O tratamento que o dicionário Larousse (2001, p. 491) dá ao termo gramática a apresenta como: “1. Conjunto das estruturas lingüísticas próprias de uma língua. 2. Conjunto das regras que presidem a correção, a norma da língua escrita ou falada. 3. Livro que trata dessas regras.”
É necessário analisar esses três pontos que, de certa forma, são divergentes. O primeiro ponto traz o enfoque nas estruturas linguísticas próprias de uma língua. Nesse caso, não há, necessariamente, uma relação com padronização, e isso dá a entender que todas as estruturas que existem são aceitas como pertencentes à gramática. O segundo ponto aborda as
regras que são responsáveis pela correção tanto da modalidade escrita da língua como da modalidade falada. Entende-se, daí, que se trata de uma padronização existente para efetivar tal correção. O terceiro enfoque resume- se ao livro que reúne essas regras.
Para Trask (2006, p. 126), a gramática pode ser concebida como “as regras para construir palavras e sentenças numa língua particular, ou o ramo da lingüística que estuda esse tema”.
Entre as diversas linhas teóricas que abordam o estudo da gramática, uma em especial merece destaque nessa discussão porque dialoga diretamente com a perspectiva de ensino que aqui se defende; trata-se da Gramática Funcional. Segundo Neves (1997, p. 15), pode-se entender essa linha como “[...] teoria da organização gramatical das línguas naturais que procura integrar-se em uma teoria global da interação social”.
A autora considera, nesse âmbito, a competência de comunicação do falante e as transformações inerentes a sua construção. Assim, a língua é percebida como objeto de reflexão, sendo o objetivo do estudo linguístico a compreensão de sua estrutura e seu funcionamento.
Isto implica, de acordo com a concepção funcionalista de gramática, que o professor pode respeitar as particularidades constitutivas da linguagem de seus alunos e a partir delas, articular o ensino de gramática voltado para análise das variantes nela contidas, compreendendo as situações de uso e refletindo acerca das diversidades encontradas.
A esse respeito, Silva (2007, p. 28) afirma que
[...] o ensino de gramática, uma vez apoderando-se de tais pressupostos [funcionalistas], pode investir na capacidade de análise dos alunos, estimulando um estudo da língua que desenvolva seu domínio enquanto usuário, e apreenda o conhecimento sobre ela, enquanto estudioso [...].
Travaglia (2001) elenca três concepções distintas de gramática: a tradicional ou normativa; a descritiva; e a internalizada. Além disso, menciona a gramática implícita; a explícita; a reflexiva; a contrastiva ou transferencial; a
geral; a universal; a histórica e a comparada.
A teoria da Gramática Tradicional reafirma o estudo descritivo da língua, com vistas à padronização de normas de fala e de escrita, tidas como a única forma correta de expressão. Apesar de várias contribuições inovadoras virem ocorrendo no âmbito dos estudos linguísticos, esse modelo de gramática continua fundamentando e se perpetuando na reprodução didática dos manuais de ensino e livros didáticos em geral.
A concepção de gramática tradicional, segundo Travaglia (2001, p. 24),
[...] só trata da variedade de língua que se considerou como norma culta, fazendo uma descrição dessa variedade e considerando erro tudo o que não está de acordo com o que é usado nessa variedade da língua. Tudo o que foge a esse padrão “é errado” (agramatical, ou melhor dizendo, não-gramatical) e o que atende a esses padrões é “certo” (gramatical).
Dessa forma, observa-se que na gramática tradicional não há preocupação com o contexto de uso do falante. As normas eleitas como corretas são praticamente únicas, desconsiderando as variações impostas pela diversidade das situações de uso. Há uma preocupação rigorosa para se utilizar a norma culta com vistas a expressar-se adequadamente.
O autor utiliza também o conceito de gramática normativa como aquela que estuda apenas os fatos da norma culta que se tornou oficial. Valoriza a língua escrita e a equipara com a língua oral. Considera apenas uma variedade da língua como válida e verdadeira, a culta; estabelece, para isso, normas de bem falar e escrever.
A utilização dos padrões da norma culta, de acordo com essa concepção, estabelece alguns parâmetros de bom uso da língua. Segundo Travaglia (op. cit., p. 26), são eles:
a) estética: as formas e usos são incluídos ou excluídos da norma culta por critérios tais como elegância, colorido, beleza, fineza [...] b) elitista ou aristocrática: aqui o critério é a contraposição do uso da
língua que é feito pela classe de prestígio ao uso das classes ditas populares.
c) política: nesse caso, os critérios são basicamente o purismo4 e a vernaculidade5.
d) comunicacional: nesse caso, os critérios se referem ao efeito comunicacional, à facilidade de compreensão.
e) histórica: com a linguística, o critério para excluir formas e usos da norma culta é a tradição.
