lher, Sobre Mulher e Violência. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1985, volume 4, p. 65.
6 Organização das Nações Unidas: Las Naciones Unidas y la sociedad civil. Sociedad civil. Se refi ere a las
asociaciones de ciudadanos (distintos de sus familias, amigos y negocios) que éstos integran voluntariamente con el fi n de promover sus intereses, ideas e ideologías. El término no incluye actividades con fi nes de lucro (el sector privado) o de gobierno (el sector público). Son de especial relevancia para las Naciones Unidas las organizaciones de masas (como las organizaciones de campesinos, mujeres o jubilados), los sindicatos, las asociaciones de profesionales, los movimientos sociales, las organizaciones de pueblos indígenas, las organiza- ciones religiosas y espirituales, el mundo académico y las organizaciones no gubernamentales que benefi cian al
mente relacionada ao sujeito feminino, visto com os atributos que lhe foram historicamente designados pela cultura.
2.1. Desenvolvimento histórico
O movimento de mulheres no Brasil teve atuação de realce no processo político de redemocratização do país, algumas expressões7 dele coparticipando, de for- ma incisiva, da luta para exaurir a ação militar, que determinava rumos à nação desde o golpe ocorrido em 31 de março de 1964.
Às atividades realizadas naquele momento histórico, iniciadas notadamente no período da abertura democrática8, esta muito incipiente no governo Geisel e mais visível no governo Figueiredo, somaram-se alguns modos de repensar as formas de reação social à opressão política instaurada, além de refl exões relacio- nadas à condição feminina e à posição da mulher na sociedade, tanto na esfera pública quanto na privada.
A redemocratização do Estado Brasileiro não resultou de ruptura da ordem vigente e sim de uma extensa, progressiva e exaustiva negociação entre as forças políticas estabelecidas e a sociedade civil.
A pressão interna por mudanças institucionais provinha, em grande in- tensidade, de distintos segmentos da sociedade civil. A explosão de demandas específi cas, em torno das quais se organizavam grupos da sociedade civil, recor- tou categorias sociais, exigindo o reconhecimento de novos sujeitos políticos e resposta às questões específi cas.
O movimento de mulheres contribuiu com parcela signifi cativa no esforço da sociedade civil nesse diálogo com o Estado que se reconstruía naquele mo- mento. Esforço em virtude da tensão que permeava o encontro após décadas de evitação recíproca, quando um não reconhecia o outro.
Adotou-se como estratégia a luta social, por reclamar do Estado políticas sociais correspondentes às novas demandas apresentadas por sujeitos coletivos, aquelas que tratavam de especifi cidades até então ignoradas por ele e que cons- tavam, com ênfase, em diversos documentos que circulavam nos fóruns políti- público. Disponível em http://daccessdds.un.org/doc/UNDOC/GEN/N04/376/44/PDF-/N0437644.
pdf?OpenElement. Acesso em: 3 de março de 2009.
7 O Movimento de Mulheres pela Anistia (no início da década de 80 o nome recebeu o acréscimo de Liberdades Democráticas) refl ete ação nesse sentido, como posto por VARGAS, Marluce Cardoso de. O
Movimento Feminino pela Anistia como partida para a redemocratização brasileira. Disponível em
http://www.eeh2008.anpuhrs.org.br/resources/content/anais/1212369464_ARQUIVO_trabalhocom- pletoanpuh.pdf. Acesso em: 27 de fevereiro de 2009.
8 Período que tem como marco a Lei n. 6683 (Lei da Anistia), aprovada pelo Congresso Nacional em 28 de agosto de 1979.
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cos, institucionalizados ou não. Ao examinar a questão feminista no Brasil, em particular no Rio de Janeiro, Raquel Soihet9, assim se expressa:
Na verdade, na década de 1980, os movimentos feministas no país tornavam- se uma força política e social consolidada, em que as relações de gênero assu- miram primeiro plano. Campanhas contra os abusos com relação às mulheres no que tange a temas até então ignorados como a violência física e simbólica, assim como a questão do aborto, merecem espaço cada vez mais amplo nos meios de comunicação, como resultado da mobilização das feministas e da própria modernização da sociedade brasileira. Assim, a partir desse momento, questões antes colocadas em segundo plano, vistas como próprias à esfera priva- da, tais como as relativas ao corpo, ao desejo, à sexualidade, à violência, foram legitimadas e trazidas à esfera pública, reconhecendo-se sua dimensão política. Parte-se para a afi rmação do universo cultural feminino e temas tabus são trazidos à tona, forçando o alargamento e democratização daquele espaço.
