• Sonuç bulunamadı

1. Dönemin Radyo Dergileri Yayın Bilgileri

1.1 Ses Radyo Film ve Gramofon Mecmuası Dergi No:1

1.1.5 Ses Radyo Film ve Gramofon Mecmuası Dergi No:8

A transformação do nosso regime político de Império para República, em que pese todas as expectativas que existiam naquele período, acabou por se revelar também pouco substantiva do ponto de vista das possibilidades de ação política e do combate à corrupção. Pouco se pode destacar de efetivo nestes aspectos. Talvez as mudanças mais substanciais sejam a separação da Igreja do Estado e a ampla liberdade religiosa a partir de então, e ainda a ampliação dos poderes – legislativos e tributários - dos Estados, num processo ainda tênue de descentralização. Os poderes públicos continuavam dominados pelas elites e seus interesses, e a descentralização serviu, na verdade, para “democratizar” o acesso das elites estaduais ao poder local. O aparato político e social do País continuava a negar igualdade de direitos e a erigir privilégios. Em que pese a igualdade de todos

perante a lei. Continuávamos, na prática, sendo um País onde uns eram mais iguais do que outros.

Ademais, no que diz respeito às mudanças econômicas e sociais, e seus impactos, devemos ser parcimoniosos, pois, como destacam João Luis Fragoso (1990, p. 187)

Se é certo que a República surge em meio a modificações econômico- sociais, deve-se, contudo, ter-se cautela quanto à sua profundidade estrutura. Nunca é demais recordar que o fim do trabalho escravo não significou o aparecimento de relações capitalistas de produção no campo e que a estrutura agrária continuaria a ter a hegemonia de relações não- capitalistas. Da mesma maneira, tal mudança não representou um deslocamento das oligarquias rurais do poder, que continuava nas mãos dos grupos agrários. Por outro lado, apesar de um certo crescimento urbano e industrial (com as suas respectivas classes sociais), este ainda era incipiente [...].

No período inicial da República, conhecido como Primeira República (1889 – 1930) ou República dos Coronéis, ocorrem, de maneira continuada e crescente, movimentos mais significativos de luta pela criação e/ou extensão dos direitos de cidadania, no campo dos direitos políticos, sociais e civis.

Em que pese os parcos resultados obtidos naquele momento, esses movimentos, que incluíam, entre outros, mulheres lutando pelo direito ao voto, operários defendendo legislação social e trabalhista e até militares oriundos de setores da classe média exigindo reformas políticas e econômicas na época, tidas como revolucionárias, preparam, digamos assim, as bases para as transformações que marcariam o Brasil a partir de então.

O tenentismo é um dos movimentos que marcam essa luta pela transformação do Brasil e, especialmente, contra o status quo político corrupto então predominante. Os tenentes nunca chegaram, naquele momento, a apresentar um programa político consistente, mas suas diversas declarações, manifestos e entrevistas, entre outros documentos, apresentam as ideias centrais pelas quais propugnavam e que caracterizam a luta contra a corrupção que – podemos dizer na visão deles – o sistema oligárquico institucionalizava. A sua principal bandeira, com toda a certeza, era a derrubada da oligarquia e a defesa do voto secreto e da justiça eleitoral independente, mas pediam também, sinal dos tempos de início da crise do

liberalismo político mundial, a nacionalização do subsolo, uma política industrial ativa; medidas como: férias, seguro contra acidentes de trabalho, proteção à mulher e às crianças, aposentadoria e, ainda, a educação obrigatória (IGLESIAS, 1993). Tenentes que, como destaca Darcy Ribeiro, além de várias medidas, já pediam a punição aos corruptos, por meio de uma declaração de princípios lançada em 1926 onde afirmam que

Somos contra: os impostos exorbitantes, a incompetência administrativa, a falta de justiça, a mentira do voto, o amordaçamento da imprensa, as perseguições políticas, o desrespeito à autonomia dos estados, a falta de legislação social, o estado de sítio. Somos a favor: do ensino primário gratuito, da instrução profissionalizante e técnica, da liberdade de pensamento, da unificação e autonomia da justiça, da reforma da lei eleitoral e do fisco, do voto secreto obrigatório, da liberdade sindical, do castigo aos defraudadores do patrimônio do povo e aos políticos corruptos e do auxílio estatal às forças econômicas (RIBEIRO, 1985, p.79).

Logicamente, esses grupos não aparecem do nada, são resultados do processo de industrialização-urbanização-modernização que o País vive. São resultados de influências político-ideológico-culturais que varrem o mundo e chegam ao País. Entretanto, aqui não é o lugar para tratarmos desse processo. Fica o registro para não passarmos sem menção a esses que são processos centrais de definição do Brasil moderno.

