Entre as mais recentes medidas pensadas para a melhoria da educação básica, que iniciou-se em nível nacional nos anos finais da década de 90, no Estado de São Paulo, medidas de ampla escala foram tomadas a partir de 2007, com estudos e pesquisas que visavam à criação de um documento unificador do ensino público, implementado a partir do Programa São Paulo faz escola20, cujo foco principal é fornecer para as mais de cinco mil escolas da rede um
currículo pedagógico único.
Como previamente mencionado, o Estado de São Paulo também enfrentava problemas de baixo desempenho escolar. Assim, em julho de 2007, traçou-se um diagnóstico da educação
20 Maiores informações sobre este programa podem ser encontradas no site
estadual, por meio dos resultados obtidos pelo SAEB, hoje conhecido como Prova Brasil, e ENEM, pelos quais detectou-se, de fato, um desempenho insuficiente do alunado. A partir destes dados, estabeleceram-se metas que visavam à melhoria da qualidade da Educação, culminando, assim, na necessidade de uma proposta curricular que unificasse o ensino estadual. Segundo Jacob (2013), a implantação dessa proposta é uma das consequências das intervenções realizadas pelo governo para atender às exigências das agências monetárias internacionais. Ainda segundo essa autora,
A Nova Proposta Curricular é a grande investida do Estado de São Paulo para os novos rumos da Educação.
Parece, portanto, que ao propor um novo currículo para a rede, a SEESP considerou os materiais didáticos e os sistemas de avaliação como responsáveis e suficientes para a aprendizagem dos alunos e para o desenvolvimento das habilidades e competências necessárias.
(ibidem, p. 5)
Com isso, fica evidente nessa nova política estadual que o fornecimento de materiais didáticos para todo o Estado faz com que todas as escolas passem a estudar os mesmos conteúdos para, consequentemente, obterem melhores notas nas avaliações externas, sejam elas de níveis estadual e/ou federal, elevando, assim, o nível da qualidade do ensino.
De acordo com as informações fornecidas no próprio site do programa, a elaboração desse documento se deu com as contribuições dos educadores e coordenadores, baseados em suas experiências em sala de aula, o que contradiz um boletim lançado por APASE, APEOESP e CPP (2009), que afirma que a Proposta foi simplesmente entregue aos professores e determinada que se fosse colocada em prática. Essa informação é corroborada pelos estudos de Dias (2010) e Santos (2015). Outra crítica levantada por esses órgãos é a de que qualquer proposta para a melhoria educacional é bem vinda, mas a Proposta Curricular implementada pela SEE se deu desconsiderando as diferenças das comunidades escolares existentes no Estado, principalmente sem a avaliação daqueles que a aplicariam para possíveis sugestões e adequações.
Previamente à distribuição dos Cadernos e como uma forma de preparação para a implementação dessa Proposta, no início do ano letivo de 2008 foram distribuídos nas escolas o Jornal do Aluno e a Revista do Professor, a serem usados nos primeiros quarenta e dois dias letivos. Acreditou-se que esses materiais serviriam como um meio de recuperar conteúdos de língua portuguesa e matemática, e preparariam os alunos para receberem o novo material didático elaborado com base na Proposta Curricular desenvolvida.
Quanto à implantação do Jornal do Aluno e da Revista do Professor, Jacob (2008), ao estudar o ensino de gêneros textuais por meio da análise de suas atividades didáticas, encontrou falhas nestes materiais, pois, além de apresentar a mesma atividade para as três séries, o gênero textual era ensinado desvinculado de seu contexto de produção. Além disso, as atividades escritas não continham instruções suficientes para que os alunos produzissem os gêneros pedidos, que os faziam apenas com base em seus conhecimentos de mundo.
Meses depois do uso desses materiais, os professores da rede recebem os Cadernos do Professor baseados em sequências didáticas, nome dado às atividades de cada Situação de Aprendizagem (SÃO PAULO, 2011), com sugestões de trabalhos e complementos para o desenvolvimento dos conteúdos previstos, o que, segundo as informações do site da Rede do Saber, serviriam como um apoio significativo e seguro aos professores.
Outra medida tomada foi a vinculação da Proposta Curricular ao SARESP, avaliação externa que acontece desde 1996, a fim de servir como base de ações políticas de gestão da Secretaria da Educação. Nessa prova, foram incluídas também as mesmas habilidades e medidas da Prova Brasil e do SAEB, consolidando, assim, esse instrumento aos meios nacionais e internacionais. Quanto aos professores, esses passaram a receber bonificações de acordo com as notas obtidas pelos alunos no SARESP e tiveram determinados aumentos salariais vinculados ao sistema de meritocracia.