A assimetria de poder entre homem e mulher no cenário nacional da época foi então esquadrinhada, e, pouco depois, já com a vigência do pluripartidarismo, as mulheres, reunidas sob as mais diferentes expressões: autônomas, grupos de refl exão, representantes de organizações não-governamentais, instituições, sindicatos, e outras, consensuaram a forma suprapartidária de enfrentar a questão em favor da mulher.
Surge uma agenda política democrática que contempla a igualdade entre os sexos e fortalece os direitos civis. Inicia-se um entendimento com os diferentes atores políticos e sociais daquele período, busca-se ampliar o leque de alianças com representações de outros segmentos da sociedade civil, para suportar a in- terlocução pretendida com o Estado. Intensifi cou-se a luta social e colaborou-se com o redesenho do Estado.
Para tal ação, tornou-se necessário resgatar e debater amplamente, dentro do movimento e fora dele, abordagens doutrinárias relacionadas à posição da mulher na história e, a partir delas, com a evidência empírica e o saber acadê- mico, fi rmar a compreensão da violência estrutural como a causa que sustenta a desigualdade entre os sexos.
Inúmeras discussões, então, absorveram e pontifi caram como violência contra a mulher latu sensu aquela que se consubstancia na própria milenar po- sição de inferioridade do ser feminino na sociedade, imposta por inúmeras bar- reiras, no decorrer dos séculos. Acepção baseada em incontáveis estudos acerca da dominação e relações de poder, que serviu para formar o discurso reivindi-
catório de muitas representantes do movimento de mulheres, à época. Roger Garaudy10 assim se expressa sobre o tema:
Se tal é a “ordem masculina” que reina desde há milênios, o movimento de contestação das mulheres não pode ser apenas uma reivindicação que condu- za a uma mudança do estatuto das mulheres, mas a uma mutação radical do conjunto das relações sociais.
Trata-se de uma coisa completamente diferente da indispensável reivindica- ção da igualdade das mulheres, porque isso conduziria apenas à igualdade no interior de um sistema de dominação cujas estruturas foram colocadas pelos homens e os homens só.
São estas mesmas estruturas que o movimento de mulheres põe em causa. Segue na mesma linha Pierre Bourdieu,11 ao assinalar o risco de pensar o femi- nino a partir do olhar masculino, e, assim, alimentar a subalternidade referida:
Como estamos incluídos, como homem ou mulher no próprio objeto que nos esforçamos por apreender, incorporamos, sob a forma de esquemas incons- cientes, de percepção e de apreciação, as estruturas históricas da ordem mas- culina; arriscamo-nos, pois, a recorrer, para pensar a dominação masculina, a modos de pensamento que são eles próprios produto da dominação.
Depreende-se que as desigualdades presentes nas relações de gênero encon- tram-se embutidas nos sistemas de dominação, qualquer que seja o matiz ideológico que ostentem. Ao esmiuçar a assimetria de gênero, por suas múltiplas expressões, depara-se com as atribuições subjetivas constituintes de uma “coisa de mulher”, denominador comum há muito depreciado e persistente na sociedade contempo- rânea. Logo, para transformar a realidade sociopolítica desfavorável à mulher, é ne- cessário realizar o recorte de gênero, identifi car e aprofundar o conhecimento da engrenagem que sustenta a primazia masculina. Heleieth Saffi oti12 pontua:
A identidade social da mulher, assim como a do homem, é construída através da atribuição de distintos papéis que a sociedade espera ver cumpridos pelas diferentes categorias de sexo. A sociedade delimita, com bastante precisão,
10 GARAUDY, Roger. Para a Libertação da Mulher. Tradução: Manuel J. Palmeirim. Lisboa: Dom Qui- xote, 1981, p. 26-27.
11 BORDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. 4.ed. Tradução: Maria Helena Kuhner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p. 15.