1. Dönemin Radyo Dergileri Yayın Bilgileri
1.1 Ses Radyo Film ve Gramofon Mecmuası Dergi No:1
1.1.4 Ses Radyo Film ve Gramofon Mecmuası Dergi No:7
descrito. Em que pese o fato de que avançamos na construção de um sistema político próprio, necessário, por óbvio, para a gestão de nossa situação de independência, o exercício da ação política tinha sérias restrições. Aqui não destaco, porque na verdade algo presente na conjuntura política internacional do período, a discriminação da mulher, a ausência do voto feminino e do voto dos escravos. Falo da restrição do voto por renda que excluía a maior parte da população masculina adulta: o chamado voto censitário. Apesar do voto do analfabeto ser permitido até quase o final do império em 1881, quando tivemos reforma significativa da Lei Eleitoral que, se por um lado, implantou o voto direto, por outro reduziu ainda mais o conjunto dos votantes ao impedir o voto dos analfabetos. Vale ainda dizer que a fraude e o suborno marcavam, como amplamente documentado, os processos eleitorais. Características essas que, junto com o uso da violência estarão presentes em todos os pleitos brasileiros por ainda muito tempo de nossa República.
Como destaca Lilia Moritz Schwarcz (1998, p. 118) sobre a exclusividade da participação nas estruturas de poder “[...] também o exercício da política era para poucos: no Segundo Reinado, um grupo bastante especial tomará para si o encargo dessa atividade, sobretudo a partir da década de 50 [...]”.
Conforme afirmam Neves e Machado (1999, p. 288) sobre o processo de exclusão de amplos setores dos processos políticos,
O povo, isto é, a arraia-miúda dos pobres livres, com alguma ocupação fixa – como pequenos produtores rurais, caixeiros, artífices e soldados -, e a plebe dos miseráveis, vadios e escravos alforriados podiam até ter acesso à primeira instância das eleições, mas deviam, por sua 'falta de instrução cívica', sujeitar-se à opinião esclarecida dos homens de casaca, ou, se necessário, serem contidos pela força.
O sistema político brasileiro no período monárquico era marcado por uma duplicidade que exigia, por um lado, atenção à uma unidade mínima e por outro que abrisse espaço às diferenças intraoligárquicas. Assim nos apresentam a situação, os autores Neves e Machado (1999, p. 276-27):
Contudo, o sistema não poderia funcionar sem um mecanismo que aglutinasse a base ao topo e que desse espaço, ao mesmo tempo, às manifestações de incompatibilidade, ainda presentes, no dia a dia das elites locais. Se o bipartidarismo parlamentar, regido pelo Poder Moderador da Coroa, atendeu a essa última necessidade, quanto ao primeiro aspecto, foi o clientelismo a força propulsora encontrada para fazer a máquina funcionar. [...]. Direcionou a preocupação dominante dos políticos do Império para a concessão de cargos públicos, proteção e outros benefícios, em troca de lealdade política e pessoal. Significou a arte de pactuar, criando procedimentos e práticas que marcaram profundamente a vida política brasileira, e que, com pequenas variações, continuaram a integrar o cotidiano do país até muito recentemente, senão até hoje.
As fraudes, marca dos processos eleitorais, e também elas uma forma de corrupção, dessa feita, eleitoral, pois distorciam a vontade dos eleitores. Uma das formas era a recusa das mesas eleitorais em reconhecer algum votante que fosse vinculado à oposição ou por outro lado aceitar a inscrição de um que não preenchia os requisitos legais. Outro método usado era modificar a votação dos candidatos nas atas da junta eleitoral. O suborno também ocorria com frequência com a realização de festas e distribuição de comida e bebida no dia das eleições e a distribuição de cargos públicos, entre outras modalidades.
Os cargos públicos eram usados para as trocas políticas, sendo os mais procurados os do poder Judiciário, pelas inúmeras possibilidades de trocas, chantagem e extorsão, e os da burocracia estatal, que além dos motivos anteriormente citados ainda incluíam a possibilidade de desvios de recursos públicos mais vultosos. Outros cargos que também chamavam a atenção das redes de clientela eram os das Forças Armadas regulares, da polícia, da Guarda Nacional e de profissões liberais, como
médicos e farmacêuticos.