Como se pode perceber, trata-se de uma abordagem prescritivista, que se preocupa em normatizar o uso e definir previamente o que pode e o que não pode ser utilizado pelo falante.
Possenti (2009) apresenta a gramática normativa como o conjunto de regras que devem ser seguidas e relata que, para esse tipo de gramática, a língua é vista como as formas de expressão observadas e produzidas por pessoas cultas.
Já Neves (2004, p. 29) comenta a gramática normativa recorrendo à sua origem:
Toda a gramática tradicional ocidental está afeiçoada à trajetória que culminou na sua instituição. Vista na sua vertente grega, a instituição dessa gramática exibe características centrais que ainda hoje se configuram em obras gramaticais disponíveis.
Na visão da autora, a gramática normativa está arraigada a padrões que retrocedem aos tempos remotos em que os gregos realizavam os estudos fundantes da tradição cultural no ocidente. Ainda segundo a autora, esses preceitos se mantêm no modo de abordar “a gramática como o conjunto de regras que o usuário deve aprender para falar e escrever corretamente a língua [...]” (op. cit, p. 28).
A segunda concepção enfatizada por Travaglia (2001, p. 27) é a da
4 A crença de que as palavras e outros elementos linguísticos, de origem estrangeira são uma forma de contaminação que mancha a pureza da língua. (TRASK, 2006, p. 243)
gramática descritiva, assim apresentada: “um conjunto de regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de determinada teoria e método.” Nessa perspectiva, a gramática analisa e descreve os fatos estruturais de uma determinada língua. Além disso, essa concepção de gramática também elenca fundamentos para compreender o que é gramatical e o que é saber gramática. Travaglia (2001, p. 27) explica:
[...] gramatical será então tudo o que atende às regras do funcionamento da língua de acordo com determinada variedade lingüística. [...] saber gramática significa, no caso, ser capaz de distinguir, nas expressões de uma língua, as categorias, as funções e as relações que entram em sua construção descrevendo com elas sua estrutura interna e avaliando sua gramaticalidade.
Percebe-se que essa concepção de gramática descreve os fatos da língua, embora sem preocupar-se em analisar como esses fatos se constituem, se modificam com a continuidade, e sem considerar os intervenientes sociais, históricos e culturais que lhe são pertinentes.
Para Christiano (2006), a finalidade desse tipo de gramática consiste em descrever e explicar as línguas tal como elas são usadas pelos falantes das mais variadas camadas sociais. A autora ressalta que essa modalidade de gramática não é bem aceita pela escola.
Também, a respeito da gramática descritiva, Perini (2006, p. 32) afirma:
Uma gramática enquanto descrição de uma língua é na verdade um conjunto de hipóteses, mais ou menos bem fundamentadas. O mínimo que se pode fazer é conhecer a argumentação que está por trás da descrição proposta; sem isso não se está estudando gramática.
A gramática descritiva possibilita o estudo da língua com vistas a explicitar a maneira como esta aparece no contexto de uso. Além disso, reconhece os valores étnicos e históricos envolvidos na língua utilizada pelos indivíduos que pertencem a uma dada comunidade.
línguas tais como elas são faladas e para essa abordagem nenhuma expressão é vista como erro.
Já a gramática internalizada, abordada por Travaglia (2001), consiste em um conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade, considerando o necessário para efetivar a situação da interação comunicativa, na qual o falante está inserido. Assim, evidencia-se a gramática como o conjunto de regras que o falante apreendeu e utiliza ao falar. A gramática internalizada, portanto, ativa-se na situação comunicacional, percebendo a língua como dinâmica, com a compreensão de que cada contexto exige uma linguagem própria e específica que efetive a comunicação. O autor afirma que, nessa concepção de gramática, não há o erro linguístico, mas pode-se pensar em inadequação da variedade linguística utilizada em uma determinada situação de interação comunicativa, decorrente do não atendimento às normas sociais do uso da língua.
A gramática internalizada abrange o conhecimento do contexto social, histórico e cultural do falante, em que se pode mencionar, por exemplo, os aspectos regionais e a variação6. Travaglia (op. cit.) esclarece que o conjunto de regras que os falantes dominam possibilita-lhes falar convencionalmente.
