1. SİGORTACILIK FAALİYETİ VE TARİHSEL GELİŞİMİ
1.3. SİGORTANIN YARARLARI VE MALİYETLERİ
1.3.2. Sigortanın maliyetleri
Após o grande sucesso de sua tese de doutoramento vis a vis a aprovação com distinção e a recepção elogiosa em crítica nacional e internacional, Alice Piffer Canabrava continuou como assistente do professor Paul Vanorden Shaw. Contudo, em 1941, este deixou a regência da Cadeira, que passou a ser regida interinamente por Astrogildo Rodrigues de Mello até 1946254, quando então se abriu concurso. Com o mencionado sucesso em sua tese de doutoramento,
[...] involuntariamente emergi, aos olhos dos meus colegas masculinos, como possível candidata ao provimento efetivo da cadeira de História da América, a ser posta em concurso. Até então, o relacionamento com esses colegas havia sido muito afável, direi até, não isento de estima pessoal255. De fato, como relatado por Olga Pantaleão, aluna do curso de Geografia e História entre 1936 e 1938, em depoimento de 1984, as relações entre os gêneros eram corriqueiras, desde a graduação até o ingresso na Cátedra na condição de assistente.
Ao lado da formação de novos especialistas para servir a um mercado em expansão, urgia formar elementos para o próprio corpo docente da Faculdade: o primeiro passo foi a criação de funções de assistentes, depois 1º e 2º assistentes junto às diversas Cadeiras. Foi então que se abriram novas oportunidades para as mulheres. Penso que a existência de um elemento feminino abundante no corpo discente da escola, e por que não dizer, disposto a aceitar o desafio, permitiu a indicação de várias mulheres para assistentes; também a falta de tradição de um domínio masculino, a necessidade de utilizar mulheres por não haver homens disponíveis e a competência do elemento feminino foram responsáveis pelo aparecimento, em número razoável, de mulheres no corpo docente, situação jamais sonhada pelas velhas escolas de ensino superior256.
De acordo com cronograma, o concurso para provimento da Cadeira de História da Civilização Americana realizou-se entre os dias 30 de Julho e 7 de Agosto de 1946257. Apresentaram-se os seguintes candidatos: Astrogildo Rodrigues de Mello, Odilon de Araújo Grellet, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e professor do ginásio Franklin Roosevelt, e Alice Piffer Canabrava. A banca examinadora foi formada por dois membros eleitos pelo
254 Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1939-1949, volume II, 1953, p. 447. 255 CANABRAVA, O Caminho Percorrido. In: CANABRAVA, op. cit., 2005, p. 30.
256 PANTALEÃO, Olga. Depoimentos. In: BLAY, Eva Alterman; LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo.
Mulheres na USP: horizontes que se abrem. São Paulo: Humanitas, 2004, p. 112.
257 Horário do concurso para provimento da Cadeira de História da Civilização Americana – XXXa Cadeira. In:
Conselho Universitário: Zeferino Vaz, da Faculdade de Medicina Veterinária258 e Jorge Americano, da Faculdade de Direito259 e presidente da banca examinadora. Além desses dois membros, alheios à área de História, fizeram parte ainda da banca examinadora mais três membros indicados pela FFCL: Eremildo Luiz Vianna260 e Jayme Coelho261 da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil (UB) no Rio de Janeiro e Sérgio Buarque de Holanda do Museu Paulista.
No dia 30 de Julho de 1946, às 10:00 horas, deu-se o exame dos títulos dos candidatos e a sessão pública onde os membros da banca examinadora selaram as cédulas contendo as notas de cada candidato. A prova escrita ocorreu no dia 31 de Julho às 13:30 horas, quando o primeiro candidato inscrito, Astrogildo Rodrigues de Mello, sorteou o ponto para esta prova. Os pontos para a prova escrita foram os seguintes: 1) Hipótese sobre a origem do homem americano; 2) Agricultura e domesticação dos animais na América pré-colombiana; 3) A Guerra de Secessão; 4) Comércio e navegação entre a Espanha e a América: o monopólio de Sevilha e a casa de Contratação; 5) Administração espanhola na América: o Conselho das Índias e os Cabildos; 6) Colonização Inglesa na América; 7) A conquista do México e do Peru; 8) Colombo e as questões controvertidas do descobrimento da América; 9) A civilização incaica; 10) A luta entre a França e a Inglaterra na América; 11) A expansão dos Estados Unidos para o oeste; 12) A época das luzes e sua influência na emancipação das colônias hispano-americanas; 13) A Igreja e a Sociedade Colonial na América; 14) Civilização Asteca;
258 Zeferino Vaz formou-se em 1932 na Faculdade de Medicina, que viria a ser a Universidade de São Paulo,
especializando-se em Parasitologia, Biologia, Genética e Zoologia. Foi um dos fundadores da Universidade Estadual de Campinas (UniCamp), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e reitor da Universidade de Brasília (UnB). Para o conhecimento de seu trabalho ver: FERREIRA-SANTOS, Ruy. Zeferino Vaz. Ponto de
