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1.4. ATMOSFERİK CEPHELER
1.4.6. Oklüzyon Cepheler
Podemos compreender o discurso religioso como aquele que faz ouvir a voz de Deus ou de seus representantes (sejam eles o profeta, o pastor ou o padre). Eni Orlandi aborda o discurso religioso como apresentando características gerais e peculiares a certas classes de discurso religioso, como o discurso teológico. Segundo esta autora
O discurso religioso é “aquele em que há uma relação espontânea com o sagrado” sendo, portanto, “mais informal”; enquanto o teológico é o tipo de “discurso em que a mediação entre a alma religiosa e o sagrado se faz por uma sistematização dogmática das verdades religiosas, e onde o teólogo [...] aparece como aquele que faz a relação entre os dois mundos: o mundo hebraico e o mundo cristão”, sendo, assim, “mais formal”.89
Porém, podemos falar em discurso religioso de maneira mais globalizante. Assim, temos que nele ocorrem características como as listadas no quadro abaixo:
Quadro 1: Principais características do discurso religioso católico e do discurso teológico
Desnivelamento e assimetria na relação entre o locutor e o ouvinte – o locutor está no plano espiritual (Deus), e o ouvinte está no plano temporal (os adoradores). As duas ordens de mundo são totalmente diferentes para os sujeitos, e essa ordem é afetada por um valor hierárquico, por uma desigualdade, por um desnivelamento. Deus, o locutor, é imortal, eterno, onipotente, onipresente, onisciente, em resumo, o todo-poderoso. Os seres humanos, os ouvintes, são
88 AEAM. O Bom Ladrão. Mariana, 25 de fevereiro de 1874.
89 FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 65.
mortais, efêmeros e finitos, isso é muito perceptível nos jornais católicos.
Modos de representação. A voz no discurso religioso se fala em seus representantes (Padre, pastor, profeta), essa é uma forma de relação simbólica. Essa apropriação ocorre sem explicitar os mecanismos de incorporação da voz, aspecto que caracteriza a mistificação.
O ideal do discurso religioso é que o ‘representante’, o que se apropria do discurso de Deus’, não o modifique. Ele deve seguir regras restritas reguladas pelo texto sagrado, pela Igreja, pelas liturgias. Deve-se manter distância entre ‘o dito de Deus’ e ‘o dizer do homem’.
A interpretação da palavra de Deus é regulada. “Os sentidos não podem ser quaisquer sentidos: o discurso religioso tende fortemente para a monossemia”, como já mencionamos anteriormente.
Presença marcante de dualismos: plano humano e plano divino; ordem temporal e ordem espiritual; sujeitos e Sujeito; homem e Deus. A ilusão, segundo Orlandi (1996) ocorre na passagem de um plano para outro e pode ter duas direções: de cima para baixo, ou seja, de Deus para os homens, momento em que Ele compartilha suas propriedades (ministração de sacramentos, bênçãos); de baixo para cima, quando o homem se alça a Deus, principalmente, através da visão, da profecia. Estas são formas de ‘ultrapassagem’.
Escopo do discurso religioso. A fé separa os fiéis dos não-fiéis, “os convictos dos não-convictos. Logo, é o parâmetro pelo qual delimita a comunidade e constitui o escopo do discurso religioso em suas duas formações características: para os que crêem, o discurso religioso é uma promessa, para os que não crêem é uma ameaça”
Fonte: Construído a partir das informações de ORLANDI, Eni Pucinelli. Análise do Discurso: princípios e fundamentos. 3ª ed., Campinas, SP: Pontes, 2001.
Os discursos religiosos, como já vimos, se mostram com estruturas rígidas quanto aos papéis dos interlocutores (a divindade e os seres humanos). Os dogmas sagrados, por exemplos, fé e Deus, são intocáveis. Segundo Althusser, “Deus define-se (...) a si mesmo como sujeito por excelência, aquele que é por si e para si (Sou aquele que É) e aquele que interpela seu sujeito (...) eis quem tu és: é Pedro”.90 Ademais, podemos apontar mais algumas características do discurso religioso, como a intertextualidade, a homogeneidade ideológica e o discurso profético.91
90 ORLANDI, Eni Pucinelli. Análise de Discurso: princípios e fundamentos. 3ª ed., Campinas, SP: Pontes, 2001, p. 82.
91 De acordo com ORLANDI, Eni Pucinelli. Análise do Discurso: princípios e fundamentos. 3ª ed., Campinas, SP: Pontes, 2001, temos que: na intertextualidade: “Todo discurso religioso (pela sua natureza) tem a ver com outro discurso religioso” [...] o discurso teológico é um discurso sobre outro discurso”. Ele se manifesta como um ‘comentário’ a um texto de origem, por isso, tem pouco a ver com o contexto imediato da enunciação. Há sempre um dizer já dito, um redizer de significação divina.
