873.

53 AUBERT, Roger. Pio IX y su epoca. In: FLICHE, A.; MARTÍN, V. (Dir.) Historia de la Iglesia. Valencia, España: EDICEP, 1974.

advinha. Esses pensadores procuravam justificar e confirmar a atitude de reação de vários católicos, especialmente da hierarquia, mediante considerações doutrinais e teológicas que circulavam pelas revistas. L’Univers e La Civilttà tornaram-se modelos para a imprensa ultramontana que se desenvolveu no Brasil.

Fundada em Nápoles por um grupo de jesuítas, a revista La Civiltà Cattolica levou seu primeiro número a público em abril de 1850,54 sob o pontificado de Pio IX,55 que, por sinal, demonstrou-se bastante condescendente com suas idéias. A revista italiana trabalhou em quatro direções:

1. desenvolvimento de uma crítica dos princípios liberais que chegou a uma extraordinária profundidade captando os pontos essenciais da dissensão entre as duas concepções [liberal e católica] da vida e da sociedade [...], [combatendo] com rigor a laicização e a separação entre Igreja e Estado, unida de fato à liberdade política [...] [e sustentando] por muito tempo a tese [...] da derivação protestante da Revolução Francesa, do liberalismo, do sufrágio universal; 2. defesa do poder temporal da Igreja de Roma; 3. ampla propaganda do tomismo pelos escritos de Pe. Taparalli e Pe. Liberatore; e 4. exposição dos princípios da doutrina social da Igreja.56

Era por essa imprensa especializada e oficiosa, que as idéias ultramontanas, além de disseminar-se, legitimavam-se teoricamente trazendo para sua causa inúmeros católicos.

Os jornais católicos tinham a função de levar as palavras do bispo e do clero romanizado para espaços onde a diocese não conseguia se mostrar com maior presença física: buscavam cobrir um ponto cego. Logo, preocupada em manter as suas posições, a Igreja da segunda metade do século XIX tinha como recurso para proposição e defesa das idéias romanizantes a imprensa, vista pela ortodoxia católica como uma das formas de se manter mais próxima dos seus fiéis tendo, além disso, como um importante meio de interlocução contra os setores críticos às suas atitudes.

54 Vale destacar que a imprensa confessional, mesmo na Europa, não chegava a grandes tiragens. Os responsáveis por La Civilttà produziam cerca de 13.000 cópias mensais, e a revista ficou ativa por um período de cerca de cinqüenta anos, entre 1850 e 1900. Disponível em: <http:// www.laciviltacattolica.it/Storia/Storia.htm> Acesso em 31/12/09.

55 MARTINA, Giácomo. História da Igreja: de Lutero aos nossos dias. Vol. 1. O período da reforma. São Paulo: Edições Loyola, 1995.

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