Dessa forma, em 2009, de acordo com o site da SEESP, como uma maneira de facilitar o trabalho dos professores e a aprendizagem dos alunos, passam a ser distribuídos por séries/disciplinas/bimestres os Cadernos dos Alunos – materiais consumíveis em que as habilidades dos Currículos são desenvolvidas. Nesse mesmo ano, a avaliação do SARESP atrela-se completamente à Proposta e, dos resultados gerados, surgiram ações, como a formação continuada para capacitação de professores para o trabalho com o Currículo.
A partir de 2010, essas propostas de melhoria educacional passam a ser consideradas consolidadas por meio de um Currículo, ou melhor, de todo um sistema, que visa a uma Educação de qualidade, à valorização do conhecimento e ao privilégio das capacidades do aprender. Dessa consolidação, surgem também materiais voltados para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), Cadernos do Professor de Leitura e Produção de textos para o Ensino Fundamental, Cadernos do Professor de Literatura para os professores do Ensino Médio e o site ‘São Paulo faz escola’, com um acervo de vídeos e documentos relacionados a todo o processo de implementação e funcionamento da Proposta Curricular. Em 2011, os Cadernos dos Alunos foram atualizados e, como mencionado, a partir de 2014, houve uma alteração na quantidade de volumes disponibilizados aos alunos.
É importante destacar que os alunos da rede pública também recebem os livros didáticos distribuídos pelo PNLD, porém, o foco do ensino deve se dar prioritariamente por meio dos Cadernos distribuídos. Essa informação vem da nossa presença na rede pública estadual, na qual periodicamente recebemos a visita do coordenador escolar em nossas aulas, verificando o trabalho feito em sala de aula e questionando qual Situação de Aprendizagem está sendo abordada ou a qual Situação o conteúdo abordado se relaciona. Essas informações são registradas em um documento assinado ao final de cada observação, denominado de ‘Pauta de
Observação de Aula’21. Quanto ao PNLD, participamos da escolha dos livros para o ano de 2015 e no final do ano de 2013. Destacamos que Fernandez (2014), ao analisar o manual do professor de quatro obras do PNLD dos anos de 2011 e 2014, também destaca o recebimento desses materiais pelos alunos da rede pública de São Paulo.
Faz-se necessário apontar que essas medidas educacionais iniciaram-se sob o mandato do Governador José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), tendo como Secretária da Educação a professora e socióloga Maria Helena Guimarães de Castro, que permaneceu em seu cargo até 2009, sendo substituída pelo ex-Ministro da Educação do governo de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato de Souza. Com a eleição do atual governador Geraldo Alckmin em 2010, a Secretaria da Educação foi assumida pelo ex-reitor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Herman Voorwald. Governador e, consequentemente, Secretário da Educação tiveram seus mandatos prorrogados pelo período de 2015-2018.
Da contextualização apresentada, concluímos que, para se adequar às medidas impostas pelas agências financiadoras, tanto o país como um todo, quanto o Estado de São Paulo atenderam às exigências impostas, sendo uma delas a distribuição de materiais didáticos que colaborassem para a formação de alunos/mão-de-obra, de modo a atender às expectativas do mercado de trabalho, cada vez mais crescente e exigente de novos conhecimentos e habilidades. Não nos posicionamos contra à distribuição de materiais didáticos voltados para a formação para o mercado de trabalho, visto que se faz importante fornecer subsídios aos alunos que podem ser aplicados fora da sala de aula e não apenas o ensino de questões teóricas e conteúdistas. Nossa crítica se volta para o sistema de ensino atrelado à preparação dos alunos
21 A Pauta de Observação de Aula foi implementada, na Diretoria de Ensino em que atuamos, como parte do curso ‘Melhor Gestão Melhor Ensino’, promovido pela Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores (EFAP) em 2013. Esse documento é a forma de verificação de que a tríade Proposta Curricular, Caderno do Professor e Caderno do Aluno está sendo cumprida como garantia do desenvolvimento do Currículo.
para provas que geram índices, que consequentemente geram investimentos e bonificação aos docentes.
As seções seguintes apresentam as análises da Proposta Curricular, do Currículo de LI e dos Cadernos do Professor, para podermos compreender a materialização dos conceitos neles apresentados nas atividades dos Cadernos do Aluno de LI do EM. Uma análise desses Cadernos também será apresentada, de modo a compreendermos como eles se estruturam.