Homogeneidade ideológica. Gramsci diz que “sob a homogeneidade ideológica, existe na religião – enquanto conjunto cultural – uma subdivisão paralela aos grupos sociais afetados” (de mulheres, de
Outros traços desse tipo de discurso se configuram com o uso do imperativo e do vocativo – características inerentes de discursos de doutrinação; uso de metáforas, explicitadas por paráfrases que indicam a leitura apropriada para as metáforas utilizadas; uso de citações no original (grego, hebraico, latim), também muito comuns nos periódicos da Diocese de Mariana, traduzidas (ou não) para a língua em uso através de perífrases extensas e explicativas em que se busca aproveitar o máximo o efeito de sentido advindo da língua original, como em:
Contrariar asserções de quem quer que seja é um acto sempre desagradável; por isso grande é o desgosto que ora sinto, vendo-me forçado a desmentir asserções, que sahirão de uma Penna, que tantos incômodos acaba de tecer-me. Amicus Plato, sed magis veritas
amicas.92
Outro aspecto que devemos enfatizar, diz respeito à sua própria condição de produção, ou seja, onde, como e quando o discurso é produzido. Segundo Volosinov,93 o discurso, no sentido em que nasce por meio de indivíduos socialmente organizados, é ideológico. Dessa forma, corroborando com aquilo que já dissemos nas páginas anteriores, não pode ser compreendido fora do seu contexto, ou seja, o discurso romanizador só tem importância, para nós, uma vez inserido no processo de romanização da Diocese de Mariana.
Devemos perceber que o discurso é algo orientado, e isso não ocorre apenas porque o mesmo é concebido na perspectiva de um interlocutor, ou por que emana de uma instituição – no caso a Igreja católica – mas também porque os discursos se inserem linearmente no tempo, construindo-se a partir de uma finalidade e se dirigindo a algum lugar.94 O nosso corpus, composto em grande parte de sermões, de orações, de ordens e de artigos onde observamos grande incidência de posturas de defesa e ataque, compreende gêneros discursivos que em um período anterior limitava-se aos púlpitos dentro dos templos. Assim, podemos dizer que a voz de Deus se fala no pregador do discurso, como se o próprio Deus falasse através da instituição e do cargo – ou lugar de
intelectuais, e camponeses). Essa heterogeneidade social e ideológica explica o surgimento de aspectos teológicos e de religião popular dentro da mesma religião.Discurso profético. Exploração das dimensões espaço e tempo. Característica: “dissimulação da sua [discurso profético] relação com o momento histórico como possibilidade mesma de constituir-se.”
92 AEAM. O Bom Ladrão. Mariana, 23 de fevereiro de 1874, grifo nosso.
93 VOLOSINOV, Valentín. O discurso na vida e o discurso na poesia, Revista Zvezdá, 1926.
94 Conforme nos informa MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Pontes, 1996.
poder – que ocupa aquele que profere o discurso: a voz do pregador é a voz de Deus. A esse respeito, temos que
Partindo, então, da caracterização do discurso religioso como aquele que fala a voz de Deus, começaria por dizer que, no discurso religioso, há um desnivelamento fundamental na relação entre locutor e ouvinte: o locutor é do plano espiritual (o Sujeito, Deus) e o ouvinte é do plano temporal (os sujeitos, os homens). Isto é, locutor e ouvinte pertencem a duas ordens de mundo totalmente diferentes e afetadas por um valor hierárquico, por uma desigualdade em sua relação: o mundo espiritual domina o temporal.