Na visão de Martins (2006, p. 122),
a gramática internalizada, [...] nomeada por Noam Chomsky ‘gramática universal’, parte da hipótese de que todo falante conhece a estrutura organizacional de uma determinada língua [mesmo] sem nunca ter ido à escola.
Considerando a competência linguística internalizada do falante, Travaglia (2001, p. 33) define como gramática implícita a capacidade de utilizar os diversos elementos constitutivos da língua “[...] (incluindo os elementos – unidades, regras e princípios – de todos os níveis de constituição e funcionamento da língua: fonológico, morfológico, sintático, semântico, pragmático e textual-discursivo)”. Para o autor, essa gramática seria implícita
6 A variação consiste na existência de diferenças perspectivas no modo como uma língua é usada numa comunidade de fala. (TRASK, 2006, p. 303).
porque o falante não tem consciência dela, apesar de ela estar em sua ‘mente’ e permitir que ele utilize a língua automaticamente, quando dela necessita para qualquer fim, em situações específicas de interação comunicativa.
Cotidianamente, nos mais diversos atos interacionais, faz-se uso da linguagem e, consequentemente, da gramática, desde as comunicações de cordialidade mais automáticas até as discussões mais complexas que visam a atender as necessidades comunicacionais presentes na vida de qualquer falante.
A gramática explícita, também chamada de teórica, de acordo com Travaglia (2001, p. 33), “[...] é representada por todos os estudos linguísticos que buscam, por meio de uma atividade linguística7 sobre a língua, explicitar sua estrutura, constituição e funcionamento”. Em resumo, esse tipo de gramática está evidenciada na pesquisa que busca compreender e explicar os fatos linguísticos. Ela instituiu-se pela necessidade de analisar os fatos da língua com vistas a compreender sua construção histórica, seu funcionamento e seu processo de evolução.
Travaglia (op. cit., p. 33), ainda, apresenta o conceito de gramática reflexiva, como sendo:
[...] a gramática em explicitação. Esse conceito se refere mais ao processo do que aos resultados: representa as atividades de observação e reflexão sobre a língua que buscam detectar, levantar suas unidades, regras e princípios, ou seja, a constituição e funcionamento da língua.
É importante destacar que, como processo, a gramática reflexiva discute os fatos da língua presentes na gramática implícita do falante.
De acordo com Travaglia (op. cit.), há, ainda, a gramática contrastiva ou transferencial, que faz um estudo descritivo de duas línguas paralelamente,
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As atividades metalinguísticas buscam nomear os componentes da língua com o intuito de explicitar sua estrutura, elencando instrumentos do próprio código linguístico para se falar sobre a língua.
evidenciando suas semelhanças e diferenças. E, também, a gramática geral, que faz um estudo comparativo com o maior número possível de línguas, com vistas a enumerar e analisar semelhanças entre elas para, então, definir as condições nas quais se constituíram.
A gramática universal perpassa esse mesmo conceito por estudar os universais linguísticos. Isso requer investigar as características linguísticas comuns a todas as línguas no contexto mundial.
Como o próprio nome esclarece, a gramática histórica, conforme entende Travaglia (2001), se preocupa com o estudo da origem e da evolução de uma língua ao longo do tempo, com o intuito de compreender e justificar suas transformações. Favorece, então, a análise da evolução da língua, podendo acompanhar as fases da sua origem até os dias atuais, se permanece como língua em uso.
Além desses tipos já mencionados, de acordo com Travaglia (op. cit., p. 37), há a gramática comparada, cujo objetivo é estudar “[...] uma sequência de fases evolutivas de várias línguas, normalmente buscando encontrar pontos comuns.” Para o autor (op. cit., p. 38), os estudos comparativos retrocedem em muito na cronologia histórica, mas alcançaram seu apogeu no período que compreende o final do século XIX e início do século XX, tendo sido “os responsáveis pelo estabelecimento das famílias de línguas, descobrindo parentescos entre línguas aparentemente muito distanciadas como o Latim e o Sânscrito, por exemplo.”
Essa contribuição dada pelos estudos comparativos evidencia sua importância para a descrição e sistematização teórica acerca dos diversos tipos de línguas, com vistas à identificação não só daquilo que elas compartilham, mas também das particularidades a elas inerentes.
As concepções de gramática e os diversos tipos de abordagens gramaticais aqui sumarizados revelam o aprofundamento das pesquisas sobre gramática. Novas contribuições para os estudos nessa área do conhecimento devem levar em consideração essas abordagens. A partir delas, pode-se produzir novas reflexões que tenham como objeto de
investigação tanto aspectos conceptuais da língua como o ensino preocupado com a análise linguística.