O tratamento dos dados deste trabalho foi feito através da análise de conteúdo por meio de uma abordagem qualitativa.
Segundo Bardin (2010, p. 121) a análise de conteúdo pode ser organizada “em torno de
três polos cronológicos: a pré-análise; a exploração de material; tratamento dos resultados,
inferência e a interpretação”. Conforme a mesma autora, a pré-análise é a fase da organização, “é o período de intuições, mas tem por objetivo tornar operacionais e sistematizar as ideias
iniciais, de maneira a conduzir a um esquema preciso do desenvolvimento de operações
sucessivas, num plano de análise” (BARDIN, 2010, p.121). Nesta fase é realizada a leitura
inicial do material coletado, eles são escolhidos e preparados para análise (GIL, 1999). A
segunda fase “refere-se fundamentalmente às tarefas de codificação, envolvendo recorte
(escolha das unidades), a enumeração (escolha das regras de contagem) e a classificação
(escolha da categoria)”. Já a terceira e última fase, do tratamento dos dados, interferência e interpretação “objetivam tornar os dados válidos e significativos” (GIL, 1999, p. 165).
Assim, neste trabalho a primeira fase da análise de conteúdo correspondeu à releitura de todo o referencial teórico para extrair dele os conceitos considerados centrais para análise dos dados. Isso ocorreu para que o autor, após escutar as entrevistas, reler os documentos e as anotações oriundas das observações participantes, pudesse identificar as partes das respostas que se mostravam mais relevantes e que estavam dentro do que se pretendia com a pergunta, ou seja, aquelas partes que não se afastaram do que interessa a esta pesquisa.
A segunda fase da análise de conteúdo envolve a categorização e esta é definida por
Bardin (2010) como uma “operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação” e ainda explica que “as categorias são rubricas ou classes, as
quais reúnem um grupo de elementos sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em
Para tornar claro e compreensivo o processo de análise faz-se necessária a definição desses termos e identificar como serão aplicados a esta pesquisa. De acordo com Triviños (1992), a definição constitutiva tem por finalidade tornar mais clara definições muito gerais e a definição operacional tem como objetivo expressar de forma prática a teoria. Já segundo Vieira (2004, p.19), a definição constitutiva refere-se “ao conceito dado por algum autor da
variável ou termo que se vai utilizar”, enquanto que a definição operacional diz respeito ao “termo ou variável que será identificado, verificado ou medido, na realidade”. É importante
mencionar, entretanto, que as categorias de análise que seguem abaixo foram complementadas por outras categorias que surgiram em decorrência do processo da pesquisa de campo. As principais categorias definidas a priori no presente trabalho, portanto, são:
Campo da Comunicação
DC: Um campo é um espaço social em que se encontram diversos agentes, os quais ocupam posições relativas segundo o conjunto de propriedades específicas que possuem e que são denominados como capitais. (BOURDIEU, 1989). Já o termo campo da comunicação é definido no presente trabalho com base em trabalho s desenvolvidos por Moraes (2010) em que a comunicação é pensada como um espaço em que se encontram diferentes atores, tais como corporações nacionais e transnacionais de mídia e movimentos sociais e comunitários. Para Moraes (2010), a comunicação atualmente pode ser pensada a partir de duas vertentes: a comunicação de massa e a comunicação em rede. Enquanto a primeira encontra-se dominada por corporações nacionais e transnacionais que detêm os grandes veículos de comunicação, a última surgiu em função das novas tecnologias de informação e comunicação e, também, pelas diferentes formas de apropriação social dessas tecnologias, especialmente por parte da sociedade civil organizada.
DO: O termo campo da comunicação é operacionalizado como um espaço dentro do qual grupos de agentes diversos vinculados a veículos de comunicação de massa e veículos de comunicação em rede disputam distintos recursos de poder como forma de manter ou subverter a ordem dominante que rege o campo. No caso do presente trabalho, o foco está na chamada blogosfera política alternativa (vinculada à comunicação em rede), em que um movimento social organizado, o BlogProg, foi criado com o intuito de lutar por um marco regulatório que democratize o campo da comunicação no Brasil.
Ciberativismo
DC: É um conjunto de práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas, principalmente na Internet (SILVEIRA, 2010).
DO: O termo ciberativismo será aqui operacionalizado por meio da identificação e seleção de indivíduos, grupos e organizações que, no âmbito da Internet, lancem mão de práticas em defesa de causas políticas e que ao mesmo tempo se contraponham às práticas tradicionais de produção e distribuição de informações características das organizações dominantes de mídia. Serão considerados como ciberativistas o conjunto de indivíduos, grupos e organizações que se identifiquem e se reconheçam explicitamente como tal e que tenham o propósito claro de: a) produzir, distribuir ou difundir informações de natureza política que se contraponham àquelas produzidas e distribuídas pelas primeiras; b) que queiram subverter os processos de produção, distribuição e divulgação de informações tradicionalmente praticados pelas organizações tradicionais de mídia; e c) que defendam a bandeira da democratização da comunicação no contexto brasileiro.