O locutor é Deus, logo, de acordo com a crença, imortal, eterno, infalível, infinito e todo-poderoso; os ouvintes são humanos, logo mortais, efêmeros falíveis, finitos, dotados de poder relativo. Na desigualdade, Deus domina os homens.95
O discurso religioso, além de possuir o lugar de fala daquele que o pronuncia ou o escreve, também possui um local, ou meio, para se propagar. Maingueneau, defende que todo gênero do discurso implica em um certo lugar e um certo momento
Não se trata de coerções “externas”, mas algo constitutivo. Suponhamos que um padre reze uma missa numa praça pública ou que um professor dê uma aula em um bar: são lugares normalmente ilegítimos para esses gêneros de discurso. Em conseqüência, a transgressão pode ser significativa: no primeiro exemplo, pode-se tratar de legitimar um espaço normalmente ilegítimo (mostrando que a Igreja deve abrir-se para o mundo); no segundo, pode ser, ao contrário, para protestar contra a falta de locais de ensino.96
Eni Orlandi propõe uma observação e padronagem do discurso religioso. A autora nota que no caso do discurso religioso, notam-se fortes tons de autoritarismo, o que se identifica através da “ilusão da reversibilidade” que sustenta o este discurso
Isso porque, embora o discurso autoritário seja um discurso em que a reversibilidade tende a zero, quando é zero o discurso se rompe, desfaz-se a relação, o contato, e o domínio (escopo) do discurso fica comprometido.
Daí a necessidade de se manter o desejo de torná-lo reversível. Daí a ilusão. E essa ilusão tem várias formas nas diferentes manifestações do discurso autoritário.97
95 ORLANDI, Eni Pucinelli. Análise do Discurso: princípios e fundamentos. 3ª ed., Campinas, SP: Pontes, 2001.
96 MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Pontes, 1996, p. 66.
97 ORLANDI, Eni Pucinelli. Análise do Discurso: princípios e fundamentos. 3ª ed., Campinas, SP: Pontes, 2001, p. 131.
Para Orlandi o discurso religioso é autoritário, pois se referencia em si mesmo, se qualifica em si próprio, no suposto da perfectibilidade divina (e isto lhe confere autoridade), e trabalha pela desqualificação de seus adversários, como no artigo, intitulado “O atheo he o mais desaforado mentiroso”, em que se prega
E se nos perguntarem: haverá atheos sinceros? Responderemos animosamente: Não.
Que tem havido e ainda há homens tão sem vergonha, que dizem e até escrevem que o homem He obra do acaso, produção espontânea da natureza, etc, He certo, mas que os haja tão estúpidos que o cream, He impossível.
[...] Que He o corpo humano? He huma harmonia incomensurável, He a perfeita unidade que resulta de huma infinita variedade; He portanto a obra de huma intelligencia sem limites, He uma prostestação infinita contra o acaso.98
Dessa forma, o discurso religioso é “aquele em que fala a voz de Deus” e, mais que os outros tipos de discurso, tende naturalmente para a monossemia.
O discurso doutrinário-religioso se vale de dogmas, mandamentos e convenções, sendo de caráter estrutural dentro da instituição. No discurso religioso os sinais de sua associação com o discurso autoritário estão no fato deste referente ser ausente, pois ele mesmo se referenciaria, ou seja, sua qualificação se encontraria em si mesmo; e também pelo fato de haver a existência de uma “voz autorizada”, que se qualifica a partir de um dispositivo, que é a sua identificação com algo que a pressupõe qualificável, no caso, a própria voz de Deus
Quando como agora, surgem de todas as partes formidáveis inimigos de Immaculada Esposa de Jesus Christo, vomitando o nauseabundo pus da impiedade e da blasphemia no intuito de contaminar para seu ultimo desideratum, os verdadeiros filhos daquela Mãe tão vilipendiada por quem contrahio, um acto solumne do seo Baptismo.99
Identificamos de modo claro na Igreja católica a figura da sua hierarquia como a “voz autorizada de Deus”, e suas assertivas como expressão da verdade, onde o pregador tem como dispositivo que o qualifica esta Voz Suprema, onde o agente expositor por excelência e unicidade é o próprio Criador. Corrobora-se a isto a assistência de instrumentos simbólicos paralelos como a palavra autorizada, que é a Bíblia, e o espaço autorizado, que é o templo.
98 AEAM. O Romano. Mariana, 30 de abril de 1852. 99 AEAM. O Bom Ladrão. Mariana, 07 de outubro de 1873.