Vista – revista da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, n. 30,
1997. Disponível em: <http://revista.fmrp.usp.br/1997/vol30n1/ponto_vista.pdf>. Acessado em 24/11/2013.
259 Estudou Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, bacharelando-se em
1912. Foi reconhecido jurista internacional, tendo atuado no tribunal internacional de Haia, fundador da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana do Mackenzie e foi o 4º reitor da USP. Como memorialista, dedicou-se a escrever sobre a cidade de São Paulo. Sobre Jorge Americano ver: <http://www.mackenzie.br/fileadmin/Editora/Revista_Mackenzie/pdfs/m26/pag32a40.pdf>. Acessado em 24/11/2013.
260 Eremildo Luiz Viana (1913-1998) nasceu no Rio de Janeiro. Concluiu seus estudos no Colégio Pedro II, onde
recebeu o título de bacharel em Ciências e Letras em 1932. Em 1933 entrou para a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e, em 1935, para o curso de História da UDF. Formou-se em Direito, mas não concluiu o curso de História; deixou a UDF em 1937, pois desde o ano anterior já dava aulas no Colégio Pedro II. Ingressou na FNFi em 1939 como assistente de História da Antiguidade e da Idade Média, e a partir de 1944 assumiu a cadeira interinamente. Prestou concurso em 1946 e pôde assumir a cátedra em caráter efetivo. Cf. FERREIRA, Marieta de Moraes. A História como ofício: a constituição de um campo disciplinar. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013, p. 136. Ver resenha: RODRIGUES, Lidiane Soares. A História como ofício: a constituição de um campo disciplinar. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 33, n. 66, p. 349-351, 2013. Disponível em: <http://www.anpuh.org/revistabrasileira/view?ID_REVISTA_BRASILEIRA=72>. Acessado em 11/02/2014.
261 No processo do concurso de 1946, nos ofícios e editais o nome de Jayme Coelho apareceu grafado como
“Jaime”. Contudo, em sua assinatura do parecer final do concurso apareceu como “Jayme”. Desta feita, grafaremos seu nome como “Jayme” assim como o faz FERREIRA, op. cit., 2013.
15) Independência dos Estados Unidos; 16) Problemas políticos e econômicos das repúblicas do Prata no século XIX; 17) O monroismo e a política inter-americana; 18) As guerras de independência do México; 19) Crítica dos sistemas coloniais da Espanha, França e Inglaterra na América; 20) Bolívar e San Martín262. Mesmo não tendo acesso ao ponto sorteado, podemos induzir que os candidatos Astrogildo e Alice não tiveram nenhuma dificuldade quanto à prova escrita, uma vez que já atuavam na área há bastante tempo e suas notas não foram inferiores a 9, ao contrário do candidato Odilon que recebeu nota 8 de todos os membros da banca examinadora.
No dia 2 de Agosto, às 14:00 horas, foi apresentada a tese do candidato Astrogildo Rodrigues de Mello, “Os serviços pessoais nas fainas agrícolas em Nova Espanha”263, e sua arguição. A tese de Odilon Araújo Grellet, “A escravidão vermelha na América Espanhola”, foi apreciada no dia seguinte no mesmo horário e a de Alice Piffer Canabrava, “A Indústria do Açúcar nas Ilhas Inglesas e Francesas do Mar das Antilhas (1697-1755)”, foi apresentada no dia 5 de Agosto às 9:00 horas. A tese de Astrogildo mereceu nota 10 de Jayme Coelho e Eremildo Vianna e nota 8 de Sérgio Buarque de Holanda, ao passo que a tese de Alice obteve nota 9 de Jayme Coelho e Eremildo Vianna e nota 10 de Sérgio Buarque.