Relações de Poder
DC: A estrutura social possui um caráter relacional e pode ser concebida como sendo um espaço marcado pela diferenciação ou hierarquização existente entre diferentes grupos que o constitui. A localização ou posicionamento dos diferentes indivíduos, grupos ou organizações no âmbito de qualquer estrutura social ocorre em função da distribuição desigual dos recursos de poder valiosos e legitimados no âmbito desse espaço, que podem ser de natureza econômico- financeira ou econômica, tecnológica, cultural ou simbólica. Assim, a pos ição privilegiada ou não-privilegiada de indivíduos, grupos ou organizações no campo varia de acordo com o volume e a composição de um ou mais capitais por eles adquiridos ao longo de suas trajetórias, podendo tais recursos existir em estado objetivado ou estado incorporado. Já a diferenciação das posições entre os diferentes grupos no campo, que varia conforme os recursos que eles detêm, estão diretamente relacionados ao habitus, ou sistemas de disposições adquiridos e internalizados por esses agentes em s uas diferentes trajetórias. Nesse sentido, as relações de poder existentes no campo estão diretamente relacionadas à posse dos diferentes recursos de poder reconhecidos como valiosos em um campo, o que leva os agentes sociais a adquirirem uma posição de do minantes ou dominados e que acarreta os conflitos e jogos de poder no âmbito desse espaço (BOURDIEU, 1989a).
DO: o termo relações de poder será operacionalizado por meio da identificação dos principais tipos de capitais que são importantes dentro do campo da mídia no Brasil e que conferem aos indivíduos, grupos e organizações que atuam nesse espaço um melhor posicionamento em sua hierarquia. Dessa forma, serão analisados quais são os principais recursos de poder detidos pelos indivíduos, grupos e organizações considerados como blogueiros e ciberativistas, bem como as posições relativas que eles ocuparam ao longo da formação do campo e, por fim, o habitus a eles associados que orienta suas escolhas, tomadas de decisão e estratégias no campo. Ainda, a operacionalização das relações de poder será feita por meio da identificação dos principais conflitos que foram gerados a partir do aparecimento dos movimentos políticos de ciberativismo e das principais estratégias implementadas pelos diferentes agentes pertencentes ao campo da mídia alternativa no Brasil com o intuito de subverter as práticas tradicionais implementadas pelas organizações de mídia tradicionais. Tal ordem diz respeito aos processos de produção, distribuição e divulgação de informações e, também, relaciona-se à luta pela democratização da informação no país.
Estratégias de subversão
DC: As estratégias de subversão são “colocações infinitamente mais custosas e mais
arriscadas, que não podem assegurar os benefícios prometidos aos detentores do monopólio da legitimidade [...], se não ao preço de uma redefinição completa dos princípios de legitimação da dominação" (BOURDIEU, 1976, p. 97 apud MIZOCSKY e AMANTINO-DE- ANDRADE, 2005, P.238).
DO: As estratégias de subversão são consideradas, no presente trabalho, como um
conjunto de práticas implementadas consciente ou inconscientemente pelos agentes pertencentes à blogosfera política alternativa e que visam desafiar a ordem dominante imposta pelas grandes organizações de mídia presentes no campo da comunicação.
É importante ressaltar que, ao final do processo de coleta de dados, chegou-se à conclusão de que as estratégias de subversão implementadas pelos agentes do campo poderiam ser agrupadas em micropráticas ou macropráticas, dependendo do grupo dentro do qual os agentes subversivos pertenciam. Assim, as micropráticas foram aquelas ações adotadas por diversos militantes que, individualmente e coletivamente, atuam na blogosfera política alternativa. Já as macropráticas foram consideradas como ações implementadas mais especificamente pelos agentes pertencentes ao Movimento de Blogueiros Progressistas (BlogProg) que, de forma organizada, empreendem uma luta mais consciente para modificar a ordem do campo da comunicação.
Ao longo do processo de coleta de dados, além das categorias acima definidas à priori, emergiram diversas subcategorias relacionadas às diferentes estratégias de subversão adotadas pelos agentes do campo, ou seja, os esforços de se tentar subverter a ordem que rege o espaço social aqui analisado. Essas subcategorias acabaram por estar vinculadas a aspectos organizacionais do próprio movimento, sendo possível ao final afirmar que a implementação de práticas organizacionais alternativas aos da mídia tradicional se constituem em um tipo específico de estratégias de subversão. Dessa forma, as subcategorias de análise foram, definidas conforme ilustrado no quadro 4 abaixo:
Quadro 4: Subcategorias de análise que emergiram no campo
Dados do Campo Subcategorias de Análise Emergentes do Campo
Métodos por meio dos quais as informações são transmitidas entre os diferentes grupos de agentes Características do modelo de comunicação
adotado Práticas de Co municação
Formas de influência verificadas Refe rências do Movimento Rotinas internas
Papel do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé
Controle das atividades
Papel das Comissões nacionais e estaduais Como se tomam as decisões nas assembléias Representantes dos estados nas assembléias
Organização das Atividades , participação e Tomada de Decisões
Financiamento das atividades do movimento
Financiamento dos blogs analisados Financia mento Fonte : Elaborado pelo autor