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4.3.1. características da política social nos anos 1990 e 2000

O gasto social dos últimos governos brasileiros tem se configurado como resultado das demandas macroeconômicas requisitadas pela inserção do neoliberalismo no Brasil a partir dos anos 1990. Embora com uma fisionomia mais modernizada, o modelo liberal periférico (MLP) guarda em comum com o liberalismo clássico alguns valores centrais, em especial a ofensiva dirigida para a “destituição do social”, ou seja, para destruição dos direitos sociais conquistados pelas lutas dos trabalhadores, dentre eles o mais elementar: o direito ao emprego (DRUCK; FILGUEIRAS, 2007).

Apesar de, em meados dos anos 1980 e entrada dos 1990, os países da América Latina e, especificamente, o Brasil, ainda não gozassem de plenos direitos sociais, não contando, portanto, com políticas sociais universais e um sistema de Seguridade Social, as diretrizes concernentes ao Consenso de Washington foram aqui aplicadas, respeitadas e defendidas. Nesse contexto, os avanços expressos no campo das políticas sociais a partir da Constituição Federal de 1988, quando as mesmas institucionalizaram-se como nova forma de organização das iniciativas dos Poderes públicos e da sociedade na garantia aos direitos referentes à Seguridade Social (MOTA, 2000) e passaram a ser reconhecidas como um “direito de todos e dever do estado” com gestão descentralizada e participativa e com fontes definidas e diversificadas de recursos (CF, art. 194), retroagiram, tornando-se letra morta.

Os efeitos da reforma do Estado brasileiro, na década de 1990 – “apropriação indébita e fortemente ideológica da idéia reformista”, conforme Behring e Boschetti (2006) – derruiu qualquer possibilidade de garantia dos direitos de cidadania. O desenho da Seguridade Social entre nós, embora guardando certa semelhança de conteúdo com modelo de Estado Social dos países centrais, expressa as características peculiares do nosso mercado de trabalho marcado pelo predomínio de relações de trabalho informais, impetrando processos de socialização dos benefícios sociais. De acordo com Mota (2000), as políticas sociais no Brasil

não transitaram para o nível de contrato social, tal como nos países desenvolvidos, que permitisse a materialização, nos princípios e meios, de amplos direitos fundados na cidadania.

As políticas de saúde, assistência e previdência social – englobadas no conceito de Seguridade Social da Constituição brasileira 1998 – passam a ser regidas por novos princípios e diretrizes, associando ao mesmo tempo, universalidade e seletividade, centralização e descentralização, distributividade e redistributividade, gratuidade e contributividade. De natureza híbrida e sistematizada para ampliar a garantia e o alcance dos direitos de cidadania - mesmo que de forma limitada e mantendo certas práticas atrasadas - a Seguridade Social viu solapado “seu projeto” e os anseios de seus protagonistas e defensores.

Isso porque, estas reformas foram implementadas num contexto de ofensiva da hegemonia burguesa, significando o “desmonte e a destruição” dos direitos sociais outrora conquistados. Na arguta análise de Mota (2000), consolidou-se no país uma cultura da crise, no sentido da disputa ideológica pela hegemonia. Propagada pelas classes dominantes, seus componentes são expressos pelo privatismo, pela “criação” do cidadão consumidor, pela “negação do mundo do trabalho”, pela recolocação do Estado, do mercado e seus bens e serviços. O ajuste fiscal procedido nos anos 1990 pelo governo FHC e levado a cabo no governo Lula trouxe implicações político-ideológicas que demarcam as atuais tendências de retorno da filantropia, da solidariedade e da focalização sob a égide do ideário neoliberal, acirrando a tensão entre o econômico e o social. Sobre essa lógica perversa Ivo (2001 apud DRUCK; FILGUEIRAS, 2007) assim se expressa:

No âmbito do tratamento da questão ‘social’, retira-se o caráter universalista dos direitos, especialmente aqueles securitários, para uma política que se orienta gradativamente para uma avaliação dos atributos pessoais (os mais aptos, os realmente pobres, os mais pobres entre os pobres) e morais (aqueles que devem receber a assistência). Por outro lado, o caráter fragmentado da incorporação de diferentes segmentos das classes trabalhadoras ao sistema (baseado num sistema de direitos, restrito à camada assalariada) gerou uma reconversão perversa de benefícios-obrigações em privilégios. Hoje, o que é dever de proteção do Estado (para todos) reconverte-se, supostamente e de forma perversa, em indivíduos- perversos-imorais ao sistema, responsáveis pela miséria dos outros

[...] Assim tecnifica-se a questão social, que passa a se constituir em programas subordinados aos gastos públicos e sociais, ou seja, da solução da crise fiscal, dependente, portanto, dos fluxos de capital para pagamento da dívida, num quadro de redução dos gastos sociais (se comparados ao patamar das décadas anteriores) ( p. 26).

Nesse contexto, procede-se a crescente substituição dos direitos sociais conquistados por políticas focalizadas de combate à pobreza, as quais estão estreitamente ligadas às reformas liberais e cuja função reside na compensação parcial e muito limitada dos estragos sócio-econômicos promovidos pelo MLP. A política social, do início dos anos 1990 até aqui, tem se apoiado no conceito de pobreza restrita, que reduz o número real de pobres, suas necessidades e o montante de recursos públicos a serem disponibilizados; uma política social de natureza mercantil que transforma o cidadão portador de direitos em consumidor tutelado através da transferência direta de renda; que enclausura o conflito distributivo na base da pirâmide social e é compatível com o empobrecimento e a redução das ditas classes médias e o processo de polarização das desigualdades na distribuição de renda; ainda, uma política social que desloca o conflito capital x trabalho, inerente às sociedades capitalistas, para o âmbito interno das classes trabalhadoras, transformando-o numa disputa distributiva que opõe os seus vários estratos (DRUCK; FILGUEIRAS, 2007, p. 26-27).

É a partir dessa lógica que as políticas sociais foram conduzidas pelos governos FHC e Lula; de fato, destinadas aos mais pobres e miseráveis – conforme estabelecimento de uma linha de pobreza minimalista –, empurrando aos demais a contratação de serviços no mercado (saúde, educação e previdência, principalmente). A classe média e até parte classe média baixa, vale ressaltar, em função da precariedade dos serviços prestados pelo Estado, há tempos também já recorrem ao mercado para o suprimento de suas necessidades (aquelas de praxe, principalmente, escolas e planos de saúde privados) (DRUCK; FILGUEIRAS, 2007).

Figura entre as características da política social, a criação de inúmeros programas de complementação de renda (tendo como “carro chefe” o programa Bolsa Família), estes iniciados de forma tímida durante os governos de FHC, foram ampliados e aprofundados durante o governo Lula sob os aplausos dos organismos

multilaterais. Dessa forma, se por um lado, as políticas sociais focalizadas levam a uma maior fragmentação dos trabalhadores, por outro, sua articulação com o processo de flexibilização/precarização do trabalho têm resultado na retirada de direitos sociais e trabalhistas, em particular saúde, educação e previdência social.

Benzer Belgeler