Em 1876, Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de Ouro Preto, que alguns anos depois viria a integrar um gabinete, lançou um livro que, conforme destacado por Neves e Machado (1999, p. 281), possuía um capítulo com o título de Empregomania, onde afirmava, mais uma vez estabelecendo a relação de práticas de corrupção com doenças, que
Esta moléstia – endêmica no Brasil – é um dos seus grandes males. E vem ele principalmente de que ministros e presidentes de província consideram, como o mais eficaz e seguro meio de fomentar e consolidar a clientela, estabelecer rendas vitalícias ou temporárias em favor dos filhos, genros, parentes ou protegidos de magnatas políticos.
No campo das liberdades civis continuávamos a praticar a escravidão, mesmo apesar de várias promessas “para inglês ver”, feitas em tratados internacionais, fosse ainda por Portugal em 1810, fosse depois já pelo Brasil independente em 1826, que prometeram o fim do tráfico negreiro, fosse lei aprovada em 1831 que decretara que todos os escravos aqui desembarcados a partir de então seriam livres. Mesmo depois com a Lei Eusébio de Queiróz, que acaba com o tráfico a partir de 1850, a escravidão persistirá por mais quase quatro décadas. Tínhamos, também, sérias restrições à presença da mulher e dos brancos pobres nos assuntos públicos, entre outros problemas. Não obstante, um grau bastante apreciável de liberdade de imprensa e de expressão (CARVALHO, 2001; IGLÉSIAS, 1993). Outros autores destacam como o Imperador, especialmente a partir da década de 1870, sofria inúmeras críticas dos mais variados jornais, incluindo a publicação de criativas caricaturas (SCHWARCZ, 1998; NEVES; MACHADO, 1999).
Já no aspecto social éramos um País ainda marcado, como na verdade em todas as esferas da vida, por privilégios e não por políticas públicas que pudessem ser chamadas de cidadãs. O pouco que existia de saúde e educação fornecidas pelo poder estatal era direcionado aos grupos da elite brasileira.
Apesar de sermos uma monarquia constitucional, também no campo legal e no funcionamento da máquina pública continuavam a prosperar práticas que vinham do tempo colonial. Durante muito tempo, inclusive, várias leis do período colonial, como
as Ordenações Filipinas, que ficaram prontas em 1595, mas só foram mandadas observar por completo a partir de sua impressão em 1603, ainda vigoram no Brasil, bem como a percepção de que o poder público existia em função do monarca e das elites dominantes. O Imperador, como destacava a Constituição Brasileira de 1824, era inimputável.
Não obstante, todas as tensões políticas vivenciadas pelo País ao longo do império, as elites dirigentes do País conseguiram criar, aos poucos, uma burocracia – que funcionava em parte, segundo critérios de eficiência e por outra dentro dos critérios de clientelismo e prebendalização – capaz de exercer o seu poder em todo o território nacional. A centralização do poder – em especial no Segundo Reinado (1840 – 1889) – permitiu que esse estado de coisas se mantivesse e se reproduzisse nos vários âmbitos e níveis dos poderes públicos.
Como destaca Schwarcz (2008, p. 236), ao lembrar um elemento problematizador da noção de corrupção para a própria existência da monarquia brasileira:
Corrupção é, portanto, uma noção que surge nesse contexto – mesmo que sob outros nomes–, como a forma de acusação ao sistema, o qual, para existir, precisava estar acima dela. Dentre as especificidades da monarquia está justamente está complicada relação entre as esferas públicas e privadas.