No dia 6 de Agosto de 1946, às 9:00 horas, foi realizado o sorteio do ponto da prova didática, com os seguintes pontos: 1) Colombo e o problema da descoberta da América; 2) Jefferson e a Democracia americana; 3) A origem do homem americano; 4) A conquista da Nova Granada; 5) A ideia de emancipação nas colônias hispano-americanas; 6) Bolívar e San Martín; 7) A vida econômica nas colônias espanholas sob a Casa d’Austria; 8) A independência dos Estados Unidos; 9) características da colonização inglesa na América; 10) Presidência de Washington; 11) Os partidos políticos nos Estados Unidos na primeira metade do século XIX; 12) A guerra de secessão; 13) A expansão ocidental dos Estados Unidos; 14) monroismo e a política inter-americana; 15) Os Bourbons e a política colonial espanhola; 16) o regime jesuítico no Paraguai; 17) Agricultura e domesticação de animais na época pré- colombiana; 18) Manifestações artísticas dos povos pré-colombianos; 19) A conquista do Chile; 20) as primeiras expedições descobridoras após Colombo264. Podemos notar que
262 Processo n. 46.1.325.8.0 (Concurso para a cátedra de História Americana). Arquivo da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP. Ponto para a prova escrita organizados pela comissão julgadora.
263 A tese de doutoramento de Astrogildo Rodrigues de Mello também foi orientada por Jean Gagé e foi
publicada no primeiro número do Boletim da Cadeira de História da Civilização Americana, possuindo apenas 88 páginas e um corpus documental bastante limitado. Ver: MELLO, Astrogildo Rodrigues de. As encomiendas
e a política colonial de Espanha. In: São Paulo: Boletim XXXIV da cadeira de História da Civilização
Americana, n. 1, FFCL/USP, 1943.
264 Processo n. 46.1.325.8.0 (Concurso para a cátedra de História Americana). Arquivo da Faculdade de
muitos pontos da prova didática também estavam presentes na prova escrita e outros eram novos. O ponto sorteado por Astrogildo foi “A conquista do Chile” e no dia 7 de Agosto, às 9:00 horas, foi realizada a prova didática dos três candidatos e a leitura de suas respectivas provas escritas. As notas atribuídas por Jayme Coelho e Eremildo Vianna à Alice Piffer Canabrava e a Astrogildo Rodrigues de Mello foram as mesmas neste quesito: 9. Sérgio Buarque de Holanda atribuiu nota 8 a Astrogildo e nota 10 à Alice.
Observando o boletim de notas concedidas aos candidatos por cada um dos membros da banca examinadora nas provas de título, escrita, didática e defesa de tese, temos o seguinte prospecto para cada candidato265:
Tabela 1: Candidato Astrogildo Rodrigues de Mello
Títulos Prova escrita Defesa de tese Prova didática Média Jorge Americano 10 9 9 9 9,25 Zeferino Vaz 10 9 8 9 9,00 Jayme Coelho 10 10 10 9 9,75 Emerildo Vianna 10 10 10 9 9,75 Sérgio Buarque 9 9 8 8 8,50
Média geral final=9,25
Tabela 2: Candidata Alice Piffer Canabrava
Títulos Prova escrita Defesa de tese Prova didática Média Jorge Americano 9 9 10 9 9,25 Zeferino Vaz 10 9 10 10 9,75 Jayme Coelho 9 9 9 9 9,00 Emerildo Vianna 9 9 9 9 9,00 Sérgio Buarque 9 10 10 10 9,75
Média geral final=9,35
265 As tabelas foram elaboradas a partir dos dados coletados no Processo n. 46.1.325.8.0 (Concurso para a
cátedra de História Americana). Arquivo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP. Boletim
Tabela 3: Candidato Odilon Araújo Grellet
Títulos Prova escrita Defesa de tese Prova didática Média Jorge Americano 6 8 6 8 7 Zeferino Vaz 6 8 6 8 7 Jayme Coelho 6 8 6 8 7 Emerildo Vianna 6 8 6 8 7 Sérgio Buarque 6 8 6 7 6,75
Média geral final=6,95
A média final geral de cada candidato por nós calculada, foi feita pelo somatório das médias atribuídas por cada um dos membros da banca examinadora e dividida por cinco, ou seja, pelo número de membros da banca. Desta forma, temos que a média final geral mais elevada foi a de Alice Piffer Canabrava, com 9,35. Contudo, no parecer final da comissão examinadora de 7 de Agosto de 1946, encontramos o seguinte:
Por esses quadros, verifica-se que os candidatos Snrs. Astrogildo Rodrigues de Mello e Alice Piffer Canabrava, obtiveram média igual, isto é, 9,25, consequente das notas atribuídas pelo Presidente da Comissão, Prof. Jorge Americano. Este, entretanto, depois de verificado esse empate, declarou que desempatava em favor do Sr. Astrogildo Rodrigues de Mello, considerando achar-se esse cátedra, digo, candidato na regência da cátedra, em comissão, de História da Civilização Americana266.