Pensar a Primeira República e a sua relação com a corrupção exige uma discussão sobre o funcionamento do sistema político e eleitoral, como estrutura fundamental de poder naquele momento de nossa história. Segundo Hebe Mattos (2012, p. 105):

Os atores privilegiados do jogo político oligárquico estiveram longe de responderem sozinhos pelo processo político que se seguiu. Se a política dos estados garantiu, em certa medida, a formalização da fraude, isso nunca foi totalmente assumido como desejável – as eleições eram um rito necessário, como a homenagem que o vício presta à virtude. Além disso, o equilíbrio interoligárquico era bastante fluido, abrindo brechas que muitas vezes emprestavam novos sentidos às disputas eleitorais, fossem locais ou nacionais.

A autora continua e faz importante discussão sobre as eleições locais, o coronelismo e a obra clássica de Leal (1997), Coronelismo, enxada e voto. Segundo ela:

eleições locais na Primeira República, mas comumente compreendidas a partir da ideia do pacto coronelista. Segundo o livro clássico de Victor Nunes Leal, Coronelismo, enxada e voto, o pacto coronelista se caracterizaria como a forma política do mandonismo local num contexto de relativo enfraquecimento do poder privado dos potentados locais, diretamente ligado à abolição da escravidão e à queda da monarquia. O pacto se resumiria na troca do voto popular, supostamente controlado pelos potentados locais, por empregos e verbas públicas no município – que se tornariam a base do poder de controle dos eleitores pelo “coronel republicano. O argumento parte do princípio do controle absoluto do chefe político local sobre o voto das populações rurais, por um lado, e, por outro, da importância desse controle como moeda política. Desde sua publicação em 1949, o trabalho foi alvo de muitas críticas. Se a grande maioria da população não votava e os resultados eleitorais eram decididos pelas comissões de verificação de poderes, qual seria o sentido do pacto? Em outras palavras, qual a importância das eleições no contexto de fraude eleitoral que a política dos estados aparentemente institucionalizava? (MATTOS, 2012, p. 105).

O trabalho de Leal (1997), conforme destacado tanto por aqueles que concordam como por aqueles que discordam da tese central do autor, é um clássico. Como destacou Carvalho (1999), o controle dos eleitores era um elemento chave do sistema político na Primeira República. Era ele que definia as disputas entre os diversos coronéis. Muitas vezes essas lutas entre os líderes políticos – locais ou estaduais – tomavam a forma de pequenas guerras civis. Era nos municípios que se localizavam e se definiam as disputas pelos interesses em jogo, a luta pelos recursos públicos à disposição daquele que fosse mais ousado, aguerrido, até mesmo violento. Com a criação das prefeituras, centralizando os recursos e boa parte do poder decisório, em oposição ao sistema mais diversificado e descentralizado das câmaras municipais, que acontece no início do período republicano, ocorreu uma ampliação da tensão política entre as elites locais (MATTOS, 2012).

A discussão sobre a importância das eleições para a manutenção do poder político dos coronéis e das possibilidades de se utilizar do aparelho de Estado e, claro, de seus recursos, continua sendo feita por Mattos (2012, p. 107):

Num contexto em que a guerra civil nunca deixou de estar no horizonte, as eleições ocupavam um papel sem dúvida central como possibilidade de regulação das disputas entre os coronéis. Mas elas eram ainda mais que isso. Os votos que se disputavam não eram, na maioria dos casos, o dos camponeses analfabetos e despidos de vontade própria imaginados por Victor Nunes Leal, conforme pioneiramente ressaltou a historiadora Ana Lugão Rios. Por um lado, porque estes simplesmente não votavam e, por outro, porque estavam muito longe de ser os atores políticos despidos de vontade imaginados pelo autor. Ao contrário, o coronel republicano, enfraquecido com a perda da autoridade senhorial após a Abolição,

precisava agora do poder de administrar as benesses e o poder repressivo do Estado, não apenas para atrair eleitores, mas também para conseguir trabalhadores e garantir a fidelidade daqueles que ficavam à margem do direito de voto e da cidadania política.

Anselmo Laghi Laranja (2006, p. 73) apresenta uma discussão complementar e importante ao afirmar que:

[…] cabe, a essa altura, uma análise conceitual, no que diz respeito ao relacionamento entre o coronel e os oligarcas. Edgar Carone (1978) afirma que, ao sentido de oligarquia enquanto governo cuja autoridade está nas mãos de poucos, o Brasil agregou uma especificidade a mais: a do governo baseado na estrutura familiar patriarcal. Tendo se originado no Império, as oligarquias adquiriram maior estabilidade na República, em razão do federalismo e do coronelismo. Na realidade, o oligarca é um coronel como outro qualquer, apenas se diferenciando pela escala política: o simples coronel atua no âmbito particular, enquanto o oligarca é um coronel que atua no âmbito geral, estadual. [...]. Por isso, as eleições para o Poder Legislativo, por exemplo, passaram a ser realizadas sob um esquema eleitoral marcado por fraudes e desmandos, uma vez que os chefes políticos locais, os coronéis, eram os responsáveis pela qualificação dos eleitores, pela tomada e apuração dos votos, e ainda, influenciavam na composição das comissões de alistamento e mesas eleitorais.