Durante o período imperial o termo corrupção quase nunca foi usado. Existe lógica nessa ausência. A própria ideia de corrupção só se apresenta quando estamos tratando de um Estado e uma sociedade onde existe na base de seu funcionamento a proposição de que os cidadãos são portadores de alguma igualdade de direitos. Questão, que diga-se, por mais inovador e esclarecido que fosse nosso monarca durante o Segundo Reinado (1840 – 1889), não estava presente. Lembremos da continuidade da escravidão e da presença do Poder Moderador, um quarto poder que podia subjugar todos os demais e era exclusivo do Imperador. Além disso, tínhamos um Chefe de Estado que, conforme demonstram os documentos da época, gostava de disseminar a ideia de que não poderia ser julgado, nem mesmo ter suas ações discutidas por outros homens (SCHWARCZ, 2008).
com a perda de apoio de parte de setores social, política e economicamente significativos e as várias dificuldades do País se apresentando publicamente, é que a ideia de corrupção no regime político começa a ser tratada. Não que antes desse período não existisse a percepção de corrupção no Império. O que foi importante nesse momento e que se merece destacar é que a discussão deixa o espaço privado de casas e salões e passa para a esfera pública, para os jornais. O monarca, enfim, perdia a sua áurea de divindade que não se podia ter suas ações analisadas pelos cidadãos comuns. Na impossibilidade de traçarmos um quadro mais geral, basta aqui destacar um episódio que expôs a fraqueza moral do governo imperial e sua incapacidade ou falta de interesse em tomar providências contra funcionários que cometiam atos de corrupção. Falamos do episódio que ficou conhecido como o “roubo das jóias da coroa”. Como aponta Schwarcz (2008, p. 229):
Paiva, o principal suspeito, havia sido afastado formalmente do serviço no paço, mas continuava contando com a proteção do monarca; morava num terreno situado dentro da Quinta da Boa Vista, a poucos metros do local onde foram encontradas as jóias. Além disso, mantivera consigo as chaves do palácio, apesar de não estar mais no desempenho de suas funções oficiais. Por fim, os três implicados no roubo haviam sido soltos imediatamente e com o consentimento prévio do Imperador. Nesse meio tempo, Trigo Loureiro e o tenente Lírio, os dois policiais que atuaram no caso, foram agraciados com ordens honoríficas: o primeiro com a Comenda da Rosa e o segundo com o grau de Cavaleiro. Tais gestos foram prontamente interpretados pela imprensa como uma tentativa de ‘silenciar’ os policiais e de ‘amaciá-los’ com títulos em geral reservados à nobreza, Os termos eram outros, mas se referiam à noção de corrupção política ou favoritismo [...]. A Gazeta de Notícias bradava que ‘no Brasil não havia legalidade […] era uma folia organizada’. Dizia-se também que, assim como as jóias – que foram encontradas no meio de um lamaçal - a justiça do império havia sido ‘enterrada’ e que tudo não passava de um ‘mar de lama’
Esse termo – mar de lama – não tardaria a reaparecer em nossa história política para denunciar a percepção desta intrincada relação, marcada por uma fluidez de suas fronteiras, entre o público e o privado. Tanto Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914 – 1977), jornalista e político, membro da União Democrática Nacional (UDN), em relação à Getúlio Dornelles Vargas (1882 – 1954), quanto grupos militares e políticos, em relação a João Belchior Marques Goulart (1919 – 1976), o Jango, irão retomar o uso da afirmação para caracterizar seus respectivos governos. O estatuto da discussão da corrupção no Império tem diferença fundamental em relação à República. Como destaca Schwarcz (2008, p. 235): “[...] atacar o
Imperador era sinônimo de atacar o Estado, uma vez que ele o personificava”. Isso fazia toda a diferença para o Império e para o Imperador.
Uma única mudança substancial do ponto de vista da dos direitos civis no período imperial é o fim da escravidão no ano de 1888. Mudança de estatuto jurídico, no entanto, que não se refletiu nas relações políticas e sociais de modo determinante e não altera as práticas mais conhecidas que compõem esse leque de ações que denominamos corrupção. Importa destacar, que os negros, mesmo livres, terão pouco ou nenhum acesso aos poderes estatais. Sua influência na política, nesse momento final do Império e durante boa parte da República, será, da forma como eles eram tratados, marginal.
Aproximando-se o fim do século XIX, o Império e o Imperador, sem apoio político, econômico, social e militar expressivos, irão ser substituídos pela República e o seu chefe de Estado e de governo, o presidente. Aqui, pelo próprio significado do termo, res publica, e da concepção que lhe subjaz, podemos, efetivamente, começar a tratar da história da corrupção no Brasil.