Aqui surge algo de, no mínimo, curioso: no parecer final foram levadas em consideração somente as notas do presidente da banca, Jorge Americano:
Tabela 4: notas atribuídas por Jorge Americano
Títulos Prova escrita Defesa de tese Prova didática Média Astrogildo Rodrigues de Mello 10 9 9 9 9,25 Odilon Araújo Grellet 6 8 6 8 7 Alice Piffer Canabrava 9 9 10 9 9,25
266 Processo n. 46.1.325.8.0 (Concurso para a cátedra de História Americana). Arquivo da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP. Parecer final da comissão examinadora em 7 de Agosto de 1946, p. 1.
Segundo as notas por ele atribuídas, a média final de Astrogildo Rodrigues de Mello e de Alice Piffer Canabrava foi 9,25 e de Odilon Araujo Grellet, 7. Ademais, na apreciação dos títulos, encontramos o seguinte parecer:
Dos três candidatos inscritos, é de mistér salientar os excelentes títulos dos srs. Astrogildo Rodrigues de Mello e Alice Piffer Canabrava. Ambos são portadores de diploma de licenciados, obtiveram doutoramento em História e têm exercício no magistério de ensino superior da Cadeira a que ora concorrem. Cumpre salientar, ademais, que publicaram trabalhos valiosos no dominio da História da América. (...) Entre os srs. Astrogildo Rodrigues de Mello e Alice P. Canabrava há, a favor do primeiro, a circunstância de ocupar o cargo de Professor em comissão de H.da Civilização Americana e possuir o título de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, enquanto a profa. Alice Canabrava é assistente do mesmo, não tendo feito o curso jurídico, que é de grande auxílio para melhor entendimento dos problemas históricos, como, por exemplo, no tocante ao estudo das instituições políticas, sociais e econômicas267.
É no mínimo inusitada a afirmação de que há a necessidade de se ter o curso jurídico para desempenhar melhor as funções de professor catedrático de História da Civilização Americana. Parece-nos que as redes de sociabilidade, neste caso específico, demonstraram toda sua hostilidade em relação à Alice Piffer Canabrava268, tendo em vista o favorecimento velado a Astrogildo Rodrigues de Mello. O que dizer de um concurso de História da Civilização Americana que foi decidido pelas notas de um acadêmico da Faculdade de Direito?
Ao analisarmos as notas atribuídas por cada um dos membros da banca examinadora, notamos que aquelas representam muito mais do que simples números. Através da análise da nota atribuída por cada membro à defesa de tese dos candidatos, considerando-se somente os membros da área de História, ou seja, Eremildo Vianna, Jayme Coelho e Sérgio Buarque de Holanda, podemos derivar algo acerca da escrita da História de Alice Piffer Canabrava.
Sobre Jayme Coelho as informações são bastante escassas. Em estudo publicado recentemente por Marieta de Moraes Ferreira, acerca da profissionalização do ofício de historiador no Rio de Janeiro, não se sabe nem mesmo a data de seu falecimento, e as
267 Processo n. 46.1.325.8.0 (Concurso para a cátedra de História Americana). Arquivo da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP. Do julgamento dos títulos.
268 Empregamos aqui a noção de redes de sociabilidade no sentido engendrado por François Sirinelli. Mas a
sociabilidade também pode ser entendida de outra maneira, na qual também se interpenetram o afetivo e o ideológico. As “redes” secretam, na verdade, microclimas à sombra dos quais a atividade e o comportamento dos intelectuais envolvidos frequentemente apresentam traços específicos. E, assim entendida, a palavra sociabilidade reveste-se, portanto, de uma dupla acepção, ao mesmo tempo “redes” que estruturam e “microclima” que caracteriza um microcosmo intelectual particular. Cf. SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: REMOND, René (org.). Por uma história política. Tradução de Dora Rocha. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/FGV, 1996, p. 252-253.
