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Os anos 90 foram cenário de grandes mudanças nas políticas públicas nos âmbitos econômico, político, social e, principalmente, educacional, pois, com o processo de globalização e com ele a política do neoliberalismo, esse setor da sociedade passa a atrelar-se fortemente às questões econômicas.

Grosso modo, o neoliberalismo caracteriza-se por uma abertura econômica, levando à privatização de grandes estatais, ao livre comércio e a reduções de gastos governamentais, de modo a reforçar o papel da economia, gerando, assim, um aumento na competição empresarial que, segundo Jacob (2013, p. 139), levou à necessidade de um “contínuo processo de desenvolvimento de forças produtivas”. E é nessa geração de forças produtivas que está a relação entre os setores político-econômicos e o educacional, já que essa abertura requer mão- de-obra para que entre em funcionamento.

Assim, segundo a autora, para a implementação das medidas neoliberais, o Brasil assinou acordos com agências financiadoras internacionais, entre elas o Banco Mundial (BIRD), que, entre outras ações, controla medidas e mudanças educacionais em países em desenvolvimento, por meio dos resultados gerados pelas avaliações de desempenho escolar. Altman (2002, p. 80) lista alguns dos critérios que compõem o pacote de reformas educativas deste banco:

(a) priorização da educação básica;

(b) melhoria da qualidade da educação verificada por meio dos resultados obtidos em avaliações de larga escala;

(c) prioridade aos aspectos financeiros e administrativos da reforma educativa, no sentido de uma descentralização;

(d) descentralização das instituições escolares, isto é, sob a responsabilidade dos munícipios, restando aos governos as funções de estabelecer padrões de ensino, facilitação dos insumos que se refletem no rendimento, adoção de estratégias para aquisição desses insumos e monitoramento do desempenho escolar;

(e) desejo de presença dos pais e da comunidade na vida escolar;

(f) fomento do setor privado e também dos órgãos não-governamentais a serem agentes em questões educacionais;

(g) mobilização e disponibilização de recursos para a educação; (h) enfoque setorial;

(i) definição de políticas e medidas com base na economia.

Além disso, Jacob (2013) afirma que, para a efetivação do empréstimo, foram impostas medidas que estipulavam os objetivos e as temáticas abordadas por cada disciplina do currículo nacional. Essas medidas se materializaram na LDB, nos PCNs, nas DCNs e no PNLD.

De posse dessas informações de cunho político, deve-se atentar para o fato de que uma das medidas das políticas neoliberais, que passaram a ser adotadas com os governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, continuando com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (Machado e Guimarães, 2009), visam à verificação/checagem do ensino por meio de resultados obtidos em avaliações, como por exemplo, o SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica – no nível do ensino fundamental, o ENEM – para o Ensino Médio e, no nível da Educação Superior, o Exame Nacional de Cursos, o Provão.

Um dos principais motivos para o interesse de órgãos como o BIRD em financiar a educação de um país em desenvolvimento e sob o regime neoliberal é a formação de mão-de- obra. Machado e Guimarães (2009, p. 23) citam Silva Junior (2002), ao explicarem que

Esse plano foi a expressão brasileira do movimento internacional dirigido pela UNESCO e pelo BIRD/Banco Mundial e assumido pelo Brasil como orientador das políticas públicas que resultaram na reforma educacional

brasileira dos anos noventa, inclusive com o engajamento de muitos intelectuais na legitimação desse novo paradigma político, reduzindo-se a ciência a um papel instrumental e não reflexivo e crítico.

As autoras ainda explicam que, nessa mesma perspectiva e sob a orientação de técnicos do Banco Mundial e de especialistas, houve a produção dos Parâmetros Curriculares Nacionais, documento de forte impacto nos níveis de ensino e que oficializou a visão de “educação como fator de desenvolvimento econômico e/ou como instrumento de formação de mão-de-obra qualificada para as necessidades do mercado” (ibidem, p. 23). Esse aspecto fica evidente nos excertos retirados de alguns dos documentos que permeiam a educação brasileira, entre eles os próprios PCNs, como se pode verificar a seguir:

A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

(LDB, n. 9.394/96, art. 2°, grifo nosso)

O momento que vive a educação brasileira nunca foi tão propício para pensar a situação de nossa juventude numa perspectiva mais ampla do que a de um destino dual. A nação anseia por superar privilégios, entre eles os educacionais, a economia demanda recursos humanos mais qualificados. Esta é uma oportunidade histórica para mobilizar recursos, inventividade e compromisso na criação de formas de organização institucional, curricular e pedagógica que superem o status de privilégio que o Ensino Médio ainda tem no Brasil.