A força das oligarquias estaduais e dos potentados locais é reconhecida como decisiva para o jogo político e a manutenção do poder. Tudo isso garantido pelo sistema eleitoral implantado pela legislação da Primeira República. Como destaca Maria do Carmo Campello de Souza (1987, p. 185):

A força de uma oligarquia estadual advinda do controle exercido sobre os grandes coronéis municipais, condutores da massa eleitoral incapacitada e impotente para participar do processo político que lhes fora aberto com o regime representativo imposto pela Constituição de 1891.

No que tange a participação dos cidadãos nos processos eleitorais, cumpre não superestimar o seu quantitativo. Em que pese, ainda, a falta de pesquisas que apontem dados de eleições locais e regionais para todo o País, no que diz respeito às eleições presidenciais, podemos verificar uma presença bastante reduzida. Para além das restrições fundamentais que herdou da legislação imperial, proibição de voto dos analfabetos e das mulheres, entre outras, em que pese ter acabado com a necessidade de renda para exercício do voto, a República com o seu sistema de partidos estaduais e de pouquíssima, ou nenhuma, competição eleitoral, acaba por desestimular ainda mais a participação dos eleitores. Os dados são inequívocos e têm por fonte os anuários estatísticos. Em 1894, votavam 2,2% da população total;

em 1906, foram 1,4%; já no ano de 1910, o total foi de 2,7%; 2,9% nas eleições de 1922; e 5,6% nas disputadas eleições de 1930 (CARVALHO, 2011).

A legislação eleitoral, especialmente a aprovada em 1904, facilitava o controle dos eleitores por parte dos coronéis, pois como destaca Letícia Bicalho Canêdo (2003, p. 534), “[...] o eleitor apresentava duas cédulas que deveriam ser assinadas perante a mesa eleitoral. Uma delas era depositada na urna e a outra ficava em seu poder”. Podendo, assim, o líder político conferir o voto dado, controlando, por certo, para as eventuais reprimendas ou benesses que seriam distribuídas

Chama a atenção, nesse período, para os fins a que se prestavam o controle do voto e, portanto, das eleições, que ao garantir o poder, garantiam as suas benesses. O voto, quanto mais pudesse controlar um coronel, era arma de barganha política. A eleição era uma “simples” comprovação do poder político do coronel, era usada, portanto, para garantir a sua permanência ou ascensão ao poder. Vergonhoso não era manipular os processos eleitorais, mas sim ser derrotado. Vencer, a qualquer preço, esse sim, podemos dizer, era um mote político do período (LARANJA, 2006). Como destaca Leal, ao apontar a importância dos favores pessoais nos processos eleitorais e como isso era encarado com naturalidade, mesmo que causasse inúmeros problemas.

[...]. Há ainda os favores pessoais de toda ordem, desde arranjar emprego público até os mínimos obséquios. É neste capítulo que se manifesta o paternalismo, com a sua recíproca: negar pão e água ao adversário. Para favorecer os amigos, o chefe local resvala muitas vezes para a zona confusa que medeia entre o legal e o ilícito, ou penetra em cheio no domínio da delinquência, mas a solidariedade partidária passa sobre todos os pecados uma esponja regeneradora. A definitiva reabilitação virá com a vitória eleitoral. [...]. Por isso mesmo, o filhotismo tanto contribui para desorganizar a administração municipal (LEAL, 1997, p. 60).

Assentado num sistema de trocas de favores e reciprocidades, o coronelismo atribuía ao seu chefe local a responsabilidade por todas as despesas com as eleições. Com isso, ele garantia o acesso à indicação dos empregos públicos, locais ou regionais, e várias outras formas de direcionamento do poder estatal para seus interesses particulares. A confusão – proposital – podemos dizer, entre o público e o privado, revelava-se continuamente. Era uma cultura política em que só se chegava

ao poder quem participasse da máquina estatal montada a partir dos coronéis, o que por certo permitia a prática de favores concedidos pelo Estado, reforçando o clientelismo (LARANJA, 2006).

Enfim, pode-se claramente destacar que essa relação entre o público e o privado, expresso no pacto coronelista e no controle que o mesmo tinha das eleições e do poder político permitia aos oligarcas arrancar dos poderes públicos os seus benefícios privados. Por óbvio, parte desses benefícios, mesmo que menor, tinham que ser distribuídos aos grupos dominados para que o sistema continuasse, dentro da perspectiva dos dominantes, a produzir os seus frutos.

2.3.2 A Segunda República (1930 - 1964): os dilemas se apresentam