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II. BÖLÜM

2. KÜTAHYA SANCAĞI’NDA BULUNAN MEDRESELER

2.4. SİMAV KAZASI’NDA BULUNAN MEDRESELER

A concepção de mídia pública como aparelho de Estado está ancorada na tradição marxista, baseando sua conceituação nos traços que constituem a instituição Estado no capitalismo e a função desempenhada pelo mesmo na dinâmica conflitante que permeia o desenvolvimento desse sistema social, ou seja, a luta de classes (VALENTE, 2009a).

80 O teórico italiano Antonio Gramsci, ao formular uma teoria acerca do Estado capitalista, preocupa-se em esclarecer a natureza deste Estado, fazendo isso sob a luz do fracasso da Revolução Socialista no ocidente. Ao elaborá-la Gramsci propõe a formulação de um Estado Ampliado, ou seja, composto pela sociedade política e sociedade civil. Esta última compreende o plano da superestrutura35 (ideias, costumes, comportamentos morais, culturais).

Neste sentido, o Estado enquanto sociedade política36 detém o monopólio da força.

Nas próprias palavras de Gramsci (2000), a sociedade política se constitui como “aparelho de coerção estatal que assegura legalmente a disciplina dos grupos que não consentem, nem ativa, nem passivamente, mas que é constituído para a toda a sociedade, na previsão dos momentos de crise no comando e na direção” (GRAMSCI, 2000, p.21). Já a sociedade civil compreende o âmbito das ideias, comportamentos e instituições, designando o conjunto de instituições responsáveis pela elaboração e propagação de ideologias enquanto concepções de mundo (MORAES, 2010).

A sociedade civil, na ótica gramsciana, engloba as ideologias que circulam pelo real histórico buscando fixar sua potencia, isto é, firmar a sua capacidade de condensar e expressar concepções de mundo com vistas à sua realização histórica. Assim concebida, a sociedade civil se credencia como espaço de hegemonia (MORAES, 2010, p.58)37.

A partir desta perspectiva, nota-se que, para Gramsci (2000), o Estado capitalista não é só força, mas também um conjunto de instituições, organismos e ideias que organizam a reprodução do sistema.

O Estado, em Gramsci, é caracterizado por três elementos principais:

(a) reúne a superestrutura do bloco histórico, tanto intelectual e moral quanto política; (b) se constitui a partir de um equilíbrio interno entre esses dois elementos da superestrutura; (c) enfim, e sobretudo, a unidade do Estado decorre de sua gestão por um grupo social que assegura a homogeneidade do bloco histórico: os intelectuais (PORTELLI apud VALENTE, 2008, p.127). No Estado se dá a disputa ideológica entre as classes antagônicas. Nessa perspectiva, uma de suas funções é construir o consenso entre essas classes. Segundo Gramsci (2000), “o

35 Desse modo, observa-se que o autor vai contra a visão marxista determinista da história, ou seja, a revolução não aconteceu por causa dessa superestrutura, visto que o capitalismo além de suas contradições está arraigado culturamente.

36 Conjunto de mecanismos através dos quais a classe dominante detém o monopólio legal da repressão e violência, e que se identifica com os aparelhos de coerção sob controle do grupo burocráticos unidos às forças armadas e policiais e à aplicação das leis (MORAES, 2010, p.57).

37 Para Gramsci o conceito de hegemonia está ligado à força e consenso. Assim, o Estado Capitalista é hegemônico por não ser só força, mas também por possuir o consenso de todos na sociedade.

81 Estado tem e pede o consenso, mas também educa este consenso através das associações políticas e sindicais, que, porém, são organismos privados” (GRAMSCI, 2000, p.119). Os aparelhos de hegemonia atuam como difusores e sustentáculos de determinadas concepções particulares do mundo, que têm o intuito de se legitimarem na sociedade civil.

O Estado, ao buscar consenso, opera como um instrumento de difusão e produção destas visões resultantes destes desequilíbrios instáveis. Quando as classes dominantes não conseguem obter consensos junto às classes dominadas, o Estado busca criar uma opinião pública “adequada”, desafio que tenta ser superado através de uma luta pelo monopólio dos órgãos de opinião pública, dentre os quais os meios de comunicação (VALENTE, 2008).

O Estado, dizia Gramsci, é sempre uma combinação de hegemonia e coerção. “O exercício normal da hegemonia, no terreno tornado clássico do regime parlamentar – escreverá –, caracteriza-se pela combinação da força e do consenso, que se equilibram de modo variado sem que a força suplante muito o consenso, mas, ao contrário, tentando fazer com que a força pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos chamados órgãos de opinião pública” (NOGUEIRA, 2003, p.190)

Para Valente (2008), essa luta está na origem da constituição dos veículos de comunicação públicos, destacando-se a televisão europeia, que se estabeleceu no cenário de consolidação do capitalismo monopolista numa demanda cada vez maior para a intervenção estatal. A contribuição dada por Gramsci reside no fato de poder identificar bases e funções gerais que cumprem na sociedade os instrumentos de produção e difusão de ideologia do Estado, dentre eles, os veículos de mídia e emissoras de televisão.

Neste caso a televisão pública é entendida como um aparelho do Estado que possui uma materialidade institucional na sua concretização enquanto sistema de emissoras as quais ofertam um serviço à população. Ao designar a produção e gestão das programações distribuídas por plataformas tecnológicas diretamente pelo Estado, a televisão pública acaba sendo a expressão deste último num processo que vai muito além da programação veiculada, envolvendo desde o arcabouço jurídico-institucional que molda o aparelho, passando também pela operação de sua gestão e chegando até o produto veiculado e sua repercussão para com a população (VALENTE, 2008).

Os meios de comunicação públicos seriam então, aparelhos estatais que existem para garantir os interesses gerais do Estado, visto aí como capitalista coletivo ideal, na indústria cultural, cumprindo primordialmente a função de propaganda na construção de “consenso” a partir da tensão dialética entre posições hegemônicas no âmbito do aparelho e as demandas do público a quem se dirige. Além dessa dimensão ideológica, a mídia pública também seria um agente na concorrência da indústria cultural, dependendo de

82 recursos para que tenha êxito na disputa pela atenção do público (VALENTE, 2009a, p.41).

3.2. Construção de um sistema público de radiodifusão brasileiro?