(DCNEM, p. 9-10 apud JACOB, 2013, p. 140, grifo nosso)

Considerando-se tal contexto, buscou-se construir novas alternativas de organização curricular para o Ensino Médio comprometidas, de um lado, com

o novo significado do trabalho no contexto da globalização e, de outro, com

o sujeito ativo, a pessoa humana que se apropriará desses conhecimentos

para se aprimorar, como tal, no mundo do trabalho e na prática social.

Há, portanto, necessidade de se romper com modelos tradicionais, para que se alcancem os objetivos propostos para o Ensino Médio.”

(PCNs, p. 13 apud JACOB, 2013, p. 140, grifo nosso)

Como demonstrado, esses documentos visam a evidenciar as mudanças educacionais voltadas principalmente à preparação dos jovens para estarem aptos a se inserirem no mercado de trabalho. Embora haja outros aspectos relacionados à importância da Educação, evidenciou- se com as medidas político-econômicas, como o acordo com o Banco Mundial e a consequente

elaboração de documentos orientadores da educação nacional, entre eles a LDB e os PCNs, que a formação de mão-de-obra é o fator que mais importa.

Uma das medidas adotadas pelo BIRD para a formação desses alunos é o investimento em materiais didáticos, como se pode verificar pela seguinte passagem:

O BIRD recomenda investir prioritariamente no aumento do tempo de instrução, na oferta de livros didáticos (os quais são vistos como a expressão operativa do currículo e cuja produção e distribuição deve ser deixada ao setor privado) e no melhoramento do conhecimento dos professores (privilegiando a formação em serviço em detrimento da formação inicial). (ALTMAN, 2002, p. 80)

Este investimento em materiais didáticos refletiu-se ainda na ampliação do PNLD, ao inserir a distribuição de livros didáticos de LI nos EF e EM, nos anos de 2011 e 2012 respectivamente, no Estado de SP, na distribuição dos Cadernos do Aluno a partir de 2009, contrariando o que Ramos (2009) afirmou, ao dizer que uma das desvantagens da adoção de materiais didáticos seja seu preço. Sendo assim, essa é mais uma questão que vai ao encontro da discussão de que as políticas neoliberais prezam pelo investimento em materiais didáticos para a melhoria da qualidade do ensino. Além disso, de acordo com Fernandez (2014), a inserção das LE – inglês e espanhol – nesse programa se deu devido ao aumento de programas de bolsas de estudos, que muitas vezes deixam de ser distribuídas devido ao pouco conhecimento da língua. Desta forma, a distribuição desses livros passa a ser uma das medidas para capacitar os alunos com relação à aprendizagem de uma LE.

Contrariamente à valorização dos materiais didáticos pelo BIRD, os professores, pela perspectiva dessa agência financiadora, ficam relegados a um plano inferior. Segundo Jacob (2013), o BIRD influencia desde o salário dos professores até questões metodológicas, essas pensadas por empresários. A autora destaca que, para esse órgão, o aumento salarial e a redução do número de alunos por professores não influenciam na qualidade da Educação. Dessa forma,

o que realmente influencia é a qualidade das instalações escolares e dos materiais didáticos. Por isso, os grandes investimentos em bibliotecas, laboratórios e, principalmente, em livros.

Outro aspecto que colaborou para o enfraquecimento dessa classe profissional é a instituição do processo de bonificação, no qual cada professor é responsável pelo seu resultado individual nas avaliações dos alunos, o que gerou a fragilização da formação e do fortalecimento dessa classe. (JACOB, 2013).

Os critérios de investimentos na Educação de um país pelo BIRD, como já mencionado, estão relacionados aos resultados das avaliações aplicadas anualmente. Embora as influências neoliberais na área educacional tenham se iniciado na década de 90, o país como um todo ainda apresenta baixos índices de aprendizagem, o que levou o Estado de São Paulo a tomar suas próprias medidas para a melhoria da Educação. Essas mudanças podem ser verificadas na próxima seção.