informações que se tem sobre ele foram extraídas de entrevistas concedidas por antigos professores da Universidade do Distrito Federal (UDF), da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) ou do Intituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ. É sabido que se formou em Direito na França e que foi professor do Colégio Pedro II e em 1936 ingressou na Cadeira de História da Antiguidade da UDF269. Em entrevista concedida por Vicente Costa Santos Tapajós – que ingressou no curso de História da UDF em 1935, e foi ex-aluno de Jayme Coelho – a Marieta de Moraes Ferreira, em 1994, afirmou que o historiador da Antiguidade era discípulo de Capistrano de Abreu:
Discípulo de Capistrano de Abreu, possuía um extraordinário conhecimento do assunto e, embora não fosse um didata, falava sem parar na classe e na cantina, onde íamos encontrá-lo para aprender mais. Ele nos recebia em casa também e nos emprestava livros. Já formado, levou-me para dar aula no Instituto de Educação, e eu o substitui na cátedra, participando de concursos de provas e títulos, defesas de teses etc. Preguiçoso, não escrevia muito, mas como lia! Morreu, praticamente, nos meus braços270.
Esse depoimento de Vicente Tapajós denota uma grande proximidade com Jayme Coelho. Destarte o fato de que nos estudos sobre Capistrano de Abreu que consultamos não termos encontrado nenhuma referência sobre o suposto contato entre Capistrano de Abreu e Jayme Coelho, podemos inferir que Vicente Tapajós queira ter estabelecido uma proximidade historiográfica entre ambos, uma vez que Coelho era membro da Sociedade Capistrano de Abreu. Eremildo Vianna, que foi assistente de Jayme Coelho na UDF, apontou-o como um dos idealizadores da missão francesa e da própria UDF. Podemos deduzir que, de fato, a concepção de História de Jayme Coelho, nada tinha de tradicional, uma vez que, tendo idealizado a UDF e seu curso de História, inseria-se no projeto inovador de Universidade concebido por Anísio Teixeira. Ademais, na UDF, o curso de História não estava agregado ao curso de Geografia e a concepção de História estava ligada a uma História da Civilização. Como demarcou Marieta de Moraes Ferreira, após a extinção da UDF em 1939 e a criação da FNFi, o curso de História se juntou ao de Geografia e houve uma mudança na concepção de História do curso, uma vez que a alteração da nomenclatura dos cursos de História da
269 Marieta de Moraes Ferreira reuniu em livro os estudos que têm realizado acerca da profissionalização do
ofício de historiador no Rio de Janeiro. Ela percorreu o curso de História desde sua implantação em 1935 através do curso de História da UDF até a criação, em 1967, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), passando pelo desmonte da UDF por Vargas em 1939 e a instauração da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, também em 1939. Na segunda parte do livro, temos a análise de algumas trajetórias individuais baseadas na prosopografia, como a de Delgado de Carvalho, Luiz Camillo e Henri Hauser. A terceira parte traz várias entrevistas com antigos professores e ex- alunos da UDF, da FNFi e do IFCS/UFRJ em vários momentos. Ver: FERREIRA, op. cit., 2013.
Civilização para simplesmente História refletia também uma mudança em sua concepção, muito mais ligada à tradicional História Política.
[...] a denominação História da Civilização, adotada em 1931 com a reforma do ensino secundário, expressava a crítica a um tipo de História política comprometida com a exaltação dos grandes personagens, grandes eventos e datas nacionais, e a valorização da dimensão cultural dos acontecimentos. O retorno ao uso do nome História do Brasil representou assim desfecho de uma luta anterior271.
Todas as evidências nos conduzem a afirmar que Jayme Coelho atuou como catedrático de História da Antiguidade na UDF de 1935 até 1939 e depois na FNFi de 1939 a 1944, tendo, possivelmente, retornado ao Instituto de Educação, uma vez que Eremildo Vianna assumiu interinamente a Cadeira de História da Antiguidade e da Idade Média em 1944, até se tornar catedrático por meio de concurso no qual Jayme Coelho foi um dos examinadores da banca, juntamente com Astrogildo Rodrigues de Mello em 1946272.
Ao contrário de Jayme Coelho, a atuação de Eremildo Luiz Vianna à frente da FNFi estendeu-se desde 1941, quando se tornou assistente da Cadeira de História da Antiguidade e da Idade Média, até sua aposentadoria. Sua concepção de História também se demonstrava alinhada com a inovadora historiografia como no caso de Jayme Coelho. “[...] enquanto Silvio Júlio e Hélio Vianna adotavam uma postura mais “conservadora”, Delgado de Carvalho e Eremildo Viana buscavam filiar-se a concepções de História mais inovadoras, influenciados pela historiografia francesa, vinculada a historiadores que se aproximavam de uma História Social”273.
Foi exatamente o que pudemos constatar em seu relatório apresentado no “I Simpósio